Língua asturiana
A língua asturiana, historicamente também conhecido como bable, é uma língua indo-europeia pertencente ao ramo das línguas românicas. O termo designa a variedade falada no Principado das Astúrias do diassistema asturo-leonês, um contínuo linguístico ocidental da Península Ibérica que inclui ainda o leonês e o extremenho (castúo). O asturiano desenvolveu-se a partir do latim vulgar introduzido na região durante a romanização e apresenta traços fonológicos, morfológicos e lexicais próprios.
O termo asturiano deriva de "Astúrias", topônimo histórico que tem origem no etnônimo latino Astures, usado pelos autores clássicos para designar os povos pré-romanos do noroeste da Península Ibérica. A origem de Astures é incerta, sendo associada por alguns estudiosos a um elemento hidronímico pré-indoeuropeu *ast/*stur encontrado em nomes antigos de rios e lugares, o que sugere uma raiz geográfica anterior à romanização. Com a romanização, o adjetivo asturianus passou a qualificar o que pertencia ou estava relacionado às Astúrias, incluindo a língua falada na região. O principal endônimo da língua é asturianu, usado pelos falantes e documentado em dicionários etimológicos do próprio idioma. Historicamente, também se utilizou o nome bable para as variedades coloquiais asturianas. A origem de bable é debatida por filólogos, pois algumas fontes ligam o termo a usos populares antigos e a conotações de fala coloquial, do latim "fabula" (fala), enquanto outras indicam que o termo adquiriu sentido pejorativo, já que pode vir do latim "balbus" (gago, dissimulado), motivo pelo qual é hoje evitado em normas linguísticas oficiais. Entre os exônimos, asturiano é usado em português e em muitas outras línguas para se referir tanto à língua quanto a aspectos culturais e geográficos das Astúrias, formado a partir de Astúrias com o sufixo românico -ano.
O asturiano é falado sobretudo no Principado das Astúrias (norte da Espanha) e em áreas contíguas das províncias de Leão e Samora (Castela e Leão). Estima-se que cerca de 700 000 pessoas falam o idioma, sendo como língua nativa ou segunda língua. Pequenas comunidades de falantes existem também em Miranda do Douro (Trás-os-Montes, Portugal, onde a variedade local – o mirandês – é cooficial) e em algumas zonas do leste da Cantábria e do norte de Estremadura, além de centros de emigrantes na América Latina (especialmente Argentina e Uruguai). Geograficamente, o asturiano está delimitado ao norte pelo Mar Cantábrico e ao sul pela Cordilheira Cantábrica (rios como o Nalón e o Sella formam fronteiras naturais entre variantes); a região de maior uso concentra-se nas terras montanhosas centrais das Astúrias. A língua não tem status oficial, mas é protegida pelo Estatuto de Autonomia das Astúrias e pode ser ensinada como disciplina opcional na rede escolar daquela comunidade.
Dialetos e Línguas relacionadas
O asturiano pertence ao conjunto asturo-leonês ocidental das línguas românicas. Tradicionalmente divide-se em três grandes variedades regionais: Outras línguas intimamente relacionadas incluem: Comparação de termos recolhidos pelo questionário ALPI em diferentes pontos do domínio linguístico:
Plurilinguismo
O asturiano é distinto do espanhol. Há aproximadamente 80% de inteligibilidade com o espanhol — o suficiente para provocar uma ruptura na capacidade comunicativa. Nas zonas rurais isoladas, o espanhol é usado em ocasiões formais e com estrangeiros, nomeadamente pela população mais idosa. Durante um discurso formal, é comum ouvir frases formadas por palavras castelhanas misturadas com palavras asturianas, usando a gramática asturiana, que se assemelha mais à portuguesa que à gramática espanhola, isto passa-se pela afinidade linguística.
