Pesquisa · Mapa mental

Império Parta

O Império Parta ou Parto (247 a.C.–224 d.C.), também chamado Império Arsácida, foi uma das principais potências político-culturais iranianas da Pérsia Antiga. O termo 'arsácida' vem de Ársaces I que, como líder da tribo dos parnos (Parni), fundou a dinastia que levou seu nome em meados do século III a.C., após conquistar a Pártia, região do nordeste do Irã e, na altura, uma satrapia (província) que se revoltou contra o Império Selêucida. Mitrídates I (r. 171–138 a.C.) expandiu o império após capturar a Média e a Mesopotâmia do Império Selêucida. Em seu ápice, o Império Parta se estendeu das margens setentrionais do Eufrates, no atual sudeste da Turquia, ao leste do Irã, e dominava a Rota da Seda, célebre rota comercial que ligava o Império Romano e a bacia do Mediterrâneo ao Império Hã, da China, e se tornou importante entreposto comercial.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 12/07/2026
01

História

Origens e fundação

Antes de Ársaces I fundar a dinastia arsácida, ele foi líder dos parnos, uma antiga tribo de povos iranianos oriunda da Ásia Central, uma das muitos tribos nômades na confederação dos daas. Talvez falavam um idioma iraniano oriental, em contraste com a língua iraniana do noroeste falada na época na Pártia. Era uma província a nordeste da Pérsia, primeiro sob o domínio aquemênida e depois selêucida. Após conquistar a região, os parnos adotaram o parta como idioma oficial na corte, falando-o junto do persa médio, o aramaico, o grego, o babilônio, o sogdiano e outros idiomas dos territórios tomados por eles. Ainda é desconhecida a razão pela qual a corte arsácida escolheu retroativamente 247 a.C. como o primeiro ano do período de seu reinado. O arqueólogo britânico A.D.H. Bivar concluiu que este foi o ano em que os selêucidas perderam o controle da Pártia para Andrágoras, sátrapa indicado pelos próprios selêucidas e que teria se revoltado contra eles. Assim, Ársaces I antecipou o ano de início de seu reino ao momento em que o controle selêucida sobre a Pártia foi interrompido. Para Vesta Sarkhosh Curtis, do Museu Britânico, este seria simplesmente o ano em que Ársaces teria recebido a liderança da tribo dos parnos. Ao historiador iraniano Homa Katouzian e Gene Ralph Garthwaite, este seria o ano em que Ársaces teria conquistado a Pártia e expulsado as autoridades selêucidas, embora Curtis e Maria Brosius, da Universidade de Newcastle, afirmem que Andrágoras não tenha sido deposto pelos arsácidas até 238 a.C..

Expansão e consolidação

Registros narram que Fraates I expandiu o domínio parta além dos Portões de Alexandre, ocupando a região de Apameia Ragiana; a localização exata dos dois locais é desconhecida hoje em dia. A maior expansão de poder e território parta ocorreu no reinado de seu irmão e sucessor, Mitrídates I (r. 171–138 a.C.), que Katouzian comparou a Ciro, o Grande (m. 530 a.C.), fundador do Império Aquemênida. As relações entre a Pártia e Báctria se deterioraram após a morte de Diódoto II, quando as tropas de Mitrídates conquistaram duas eparquias greco-báctrias, e pioraram sob o reinado de Eucrátides I (r. 170–145 a.C.). Agora com vistas ao Império Selêucida, Mitrídates invadiu a Média e tomou Ecbátana em 148/147 a.C.; a região foi perturbada por uma rebelião liderada por Timarco, e que foi debelada com sucesso pelos governantes selêucidas. A esta vitória se seguiu a conquista parta da Babilônia na Mesopotâmia, onde Mitrídates cunhou moedas em Selêucia em 141 a.C., e fez cerimônia oficial de investidura. Enquanto se deslocou à Hircânia, suas tropas subjugaram os reinos de Elimaida e Caracena e ocuparam Susa. A esta altura, a autoridade parta se estendia até o rio Indo.

