Revolução Constitucionalista de 1932
A Revolução Constitucionalista de 1932, também conhecida como Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, foi um movimento armado que ocorreu no Brasil entre julho e outubro de 1932. Centrado principalmente no estado de São Paulo, seu objetivo era derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e pressionar pela constitucionalização do país. O movimento é amplamente reconhecido por ter impulsionado a convocação da Assembleia Nacional Constituinte de 1934, evitando a extensão indefinida do Estado de exceção instaurado em 1930 por meios ditatoriais.
Pontos-chave
- Movimento armado em São Paulo para derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas.
- Ocorreu de julho a outubro de 1932, com foco na constitucionalização do Brasil.
- Amplamente creditado por possibilitar a Assembleia Nacional Constituinte de 1934.
- Buscou evitar a extensão indefinida do Estado de exceção de 1930.
- Considerado um dos maiores conflitos da história brasileira no século XX.
Entenda os eventos e tensões políticas que culminaram na Revolução Constitucionalista de 1932, desde o rompimento da política do café com leite até a crescente insatisfação paulista com o governo provisório de Getúlio Vargas.
A Revolução de 1930 e o Fim da Política do Café com Leite
Na primeira metade do século XX, São Paulo prosperava com a industrialização e a cafeicultura, influenciando a política nacional através da 'política do café com leite', que alternava presidentes paulistas e mineiros. Em 1929, o presidente Washington Luís rompeu essa tradição ao indicar o paulista Júlio Prestes para a sucessão presidencial, preterindo Minas Gerais. Essa decisão levou Minas Gerais a se aliar ao Rio Grande do Sul, prometendo apoio a Getúlio Vargas, que então se candidatou à presidência, culminando na Revolução de 1930 e na ascensão de Vargas ao poder.
A Crescente Revolta Paulista contra Vargas
Apesar da nomeação do paulista Pedro de Toledo como interventor em São Paulo, a irritação dos paulistas com Getúlio Vargas persistia. Tanto Toledo quanto seu antecessor, Laudo Ferreira de Camargo, não tinham autonomia para governar devido à constante interferência dos tenentes e da ditadura. Manifestações como o comício de 25 de janeiro de 1932 na Praça da Sé, com 200 mil pessoas, e diversos outros em maio, demonstravam a insatisfação. Figuras como João Alberto Lins de Barros e Miguel Costa eram vistas como 'donatários de São Paulo', impedindo a livre formação do secretariado e da chefia de polícia, evidenciando a falta de controle efetivo do interventor.
Detalhes do início do levante armado em 9 de julho de 1932, as forças envolvidas, as estratégias e os desafios enfrentados pelos combatentes, incluindo a questão do separatismo e a disparidade de recursos entre os lados.
O Início do Levante e a Unidade das Forças Paulistas
O levante armado eclodiu em São Paulo às 20h30 de 9 de julho de 1932, com a união da Força Pública de São Paulo, unidades do Exército da 2ª Região Militar e grupos civis armados. O coronel Júlio Marcondes Salgado, comandante geral da Força Pública, informou ao general Bertoldo Klinger, Comandante Supremo do Exército Constitucionalista, que o movimento foi vitorioso em poucas horas, sem resistência, e contou com a colaboração do General Izidoro e dos Coronéis Euclydes Figueiredo e Palimercio Rezende. As tropas do Exército e da Força Pública seguiram em direção a Cruzeiro, e o governo paulista estava totalmente integrado ao movimento constitucionalista.
A Questão do Separatismo Paulista
Dentro da liderança da Revolução Paulista, havia grupos separatistas que almejavam a independência de São Paulo como uma república soberana ou a formação de uma confederação de estados. Entre os defensores dessa ideia estavam o presidente do Tribunal de Justiça, Costa Manso, e os escritores José Alcântara Machado e Monteiro Lobato, além do historiador Alfredo Ellis Junior. Monteiro Lobato, em especial, documentou o desejo de independência, expressando em carta a Waldemar Ferreira, em 10 de agosto, que para os paulistas havia apenas dois caminhos: hegemonia ou separação, revelando o sentimento profundo por trás das palavras oficiais.
As Forças Envolvidas no Conflito
No início da revolução, os paulistas controlavam a 2ª Divisão do Exército Brasileiro (em São Paulo) e parte da Brigada Mista do Mato Grosso, totalizando cerca de 11.000 a 15.000 homens, reforçados pela Força Pública Paulista e milícias do MMDC. Milhares de voluntários se juntaram, com autores como Hilton estimando 40 batalhões e García de Gabiola identificando até 80. Contudo, a escassez de armamento (15.000 a 29.000 rifles) limitou o número de combatentes a no máximo 35.000. A falta de munição (6 milhões de cartuchos para 3 meses de guerra) foi crítica. O governo federal, por sua vez, mobilizou cerca de 100.000 homens, mantendo um terço na retaguarda, resultando em uma superioridade numérica de aproximadamente 2 para 1 nas frentes de combate.
Resumo das Operações Militares
A principal frente de combate era o Vale do Paraíba oriental, rota para o Rio de Janeiro. A 2ª Divisão paulista avançou, mas foi contida pela leal 1ª Divisão, comandada pelo General Góis Monteiro, na divisa entre Rio de Janeiro e São Paulo. Góis Monteiro formou o Destacamento Leste, com 20.000 a 24.000 homens, contra 8.000 a 12.000 paulistas. Após três meses de guerra de trincheiras e um avanço de 70 quilômetros, as forças governistas ainda estavam a 150 quilômetros de São Paulo quando a guerra terminou.
As Frentes de Combate e a Estratégia Paulista
O Vale do Paraíba, conhecido como 'setor norte' pelas tropas paulistas, era a principal via de acesso ao Rio de Janeiro e considerado o teatro militar central. O plano inicial previa a tomada de Resende (RJ), aguardando a adesão de tropas mineiras do Exército e da Força Pública Mineira, para então marchar rapidamente sobre o Rio de Janeiro, capital do país, e depor Getúlio Vargas. A demora na execução, na expectativa da adesão mineira e de outros estados, foi crucial. As tropas mineiras, contudo, uniram-se às forças federais e partiram para a ofensiva, forçando os paulistas a improvisar trincheiras defensivas nas fronteiras com Minas Gerais e Rio de Janeiro para proteger seu próprio território.
Inovação Bélica: Os Trens Blindados
Em 1932, São Paulo, com sua vasta rede ferroviária de 7 mil quilômetros, utilizou os trens para transporte de tropas e suprimentos. Inspirados nas experiências da Primeira Guerra Mundial, os paulistas desenvolveram trens blindados. No final de julho de 1932, surgiu o protótipo TB-1 ('Trem Blindado nº 1'), resultado de uma colaboração entre a Escola Politécnica de São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas e a Cia Ferroviária Sorocabana. O projeto foi concebido pelo engenheiro francês Clément de Baujaneau e montado pelo engenheiro Augusto Ferreira Velloso, da Escola Politécnica.
Análise das consequências diretas do conflito, incluindo o exílio de líderes, o número de baixas e as diferentes interpretações históricas do movimento, além da preservação da memória e do impacto cultural da Revolução de 1932.
Preservação da Memória e dos Ideais de 1932
O 9 de julho é feriado civil e data magna em São Paulo, instituído pela lei nº 9.497 de 1997. Anualmente, um desfile cívico-militar é realizado na capital (atualmente no Parque do Ibirapuera) e em cidades do interior, em memória aos combatentes. Restos mortais de veteranos são depositados no Mausoléu do Soldado Constitucionalista. A Prova Ciclística 9 de Julho, criada por Cásper Líbero em 1933, também celebra a data. Além disso, um grupo de paulistas realiza a 'Caminhada 9 de Julho', percorrendo 927 km de Rubineia a Cruzeiro, buscando o recorde de maior caminhada cívica do mundo, para manter viva a história do movimento.
O Impacto Cultural da Revolução
Após o conflito, houve um grande esforço de ex-combatentes e participantes diretos para publicar suas experiências. Autores como Paulo Duarte, Menotti Del Picchia, Alfredo Ellis Junior, Guilherme de Almeida e Arnon de Mello lançaram obras sobre a revolução. Somente em 1933, 67 livros foram publicados, e seis anos depois, o total acumulado era de 170. Trinta anos após o conflito, Aureliano Leite catalogou cerca de 600 títulos, formando um valioso acervo histórico e literário. A Revolução também inspirou importantes obras da literatura brasileira, como o romance 'Éramos Seis', de Maria José Dupré, publicado em 1943.
Uma lista de obras importantes que abordam a Revolução Constitucionalista de 1932, oferecendo diferentes perspectivas e aprofundamentos sobre o tema.


