Lampião (cangaceiro)
Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, foi um cangaceiro brasileiro atuante no Sertão nordestino entre as décadas de 1920 e 1930. Por ser considerado o líder do movimento de banditismo mais bem-sucedido da história do Brasil e do século XX, ganhou o apelido de "Rei do Cangaço".
A economia do sertão no tempo da juventude de Lampião estava fortemente ligada à pecuária desde os tempos da colonização portuguesa; nesse período, a política da região era dominada por grandes proprietários de terra, que a conquistavam por meio da expulsão das suas populações originárias via capangas armados — ou jagunços — e que utilizavam dessa força paramilitar para preservar o seu poder político e intimidar a grande massa de sertanejos despossuídos. A partir do final do século XIX, com o crescimento populacional do Sertão e o agravamento da pobreza das camadas mais humildes da população sertaneja, fenômenos independentes como o Cangaço — que já encontrava precedentes desde meados do século XVIII — foram potencializados, formando o que o historiador Eric Hobsbawm chama de "banditismo social": isso é, o fenômeno onde criminosos produzidos por meio de idiossincrasias de sociedades estratificadas predominantemente rurais são considerados por parte significativa das camadas mais baixas dessa sociedade, como agente transformador da sua realidade.
Virgulino Ferreira da Silva nasceu entre 1897 e 1900,[nota 3] em Vila Bela (atual município de Serra Talhada), no estado de Pernambuco. Era o terceiro filho de José Ferreira da Silva e Maria Lopes de Oliveira, vulgo "Maria Jacosa". Seu pai era proprietário de um sítio chamado "Passagem das Pedras", dedicado à agricultura de subsistência, onde Virgulino trabalhou como vaqueiro durante sua juventude. Apesar disso, Virgulino conseguiu se alfabetizar rudimentarmente — apesar de nunca ter frequentado o ensino regular — e participava de diversos eventos sociais da vizinhança onde morava, aprendendo, inclusive a tocar sanfona.
Especula-se que Virgulino e seus irmãos envolveram-se em intrigas com os seus vizinhos, principalmente com José Alves de Barros — ou "José Saturnino". Os relatos a respeito do começo dessa inimizade são vários e, muitas vezes, confusos, mas geralmente apontam para uma acusação de roubo de animais de Saturnino pelos irmãos Ferreira; por sua vez, os irmãos Ferreira teriam igualmente acusado José Saturnino e seu pai — Saturnino Alves de Barros — de estarem roubando seus animais. Em 1917, após a morte do patriarca Saturnino Alves de Barros, José Saturnino acusou Virgulino de se apoderar de um chocalho que era utilizado para identificar seus animais, ocasião na qual Ferreira haveria destruído o instrumento na frente de Saturnino, dando-lhe o apelido de "Zé Chocalho", ou "Zé Muié”, como forma de humilhação. Após uma série de altercações entre os irmãos Ferreira e os funcionários de Saturnino, José Ferreira teria sido forçado a entrar em um acordo com o vizinho, no qual teria que vender seu sítio a um preço irrisório e se exilar na localidade de "Poço do Negro", próximo à vila de Nazaré, no município de Floresta, onde vivia Manoel Lopes — um parente da família. Segundo esse acordo, enquanto os Ferreiras juravam não mais retornar à sua antiga propriedade, os Saturninos deveriam se comprometer em não se aproximar de Nazaré.[carece de fontes?]
Sob o comando de Antônio Matilde
Segundo relatos, Saturnino procurou destruir a reputação de Antônio Matilde junto ao coronel Luna. Ao saber disso, Matilde reuniu os seus netos e mais alguns membros de sua família e foi até a vila de São Francisco pedir proteção à Sinhô Pereira, que colocou à disposição o cangaceiro Baliza, além de seis outros homens. O grupo então partiu para o assalto às fazendas de Saturnino, que, diante da situação, se aliou ao bando de cangaceiros de Cassimiro Honório. A partir desse momento, Virgulino e seus irmãos — liderados por Antônio Matilde e aliados ao bando de Antônio Porcino e irmãos — teriam saqueado, pela primeira vez, o povoado de Pariconha. Foi nessa época que Virgulino teria se dado o apelido de Lampião. Para se afastar das atividades criminosas dos filhos, José Ferreira se mudaria novamente — e pela última vez — para o município de Mata Grande, nas Alagoas.
No Bando de Sinhô Pereira
Pouco tempo depois da morte de José Ferreira, Antônio Matilde deixou o cangaço e foi viver o resto da vida na Paraíba, deixando Lampião no encargo de seu bando, que, principalmente após a morte de Antônio Porcino em setembro de 1921, passou a trabalhar em conjunto com Sinhô Pereira. Nesse período, Lampião conheceu muitos dos coiteiros e parentes de Pereira que, mais tarde, dariam abrigo e tornariam possível a continuidade do cangaço sob o seu comando. Tomou posse do bando do cangaceiro alguns meses depois, quando esse, exortado por Padre Cícero, decidiu abandonar o banditismo; Luís Padre, cangaceiro companheiro de Sinhô Pereira, abandonou o cangaço por volta da mesma época.
