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Misticismo

Misticismo é o contato com uma verdade espiritual, divindade ou Deus através da experiência direta ou intuitiva.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 12/07/2026
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Visão geral

A palavra "místico" foi empregada pela primeira vez no Mundo Ocidental nos escritos atribuídos a Dionysius, o Areopagite, que apareceu no final do século V. Dionysius empregou a palavra para expressar um tipo de "teologia", mais do que uma experiência. Para ele e para muitos intérpretes, desde então, o misticismo tem se baseado em uma teoria ou sistema religioso que concebe Deus como absolutamente transcendente, além da Razão, do pensamento, do intelecto e de todos os processos mentais. A palavra, desde então, tem sido usada para os tipos de "conhecimento" esotérico e teosófico, não suscetíveis de verificação. A essência do misticismo é a experiência da comunicação direta com Deus. A palavra "misticismo" tem origem no termo grego μυστικός = "iniciado" (nos Mistérios de Elêusis, μυστήρια = "mistérios", referindo-se as "Iniciações"). É a busca para alcançar comunhão ou identidade consigo mesmo, com o divino, com a Verdade espiritual, ou com Deus através da experiência direta, intuição ou insight; e a crença de que tal experiência é uma fonte importante de conhecimento, entendimento e sabedoria. As tradições podem incluir a crença na existência literal de realidades empíricas, além da percepção, ou a crença de que uma "verdadeira" percepção humana do mundo transcende o raciocínio lógico ou a compreensão intelectual.

Definições

Uma definição de misticismo não poderia ser ao mesmo tempo significativa e de abrangência suficiente para incluir todos os tipos de experiências, que têm sido descritas como "místicas". Por definição natural, misticismo é a crença através da prática, estudo e aplicação das leis que unem o homem à Natureza. Desta forma, a mística se distingue da religião por referir-se à experiência direta com o divino, transcendendo sem a necessidade de intermediários.

Na teologia

Conjunto de práticas religiosas que levam à contemplação dos atributos divinos. Estado natural ou disposição para as coisas místicas, religiosas; religiosidade.

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História do termo

Mundo helenístico

No mundo helenístico, a palavra "místico" se referia a rituais religiosos secretos, como os Mistérios de Elêusis. O uso do termo não tinha ligações diretas com o transcendental. Um mystikos era um iniciado em uma religião de mistério.

Cristianismo primitivo

No cristianismo primitivo, a palavra mystikos se referia a três dimensões, que logo se confundiramː a bíblica, a litúrgica e a espiritual ou contemplativa. A dimensão bíblica se refere a interpretações alegóricas ou secretas da Bíblia. A dimensão litúrgica se refere ao mistério litúrgico da eucaristia, ou seja, à presença de Cristo na eucaristia. A terceira dimensão é o conhecimento experimental ou contemplativo de Deus. Até o século VI, o termo grego theoria, significando "contemplação" em latim, era usado para a interpretação mística da Bíblia. A ligação entre misticismo e a visão do divino foi introduzida pelos primeiros Padres da Igreja, que usavam o termo como um adjetivo, como em "teologia mística" e "contemplação mística". Sob a influência do Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a teologia mística passou a significar a investigação da verdade alegórica da Bíblia, e "a consciência espiritual do Absoluto inefável além da teologia dos nomes divinos". A teologia negativa do Pseudo-Dionísio exerceu uma grande influência na religiosidade monástica medieval. Ela foi influenciada pelo neoplatonismo, e foi muito influente na teologia da Igreja Ortodoxa. No cristianismo ocidental, foi uma contracorrente à teologia que prevaleceu, a teologia positiva.

Sentido medieval

Esse triplo sentido de "místico" continuou na Idade Média. De acordo com Dan Merkur, a expressão unio mystica surgiu no século XIII como um sinônimo para "casamento espiritual", ou êxtase, que era experimentado quando a oração era usada "para contemplar tanto a onipresença de Deus no mundo quanto Deus em sua essência". Sob a influência do Pseudo-Dionísio, o Areopagita, a teologia mística passou a denotar a investigação da verdade alegórica da Bíblia, e "a consciência espiritual do Absoluto inefável além da teologia dos nomes divinos". A teologia negativa do Pseudo-Dionísio exerceu uma grande influência na religiosidade monástica medieval, embora ela fosse uma religiosidade predominantemente masculina, pois não era permitido que as mulheres estudassem. Ela foi influenciada pelo neoplatonismo, e foi muito influente na teologia da Igreja Ortodoxa. No cristianismo ocidental, foi uma contracorrente à teologia que prevaleceu, a teologia positiva. É mais conhecida atualmente no mundo ocidental graças a Mestre Eckhart e a João da Cruz.

