São José
José de Nazaré, conhecido como São José, foi o esposo da Virgem Maria e o pai adotivo e legal de Jesus Cristo, conforme testemunhado pelos Evangelhos segundo Mateus, Lucas e João. Descendente da casa real de David, pertenceu à linhagem messiânica prometida no Antigo Testamento e exerceu um papel essencial no mistério da Encarnação, ao acolher Maria e assumir a missão de proteger e educar o Messias.
Escolha como esposo de Maria
Segundo um dos apócrifos, José, já em idade avançada, teria sido reunido, pelo Sumo Sacerdote, com os jovens de Jerusalém, todos descendentes de David, para saber qual deles seria o pai do Messias prometido. Cada um dos jovens tinha um cajado de madeira e Deus responderia florindo o cajado do escolhido. O que teria acontecido com José foi que cresceu um lírio em seu cajado. É uma tradição não confirmada pela Igreja. A idade dele, no entanto, não é confirmada pela Igreja, com fontes divergindo se era um jovem ou se já era um homem maduro ou idoso.
Os Evangelhos e a Sagrada Tradição Apostólica afirmam que o verdadeiro genitor de Jesus é Deus Pai: Maria, já tendo sido prometida em casamento a José, concebeu miraculosamente, sem que houvesse tido relações maritais com ninguém, por intermédio do Espírito Santo. Para o casal, tratou-se de um momento dramático, uma vez que, quando tomou ciência de que a esposa estava grávida de um filho que não era seu, José sentiu-se decepcionado e resolveu romper com ela, mas sem expô-la publicamente. O evangelista Mateus assim relata o episódio: No entanto, após uma experiência mística num sonho, no qual um Anjo lhe aparecera, voltou atrás e reconheceu legalmente o Menino Jesus como seu legítimo filho. Tendo assumido a guarda do menino, José ficou conhecido como suposto pai de Jesus. O evangelista Lucas relata esse título:
A profissão de José é mencionada pelo evangelista Mateus quando afirma, no capítulo 13 e versículo 55 de seu Evangelho, que Jesus era filho de um tektōn (τέκτων): termo grego que costuma receber várias interpretações. Ainda que a tradição lhe atribua estritamente a profissão de carpinteiro, o fato é que o título grego é genérico, sendo usado para designar os trabalhadores envolvidos em atividades econômicas ligadas à construção civil. Outras vertentes costumam considerar José como sendo um canteiro, ou seja, um operário que talhava artisticamente blocos de rocha bruta. Os evangelhos reivindicam que Jesus, antes de iniciar sua vida pública, desempenhou a profissão do pai. O primeiro evangelista que atribui-lhe o título é Marcos, que refere-se a Jesus como "o Carpinteiro", no capítulo VI, versículo 3 da sua narrativa sinótica que relata uma sua visita a Nazaré na qual seus compatriotas chamavam-no ironicamente pela profissão para desqualificá-lo como pregador. Mateus, por sua vez, retoma o mesmo episódio na sua versão do evangelho, mas com uma variante:
As notícias dos evangelhos sinóticos sobre São José são escassíssimas. Lucas e Mateus narram episódios cristocêntricos em que o carpinteiro está envolvido, dizendo que José era descendente do rei Davi e residia no pequeno povoado de Nazaré; João apenas o menciona como membro da Sagrada Família; ao passo que Marcos sequer cita expressamente seu nome. As versões dos dois evangelistas que pormenorizam a árvore genealógica de Jesus divergem no que se refere a quem teria sido o pai de José: A teologia protestante tenta elucidar essa discrepância, afirmando que Lucas, na verdade, estivesse registrando a genealogia de Maria, ao passo que Mateus, esse sim, a de José. Segundo esta vertente, Mateus segue a linhagem de José segundo a lei, remontando a Salomão, filho de Davi; Lucas, por sua vez, estaria seguindo a linhagem consanguínea de Jesus, por meio de Maria, esposa de José, mencionando Natã, filho de Davi. Como não havia designação própria para genro, José teria sido considerado um filho de Eli por ter se casado com Maria, filha de Eli. A interpretação é compartilhada pela Igreja Católica, cuja tradição considera ser Eli (Eliaquim ou Joaquim) o pai de Maria.