Roma e Armênia

O Império Cuchano iuechi no norte da Índia garantiu a segurança da fronteira oriental da Pártia. Assim, a partir de meados do século I a.C., a corte arsácida passou a ter como foco a segurança das fronteiras ocidentais, especialmente contra a ameaça de Roma. Um ano após a conquista da Armênia por Mitrídates II, Lúcio Cornélio Sula, procônsul romano da Cilícia, reuniu-se com o diplomata parta Orobazo às margens do rio Eufrates. Ambos concordaram que o rio serviria como fronteira entre a Pártia e Roma, embora a historiadora americana Rose Mary Sheldon afirme que Sula detivesse autoridade apenas para comunicar estes termos a Roma. Apesar deste acordo, em 93 ou 92 a.C. a Pártia se envolveu numa guerra na Síria contra a líder tribal Laódice e seu aliado selêucida, Antíoco X (r. 95–92 a.C.), durante a qual matou o segundo. Quando um dos últimos monarcas selêucidas, Demétrio III tentou sitiar Bereia (atual Alepo), a Pártia enviou auxílio militar aos locais, derrotando Demétrio. Após Mitrídates II, Gotarzes reinou na Babilônia, enquanto Orodes I (r. 90–80 a.C.) reinou sozinho sobre a Pártia. Este sistema de monarquia dividida enfraqueceu a Pártia e permitiu que Tigranes II anexasse o território parta na Mesopotâmia Ocidental. O território só retornaria ao domínio parta sob Sanatruces I (r. 78–71 a.C.). Com a deflagração da Terceira Guerra Mitridática, Mitrídates VI do Ponto (r. 119–63 a.C.), aliado de Tigranes II, solicitou auxílio dos partas contra os romanos, porém Sanatruces recusou a ajuda. Quando o comandante romano Lúcio Licínio Lúculo marchou contra a capital armênia, Tigranocerta, em 69 a.C., Mitrídates VI e Tigranes II foram obrigados a pedir ajuda a Fraates III (r. 71–58 a.C.). Fraates, no entanto, não enviou tropas, e após a queda de Tigranocerta reafirmou, juntamente com Lúcio Licínio Lúculo, o rio Eufrates como fronteira entre Pártia e Roma.

Paz com Roma, intrigas palacianas e contatos com generais chineses

Após derrotar Marco Antônio na Batalha de Ácio, em 31 a.C., Otaviano consolidou seu poder político e em 27 a.C. recebeu do senado o título de Augusto, tornando-se o primeiro imperador. Por volta desta época, Tiridates II derrubou por um breve período Fraates IV, que conseguiu restabelecer-se no poder com o auxílio de nômades citas. Tiridates fugiu aos romanos, levando consigo um dos filhos de Fraates. Ao longo das negociações realizadas em 20 a.C. Fraates conseguiu a libertação de seu filho; em troca, os romanos receberam os estandartes legionários que foram capturados em Carras, em 53 a.C., tal como quaisquer prisioneiros de guerra que ainda estivessem vivos. Os partas viam a troca como um preço baixo a ser pago para terem de volta seu príncipe e Augusto saudou o retorno dos estandartes como uma vitória política sobre a Pártia; a propaganda foi celebrada com a cunhagem de diversas moedas, construção de um novo templo no recém-fundado Fórum de Augusto para abrigar os estandartes, e até obras artísticas, como a cena estampada no peitoral de sua estátua na Prima Porta.

Sequência das hostilidades romanas e declínio parta

Após Farasmanes I ordenar a seu filho Radamisto (r. 51–55) que invadisse a Armênia e depusesse Mitrídates, Vologases I (r. 51–77) teve a ideia de invadir a região e colocar seu irmão, Tiridates I, no trono. Radamisto foi deposto, e, a partir do reinado de Tiridates, a Pártia passaria a manter um controle firme sobre a Armênia - com breves interrupções - por intermédio da dinastia armênia. Mesmo após o fim do Império Parta, a linhagem arsácida continuou pelos reis armênios. Quando Vardanes II se rebelou contra seu pai Vologases em 55, o último retirou suas tropas da Armênia. Roma então tentou rapidamente preencher o vácuo político; na Guerra romano-parta de 58-63, o comandante Cneu Domício Corbulão teve alguns sucessos militares contra os partas e instaurou Tigranes VI como rei cliente. Seu sucessor, Lúcio Cesênio Peto foi derrotado fragorosamente por tropas partas e teve de fugir da Armênia. Após a assinatura de um tratado de paz, Tiridates viajou a Neápolis (atual Nápoles) e Roma em 63; em ambas as localidades Nero (r. 54–68) o coroou, de forma cerimonial, rei da Armênia, colocando sobre sua cabeça a diadema real.

Fontes nativas e externas

Fontes escritas locais e estrangeiras, bem como artefatos não-textuais encontrados na região, foram usados para reconstruir a história parta. Embora a corte parta mantivesse registros, os partas não tinham um estudo formal da História; a primeira história universal persa, Livro de Senhores, só foi compilada no fim do reinado do último xá do Império Sassânida, Isdigerdes III (r. 632–651). Fontes primárias nativas sobre a história parta continuam mais raras do que as fontes primárias de qualquer outro período da história persa. A maior parte dos registros escritos contemporâneos sobre a Pártia contém inscrições em grego, parta e aramaico. A língua parta utilizava um sistema de escrita próprio, derivado da escrita de chancelaria do aramaico imperial, utilizado pelos aquemênidas, e que depois deu origem ao sistema de escrita pálavi.

