Isabel da Baviera, Imperatriz da Áustria
Isabel Amália Eugénia da Baviera, apelidada de Sissi, foi a esposa do imperador Francisco José I e Imperatriz Consorte da Áustria e seus demais domínios de 1854 até sua morte, em 1898. Ela ficou conhecida por suas excentricidades, beleza e espírito livre, que desafiavam as rígidas convenções da corte e da época.
Historiadores costumam retratar Isabel como uma imperatriz profundamente ressentida com sua condição aristocrática e em desacordo com as políticas de seu tempo. Ela chegou a expressar o desejo de morrer "de repente, rapidamente e, se possível, no estrangeiro", indicando que, de certo modo, seu anseio de se afastar da vida foi parcialmente concretizado. Ao mesmo tempo, é frequentemente associada à futilidade e superficialidade, obcecada pelo culto à beleza, dedicando grande parte de suas energias a manter-se jovem, bela e esbelta, muito distante, com episódios sombrios de distúrbios alimentares, bem diferente da imagem romântica e idealizada difundida pela trilogia Sissi, estrelada por Romy Schneider. Entretanto, seus escritos revelam uma imperatriz engajada politicamente. Isabel manifestava desaprovação diante das condições sociais da população austríaca e húngara, considerando os jovens da época "oprimidos pela ordem estabelecida". Ela se mostrava incomodada e entristecida pela disparidade socioeconômica entre sua própria vida e a do povo comum, chegando a repudiar sua riqueza e as constantes viagens de lazer pela Europa. Em seus poemas, não hesitou em amaldiçoar a Monarquia de Habsburgo. Na biografia dedicada à imperatriz, Brigitte Hamann apresenta Isabel como uma personalidade anticlerical e libertária, intolerante à rigidez da vida cortesã e à etiqueta. Tão insatisfeita com sua posição, desejava que seu marido, Francisco José, abdicasse rapidamente e se retirasse para viver às margens do Lago de Genebra, na Suíça.
Nascida às 22h43 da véspera de Natal de 1837, no Palácio do Duque Max (Herzog-Max-Palais em alemão), residência de inverno de seus pais em Munique, então parte do Reino da Baviera. Filha de Maximiliano, Duque na Baviera, e da princesa Luísa da Baviera, filha do rei Maximiliano I José, seu primeiro nome, Isabel (Elisabeth em alemão), foi escolhido em homenagem a uma de suas tias, Isabel da Baviera, irmã de sua mãe, que se tornaria rainha da Prússia como consorte de Frederico Guilherme IV, em 1840. Isabel nasceu com a ausência de um dente, fato considerado à época um presságio desfavorável. Isabel tinha sete irmãos: Luís, Helena, conhecida como Néné, Carlos Teodoro, apelidado de Gackel – termo alemão que significa galo – Maria, Matilde, Sofia Carlota e Maximiliano Emanuel, chamado de Mapperl. Assim como os demais irmãos, Isabel foi criada afastada da corte bávara. Os invernos eram passados no Palácio do Duque Max, em Munique, edifício considerado um dos mais notáveis da capital. Sua fachada remetia aos palácios renascentistas de Roma, construída em pedra branca e ornamentada com janelas com frontão e colunas coríntias. Os verões eram passados no Castelo de Possenhofen, às margens do Lago de Starnberg, construção em estilo medieval adquirida por seu pai como residência de verão e que se tornou a principal moradia da família ducal nesse período. Isabel referia-se ao local pelo diminutivo Possi.
Antecedentes
Isabel conheceu Francisco José na cidade austríaca de Innsbruck, em 1848. Tinha onze anos, enquanto ele tinha dezoito. Eram primos, pois suas mães, Luísa e a arquiduquesa Sofia, eram irmãs. Naquele momento, Francisco José ainda não era imperador, uma vez que o título era exercido por seu tio, Fernando I da Áustria. O período era marcado por intensa instabilidade política. As Revoluções de 1848 atingiram o Império Austríaco com grande impacto, e manifestações que reivindicavam maiores liberdades tornaram-se frequentes e expressivas. Em razão desse contexto, a família imperial deixou Viena e estabeleceu-se temporariamente em Innsbruck, no sul do país. As tensões políticas e a diferença de idade contribuíram para que Francisco José não demonstrasse interesse por sua prima bávara. Por outro lado, um de seus irmãos, o arquiduque Carlos Luís, passou a nutrir forte afeição por ela. Após o retorno de Isabel à Baviera, Carlos Luís enviou-lhe diversas cartas e presentes, entre os quais um anel e um relógio de bolso com corrente longa.
