Gastão de Orléans, Conde d'Eu
Gastão de Orléans, Conde d'Eu, foi um príncipe e militar francês, casado com a herdeira do trono brasileiro, a Princesa Isabel. Era o filho mais velho do príncipe Luís, Duque de Némours e da princesa Vitória de Saxe-Coburgo-Koháry e, portanto, membro da Casa de Orléans — como neto do rei Luís Filipe I da França. Foi capitão de cavalaria na Guerra Hispano-Marroquina, e comandante-chefe do exército imperial, durante a Guerra do Paraguai.
Luís Filipe Maria Fernando Gastão de Orléans nasceu em 28 de abril de 1842, no Castelo de Neuilly, Neuilly, França, sendo filho do príncipe Luís de Orléans, Duque de Némours, e da princesa Vitória de Saxe-Coburgo-Koháry. Seus avós paternos eram o rei Luís Filipe I de França, e a princesa Maria Amélia de Nápoles e Sicília, e seus avós maternos eram o príncipe Fernando de Saxe-Coburgo-Gota e a princesa Maria Antônia de Koháry. Como membro da Casa Real da França, Gastão fazia parte da Casa de Orléans, ramo cadete dos Bourbon, que por sua vez descendia da dinastia capetiana. Príncipe francês de nascimento, recebeu o título de Conde d'Eu. Recebeu uma educação refinada graças aos seus mestres Júlio Gauthier e o historiador Auguste Trognon, vindo a aprender diversas línguas, como latim, inglês, alemão, português e francês, este como língua materna. Seu avô foi destronado graças à Revolução de 1848 e, com apenas cinco anos de idade, Gastão partiu para o exílio na Grã-Bretanha. Retornou a sua terra natal somente em 1878. Sua família logo se estabeleceu num antigo casarão chamado Claremont House, na região sul da Inglaterra, onde viveriam por vários anos. Aos treze anos de idade, em 1855, iniciou sua carreira militar fazendo o curso de artilharia, o qual concluiria na Escola Militar de Segóvia, Espanha, onde obteve a patente de capitão. A razão pela qual se mudou para a Espanha foi a orientação de seu tio, o príncipe Antônio de Orléans, Duque de Montpensier, que lá vivia após ter-se casado com a infanta Luísa Fernanda da Espanha, irmã da rainha Dona Isabel II da Espanha. Em 1857, aos 15 anos, perdeu a mãe, a princesa Vitória de Saxe-Coburgo-Koháry, pertencente à Casa de Saxe-Coburgo-Koháry, um ramo católico da Casa de Saxe-Coburgo-Gota, prima direta da rainha Vitória do Reino Unido e de seu marido, o príncipe consorte Alberto de Saxe-Coburgo-Gota, e irmã de D. Fernando II, Rei consorte de Portugal, casado com a rainha D. Maria II, irmã mais velha do imperador brasileiro Dom Pedro II.
A Espanha decidiu declarar guerra ao Marrocos após longos anos de problemas na fronteira — tentativas de invasões mal sucedidas. O jovem Gastão foi enviado como oficial subalterno para participar do conflito ao lado das forças espanholas, que consistiam em cerca de 45 mil soldados, contra as tropas marroquinas que, por sua vez, possuíam mais de 14 mil homens. Ele participou das batalhas e, após o término da Guerra do Marrocos, em 1860, retornou à Espanha com renome militar. Anos depois, foi aconselhado pelo tio, D. Fernando II de Portugal, a analisar a possibilidade de casamento com uma das filhas do imperador D. Pedro II do Brasil. Aceitou a proposta, contanto que pudesse conhecê-la antes de tomar qualquer decisão. A irmã de D. Pedro II, D. Francisca de Bragança, Princesa de Joinville, casada com Francisco de Orléans, Príncipe de Joinville, tio de Gastão, assim o descreveu em carta ao imperador brasileiro:
O conde d'Eu e D. Isabel, princesa imperial do Brasil, estavam viajando pela Europa em lua-de-mel, quando forças paraguaias invadiram as províncias brasileiras de Mato Grosso e Rio Grande do Sul. D. Pedro II enviou uma carta ao casal, em 1865, exigindo a presença de Gastão no Brasil e que se deslocasse para a cidade de Uruguaiana, no sul do país, para lá se encontrar com ele, com o duque de Saxe e o exército brasileiro. Uruguaiana havia sido conquistada pelo exército paraguaio e as tropas brasileiras, além das aliadas argentinas e uruguaias, haviam criado um cerco à cidade, esperando a rendição ou a derrota, em batalha da força inimiga. Dessa ocasião, o visconde de Taunay, em suas memórias, escreveria: "Enquanto Gastão patenteava, em todas as ocasiões, grande interesse pelas coisas do Brasil, observando, perguntando, tudo visitando e tratando de colher minuciosas e exatas informações, o outro, Luís Augusto, duque de Saxe, não mostrava senão desapego e indiferença".