A primeira ação do bando comandado por Lampião foi invadir a cidade de Belmonte em Pernambuco, e assassinar o coronel e comerciante Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Após o ataque em Belmonte, o bando de Lampião foi visto entrando no estado de Alagoas. As ações do bando de Lampião passaram a ocorrer além das divisas de Pernambuco, chegando aos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, de forma que em janeiro de 1923, os chefes de polícia destes estados se reuniram pela primeira vez para discutir a criação de uma força-tarefa conjunta de combate ao cangaço. Lampião e seu bando cruzaram a divisa de Alagoas com Pernambuco em junho de 1923 e atacaram o povoado de Belém do São Francisco, próximo a Salgueiro, roubando mercadorias no valor de um conto de réis. Além disso, sitiaram Salgueiro provocando a paralisação do comércio e o desabastecimento da cidade. Posteriormente, atravessaram a divisa estadual e ingressaram no estado do Ceará, onde o bando possuía apoio político. Em julho, Lampião atravessa Pernambuco e invade o estado de Alagoas saqueando várias fazendas. Inicialmente as autoridades reagiram tentando perseguir o bando de Lampião a cada relato de sua presença, às custas de deixar cidades menores do interior nordestino desguarnecidas. Lampião despistava a polícia através de mensagens de telégrafo, noticiando sua presença em cidades providas de grandes contingentes, enquanto cidades menos guarnecidas ficavam suscetíveis a ataques.
No dia 27 de julho de 1938, o bando se acampou na Fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. A volante chegou tão silenciosamente que nem os cães perceberam. Por volta das cinco horas da manhã do dia 28, os cangaceiros levantaram para rezar o ofício e se preparavam para tomar café; quando um cangaceiro deu o alarme, já era tarde demais. Não se sabe ao certo quem os traiu. Entretanto, naquele lugar mais seguro, o bando foi pego totalmente desprevenido. Quando os policiais do Tenente João Bezerra da Silva e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa. O ataque durou cerca de vinte minutos e poucos conseguiram escapar ao cerco e à morte. Dos trinta e quatro cangaceiros presentes, onze morreram ali mesmo. Lampião foi um dos primeiros a morrer. Logo em seguida, Maria Bonita foi gravemente ferida. Alguns cangaceiros, transtornados pela morte inesperada do seu líder, conseguiram escapar. Bastante eufóricos com a vitória, os policiais apreenderam os bens e mutilaram os mortos. Apreenderam todo o dinheiro, o ouro e as joias.
Destino do cadáver
Percorrendo os estados nordestinos, o Coronel João Bezerra da Silva exibia as cabeças — já em adiantado estado de decomposição — por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Primeiro, os troféus estiveram em Piranhas, onde foram arrumados cuidadosamente na escadaria da Prefeitura, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografados. Depois, foram levados a Maceió e ao sudeste do Brasil. No IML de Aracaju, as cabeças foram observadas pelo médico Dr. Carlos Menezes. Depois de medidas, pesadas e examinadas, os criminalistas mudaram a teoria de que um homem bom não viraria um cangaceiro, e que este deveria ter características sui generis. Ao contrário do que pensavam, as cabeças não apresentaram qualquer sinal de degenerescência física, anomalias ou displasias, tendo sido classificadas como pura e simplesmente, normais.
Sua companheira, Maria Gomes de Oliveira', conhecida como Maria Bonita conforme apelidada pela imprensa, juntou-se ao bando em 1930, sendo a primeira das mulheres a integrá-lo. Lampião e Maria Bonita tiveram uma filha, Expedita Ferreira Nunes, nascida em 13 de setembro de 1932. O casal teria tido ainda dois natimortos.
Religião
Era devoto de Padre Cícero e respeitava as suas crenças e conselhos. Os dois se encontraram uma única vez, no ano de 1926, em Juazeiro do Norte. Na ocasião, o padre sugeriu que Lampião largasse o cangaço, este, porém, recusou.[carece de fontes?]
Compositor
"Mulher Rendeira" é um antigo tema popular, muito cantado nos sertões nordestinos ao tempo de Lampião, e cuja origem é controversa. Segundo a versão mais conhecida do padre Frederico Bezerra Maciel, regionalista pernambucano e biógrafo de Lampião, o mesmo teria escrito os versos da versão original da música. A ele se acrescenta Câmara Cascudo, segundo o qual Lampião teria feito escrito a letra em homenagem ao aniversário de sua avó d. Maria Jocosa Vieira Lopes ("Tia Jacosa") em 15 de setembro, que era uma rendeira. Compôs a música entre setembro de 1921 e fevereiro de 1922, quando apresentou a música em Floresta (Pernambuco). A música tornou-se praticamente um hino de guerra dos cangaceiros do bando de Lampião, tendo inclusive relatos de que o seu ataque a Mossoró em 1927 teria sido feito com mais de 50 cangaceiros cantando "Mulher Rendeira".