A vida familiar em Nazaré
Os evangelhos resumem em poucas palavras a infância de Jesus, um período aparentemente normal, durante o qual, na oficina de José, o menino se preparava para a sua missão. Apenas um momento escapa a essa normalidade e é descrito por Lucas. Quando Jesus tinha 12 anos, José levou-o juntamente com Maria em peregrinação até Jerusalém para as festividades da Páscoa. Transcorridos, porém, os dias da festa, enquanto voltava para casa, Jesus ficou na Cidade Santa, sem que José e Maria percebessem. Depois de tê-lo procurado por três dias entre a multidão de peregrinos, foram finalmente encontrá-lo no templo, discutindo as escrituras com os doutores da Lei. De acordo com o evangelista Lucas, sua mãe o repreendeu, falando-lhe da preocupação que afligiu-a assim como ao marido. Jesus, por sua vez, afirma ter Deus por Pai, na presença de José.
A morte
Quando Jesus começou sua vida pública, próximo dos 30 anos, muito provavelmente José já era morto. De fato, sua presença não é mencionada depois do segundo capítulo do evangelho de Lucas. Soma-se à suposição o fato de que, quando Jesus é crucificado, este confia Maria ao seu discípulo amado, o qual, segundo o evangelista João, "A partir dessa hora, a recebeu em sua casa": uma preocupação que não teria sentido se José ainda fosse vivo. Os evangelhos canônicos mantêm-se silenciosos em relação ao término da vida de José. Há, contudo, livros apócrifos que relatam como teriam sido as horas derradeiras do pai adotivo de Jesus. Um exemplo é a narrativa apócrifa História de José, o Carpinteiro, escrita entre os séculos VI-VII, e que descreve detalhadamente o falecimento do Santo. Segundo o escrito, composto em língua copta, José morreu no dia 26 do mês egípcio de epip (20 de julho no calendário gregoriano), aos 111 anos, gozando sempre de ótima saúde, "com todos os dentes intactos" e trabalhando até seu último dia. Avisado por um anjo sobre a iminente morte, vai ao Templo de Jerusalém adorar a Deus e, no retorno, contrai uma doença fatal que o faz sucumbir. Extremado em seu leito, envolto pelo temor da morte, só encontra consolação em Jesus, o único que consegue acalmá-lo. Circundado pela esposa e pelos filhos de um primeiro casamento, sua alma é arrebatada pelos Arcanjos Miguel e Gabriel e conduzida ao Paraíso.
A figura de São José ficou obscurecida durante muitos séculos na Igreja Católica. Embora muitos santos e doutores da Igreja de tempos remotos tenham manifestado muita devoção a ele, é só a partir do século XIX que o chamado "pai adotivo" de Jesus Cristo começou a adquirir relevo. São João XXIII, por exemplo, que o proclamou padroeiro do Concílio Vaticano II, declarou na Carta Apostólica Le voci, de 19 de março de 1961: O seu antecessor Papa Pio IX, em 08 de dezembro de 1870, o havia proclamado "Patrono Universal da Igreja" em Quemadmodum Deus. O Papa Leão XIII dedicou-lhe a Encíclica Quamquam pluries, emitida em 15 de agosto de 1889, e foi considerado, até aquele momento, o seu mais fervoroso devoto dentre os que já haviam ocupado a Cátedra de São Pedro por ter sido o pontífice que elevou de modo mais sistemático, teológico e pastoral o culto ao santo.. São João Paulo II fez uma longa exposição sobre a importância de São José para a Igreja na Exortação Apostólica Redemptoris custos, assinalando, em diversas passagens, o pensamento e a devoção de Leão XIII.
