Igreja de São Lourenço dos Índios
A Igreja de São Lourenço dos Índios está localizada no bairro homônimo na cidade de Niterói, destacando-se por ser um dos primeiros assentamentos da ordem jesuítica no Brasil, sendo a primeira do Estado do Rio de Janeiro. Tombada em 1922, a Igreja tem linhas arquitetônicas marcadamente associadas ao estilo das construções da ordem jesuíta. Para além do seu valor arquitetônico, pesquisas históricas e arqueológicas têm evidenciado a sua importância como um patrimônio capaz de demonstrar as relações sociais de seus construtores: indígenas, negros e colonos de origem portuguesa. Em 10 de agosto de 1587, foi palco da encenação do "Auto de São Lourenço", uma das peças do padre José de Anchieta, um marco inicial do teatro no Brasil.
A Igreja de São Lourenço dos Índios é considerada o “marco da fundação do primeiro aldeamento jesuítico da capitania do Rio de Janeiro”. Antes da construção da igreja, a localidade já era ocupada por diversas produções agrícolas e espaços onde posteriormente se tornaram as regiões de São Domingos e Praia Grande. O aldeamento, atual Niterói, foi uma sesmaria concedida e registrada no nome de Martim Afonso de Souza (Arariboia), em retribuição pelos seus esforços na guerra contra os franceses e os tamoios. Fazia fronteira com: São Gonçalo, São João de Icaraí e São Sebastião de Itaipu. Por ordem régia de 8 de maio de 1758, o aldeamento de São Lourenço dos Índios foi incorporado ao patrimônio da Coroa portuguesa. Ademais, analisando o entorno da freguesia de São Lourenço, o aldeamento era inferior economicamente a outras freguesias vizinhas tendo sido extinta em 1866. Todavia, as fontes da época ainda se referiam a aldeia de São Lourenço dos Índios. Além de ser um marco de fundação, a igreja também presidia as “tradicionais missas de comemoração do aniversário de Niterói” no dia 22 de novembro .
Em uma carta datada de 21 de maio de 1570, o padre Gonçalo de Oliveira refere-se a uma igreja construída no local onde hoje é São Lourenço. Ao que tudo indica, essa primeira construção era provisória e sua estrutura foi feita em taipa. Já na inauguração, em 1586, a igreja é reconstruída, mas também com taipa. Em 1627 os jesuítas substituem a estrutura por uma mais duradoura, feita de pedra e cal. Em 1729, a capela é reconstruída na sua atual forma. No ano de 1769 é finalizada a construção da torre do sino. Em 1794, uma visita da Pastoral Monsenhor Pizarro descreve a situação deteriorada da igreja. A partir de sua descrição, sabe-se que as paredes eram feitas de pedra e cal, que ainda resistiam, mas que o madeiramento da estrutura estava arruinado e tomado por cupins. A fachada simples reflete o estilo arquitetônico das edificações jesuítas do século XVI. Algumas relíquias de extremo valor se encontram na igreja: um lavabo de pedra portuguesa, um púlpito de madeira, e um retábulo de madeira, considerado pelo arquiteto Lúcio Costa como o mais belo exemplar brasileiro da arte jesuítica, com a imagem de São Lourenço. Há também, na entrada da igreja, um tapete contendo as datas importantes para a igreja: 1568 / 1570 / 1586 / 1627 / 1729 / 1769. Faz parte também da arquitetura da igreja tijoleiras indígenas, que são como assinaturas deixadas pelos indígenas no momento em que o altar foi construído.
Após mudanças que ocorreram sobre a modernização da preservação do patrimônio brasileiro, nos anos de 1950 e 1960, sob a gestão de Renato Soeiro, o SPHAN (atual IPHAN) passa a exigir nova dimensão de valores, iniciando uma fase de referência cultural, não mais apenas uma referência heroica. Também se inicia nesse período, o envolvimento dos governos estaduais e municipais na novas atividades de proteção ao patrimônio, por meio dos chamados Encontros de Brasília e Salvador, realizados em 1970 e 1971 por iniciativa do MEC. Essa mudança foi baseada na proposta de uma tradição que estivesse viva a partir do patrimônio, começando a se formar uma ideia de bem cultural e com foco naqueles que foram excluídos das representações culturais do país. No caso da Igreja de São Lourenço dos Índios, o que ocorreu foi o tombamento municipal realizado pela prefeitura em 28 de fevereiro de 1992, conforme a Lei n° 1.038/92 (ibid., p. 59), uma vez que o federal havia sido feito já nas primeiras décadas do século XX. Dessa forma, no âmbito municipal, a Igreja passa a ser reconhecida pelo seu marco como a fundação do primeiro assentamento lusitano do lado oriental da Baía de Guanabara, além de seu valor artístico. Assim, o arquiteto Cyro Lyra justifica “Ao tombar São Lourenço dos Índios, Niterói reconhece que, além do significado excepcional que possui esse bem para a história da arte e de arquitetura - razão principal do tombamento federal - há outro que mais diretamente fala à população niteroiense: o de ser esse sítio o núcleo gerador da cidade".
Em 1999, a Prefeitura Municipal de Niterói, com apoio do Ministério da Cultura, promoveu obras de revitalização da Igreja e, em março dos anos 2000, foram iniciadas as obras civis, a restauração artística e arqueológica, além da pesquisa histórica do local. Pela arqueologia, o primeiro local a ser escavado foi a parte lateral da igreja, chamado de pátio da sineira, onde foram encontrados restos de ossos humanos sem caixão, roupas ou adereços. De acordo com a documentação levantada pela pesquisa histórica, como as Atas e os Documentos da Câmara Municipal de Niterói, ocorreu um aproveitamento do terreno à direita da igreja, que seria usado como cemitério para escravizados negros ao longo da existência da igreja, devido a falta de cemitérios anexos à matriz. Do outro lado, na área que fica a sacristia, também foram evidenciados aterramentos, mas esses possuíam caixões, o que leva a crer que pessoas de classes sociais superiores eram enterradas ali. Estudos também mostram que a igreja possuía uma parte anterior a entrada de fato da Igreja, onde foram encontrados cachimbos de cerâmica e isso mostra a possibilidade da presença de escravizados negros.