02

Governo e administração

Autoridade central e reis semiautônomos

Comparado com o antigo Império Aquemênida, o governo parta era marcadamente descentralizado. Uma fonte local revela que os territórios supervisionados pelo governo central estavam organizados de maneira análoga ao Império Selêucida; ambos utilizavam um sistema de divisão tríplice na hierarquia das províncias: como marzobã, sátrapa (xšatrap) e dispates (dizpat) partas, equivalentes às satrapias, eparquias e hiparquias selêucidas. O Império Parta também dominava diversos reinos semiautônomos, incluindo a Ibéria, Armênia, Edessa, Atropatene, Gordiena, Adiabena, Hatra, Mesena, Elimaida e Pérsia. Os soberanos destas nações governavam seus territórios e cunhavam moedas de maneira independente da cunhagem real, produzida em casas da moeda imperiais. Se assemelhava ao que ocorria no período aquemênida com certas cidades-Estado, e até mesmo com satrapias distantes, que eram semi-independentes porém "reconheciam a supremacia do rei, pagavam tributo e forneciam apoio militar", segundo Brosius. As satrapias do período parta, contudo, abrangiam territórios menores, e talvez tivessem menos prestígio e influência que as antecessoras aquemênidas. No período selêucida, a tendência do governo de dinastias locais semiautônomas, por vezes promovendo até rebeliões, tornou-se lugar comum, fato que teve reflexos no estilo de governo do fim do período parta.

Nobreza

O "rei dos reis" comandava o governo parta. Mantinha relações polígamas, e costumava ser sucedido por seu primogênito. Assim como os Ptolemeus do Egito, também existem registros de reis arsácidas que se casaram com suas sobrinhas e até mesmo com suas meia-irmãs; a rainha Musa se casou com seu próprio filho, embora este tenha sido um caso extremo e isolado. Brosius apresenta um trecho de uma carta escrita em grego pelo rei Artabano II, em 21 d.C., que se dirige ao governador (intitulado "arconte") e aos cidadãos de Susa. Cargos governamentais específicos, como "amigo preferido", "guarda-costas" e "tesoureiro", são mencionados, e o documento também prova que embora existissem jurisdições locais e debates para indicações a altos cargos, o rei podia intervir a favor de um determinado indivíduo, revisar um caso e alterar a legislação local se ele assim considerasse apropriado.

Forças armadas

O Império Parta não tinha um exército permanente, mas conseguia recrutar rapidamente tropas em ocasiões de crises locais. Havia uma guarda armada permanente associada à pessoa do rei, que abrangia nobres, servos e mercenários, porém este destacamento real era reduzido. Guarnições eram mantidas permanentemente nos fortes fronteiriços; inscrições partas revelam alguns dos títulos militares concedidos aos comandantes destas localidades. As tropas militares também podiam ser usadas para gestos diplomáticos; quando enviados chineses visitaram a Pártia no fim do século II a.C., por exemplo, o Registros do Historiador afirma que 20 mil cavaleiros teriam sido enviados às fronteiras orientais do império para escoltar a embaixada chinesa, embora esta cifra talvez seja exagerada.

Moeda

Geralmente feitas de prata, as moedas de dracma grego, incluindo o tetradracma, eram a moeda padrão utilizada por todo o Império Parta. Os arsácidas mantinham casas reais da moeda nas cidades de Hecatômpilo, Selêucia do Tigre e Ecbátana. Provavelmente também operavam uma casa da moeda em Mitridacerta (Nisa). Desde o início do império até o seu colapso os dracmas produzidos por todo o período parta raramente pesavam menos de 3,5 ou mais de 4,2 quilos. Os primeiros tetradracmas partas, que pesavam inicialmente cerca de 16 gramas, com algumas variações, surgem após a conquista da Mesopotâmia por Mitrídates I, e foram cunhados exclusivamente em Selêucia.

03

Sociedade e cultura

Helenismo e o renascimento iraniano

Embora a cultura grega dos selêucidas tivesse sido adotada pelos povos do Oriente Médio durante o Período Helenístico, a era parta vivenciou um renascimento cultural iraniano na religião, nas artes e até mesmo nas vestimentas. Consciente das raízes helenísticas e persas de seu reinado, os monarcas arsácidas se intitulavam com o "rei dos reis" tradicional persa, ao mesmo tempo em que afirmavam ser filelenos ("amigos dos gregos"). O termo "fileleno" foi inscrito nas moedas partas até o reinado de Artabano II. A interrupção do uso da frase significou o renascimento da cultura iraniana na Pártia. Vologases I foi o primeiro xá arsácida a utilizar a escrita e a língua parta nas moedas que cunhou, juntamente com um grego já praticamente ilegível. O uso de legendas no alfabeto grego nas moedas partas continuou a ser usado, no entanto, até o colapso do império.