O escopo principal dos primeiros teólogos cristãos é o de libertar a figura do Santo das várias devoções populares e das heresias provenientes de livros apócrifos e chegar assim, por meio do estudo dos evangelhos, a um acurado exame da genealogia de Jesus, do matrimônio de José e Maria, e da constituição da Sagrada Família. Estes três momentos essenciais são recorrentes em suas pesquisas. Às vezes, se acrescentam também reflexões cristológicas, para poder interpretar certas hipóteses que se referem à lei do matrimônio, à justiça de José, e o valor dos seus seus sonhos, mesmo que não se consiga nunca apresentar um seu perfil biográfico. O primeiro autor que recorda José é Justino. No Século III, Orígenes, numa homilia, quis evidenciar que "José era justo e a sua virgem era sem mancha. A sua intenção de deixá-la se explica pelo fato de ter reconhecido nela a força de um milagre e um mistério grandioso. Para aproximar-se disso, ele se considera indigno". No Século IV, é a vez de Cirilo de Jerusalém, Cromácio de Aquileia e Ambrósio de Milão ponderarem sobre a virgindade perpétua de Maria, sobre o matrimônio de José com ela, e sobre a verdadeira paternidade de seu esposo. Por exemplo, Cirilo de Alexandria propõe uma discussão na qual tenta debater a paternidade de José, ligando-o à figura de Santa Isabel.
Epifânio
De acordo com o bispo de Salamina, Epifânio, em sua obra The Panarion (AD 374–375), José se tornou o pai de Tiago e seus três irmãos (José, Simeão, Judas) e duas irmãs (uma Salomé e uma Maria ou uma Salomé e uma Anna). Tiago e seus irmãos não eram filhos de Maria, mas filhos de José de um casamento anterior. Depois que a primeira esposa de José morreu, muitos anos depois, quando ele tinha oitenta anos, "ele levou Maria (mãe de Jesus)". Epifânio acrescenta que José e Cléofas eram irmãos, filhos de Jacó, de sobrenome Pantera.
Hegésipo
Eusébio de Cesareia relata em sua História Eclesiástica (Livro III, cap. 11) que Hegésipo registra que Cléofas era irmão de José e tio de Jesus.
Cromácio
De São Cromácio, restam 18 sermões que retomam os primeiros capítulos do Evangelho de Mateus. Ele afirma: "Não por acaso Mateus procura assegurar que Cristo Senhor nosso é descendente tanto de David quanto de Abraão, já que tanto José quanto Maria trazem em sua origem a linhagem de Davi, isto é, tem uma origem real". No terceiro sermão, Cromácio se dedica a um profundamento teológico da narrativa de Mateus (Mateus 1:24–25}:
Ambrósio e Agostinho
Interpretações similares podem demonstrar também em Santo Ambrósio esforça-se para apresentar José como um homem íntegro. Ele adverte que o evangelista, quando explica a imaculada conceição de Cristo, vê em José um homem justo incapaz de contaminar "Sancti Spintus templum, ou seja, a Mãe do Senhor fecundada no seio pelo mistério do Espírito Santo". No comentário clássico do evangelho, feito pouco depois do Natal de 417 por Santo Agostinho no Sermão sobre a Genealogia de Cristo, são retomadas preciosas informações e opiniões anteriores. José é descrito como um homem autenticamente justo, tão justo que, quando supos que Maria tivesse adulterado, não quis denunciá-la nem expô-la ao público cruel. Decidiu deixá-la em discretamente, já que não apenas não queria puni-la, como tampouco acusá-la.
O Evangelho de Tiago (também conhecido como Protoevangelho de Tiago), escrito por volta de 150 DC, afirma que José era viúvo e com filhos, na época em que Maria foi confiada aos seus cuidados. Os irmãos de Jesus são apresentados como filhos de um casamento anterior. A História de José, o carpinteiro, escrita no século V, apresentada como uma biografia de José ditada por Jesus, descreve como José, de 90 anos, viúvo com quatro filhos e duas filhas, é encarregado de Maria. A morte de José ocorre aos 111 anos, assistida por anjos e afirmando a virgindade perpétua de Maria.
Judaísmo
Os judeus admitem a existência histórica de José. No entanto, diversamente dos cristãos, acreditam que o título de "Filho do Carpinteiro", atribuído a Jesus, deva-se à sua filiação também segundo a carne. O judaísmo, portanto, não professa a concepção virginal de Jesus, mas a atribui à ação de José. Em alguns textos hebraicos, ainda que não pertençam oficialmente à literatura rabínica, há um esforço por interpretar a figura do carpinteiro de Nazaré de modo bem diverso do tradicional. Tal é o caso do livro Toledot Yeshu, uma espécie de antievangelho, que começa sua narrativa detalhando uma alegada transgressão de "José Pandera", como é chamado, o qual teria enganado Míriam, uma virgem prometida a outro homem, fingindo ser o esposo e seduzindo-a contra sua vontade. Alguns polemistas cristãos, aliás, têm usado o Taledot desde o Século IX para inflamar a hostilidade contra os judeus.
Islamismo
Embora os muçulmanos não neguem a existência de José, não há menção a ele no Alcorão, nem tampouco que a Virgem Maria estivesse prometida em casamento. Na teologia islâmica, Issa – nome árabe de Jesus que é respeitado no Islã como profeta — não é descendente de Davi, mas o resultado de um milagre divino. Assim como Adão, que não teve ascendência humana, Jesus também não teria tido nenhum homem como pai, nem tampouco sua mãe teria se casado.
Candomblé
Durante o período da Escravatura no Brasil, nas senzalas, para poderem cultuar os seus Orixás, os negros foram obrigados a usar como camuflagem altares com as imagens de Santos católicos, cujas características melhor correspondiam às suas divindades africanas, e por baixo desses altares escondiam os assentamentos dos Orixás, dando assim origem ao chamado sincretismo. No Candomblé, São José é sincretizado com Aganju, ou Xangô Aganju, sendo tratado como uma entidade primordial, associada à terra (em oposição à água) e às montanhas e vulcões.
Os primeiros registros de um devocional formal para São José datam do ano 800 e as referências a ele como Nutritor Domini (educador/guardião do Senhor) começaram a aparecer no século IX e continuaram a crescer até o século XIV. Tomás de Aquino discutiu a necessidade da presença de São José no plano da Encarnação, pois, se Maria não fosse casada, os judeus a apedrejariam e que, em sua juventude, Jesus precisava dos cuidados e proteção de um pai humano. No século XV, as principais medidas foram tomadas por Bernardino de Siena, Pierre d'Ailly e Jean Gerson. Gerson escreveu Consideration sur Saint Joseph e pregou sermões sobre São José no Conselho de Constança. Em 1889, o papa Leão XIII emitiu as promessas encíclicas de Quamquam, nas quais pedia aos católicos que rezassem a São José, como patrono da Igreja, em vista dos desafios que a Igreja enfrenta. A Josefologia, o estudo teológico de São José, é uma das disciplinas teológicas mais recentes. Em 1989, por ocasião do centenário dos cultos de Quamquam, o Papa João Paulo II emitiu o Redemptoris Custos (Guardião do Redentor), que apresentava o papel de São José no plano de redenção, como parte dos "documentos de redenção" emitidos por João Paulo II, como Redemptoris Mater, a que se refere.
Dia da Festa
19 de março, dia de São José, tem sido a principal data de festa do santo no cristianismo ocidental, desde o século X, sendo comemorado por católicos, anglicanos, muitos luteranos e outras denominações. Na Ortodoxia Oriental, o dia da festa de São José é comemorado no primeiro domingo após a Natividade de Cristo. Na Igreja Católica, a Festa de São José é uma solenidade (primeira classe se estiver usando o calendário tridentino) e é transferida para outra data se impedida (ou seja, 19 de março caindo no domingo ou na Semana Santa). Os costumes populares entre os cristãos de várias tradições litúrgicas que observam o Dia de São José estão participando da Missa ou do Serviço Divino, vestindo roupas de cor vermelha, carregando favas secas que foram abençoadas e montando altares domésticos dedicados a São José.
Por volta do século XVII, José tende a ser retratado como um homem avançado em anos, com cabelos grisalhos, muitas vezes carecas, às vezes frágeis, uma figura comparativamente marginal ao lado de Maria e Jesus, se não inteiramente em segundo plano, passiva além de liderá-los a ida para o Egito. José é mostrado principalmente com barba, não apenas de acordo com os costumes judaicos, mas também porque — embora os relatos do Evangelho não indiquem sua idade — mais tarde a literatura tende a apresentá-lo como um homem velho na época de seu casamento com Maria. Essa descrição surgiu para dissipar preocupações sobre o celibato do casal recém-casado, a menção de irmãos e irmãs de Jesus nos evangelhos canônicos e os outros filhos de José mencionados na literatura apócrifa — preocupações discutidas com muita franqueza por Jean Gerson, por exemplo, que ainda assim preferia mostrá-lo como um homem mais jovem.