História da língua
A formação do asturiano remonta à romanização tardia do território dos ástures, iniciada no século I a.C. após as Guerras Cantábricas. O latim vulgar implantado na região sobrepôs-se a um substrato linguístico pré-indoeuropeu e céltico, absorvendo vocabulário relacionado à orografia, à flora e à vida rural (como vega, cotoya, cuetu, cachiparru e artu) que persiste no léxico atual. A evolução do idioma foi condicionada pela geografia montanhosa, que favoreceu o isolamento e a conservação de traços arcaicos, e pelas invasões germânicas dos suevos e visigodos, que contribuíram com um superstrato lexical, embora sem alterar a estrutura românica em formação. Com a criação do Reino das Astúrias (718–910), o idioma nascente expandiu-se geograficamente para o sul, acompanhando o repovoamento e a Reconquista, ultrapassando a Cordilheira Cantábrica e alcançando as atuais províncias de Leão, Zamora, Salamanca e o nordeste de Portugal. Durante a Alta Idade Média, o asturiano (ou asturo-leonês) consolidou-se como a língua vernácula do reino, coexistindo em situação de diglossia com o latim, que permanecia como língua da liturgia e da alta cultura escrita.
História literária
Embora traços linguísticos do asturiano já sejam identificáveis em documentos do século X, é a partir do século XIII que os registros escritos — como contratos, testamentos e escrituras notariais — se tornam abundantes. Entre os testemunhos mais antigos destacam-se o Fuero de Avilés de 1085 (o pergaminho mais antigo preservado nas Astúrias), o Fuero de Oviedo do século XIII e a versão leonesa do Fueru Xulgu. Durante o século XIII, tais documentos regulavam a vida legal das vilas e da população geral. Contudo, a partir da segunda metade do século XVI, sob a influência da dinastia de Trastâmara, a administração civil e eclesiástica do principado adotou o castelhano. Seguiu-se o período conhecido como sieglos escuros (séculos escuros), no qual o idioma desapareceu da escrita, sobrevivendo apenas na oralidade. A única exceção conhecida desse período é uma menção na obra de 1555 de Hernán Núñez sobre provérbios, que lista o asturiano ao lado de línguas como o português, galego e catalão. Este documento contém uma referência única, supostamente em asturiano: "Quien passa por Ruycande y no bebe, o muere de hambre, o no ha sede", Hernán Nunez, Refranes o Proverbios en romance..., Lérida, ano 1621, p. 81.
História do ensino
Historicamente excluído do sistema educacional e estigmatizado como marca de incultura durante a ditadura franquista, o ensino do asturiano tornou-se uma reivindicação central na Transição Espanhola, impulsionada pela campanha popular "Bable nes escueles" iniciada em 1974 pela associação Conceyu Bable. A introdução formal no currículo ocorreu no ano letivo de 1984-1985, inicialmente como projeto piloto em seis escolas públicas. A consolidação legal veio com a Lei 1/1998 de Uso e Promoção, que obriga todos os centros de ensino fundamental e médio das Astúrias a ofertarem a disciplina de Língua Asturiana e Literatura, embora a matrícula permaneça voluntária para os alunos, competindo como optativa. A formação específica dos professores é realizada pela Universidade de Oviedo, que oferece a especialização através de um Minor e menções na graduação em Magistério.
A fonologia do asturiano é descrita pela Academia da Língua Asturiana através da distinção entre as unidades funcionais (fonemas) e as suas realizações materiais (fones). O sistema fonológico asturiano é constituído por um inventário vocálico de cinco unidades e um inventário consonantal de dezenove fonemas. A estrutura silábica organiza-se em torno de um núcleo vocálico obrigatório, podendo apresentar margens consonantais complexas. O asturiano não é uma língua tonal, não utilizando variações de altura para distinção lexical ou gramatical de palavras. Ocorre, no entanto, o uso da entonação (signo entonativo) como elemento suprassegmental para distinguir modalidades de enunciados (ver seção Prosódia).
Consoantes
O sistema consonantal do asturiano conta com 19 fonemas. O inventário organiza-se em três ordens de localização para as obstruentes (labial, dental e velar) e apresenta oposições de sonoridade (surdo/sonoro) nas oclusivas. Entre as particularidades do sistema, destaca-se a distinção fonológica entre a lateral alveolar /l/ e a lateral palatal /ʎ/, bem como a presença de uma fricativa palatal surda /ʃ/. Existem fenômenos de neutralização que levam à formação de arquifonemas em posição final de sílaba. As consoantes oclusivas sonoras /b/, /d/ e /g/ possuem alofones fricativos ou aproximantes em contextos intervocálicos, embora sejam fonologicamente classificadas como oclusivas.
Vogais
O sistema vocálico do asturiano é composto por cinco fonemas, definidos por três graus de abertura (mínima, média e máxima) e três graus de localização ou anterioridade (anterior, central e posterior). Este sistema manifesta-se plenamente em posição tônica, onde o valor distintivo é claro (ex: sacu / secu; pisu / posu). Em posição átona, a frequência de oposições diminui, especialmente entre as vogais médias e fechadas (/e/ vs. /i/ e /o/ vs. /u/). O idioma possui três tipos de ditongos: crescentes (vocal fechada na margem prenuclear + núcleo), decrescentes (núcleo + vocal fechada na margem posnuclear) e indiferentes (duas vogais fechadas).
Transformações fonológicas
A realização dos fonemas asturianos sofre diversas modificações dependendo do contexto fonético (alofonia) e da posição na sílaba.
Fonotática
A sílaba em asturiano é constituída por um núcleo obrigatório e margens opcionais. O núcleo silábico é sempre ocupado por uma vogal.
Prosódia
A prosódia do asturiano engloba o acento de intensidade e a entonação.
O sistema de escrita do asturiano baseia-se no alfabeto latino. A direção da escrita é horizontal, da esquerda para a direita e de cima para baixo. A ortografia moderna foi normatizada em 1981 pela Academia da Língua Asturiana (ALLA), visando uma representação fonológica coerente com as variedades centrais do idioma, mas com soluções gráficas que acomodam particularidades dialetais. O alfabeto asturiano padrão conta com 23 letras (a, b, c, d, e, f, g, h, i, l, m, n, ñ, o, p, r, s, t, u, v, x, y, z), além de cinco dígrafos (ch, gu, ll, qu, rr). As letras ⟨j⟩, ⟨k⟩ e ⟨w⟩ são utilizadas apenas em estrangeirismos e empréstimos não adaptados.
Tabela de grafemas e fonemas
A tabela abaixo apresenta a correspondência entre os grafemas (letras e dígrafos) do asturiano e os seus valores fonêmicos no AFI, bem como exemplos aproximados de pronúncia em português ou outras línguas.
Grafias dialetais
A norma asturiana permite o uso de grafemas especiais para representar sons específicos de variantes dialetais, especialmente quando se transcrevem textos orais ou literários dessas zonas.
Diacríticos e pontuação
O asturiano utiliza três diacríticos principais sobre as vogais e um sinal de elisão: Além destes, o asturiano utiliza os sinais de pontuação invertidos no início de frases interrogativas (¿) e exclamativas (¡), característica compartilhada com o castelhano.
O asturiano é uma língua flexiva, fundindo múltiplas categorias gramaticais em uma única palavra (sintética), e apresenta uma ordem de constituintes básica do tipo Sujeito-Verbo-Objeto (SVO), embora possua flexibilidade pragmática. A sua estrutura gramatical partilha muitas características com outras línguas ibero-românicas, como o gênero gramatical e o número, mas distingue-se por traços específicos como o neutro de matéria e a posição dos clíticos pronominais.
Artigos
O asturiano possui artigos definidos e indefinidos que antecedem o substantivo e concordam com ele em gênero e número. Existe também uma forma específica para o neutro. Uma característica marcante da morfologia asturiana é a fusão sistemática de certas preposições com os artigos definidos. Enquanto preposições como a, de, pa (para) e so (sob) contraem apenas com o artigo masculino singular (el), as preposições con, en, per e por contraem com todas as formas do artigo. O asturiano utiliza o apóstrofo ( ’ ) para representar graficamente a elisão da vogal do artigo singular quando este se encontra com uma palavra iniciada por vogal, refletindo a pronúncia natural:
Pronomes
Os pronomes no asturiano constituem uma classe de palavras especializada na referência direta às pessoas gramaticais ou na substituição de sintagmas nominais, apresentando flexões de gênero, número e, especificamente nos pronomes pessoais, de caso gramatical e pessoa. Os pronomes pessoais dividem-se em duas séries morfossintáticas distintas: tônicos (independentes, com acento próprio) e átonos (clíticos, dependentes do verbo). O sistema distingue três pessoas gramaticais e dois números (singular e plural), com distinções de gênero específicas no plural da primeira e segunda pessoas, e uma forma neutra na terceira pessoa do singular. Colocação e combinação: Os pronomes átonos podem aparecer em posição enclítica (pós-verbal) ou proclítica (pré-verbal). A ênclise é a norma geral (dixéron-yos, disseram-lhes), enquanto a próclise é obrigatória em orações negativas (nun-yos dixeron, não lhes disseram) e na maioria das subordinadas. Quando combinados, a ordem é sempre Indireto + Direto (ex: diome el llibru > diómelu, deu-me ele).
Substantivos e adjetivos
Os substantivos em asturiano variam em gênero e número. O gênero gramatical divide-se fundamentalmente em masculino e feminino. Geralmente, os substantivos terminados no grafema ⟨u⟩ são masculinos (ex: el llobu, o lobo) e os terminados no grafema ⟨a⟩ são femininos (ex: la casa). Um traço distintivo fundamental da gramática asturiana é a existência do neutro de matéria (neutru de materia). Diferente do gênero neutro latino (que se aplicava a substantivos), o neutro asturiano manifesta-se na concordância de adjetivos e pronomes quando se referem a substantivos incontáveis (massa, substância ou conceitos abstratos), independentemente de o substantivo ser morfologicamente masculino ou feminino.
Verbos
O verbo é a categoria gramatical que funciona como núcleo da oração e apresenta a maior complexidade morfológica do idioma. O sistema verbal asturiano organiza-se em três conjugações, definidas pela vogal temática do infinitivo: a 1.ª conjugação (infinitivos terminados no grafema ⟨ar⟩), a 2.ª conjugação (infinitivos em ⟨er⟩) e a 3.ª conjugação (infinitivos em ⟨ir⟩). A estrutura interna de uma forma verbal compõe-se de um lexema (raiz), que porta o significado léxico, e de desinências que indicam as categorias gramaticais de pessoa, número, modo, tempo, aspeto e anterioridade. As desinências verbais amalamam diversas informações gramaticais que estruturam a conjugação:
Sentenças
A sintaxe asturiana estrutura-se através de uma ordem de constituintes flexível, regida por critérios pragmáticos e informativos, e por um sistema de alinhamento nominativo-acusativo. As relações gramaticais são estabelecidas pela concordância verbal, pela posição relativa dos elementos, pelo uso de preposições funcionais e, fundamentalmente, pelo complexo sistema de colocação dos clíticos pronominais. A ordem não marcada (neutra) na oração declarativa é Sujeito-Verbo-Objeto (SVO). Contudo, a língua permite variações frequentes para fins de focalização (destaque de informação nova) ou topicalização (destaque de informação conhecida). O asturiano apresenta um alinhamento morfossintático do tipo nominativo-acusativo. O sujeito de verbos transitivos e intransitivos é tratado da mesma forma (caso nominativo não marcado), enquanto o objeto direto e indireto recebem tratamento distinto através de preposições ou formas pronominais.
O léxico asturiano é predominantemente de origem latina, partilhando uma base comum significativa com as outras línguas românicas da Península Ibérica, especialmente o leonês, o galego e o castelhano. No entanto, conserva um número relevante de pré-romanismos (substrato) e possui empréstimos históricos e modernos. A seguir, apresentam-se exemplos de uso prático, textos ilustrativos e o sistema numérico.
Expressões do dia a dia
Para uma comunicação básica em asturiano, utilizam-se fórmulas de cortesia e expressões pragmáticas que, embora semelhantes ao espanhol e ao português, possuem particularidades fonéticas e lexicais. Destaca-se o uso do verbo prestar com o sentido de "gostar" ou "agradar" (ex: préstame, gosto disto), uma das características mais emblemáticas da fala asturiana.
Texto de exemplo (Pai Nosso)
Abaixo apresenta-se o "Pai Nosso" nas três principais variantes dialetais do asturiano, permitindo observar as diferenças na vocalização final, nos possessivos e em traços como o "h aspirado" (ḥ) do oriental.
Numerais
Os numerais em asturiano classificam-se em cardinais, ordinais, multiplicativos, fracionários e coletivos. Apresentam regras específicas de concordância de gênero e apócope que os distinguem em certos aspetos do castelhano. Os numerais cardinais expressam quantidade exata. Os números de 0 a 15 possuem formas simples, enquanto a partir do 16 iniciam-se formas compostas (embora 16-19 sejam escritas numa só palavra). Os ordinais indicam ordem ou sucessão. Possuem variação de gênero e número. Do 1.º ao 10.º possuem formas próprias de uso corrente; a partir do 11.º, é comum o uso dos cardinais na fala corrente. Existem formas específicas para postreru (o que está antes do último) e caberu (último), muito usadas no idioma.