Sentido moderno inicial

Nos séculos XVI e XVII, "misticismo" passou a ser usado como um substantivo. Essa mudança se ligou a um novo discurso, no qual ciência e religião eram separadas. Martinho Lutero dispensou a interpretação alegórica da Bíblia, e condenou a teologia mística, que ele via mais como platônica do que cristã. O místico, enquanto procura pelo significado oculto dos textos, se tornou secularizado, e também associado com a literatura, em oposição à ciência e à prosa. A ciência também se distinguiu da religião. Por volta de meados do século XVII, o místico passou a ser aplicado apenas ao âmbito religioso, separando religião e "filosofia natural" como duas abordagens distintas da descoberta do sentido oculto do universo. As hagiografias tradicionais e os escritos dos santos passaram a ser designados como "místicos", indo de virtudes e milagres até experiências extraordinárias e estados mentais, criando por conseguinte a nova expressão "tradição mística". Uma nova compreensão do divino como residindo dentro do ser humano, uma essência além da variedade das expressões religiosas.

Sentido contemporâneo

O século XIX viu uma crescente ênfase na experiência individual, como uma defesa contra o crescente racionalismo da sociedade ocidental. O significado de "misticismo" foi consideravelmente reduzidoː A competição entre perspectivas da ciência e da teologia resultou num compromisso no qual a maior parte das variedades do que era tradicionalmente chamado de misticismo foi rejeitado como meramente fenômeno psicológico, e apenas uma variedade, que visava à união com o Absoluto, o Infinito, ou Deus -e consequentemente a percepção da sua unidade essencial - foi tido como genuinamente místico. A evidência histórica, no entanto, não apoia tal concepção estreita de misticismo.

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Variações de misticismo

Baseado em várias definições de misticismo, principalmente misticismo como uma experiência de união ou de vazio, misticismo como um estado alterado de consciência que é adquirido de uma forma religiosa, misticismo como uma visão ou intuição, e misticismo como uma via de transformação, misticismo pode ser encontrado em várias culturas e tradições religiosas, tanto em religiões populares quanto em religiões organizadas. Essas tradições incluem práticas que induzem a experiências místicas ou religiosas, mas também padrões éticos e práticas para fortalecer o autocontrole e integrar a experiência mística na vida diária. Dan Merkur observa, no entanto, que as práticas místicas são sempre separadas das práticas religiosas diárias, e são restritas a "especialistas religiosos como monges, sacerdotes e renunciantes".

Misticismo ocidental

Os mistérios de Elêusis eram cerimônias anuais de iniciação aos cultos de Deméter e Perséfone. Eram realizados secretamente em Elêusis, perto de Atenas, na Grécia Antiga. Os mistérios começaram por volta de 1600 a.C., na civilização micênica, e continuaram por 2 000 anos, se tornando um grande festival durante o período helenístico, e posteriormente se expandindo para Roma. Numerosos acadêmicos propuseram que o poder dos mistérios de Elêusis vinha da ingestão da bebida ciceona (kykeon) como substância enteógena. A teologia negativa do Pseudo-Dionísio, o Areopagita (século VI), exerceu uma grande influência na religiosidade monástica medieval, tanto no oriente quanto (por tradução para o latim) no ocidente. O Pseudo-Dionísio aplicou o pensamento neoplatônico, particularmente o de Proclo, à teologia cristã.

Misticismo judaico

Na era comum, o judaísmo adquiriu dois tipos principais de misticismoː merkabah e cabala. O primeiro precedeu o segundo, e focava em visões, particularmente as mencionadas no livro de Ezequiel. Deriva seu nome da palavra hebraica que significa "carruagem", uma referência à visão de Ezequiel de uma carruagem de fogo composta por seres celestiais. A cabala é um conjunto de ensinamentos esotéricos que visa a explicar o relacionamento entre um Ain Soph ("Sem Fim") imutável, eterno e misterioso e o universo finito e mortal (sua criação). Dentro do judaísmo, forma as bases da interpretação religiosa mística. A cabala se desenvolveu originalmente inteiramente dentro do âmbito do pensamento judaico. Os cabalistas, frequentemente, usam fontes clássicas judaicas para explicar e demonstrar seus ensinamentos esotéricos. Esses ensinamentos, então, são mantidos por seguidores no judaísmo para definir o significado interior tanto da Bíblia hebraica quanto da literatura rabínica tradicional, bem como sua dimensão transmitida anteriormente oculta, e para explicar o significado das observâncias religiosas judaicas.

Misticismo islâmico

Considera-se que o sufismo é a dimensão interior e mística do islã. Clássicos acadêmicos sufistas definiram sufismo comoː [Uma] ciência cujo objetivo é a reparação do coração e seu afastamento de tudo que não é Deus. Um praticante dessa tradição é, atualmente, conhecido como um ṣūfī (صُوفِيّ), ou, num uso anterior, um dervixe. A origem da palavra "sufi" é ambígua. Uma interpretação diz que sufi significa "aquele que veste lã"; durante o islamismo inicial, existiam ascetas piedosos que se vestiam de lã e se retiravam da vida urbana. Uma outra explicação é que a palavra sufi significa "pureza". Geralmente, os sufis pertencem a uma khalqa, um círculo ou grupo, liderado por um Sheikh ou Murshid. Os círculos sufis, geralmente, pertencem a uma tariqa, que é a ordem sufi. Cada uma tem uma silsila, que é a linhagem espiritual, que registra sua sucessão desde notáveis sufis do passado, até chegar ao último profeta, Maomé, ou a um de seus colaboradores mais próximos. Os turuq (plural de tariqa) não ficam confinados como as ordens monásticas cristãs; seus membros mantêm uma vida externa. O pertencimento a uma ordem sufi segue as linhagens familiares. Os encontros podem ou não ser segregados, de acordo com o costume prevalecente na sociedade circundante. A fé muçulmana é sempre um pré-requisito para a entrada.

Religiões indianas

No hinduísmo, vários Sadhana têm, como objetivo, vencer a ignorância (avidhya) e transcender a identificação limitada com o corpo, mente e ego, para obter a moksha. O hinduísmo tem várias tradições ascéticas e escolas filosóficas interconectadas que têm, como objetivos, a moksha e a aquisição de poderes superiores. Com o início da colonização britânica da Índia, essas tradições passaram a ser interpretadas em termos ocidentais como "misticismo", encontrando termos e práticas ocidentais equivalentes. Ioga são práticas e disciplinas físicas, mentais e espirituais que visam a obter um estado de paz permanente. Várias tradições de ioga são encontradas no hinduísmo, budismo e jainismo. Os Ioga Sutras definem ioga como "a tranquilização dos estados mutáveis da mente", a qual é obtida no samádi.

Taoismo

A filosofia taoista centra-se no tao, usualmente traduzido como "caminho", um inefável princípio cósmico. Os contrastantes porém interdependentes conceitos de yin e yang também simbolizam harmonia, com as escrituras taoistas sempre enfatizando as virtudes yin da feminilidade, passividade e cessão. A prática taoista inclui exercícios e rituais que objetivam manipular a energia vital qi, e obter saúde e longevidade. Isso redundou em práticas que são bem conhecidas no ocidente, como o tai chi chuan.

A secularização do misticismo

Atualmente, também está ocorrendo, no ocidente, aquilo que Richard Jones chama de "secularização do misticismo". É a separação da meditação e outras práticas místicas de seu uso tradicional em modos religiosos de vida, para serem utilizadas apenas com finalidades seculares, relacionadas a benefícios fisiológicos e psicológicos.

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Abordagens acadêmicas do misticismo e das experiências místicas

Imagem: gianluca.golino · BY-NC-SA · Openverse

Tipos de misticismo

Robert Charles Zaehner distingue três tipos fundamentais de misticismoː teístico, monístico e natural. A categoria teística inclui a maior parte das formas de misticismo judeu, cristão e muçulmano e alguns exemplos ocasionais hindus, como Ramanuja e o Bhagavad Gita. O tipo monístico, que, de acordo com Zaehner, se baseia numa experiência de unidade com a alma de uma pessoa, inclui escolas budistas e hindus como o sânquia e o Advaita Vedânta. O misticismo natural parece se referir a exemplos que não se encaixam em nenhuma das duas categorias precedentes. Walter Terence Stace, no seu livro "Misticismo e filosofia" (1960), distinguiu dois tipos de experiência místicaː misticismo extrovertido e misticismo introvertido. Misticismo extrovertido é uma experiência de unidade do mundo externo, enquanto o misticismo introvertido é "uma experiência de unidade desprovida de objetos perceptíveis; é, literalmente, a experiência do nada". A unidade no misticismo extrovertido é com a totalidade dos objetos perceptíveis. Enquanto a percepção permanece contínua, "a unidade brilha através do mesmo mundo"; a unidade no misticismo introvertido é com a consciência pura, desprovida de objetos perceptíveis, "pura consciência unitária, em que a consciência do mundo e da multiplicidade é, completamente, obliterada". De acordo com Stace, tais experiências são não sensuais e não intelectuais, sob uma total "supressão de todo conteúdo empírico".

