Língua galega
A língua galega ou galego é a língua ibero-românica ocidental de caráter oficial na Comunidade Autónoma da Galiza, falada também nas Astúrias, Castela e Leão e pela diáspora galega, localizada principalmente na Argentina, Brasil, Cuba e Uruguai.
Imagem: Galahad1822 · BY-SA · Openverse
A língua galega vem do galego-português, que se expandiu para sul juntamente com a expansão da Reconquista Cristã, sobrepondo-se aos dialectos moçárabes, ou seja, à língua falada pelos cristãos sob domínio muçulmano. Era língua autóctone a norte do rio Douro e língua de colonização a sul do mesmo.
Isolamento
Com a proclamação de Portugal como um estado independente, a Galiza ficou confinada ao extremo noroeste da Península Ibérica. Aqui começaram os dois ramos a divergir, com a minorização da variedade galega na Galiza, que ademais ficou progressivamente influenciada pela língua castelhana, e com o estabelecimento da variedade de Lisboa como a norma em Portugal. Assim o descreveu o cronista Duarte Nunes de Leão no século XVII: Da qual língua galega a portuguesa se avantajou tanto, quanto na cópia e elegância dela vemos. O que se causou por em Portugal haver reis e corte, que é a oficina onde os vocábulos se forjam e pulem, e donde manam para os outros homens.
Expulsão da escrita e desprestígio: os Séculos Escuros
Após a Revolta Irmandinha de 1467 e o consequente enfraquecimento da nobreza galega, a Monarquia Castelhana aumentou cada vez mais o controle real sobre o Reino da Galiza, expulsando, submetendo e favorecendo indiretamente a substituição das elites nobiliárias. Assim, por exemplo, grandes nobres como o conde de Monterrei, o conde de Altamira, Diego de Andrade ou Fernando de Castro foram obrigados a abandonar as suas terras e ficar na corte castelhana. Isto conseguiu mesmo acrescentar a castelhanização das elites galegas, que foram cada vez mais integradas nas castelhanas. Testemunha disso é a progressiva castelhanização dos seus nomes, como Afonso para Alonso. Os monarcas de Castela instalaram no reino uma Real Audiência, corregedores castelhanos e outros mecanismos dedicados a pacificar e controlar o território. Por ser o castelhano a língua oficial de toda a administração monárquica, o galego foi cada vez mais relegado da função pública.
O século XIX: nacionalização espanhola e Rexurdimento cultural
Na segunda metade do século XIX, com um galego bastante fragmentado, estigmatizado e visto como um meio de comunicação reservado ao meios rurais, nasceu um movimento chamado o "Ressurgimento" (Rexurdimento em galego), tal como aconteceu na Catalunha. Protagonistas iniciais do processo foram personalidades como Manuel Murguía, Eduardo Pondal, Rosalía de Castro, Manuel Curros Enríquez, ou Alfredo Brañas, que visavam à propagação e cultivo do idioma de modo a torná-lo uma língua de prestigio. O sucesso foi tal que grandes escritores, estrangeiros e nativos da língua galega, seguiram as suas ideologias e proporcionaram ao galego momentos de ascensão.
Perseguição e proibição durante a Ditadura Franquista (1936-1975)
Mais tarde, já no século XX, com a Guerra Civil Espanhola e com ditadura de Francisco Franco, a língua galega voltou a sofrer perdas irreversíveis. Proibida por Francisco Franco, ironicamente natural da Galiza, tal como o catalão e as outras línguas do país, punida caso fosse falada, ensinada ou difundida. Desenvolveu-se num clima de clandestinidade, o que originou uma aquisição deficiente da língua por parte das gerações até o final dos anos 70, quando o regime ditatorial caiu e foi reconhecida novamente a categoria de língua, tanto ao galego como às outras línguas que se falavam em Espanha. O galego até hoje têm vindo a cair, a "perder terreno" face ao castelhano, embora os esforços para reavivar o gosto por esta língua sejam cada vez mais o número de monolingues espanhóis na Galiza, ou seja, o galego, embora não esteja em risco de extinção, está numa situação preocupante de diglossia face ao castelhano. Importa realçar a importância de algumas instituições e plataformas que lutam diariamente pela sobrevivência deste idioma, como é o caso da plataforma «Queremos Galego!» e da própria Real Academia Galega (RAG) que têm juntado todos os seus esforços, anualmente, para a difusão deste idioma que cada dia mais se perde face ao castelhano.
Imagem: PSdeG-PSOE · BY-NC-SA · Openverse
Consoantes
Abaixo há uma tabela de consoantes do galego.
Vogais
Abaixo há uma tabela de vogais da língua galega. As vogais tornam-se nasais quando imediatamente antes ou depois de uma consoante nasal, e, se entre duas nasais, o efeito de nasalização torna-se mais forte.
Os primeiros habitantes da Galiza originavam do indo-europeu, deixaram a sua marca na língua galega. As informações de geógrafos e historiadores greco-latinos, os restos arqueológicos e as similaridades linguísticas com outras zonas indicam que no noroeste peninsular coexistiram diferentes etnias desde o século VIII a.C. até ao século V. Desta maneira, podemos falar de um tipo de substrato:
Substrato indo-europeu
A partir do primeiro milênio antes de Cristo, espalham-se até a Península povos indo-europeus. Considerando as peculiaridades linguísticas, adota-se a língua de dois grupos:
O Império Romano conseguiu anexar os povos galaicos logo no início do século I, quase 200 anos depois da primeira colónia romana na Hispânia. Esta tardia romanização do território da Galécia permitiu uma menor assimilação cultural e linguística, em comparação com o acontecido na maior parte parte da Península Ibérica. O latim foi desde então o idioma reservado para as relações da aristocracia galaica com os funcionários do império, motivando uma passageira situação de bilinguismo que conduziria à adoção do latim por parte das elites, especialmente com a oficialização do cristianismo (ano 391) e a dispersão da liturgia romana (oficializada em latim) entre a população. Contudo, a forte ruralização da Galécia e a escassa implantação de grandes cidades permitiu - como em outras zonas do império - às classes mais humildes (que compunham a maior parcela da população) conservar grande parte dos seus costumes e língua, até uma data indeterminada da Idade Média.
O padrão atual da língua galega foi definido pela Real Academia Galega, a qual afirma respeitar a ortografia do "Rexurdimento" (no século XIX) e ser mais próxima às formas cultas tradicionais do galego e ao mesmo tempo às falas populares; porém distancia-o do português padrão. Este padrão, oficializado pela Junta da Galiza, é utilizado maioritariamente no ensino e nos meios de comunicação galegos, assim como pela maioria dos escritores e intelectuais, querendo ser mais próxima às formas cultas tradicionais do galego e ao mesmo tempo às falas populares. Contudo, há uma outra visão, chamada de reintegracionista, defendida por várias colectividades e movimentos sociais, que pretende reintegrar o galego com o português padrão. Fazem parte deste movimento uma pequena parte do professorado em universidades, alguns intelectuais, artistas e comunicadores sociais, além de alguns meios de comunicação. Uma parte significativa deste movimento escreve directamente em português de Portugal, adotando o Acordo Ortográfico de 1990, enquanto outra fá-lo na norma criada pela Associaçom Galega da Língua. O problema desta visão é a sua falta de implantação social.
Norma de 2003
A Real Academia Galega e o Instituto da Língua Galega admitiram, no verão de 2003, umas mínimas modificações do padrão (por exemplo Galiza e Galicia, até e ata, posíbel e posible), visando um certo achegamento para as posturas reintegracionistas "de mínimos". Esta mudança ortográfica passou a chamar-se de "Normativa de concórdia". Na elaboração da proposta participaram departamentos de galego e português das três universidades galegas, mas foi visto por parte dos grupos reintegracionistas como uma reforma excessivamente tímida e menor, sem a participação do chamado reintegracionismo "de máximos". Uma parte da população acha que esta afasta-se da fala real, utilizando formas pouco habituais ou artificiais ou portuguesismos que deixaram de existir ou nunca existiram na língua oral há anos.[carece de fontes?] Houve críticas por oficializar formas próximas ao português ou ao galego medieval que já não são utilizadas (ou quase) na fala.
O Estatuto de autonomia refere: O galego é a língua própria da Galiza; o castelhano e o galego são ambas línguas oficiais. No Parlamento Europeu, já foi aceito oralmente como sendo português, nomeadamente nas intervenções dos ex-eurodeputados galegos Camilo Nogueira e José Posada.[nota 5] Na atualidade em 2018 as eurodeputadas galegas Ana Miranda e Lídia Senra continuaram a utilizar a mesma língua nas intervenções sendo aceitos oralmente como sendo português.
Imagem: PSdeG-PSOE · BY-NC-SA · Openverse
De um ponto de vista político e oficial, o galego é uma língua diferente do português. Assim o determinam as instituições com autoridade do estado espanhol com competências na elaboração na norma oficial de uso na Galiza. Também são desta opinião os partidos políticos espanhóis maioritários na Galiza (Partido Popular e PSOE), embora os deputados na oposição do Bloco Nacionalista Galego e do partido esquerdista de cariz nacionalista Em Maré ou outros grupos sem representação no Parlamento da Galiza, pretendam alterar esta situação. Um único partido, marginal quanto a votos, o Partido da Terra, utiliza o português na sua versão atual do Acordo Ortográfico como língua de comunicação social. No estudo da linguística, é comum serem aceites diferentes opiniões em relação à autonomia do galego. Para alguns, o galego é uma língua diferente do português. Na Galiza, nas universidades e centros de investigação linguística (os oficiais e mais importantes são a Real Academia Galega e o Instituto Galego da Língua), a tendência oficial e promovida pelo governo autónomo é a de considerar o galego como uma língua independente. [carece de fontes?] Para outros levando em conta a questão da inteligibilidade mútua, o galego é considerado uma variedade dialetal da língua portuguesa, opinião forte desde que, em 1970, Lindley Cintra apresentou a sua classificação para os dialetos galego-portugueses.
Falantes
O galego foi considerado a língua mais falada na Galiza segundo o relatório da Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritarias Segundo este relatório de 2002, nas Astúrias o galego-asturiano era falado por 40 000 pessoas (4% da população total das Astúrias); havia em Leão 23 500 falantes de galego e em Zamora, 1 500 falantes; na Estremadura espanhola, uma variante do galego, a Fala da Estremadura, era falada por 5 000 pessoas. Está a diminuir o número de pessoas que se expressa sempre na língua da Galiza. Em 2003, 43% da população galega usava sempre o galego, comparado com o ano de 2008 em que apenas 30% se exprimem sempre em galego. Só um em cada três galegos fala sempre em galego. Verifica-se uma diminuição de 13% no número de falantes regulares.
Principais diferenças entre o galego e o português
Na escrita, se o galego se grafar seguindo o Acordo Ortográfico de 1990, adotado formalmente pela Academia Galega da Língua Portuguesa, as diferenças são mínimas, existindo apenas algumas variações léxicas e sintáticas. A ortografia reintegrada também seria compreensível para um lusófono, mas na ortografia oficial promovida pela Real Academia Galega, mais próxima à do espanhol e empregue pelas administrações na Galiza, a compreensão fica dificultada.
Semelhança entre português e galego
Para ilustrar a semelhança entre o galego e o português apresentam-se dois exemplos em português, nas duas variantes do galego e também em Castelhano.