Apesar da decepção inicial em relação à beleza da esposa, Gastão viria a se apaixonar e amá-la até os últimos dias de vida, sentimento este correspondido por D. Isabel. Não sendo à toa que o relacionamento de ambos era pautado numa cumplicidade ainda incomum a época, como percebeu o médico particular do casal, De Paul, quando do nascimento do primeiro varão: "Eu nunca vi um casal mais apaixonado e mais unido, eles se amam como se fossem bons burgueses. Ansioso, agitado, com suor frio na testa, o conde ia de um lado para o outro no cômodo contíguo ao quarto da esposa. Entrava a todo instante para lhe beijar a mão e recomendar que tivesse coragem, o que era desnecessário". O nascimento de D. Pedro de Alcântara, em 15 de outubro de 1875, seria motivo de muita felicidade para o casal que, depois de mais de dez anos de casamento, ainda não havia logrado conceber filhos. D. Isabel chegou a consultar médicos europeus para resolver o problema da infertilidade. Serviu também para amenizar a dor pela perda da filha, D. Luísa Vitória, que falecera após complicações em seu parto, em 28 de julho de 1874 e que Gastão viria a lamentar depois:
Ao casar-se com a princesa Isabel, Gastão buscou participar ativamente do governo brasileiro, realizando comentários e aconselhando quanto ao desenvolvimento do país. A realidade é que a ideia de servir como mera sombra da esposa o desagradava profundamente. No entanto, Dom Pedro II nunca permitiu, nem ao genro nem à filha, que participassem das decisões do governo, nem sequer discutia com o casal qualquer assunto relacionado ao Estado. Essa situação lhe criou sérias divergências com o sogro, que chegariam quase ao ponto de rompimento, se não fosse pela atuação de D. Isabel, que tentou a todo custo amenizar os desentendimentos entre os dois. Com o tempo, Gastão se acostumou com a ideia de não ter capacidade decisória e a primeira vez em que tratou de política com D. Pedro II foi apenas em 1889. Ao se ver excluído da máquina decisória e política do estado brasileiro, o conde voltou-se para outras atividades, junto com sua esposa, ao tornarem-se patronos constantes de óperas e concertos, patrocinando-os com o intuito de arrecadar fundos para as instituições sociais e filantrópicas que apoiavam. José Avelino, que viria a participar da primeira constituinte republicana, anos mais tarde, após o fim da monarquia, diria a respeito de Gastão:
Após o fim da Guerra do Paraguai, surgiu o Clube Republicano, em 1870. D. Pedro II ainda gozava de grande popularidade, concentrando-se em Gastão e D. Isabel grande parte da antipatia nutrida pelos republicanos. O casal era um bode expiatório perfeito, e o Partido Republicano e seus simpatizantes na imprensa não tardaram em culpá-los pelos problemas do Brasil. No entanto, quem mais sofreu foi Gastão, que era repudiado por todos e sempre foi profundamente impopular. A surdez, que piorou com a idade, tornava-o antipático aos olhos gerais e o sotaque lembrava claramente ao interlocutor que estava tratando com um estrangeiro. A mentalidade europeia de Gaston o estigmatizava como forasteiro incapaz de se adaptar à cultura da esposa. Os brasileiros o chamavam de "o francês" e execravam sua participação na condução dos negócios públicos. Era constantemente atacado pela imprensa republicana, que chegava ao ponto de criar calúnias absurdas, como acusações de que o conde d'Eu envolvia-se em negociatas e exploração de cortiços no Rio de Janeiro. Não tardou para que as lideranças políticas também o evitassem e mesmo o destratassem publicamente, como ocorreu na solenidade de juramento de sua esposa como regente, onde foi proibido de caminhar ao lado de D. Isabel, preferindo ficar em casa. Também passou a ser excluído de cerimônias e de algumas reuniões do próprio Conselho de Estado. Temia-se a sua influência natural sobre D. Isabel, por sua condição de esposo, e todos acreditavam sinceramente que seria ele e não ela quem governaria o país após a morte de D. Pedro II. Durante a chamada "Questão Religiosa", em meados da década de 1870, foi acusado duramente pela imprensa de ter sido o culpado pela anistia aos bispos envolvidos, e o acusavam de ser "ultramontano", além de que atuaria contra a maçonaria. Sobre as acusações, o conde d'Eu escreveu em carta de 1876:
Quando a República foi proclamada, em 1889, a família imperial brasileira se retirou em exílio para Portugal. O conde d'Eu permaneceu com D. Isabel e seus filhos na Europa. Já em 1909, na iminência da renúncia de seu filho D. Pedro de Alcântara aos direitos dinásticos para se casar com a condessa Isabel Dobrzensky de Dobrzenicz, Gastão buscou legitimar junto aos orleanistas seus direitos à sucessão do trono francês, criando para si e seus descendentes o título de Príncipe de Orléans e Bragança. Dessa forma, desejava manter para seu varão primogênito a condição de príncipe e garantir aos descendentes deste a possibilidade de se casarem com outros nobres, sem o ser morganaticamente. Retornou ao Brasil em 1921 para repatriar os restos dos imperadores e que atualmente se encontram no Mausoléu Imperial da Catedral de Petrópolis. Morreu no ano seguinte, de causas naturais, a bordo do navio Massilia, que mais uma vez o trazia ao Brasil, para a celebração do primeiro centenário da independência do país. Ele e a princesa Isabel também estão sepultados no Mausoléu Imperial da Catedral de Petrópolis.
Gastão já foi retratado como personagem, no cinema e na televisão, por:


