Peste Negra
Peste Negra foi uma das pandemias mais devastadoras registadas na história humana, tendo resultado na morte de 25 a 75 milhões de pessoas na Eurásia, atingindo o pico na Europa entre os anos de 1347 e 1351. Acredita-se que a bactéria Yersinia pestis, que resulta em várias formas de peste, tenha sido a causa. A Peste Negra foi o primeiro grande surto europeu de peste e a segunda pandemia da doença. A praga criou uma série de convulsões religiosas, sociais e económicas, com efeitos profundos no curso da história da Europa.
Escritores europeus contemporâneos descreveram a doença da peste, em latim, como pestis ou pestilentia — equivalente a "pestilência"; epidemia — continuando com a mesma escrita na língua portuguesa; e mortalitas — equivalente a "mortalidade". Em inglês antes do século XVIII, o evento era chamado de "peste" ou "grande peste", "a praga" ou "grande morte". Posteriormente à pandemia, "o primeiro murrain" ou "primeira peste" foi aplicada, para distinguir o fenômeno de meados do século XIV de outras doenças infecciosas e epidemias de peste.[nota 1] A pandemia de 1347 não foi referida especificamente como "negra" nos séculos XIV e XV em nenhuma língua europeia, embora a expressão "morte negra" tenha sido ocasionalmente aplicada a doenças fatais de antemão. A frase "morte negra" (mors nigra) foi usada em 1350 por Simon de Covino ou Couvin, um astrónomo belga, que escreveu o poema "Sobre o julgamento do sol em uma festa de Saturno" (De judicio Solis in convivio Saturni), que atribui a peste a uma conjunção de Júpiter e Saturno. Em 1908, Gasquet alegou que o uso do nome atra mors para a epidemia do século XIV apareceu pela primeira vez em um livro de 1631 sobre a história dinamarquesa de J. I. Pontanus: "Comummente e pelos seus efeitos, eles chamavam de morte negra" (Vulgo & ab effectu atram mortem vocitabant). O nome espalhou-se pela Escandinávia e depois pela Alemanha, tornando-se gradualmente associado à epidemia de meados do século XIV como um nome próprio.
Origens
A doença da peste, causada por Yersinia pestis, é geralmente presente em populações de pulgas transportadas por roedores terrestres, incluindo marmotas em várias áreas, incluindo Uganda, oeste da Arábia, Curdistão, Norte da Índia, Deserto de Gobi, no Norte da China, e Ásia Central. Devido às mudanças climáticas na Ásia, os roedores começaram a fugir dos prados secos para áreas mais populosas, espalhando a doença. Em outubro de 2010, médicos geneticistas sugeriram que todas as três grandes ondas da peste tiveram a sua origem na China. Pesquisas em 2017 sobre sepulturas nestorianas datadas de 1338 a 1339, perto de Issyk-Kul, no Quirguistão, com inscrições referentes a peste, levaram muitos epidemiologistas a pensar que marcam o surto da epidemia; de onde poderia facilmente se espalhar para a China e para a Índia.[necessário esclarecer]
Surto na Europa
Parece ter havido várias introduções na Europa. A peste atingiu a Sicília em outubro de 1347, transportada por doze galés genovesas e rapidamente se espalhou por toda a ilha. As galés de Kaffa chegaram a Génova e Veneza em janeiro de 1348, mas foi o surto em Pisa, algumas semanas depois, que marcou o ponto de entrada para o norte da Itália. No final de janeiro, uma das galés expulsas da Itália chegou a Marselha. Da Itália, a doença espalhou-se para o noroeste por toda a Europa, atingindo a França, a Espanha que foi atingida pelo calor — a epidemia ocorreu nas primeiras semanas de julho, Portugal e Inglaterra em junho de 1348, continuando também a espalhar-se para o leste e norte através de Alemanha, Escócia e Escandinávia de 1348 a 1350. Foi introduzida na Noruega em 1349, quando um navio desembarcou em Askøy, espalhando-se depois para Bjørgvin (moderna Bergen) e Islândia.
Surto no Médio Oriente
A peste atingiu várias regiões do Médio Oriente durante a pandemia, levando a um grave despovoamento e mudanças permanentes nas estruturas económicas e sociais. Pode ter-se espalhado da Ásia Central com os mongóis para um posto comercial na Crimeia, de nome Kaffa, controlado pela República de Génova. Quando roedores infectados infectaram novos roedores, a doença espalhou-se por toda a região. No outono de 1347, a peste atingiu Alexandria no Egipto, através do comércio do porto com Constantinopla e outros portos no Mar Negro. Durante 1347, a doença viajou para o leste, para Gaza, e para o norte, ao longo da costa leste, para as cidades modernas do Líbano, Síria, Israel e Palestina, incluindo Ashkelon, Acre, Jerusalém, Sidon, Damasco, Homs e Alepo. Em dois anos, a peste espalhou-se por todo o império muçulmano, da Arábia ao norte da África. Entre 1348 e 1349, a doença atingiu Antioquia. Os moradores da cidade fugiram para o norte, mas a maioria acabou morrendo durante a viagem.
O conhecimento médico havia estagnado durante a Idade Média. O relato mais autoritário da época veio da faculdade de medicina de Paris, num relatório ao rei da França que culpava os céus, na forma de uma conjunção de três planetas em 1345 que causou uma "grande peste no ar". Este relatório tornou-se no primeiro e mais amplamente divulgado de uma série de folhetos sobre a peste que buscavam dar conselhos aos que sofrem. O facto de a praga ter sido causada pelo mau ar tornou-se a teoria mais amplamente aceite na época, a teoria do miasma. A palavra praga não se referia inicialmente a uma doença específica, e apenas a recorrência de surtos durante a Idade Média deu a ela o significado que persiste na medicina moderna. A importância da higiene foi reconhecida apenas no século XIX; até então, as ruas eram geralmente imundas, com animais vivos de todo tipo e abundantes parasitas, facilitando a propagação de doenças transmissíveis. Um avanço médico precoce como resultado da Peste Negra foi o estabelecimento da ideia de quarentena na cidade-estado de Ragusa (moderna Dubrovnik, Croácia) em 1377, após contínuos surtos.
Evidência de ADN
Em 1998, Drancourt et al. relataram a detecção de ADN de Y. pestis na polpa dental humana de um túmulo medieval. Outra equipe liderada por Tom Gilbert questionou essa identificação e as técnicas empregues, afirmando que esse método "não nos permite confirmar a identificação de Y. pestis como agente etiológico da Peste Negra e das pragas subsequentes. Além disso, a utilidade da técnica de ADN publicada com base em dentes antigos, usada para diagnosticar bacteremias fatais em epidemias históricas, ainda aguarda confirmação independente". A confirmação definitiva do papel de Y. pestis chegou em 2010 com uma publicação no PLOS Pathogens de Haensch et al. Eles avaliaram a presença de ADN / RNA com técnicas de reação em cadeia da polimerase (PCR) para Y. pestis das cavidades dentárias em esqueletos humanos de valas comuns no norte, centro e sul da Europa, associadas arqueologicamente com a Peste Negra e ressurgimentos subsequentes. Os autores concluíram que essa nova pesquisa, juntamente com análises anteriores do sul da França e da Alemanha, "encerra o debate sobre a causa da Peste Negra e demonstra inequivocamente que Y. pestis foi o agente causador da peste epidémica que devastou a Europa durante a Idade Média ". Em 2011, esses resultados foram confirmados com evidências genéticas derivadas de vítimas da Peste Negra no cemitério de East Smithfield, na Inglaterra. Schuenemann et al. concluiu em 2011 "que a peste negra na Europa medieval foi causada por uma variante de Y. pestis que pode não existir mais".
— Catia Di Girolamo, «A peste negra e a crise do século XIV», in Umberto Eco (dir.), Idade Média. Castelos, Mercadores e Poetas, 1.ª ed., Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2014, pp. 75-76. (Texto adaptado)
Mortes
Não há números exatos para o número de mortos, variando amplamente por localidade. Nos centros urbanos, quanto maior a população antes do surto, maior a duração do período de mortalidade. Estima-se que a peste tenha matado cerca de 25 a 75 milhões de pessoas na Eurásia. A taxa de mortalidade da Peste Negra no século XIV foi maior que o surto da yersinia pestis que ocorreu na Índia no século XX, matando até 3% da população em certas cidades do país. O historiador americano Philip Daileader, acredita que durante quatro anos, 45 a 50% da população europeia teriam morrido de peste. O norueguês Ole Benedictow, supõe que a população no continente europeu naquela época estaria em torno de 80 milhões de habitantes. A partir disso, sugere que o número de mortes pode ter acometido 60% da população na Europa — cerca de 50 milhões morreram na Peste Negra. Em 1348, a peste espalhou-se de uma forma tão rápida que, antes dos médicos ou autoridades governamentais pudessem planejar uma forma de rastrear sua origem, 30% da população européia já havia sido dizimada pela doença; nas grandes cidades, não era raro encontrar dados evidenciando 50% de mortes. Metade da população de Paris morreu. Na Itália, a população de Florença foi reduzida de 110–120 mil habitantes em 1338 para 50 mil em 1351. Pelo menos 60% da população de Hamburgo e Bremen pereceram, e uma porcentagem semelhante em Londres pode ter acometido os moradores da cidade, com um número de mortos de aproximadamente 62 mil entre 1346 e 1353.[nota 2] Os registros fiscais de Florença sugerem que 80% da população da cidade morreram em quatro meses em 1348. Antes de 1350, havia cerca de 170 mil assentamentos na Alemanha, sendo reduzido em quase 40 mil em 1450. A doença contornou algumas áreas, sendo que as áreas mais isoladas sofreram menos pelo contágio pandêmico. A peste não esteve presente em Douai, França, até a virada do século XV, impactando de modo menos severo também em Hainaut, Finlândia, norte alemão e áreas da Polônia. Monges, freiras e padres foram especialmente atingidos, pois estavam em contato direto ao cuidarem das vítimas da doença.
Económica
Com um declínio populacional tão grande causado pela peste, os salários aumentaram em resposta à escassez de mão de obra. Os proprietários de terras também foram pressionados a substituir as rendas por serviços de trabalho, num esforço para manter os inquilinos.
Meio Ambiente
Alguns historiadores acreditam que as inúmeras mortes provocadas pela peste arrefeceram o clima, libertando terras e desencadeando reflorestamentos. Isto pode ter levado à Pequena Idade do Gelo.
Perseguições
O renovado fervor religioso e o fanatismo floresceram com o despoletar da peste negra. Vários grupos, como judeus, frades, estrangeiros, mendigos, peregrinos, muçulmanos, leprosos, sodomitas e ciganos, foram alvos de perseguições e igualmente considerados culpados pela disseminação da doença e outros com doenças de pele como acne ou psoríase foram mortos em toda a Europa. Como os curandeiros e os governos do século XIV não tinham quaisquer ferramentas para explicar ou parar a doença, os europeus voltaram-se para forças astrológicas, terremotos e envenenamento de poços pelos judeus como possíveis razões para surtos. Muitos acreditavam que a epidemia era um castigo de Deus pelos seus pecados, e poderiam ser aliviados com o perdão de Deus.
Social
Uma teoria que foi avançada é que a devastação em Florença causada pela Peste Negra, que atingiu a Europa entre 1348 e 1350, resultou em uma mudança na visão mundial das pessoas na Itália do século XIV e levou ao Renascimento. A Itália foi particularmente afetada pela peste, e especula-se que a familiaridade resultante com a morte fez com que os pensadores pensassem mais nas suas vidas na Terra, em vez de na espiritualidade e na vida após a morte. Também se argumentou que a Peste Negra provocou um fervor religioso com manifestações coletivas de piedade, manifestada no patrocínio de obras de arte religiosas (com representação da morte, dos enterros ou dos corpos em decomposição, em esculturas e pinturas, como um aviso da sua ameaça aos vivos, surge o despertar do fanatismo em resultado do medo gerado pela peste). No entanto, isso não explica completamente por que o Renascimento ocorreu especificamente na Itália no século XIV. A Peste Negra foi uma pandemia que afetou toda a Europa das formas descritas, não apenas a Itália. O surgimento do Renascimento na Itália foi provavelmente o resultado da complexa interação dos fatores acima, em combinação com um influxo de estudiosos gregos após a queda do Império Bizantino.
Segunda pandemia de peste
A peste voltou repetidamente a assombrar a Europa e o Mediterrâneo ao longo dos séculos XIV a XVII. Segundo Jean-Noël Biraben, a peste estava presente em algum lugar da Europa todos os anos entre 1346 e 1671. No entanto, há pesquisadores que não possuem certeza a respeito do período exposto por Biraben. A segunda pandemia foi particularmente disseminada nos anos seguintes: 1360–1363; 1374; 1400; 1438–1439; 1456–1457; 1464–1466; 1481–1485; 1500–1503; 1518–1531; 1544–1548; 1563–1566; 1573–1588; 1596–1599; 1602–1611; 1623–1640; 1644–1654; e 1664–1667. Os surtos subsequentes, embora graves, marcaram um retrocesso da maior parte da Europa (século XVIII) e norte da África (século XIX). Segundo Geoffrey Parker, "só a França perdeu quase um milhão de pessoas devido à peste na epidemia de 1628–1631".
Terceira pandemia de peste
A terceira pandemia de peste (1855) foi uma grande pandemia de peste bubônica que começou em Iunã, China, durante o quinto ano do imperador Xianfeng da dinastia Qing. Espalhou-se por todos os continentes habitados e vitimou 10–12 milhões de pessoas somente na Índia e China, tornando uma das pandemias mais mortais da história — estima-se que mais de 15 milhões de pessoas mundialmente. Um reservatório natural ou nicho da peste centrou-se no oeste de Iunã. A terceira pandemia de peste se originou na área após um rápido influxo de chineses Han demandarem por minerais, principalmente o cobre, na segunda metade do século XIX. Em 1850, a população se expandiu para mais de 7 milhões de pessoas. O aumento do transporte em toda a região colocou as pessoas em contato com pulgas infectadas pela peste, o principal vetor entre o rato de peito amarelo — Rattus flavipectus — e humanos. Muitos trouxeram pulgas e ratos de volta às crescentes áreas urbanas, onde pequenos surtos às vezes atingiam proporções epidêmicas. A praga se espalhou ainda mais depois que as disputas entre os mineiros chineses Han e muçulmanos Hui no início da década de 1850 irromperam em uma revolta violenta, conhecida como a Revolta dos Panthay, que levou a novos deslocamentos por movimentos de tropas e migrações de refugiados. O surto da peste ajudou a recrutar pessoas para a Rebelião Taiping. A praga começou a aparecer nas províncias de Guangxi e Guangdong, na Ilha de Hainan e depois no delta do rio das Pérolas, incluindo Guangdong e Hong Kong. Embora o historiador William H. McNeill e outros acreditassem que a praga tenha sido trazida do interior para as regiões costeiras por tropas que retornavam das batalhas contra os rebeldes muçulmanos, Benedict sugeriu evidências a favor do crescente e lucrativo comércio de ópio, que começou depois de cerca de 1840. Na cidade de Guangzhou, a partir de março de 1894, a doença matou 80 mil pessoas em poucas semanas. O tráfego diário de água na cidade vizinha de Hong Kong espalhou rapidamente a doença. Em dois meses, após 100 mil mortes, as taxas de mortalidade caíram abaixo das taxas de epidemia, mas a doença continuou a ser endêmica em Hong Kong até 1929.