Religião

O Império Parta, sendo cultural e politicamente heterogêneo, tinha diversos sistemas e crenças religiosas, dos quais os mais difundidos eram aqueles dedicados a cultos gregos e iranianos. Com a exceção duma minoria de judeus e cristãos, a maior parte dos partas era politeísta. Divindades gregas e iranianas frequentemente eram por vezes misturadas ou enxergadas numa só. Por exemplo, Zeus era igualado com Aúra-Masda, Hades com Angra Mainiu (Arimã), Afrodite e Hera com Anaíta, Apolo com Mitra, e Hermes com Samas. Além dos deuses e deusas principais, cada grupo étnico e cidade tinha sua própria divindade particular. Tal como os governantes selêucidas, a arte parta indica que os reis arsácidas se viam como deuses; este culto ao monarca talvez tenha sido o mais difundido. A extensão com que os arsácidas patrocinavam o zoroastrianismo é debatida pelos acadêmicos modernos. Os seguidores de Zoroastro consideravam inaceitáveis os sacrifícios sangrentos de alguns dos cultos iranianos do período parta. Existem, no entanto, evidências de que Vologases I encorajava a presença de sacerdotes zoroastristas (magos) em sua corte, e que patrocinou a compilação de textos sagrados zoroastristas que posteriormente formaram o Avestá. A corte sassânida posteriormente adotaria o zoroastrianismo como religião oficial do império.

Arte e arquitetura

A arte parta pode ser dividida em três fases geo-históricas: a arte da Pártia em si, a arte do planalto Iraniano, e a arte da Mesopotâmia parta. A primeira arte genuinamente parta, encontrada em Mitridacerta, combinava elementos da arte grega e iraniana, seguindo as tradições aquemênida e selêucida. Numa segunda fase, a arte parta encontrou inspiração na arte aquemênida, como exemplifica o relevo da coroação de Mitrídates II no monte Beistum. A terceira fase ocorreu gradualmente após a conquista parta da Mesopotâmia. Entre os motivos comuns durante o período parta estão cenas de expedições de caça reais, e a investidura de reis arsácidas. Estes motivos também eram utilizados para retratar governantes locais. Obras artísticas tomavam a forma de relevos em rocha, afrescos e até mesmo grafite. Padrões geométricos e de plantas estilizadas também eram utilizados em paredes de gesso e estuque. O motivo comum do período sassânida que mostrava dois cavaleiros empunhando lanças, em combate, surgiu pela primeira vez nos relevos partas do monte Beistum.

Roupas e vestuário

A típica vestimenta dos cavaleiros partas é exemplificada pela célebre estátua de bronze de um nobre parta encontrada em Xami, Elimaida. Com 1,9 metro de altura, a figura está vestindo um gibão em forma de V e uma túnica em forma de V, frouxos porém seguros por um cinto, com uma calça de muitas dobras presa por ligas, e uma diadema ou faixa sobre seu cabelo cuidadosamente penteado e cortado. O mesmo traje pode ser visto com frequência nas imagens de relevo das moedas partas de meados do século I a.C.. Exemplos de roupas em esculturas inspiradas pelos partas foram descobertos em escavações em Hatra, no noroeste do Iraque. Estátuas erguidas ali mostram a típica camisa parta (qamis), feita com materiais delicados e ornamentados, e combinando com as calças. A elite aristocrática de Hatra adotou o mesmo tipo de corte de cabelo, ornamentos e túnicas vestidos pela nobreza da corte central arsácida. O traje com calças era vestido até mesmo pelos reis arsácidas, como pode ser visto em imagens reversas de algumas moedas. As mesmas vestimentas também foram adotadas em Palmira, na Síria, juntamente com o uso da frontalidade parta na arte local.

Escrita e literatura

Sabe-se que durante o período parta o menestrel da corte (gōsān) recitava literatura oral na forma de poesia, acompanhado por música. Suas histórias, no entanto, compostas na forma de versos, não foram escritas até o período seguinte, dos sassânidas. Na realidade, não existe qualquer literatura em parte que tenha sobrevivido em sua forma original, já que foram escritos apenas nos séculos seguintes. Acredita-se que histórias como o conto romântico Vis e Rāmin e o ciclo épico da dinastia caiânida faziam parte do corpus de literatura oral do período parta, embora só tenham sido compiladas posteriormente. Embora a literatura do idioma parta não estivesse associada à forma escrita, existem evidências de que os arsácidas conheciam e respeitavam a literatura grega.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando