Abaporu
Abaporu é uma pintura a óleo da artista brasileira Tarsila do Amaral. É uma das principais obras do período antropofágico do movimento modernista no Brasil. Foi pintada por Tarsila para presentear seu então marido, Oswald de Andrade, em seu aniversário, em janeiro de 1928.
Imagem: Ana Elisa. · BY-NC · Openverse
Foi pintada em óleo sobre tela, em janeiro de 1928, por Tarsila do Amaral (1886-1973) como presente de aniversário ao escritor Oswald de Andrade, seu marido na época. O nome da obra foi conferido por ele e pelo poeta Raul Bopp, que indagou a Oswald ao ver o quadro: "Vamos fazer um movimento em torno desse quadro?". E também é uma referência para a criação da Antropofagia modernista brasileira, ou Movimento Antropofágico, que se propunha a deglutir a cultura estrangeira e adaptá-la ao Brasil. Outras obras de Tarsila em sua fase antropofágica: A Lua (1928), O Lago (1928), Cartão Postal (1929) e Sol Poente (1929). A escolha das cores, formas e perspectiva da obra refletem o desejo de Tarsila de mostrar o Brasil de verdade. “Tarsila desembarcava do ‘Massilia’, navio de luxo vindo de Paris, trazendo na bagagem tintas bonitas, muitos vestidos elegantes e muita renovação”. O quadro faz parte da fase antropofágica de Tarsila que, assim como a fase pau-brasil, é considerada uma das mais importantes dentro da vida da pintora. Influenciada pelo cubismo, esse período na carreira da artista permitiu a ela fazer uma leitura visual das estruturas da sociedade brasileira.
Itinerário da obra
Pintado como presente de aniversário para o então marido Oswald de Andrade, quando Tarsila e ele se separaram, o escritor aceitou trocar o quadro por um mais valorizado à época, O Enigma de Um Dia, de Giorgio de Chirico. O Abaporu permaneceu com a autora. A tela foi exibida várias vezes publicamente nos anos seguintes: em 1928, pela primeira vez, em Paris; no ano seguinte, fez parte das duas primeiras mostras individuais de Tarsila, uma em São Paulo, outra no Rio. Novamente, em 1933, no Rio de Janeiro, em 1950 e 1952 no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo . O Abaporu participou também da VII Bienal Internacional de Arte de São Paulo em 1963, e da XXXII Bienal de Veneza em 1964.
Abaporu no Brasil
Apesar de ser um dos símbolos do modernismo brasileiro, Abaporu não esteve na Semana de Arte Moderna de 1922, pois o quadro seria pintado somente em 1928. Em 1922, na data da realização da Semana (11 a 18 de fevereiro), Tarsila estava em Paris em busca de uma identidade artística e só retornaria ao país no final daquele ano. Desde que Costantini adquiriu a tela em 1995, ela foi exposta no Brasil algumas vezes. Em 1998, em uma mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) que exibia obras do empresário argentino. Em 2002, esteve na Faap para a exposição Da Antropofagia a Brasília. Já em 2008, a pintura brasileira participou de Tarsila Viajante, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Mais uma vez na Faap, fez parte de Mulheres, Artistas e Brasileiras em 2011. Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, o quadro esteve no Museu de Arte do Rio (MAR) na exposição A Cor do Brasil. Em 5 de abril de 2019, foi exposta pela primeira vez no Museu de Arte de São Paulo (MASP). De acordo com a sobrinha-neta da artista, Tarsilinha do Amaral, era seu sonho que o quadro fosse exposto no local.
Imagem: abaporu · BY · Openverse
Gonzalo Aguillar em seu artigo “O Abaporu, de Tarsila do Amaral: saberes do pé” mencionado em Antropofagia hoje? Oswald de Andrade em Cena, livro de Jorge Ruffinelli e João Cezar de Castro Rocha, pensa o Abaporu na qualidade do gênero de retrato anti-humano, pois o rosto é apagado, o corpo é animalesco, porém os pés são bastante humanos e detalhados. Para Aguillar, a gestualidade humana do quadro é parodiada. O homem do quadro é desprovido de identidade, quase desumanizado. Ortega y Gasset, em "A desumanização da arte", trata da arte e das vanguardas modernas do início do século XX como "nova arte". Para o autor, a desumanização, que tende a se distanciar do objeto e da realidade humana deformando-a pela ruptura e destruição de seu aspecto humano, é própria desta nova escola. Ou seja, a desumanização do Abaporu é uma tendência observada no período.[carece de fontes?] Para Ortega y Gasset, não se trata de pintar algo que seja completamente distinto de um homem, ou casa, ou montanha, mas sim de pintar um homem que pareça o menos possível com um homem, uma casa que conserve de tal o estritamente necessário para que assistamos à sua metamorfose, um cone que saiu milagrosamente do que era antes uma montanha, como a serpente sai de sua pele. O prazer estético para o artista novo emana desse triunfo sobre o humano; por isso é preciso concretizar a vitória e apresentar em cada caso a vítima estrangulada.
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Alguns estudiosos ligam a gestualidade do Abaporu a O Pensador de Rodin. Nádia Regina Maffi Reckel, em sua tese "A tessitura da textualidade em Abaporu" afirma que no 'Abaporu' a re-escritura do 'Pensador' não se dá apenas pela posição corporal da personagem, mas também pela estética do fragmento e do bloco. E, se juntarmos a isso a re-escrituração de brasilidade podemos compreender o texto por suas re-escriturações e, não apenas por sua forma ou conteúdo como é comumente lido pelos críticos de arte e educadores. Outra ligação entre as obras é exemplificada pelo fragmento de sol. No ambiente, a luz é externa, refletindo suas marcas no corpo da personagem e no cacto. O sol é uma referência ao sol brasileiro, à brasilidade da obra.
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A partir do século XXI, o Abaporu consolidou-se como um "metasímbolo" da identidade visual brasileira, sendo objeto de constantes releituras que tensionam o legado modernista sob novas perspectivas políticas, sociais e tecnológicas. Na fotografia, destaca-se o trabalho de Alexandre Mury (2010), que em sua série Tableau Vivant utiliza o próprio corpo para recriar a composição de Tarsila, obra que hoje integra os acervos do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) e do Museu da Fotografia Fortaleza (MFF). Vik Muniz, na série Metachrome (2018), reinterpretou a obra utilizando pigmentos puros, discutindo a materialidade e a iconicidade da pintura original. A década de 2020 trouxe uma forte vertente decolonial e revisionista à imagem. Artistas indígenas como Denilson Baniwa, em sua série Reantropofagia (2018), e Kadu Tapuya, com a colagem digital Tapuya Abaporu (2022), promovem o que críticos chamam de "reapropriação para a reparação", questionando o exotismo e o apagamento do protagonismo indígena no modernismo de 1922. No campo da pintura contemporânea, Rodolpho Parigi criou Latex Abaporu Volumen (2024), obra de grandes dimensões (153 x 153 cm) doada ao acervo do MASP, que funde a estética orgânica de Tarsila com discussões sobre o corpo e a identidade LGBTQIA+. Outras intervenções críticas incluem a série de Andrey Zignnatto, Abaporu (Estudos sobre métodos de grilagem cultural) (2020), que utiliza a silhueta da obra para debater a posse de terra e o apagamento cultural.


