Reunião no Automóvel Clube
A reunião no Automóvel Clube foi uma solenidade de sargentos da Polícia Militar e Forças Armadas do Brasil, em 30 de março de 1964, no Rio de Janeiro, na qual discursou o Presidente da República João Goulart. Ocorrendo em meio à repercussão da Revolta dos Marinheiros, foi um dos fatores imediatos do golpe de Estado iniciado no dia seguinte.
O mês de março de 1964 foi ponto de inflexão para o Governo João Goulart, marcando o comprometimento do presidente com as esquerdas e o fortalecimento de sua oposição. A reação branda à Revolta dos Marinheiros desacreditou o governo entre a oficialidade militar, e as conspirações em curso estavam prestes a se materializar em um golpe de Estado. No dia 28 a cúpula dos conspiradores em Minas Gerais reuniu-se para seus últimos preparativos, enquanto o grupo do general Castelo Branco definiu no dia 29 que a derrubada do presidente seria em 2 de abril. A comemoração dos 40 anos da Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar estava marcada para o dia 30 no Automóvel Clube e o presidente estava convidado. Embora uma solenidade como aquela fosse corriqueira e já estivesse marcada com bastante antecedência, as circunstâncias davam nova conotação ao evento: era um encontro com subalternos militares em meio à repercussão de um motim de subalternos, conduzido por um governante que pretendia ter uma base de apoio entre os sargentos para reagir a uma possível investida dos oficiais.
Além do presidente, discursaram vários outros oradores, entre eles Abelardo Jurema e José Anselmo dos Santos. O sargento e deputado Antônio Garcia Filho falou em “rejeitar as cúpulas alienadas e reacionárias”, enquanto o subtenente Antônio Sena Pires definiu: “Lutamos contra a exploração alienígena e concorremos para a politização do povo brasileiro, que não tolera mais o capital estrangeiro colonizador ou os trustes estrangeiros e os nacionais.” Outros sargentos discursaram em defesa de mudanças na Constituição, reformas sociais e mudanças nos regulamentos militares, além de declarar seu apoio ao presidente e a unidade dos setores pró-reformas. O discurso de Goulart começou após as 22:00 e às 23:35 ele já estava de volta ao Palácio Laranjeiras. Suas palavras foram divulgadas por rádio e televisão, com a transmissão televisiva restrita ao Rio de Janeiro. Ele discursou “tenso, com olheiras”, com “uma fisionomia preocupada, cansada, constrangida”, falando com indecisão, sem “a precisão e o tom sedutor bastante conhecidos.” Levou um texto mais moderado, escrito “a várias mãos, entre as quais as de Raul Ryff e Jorge Serpa”, ou ainda, escrito em grande parte por Luís Carlos Prestes, mas falou de improviso.
O Ultima Hora chegou às bancas no dia seguinte com avaliações otimistas, embora seu fundador Samuel Wainer tenha escrito nas suas memórias que foi contrário ao comparecimento do presidente. Já Luís Carlos Prestes, secretário-geral do Partido Comunista, avaliou dezoito anos depois que o evento foi “uma inversão de toda a hierarquia e facilitou o golpe”. O senador Ernâni do Amaral Peixoto, após ouvir o discurso, julgou que “O Jango não é mais presidente da República”. Oficiais legalistas e nacionalistas percebiam a gravidade da situação e estavam contrariados. O ministro da Aeronáutica, que estava na reunião, depois ordenou a prisão de um dos sargentos por seu discurso. O tenente-coronel Alfredo Arraes de Alencar, que servia na Secretaria do Conselho de Segurança Nacional, viu como certa a ocorrência de um golpe de Estado. Na memória militar, o evento é lembrado como um dos eventos motivadores da adesão da maioria neutra da oficialidade ao golpe. A reunião aparece junto com a Revolta dos Sargentos de 1963 e, em 1964, a Revolta dos Marinheiros e o Comício da Central. Somada a esses eventos, a impressão dos oficiais, incluindo os legalistas, era que o próprio presidente incentivava a indisciplina militar. Sua definição de disciplina — produto do respeito recíproco — não era a existente nas Forças Armadas, nas quais sua base é a obediência. O conceito de disciplina dos oficiais não incluía, como pretendia Goulart, a participação política de seus comandados. Os conceitos hierárquicos também foram feridos, pois o presidente dirigiu-se diretamente às baixas patentes para questionar o que faziam as altas. Porém, como o desencadeamento da rebelião já estava em curso desde o dia 28, o golpe teria ocorrido mesmo se o teor do discurso fosse outro.