Experiências místicas

Desde o século XIX, experiência mística evoluiu como um conceito distinto. É relacionado estreitamente com "misticismo", mas enfatiza apenas o aspecto da experiência, seja ela espontânea ou induzida por comportamento humano, enquanto o misticismo abrange um maior espectro de práticas que objetivam a transformação da pessoa, não apenas a indução de experiências místicas. As Variedades da Experiência Religiosa, de William James, é o livro clássico sobre experiências místicas ou religiosas. Ele influenciou, profundamente, tanto a compreensão popular quanto a acadêmica sobre "experiência religiosa". Ele popularizou o uso da expressão "experiência religiosa", e influenciou a compreensão do misticismo como uma experiência distinta que fornece conhecimento do transcendentalː

Perenialismo versus construcionismo

A expressão "experiência mística" evoluiu como um conceito distinto a partir do século XIX, enfatizando apenas o aspecto experiencial, seja ele espontâneo, seja ele induzido por comportamento humano. Os perenialistas consideram que essas várias tradições experienciais apontam para uma realidade transcendente universal, de que essas tradições são a prova. Nesta abordagem, as experiências místicas são privadas, separadas do contexto da qual emergem. Representantes bem-conhecidos são William James, R.C. Zaehner, William Stace e Robert Forman. A posição perene é "largamente desconsiderada pelos acadêmicos", mas "não perdeu nada de sua popularidade".

Contextualismo e teoria da atribuição

Atualmente, a posição perenialista é "largamente rejeitada pelos acadêmicos", e a abordagem contextual se tornou a abordagem comum. O contextualismo leva, em conta, o contexto histórico e cultural das experiências místicas. A abordagem atributiva vê a "experiência mística" como estados não ordinários de consciência, que são explicados em uma estrutura religiosa. De acordo com Proudfoot, os místicos, inconscientemente, apenas atribuem um conteúdo doutrinário a experiências ordinárias. Ou seja, os místicos projetam conteúdo cognitivo em experiências de outro modo ordinárias que têm um forte impacto emocional. Essa abordagem foi mais desenvolvida por Ann Taves, em sua obra "Experiência religiosa reconsiderada". Ela incorpora tanto a abordagem cultural quanto a neurológica em seu estudo da experiência mística.

Pesquisa neurológica

A pesquisa neurológica possui uma abordagem empírica, relacionando experiências místicas a processos neurológicos. Isso leva a uma questão filosófica centralː a identificação dos gatilhos neuronais ou correlatos neurais das experiências místicas prova que as experiências místicas são apenas eventos cerebrais, ou ela apenas identifica a atividade cerebral que ocorre durante um evento cognitivo genuíno? As posições mais comuns são que a neurologia reduz as experiências místicas ou que a neurologia é neutra quanto à cognitividade mística. O interesse em experiências místicas e drogas psicodélicas viu um ressurgimento recentemente. O lobo temporal parece estar envolvido nas experiências místicas e na mudança de personalidade que pode resultar de tais experiências. Ele gera a sensação de "eu", e dá a sensação de familiaridade ou estranhamento às percepções dos sentidos. Existe uma noção de longa data de que epilepsia e religião estão ligadas, e existem algumas figuras religiosas que podem ter sofrido de epilepsia do lobo temporal.

Misticismo e moralidade

Uma questão filosófica no estudo do misticismo é a relação do misticismo com a moralidade. Albert Schweitzer apresentou a clássica opinião de que misticismo e moralidade são incompatíveis. Arthur Danto argumentou que a moralidade é incompatível ao menos com o misticismo indiano. Walter Stace, por outro lado, argumentou que misticismo e moralidade são não apenas compatíveis, mas o misticismo também é a fonte e a justificação da moralidade. Outros que estudaram múltiplas tradições místicas concluíram, no entanto, que a relação entre misticismo e moralidade não é tão simples assim. Richard King também apontou para a disjunção entre "experiência mística" e justiça socialː

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Fontes consultadas

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