Cerimônia
Após um breve noivado, período durante o qual Francisco José realizou diversas visitas pessoais à sua noiva na Baviera, Isabel partiu de Munique em 20 de abril de 1854 com destino a Viena. A viagem teve duração de três dias e duas noites. O casamento foi celebrado às 18h30 do dia 24 de abril de 1854, na Igreja Agostiniana, em Viena. No mesmo dia, Isabel tornou-se imperatriz. Não há registro preciso acerca do vestido utilizado por ela na cerimônia, embora seja bastante provável que tenha usado mais de um traje, considerando que, além da celebração religiosa, ocorreram diversos eventos e recepções. Os vestidos não foram preservados, pois, em conformidade com a tradição da época, foram desmanchados e reaproveitados na confecção de casulas e outras vestes eclesiásticas, posteriormente doadas à Basílica de Maria Taferl, em Viena, e à Igreja de Matias, em Budapeste. Isabel recebeu um dote equivalente a US$ 240 000, em valores de 2015.
Primeiros anos na corte de Viena
Desde sua entrada na corte, Isabel teve de enfrentar as exigências impostas pelo ambiente da corte vienense. Nascida e criada em uma família nobre de costumes simples, passou a integrar a rígida corte de Viena, ainda orientada por um severo "cerimonial espanhol", ao qual precisou se submeter. A adaptação ao novo contexto implicou o afastamento de seus hábitos e vínculos familiares. Pouco tempo depois, apresentou problemas de saúde, incluindo tosse persistente, febre e sintomas de ansiedade, atribuídos a distúrbios de origem psicológica. A arquiduquesa Sofia assumiu a responsabilidade pela formação da nora segundo os padrões esperados de uma imperatriz. A aplicação rigorosa das normas de etiqueta gerou tensões entre ambas e contribuiu para a construção de uma imagem negativa de Sofia perante Isabel. Posteriormente, a imperatriz reconheceu que as ações da sogra estavam alinhadas às convenções da corte, ainda que fossem conduzidas de forma autoritária. Diferentemente de Sofia, amplamente respeitada no ambiente cortesão, Isabel foi alvo de críticas relativas à sua formação e à sua limitada experiência social.
Nascimento do Príncipe Herdeiro e a Guerra Austro-Franco-Sarda
O fato de Isabel não ter gerado um herdeiro do sexo masculino tornava sua posição progressivamente mais frágil no palácio. Em determinado momento, Isabel encontrou sobre sua mesa um panfleto no qual determinadas palavras estavam sublinhadas: "[…] O destino natural de uma imperatriz é dar um herdeiro ao trono. Se a Imperatriz tiver a sorte de fornecer ao Estado um Príncipe Herdeiro, este deve ser o fim de sua ambição, ela não deve de forma alguma se intrometer no governo de um Império, cujo cuidado não é tarefa das mulheres. Se a Imperatriz não tiver filhos, ela é apenas uma estrangeira no estado, e uma estrangeira muito perigosa. Pois como ela nunca pode esperar ser vista com bons olhos aqui, e deve sempre esperar ser enviada de volta de onde veio, ela sempre buscará ganhar o Imperador por outros meios que não os naturais; ela lutará por posição e poder por meio da intriga e da semeadura da discórdia, para o mal do Imperador, da nação e do Império […]"
Crise conjugal e viagens
Paralelamente à crise política de 1859-1860, desenvolveu-se uma crise no âmbito privado do casal imperial. Persistiam as tensões com a arquiduquesa Sofia, e, pela primeira vez em seis anos de casamento, circularam notícias sobre supostas infidelidades de Francisco José. Tais rumores afetaram a posição de Isabel na corte e agravaram o distanciamento conjugal. Considerando a experiência de sua mãe, que enfrentara dificuldades semelhantes, Isabel possivelmente temia situação análoga de marginalização. Para agravar a situação delicada, em maio de 1860, chegaram a Viena informações sobre o avanço das tropas de Giuseppe Garibaldi no Reino das Duas Sicílias. Embora o imperador e a arquiduquesa Sofia fossem favoráveis a apoiar os Bourbon-Duas Sicílias, as limitações econômicas do Império Austríaco inviabilizavam uma intervenção. A situação afetava diretamente Isabel, irmã da rainha Maria Sofia das Duas Sicílias, o que repercutiu em seu estado emocional e em seu relacionamento conjugal.
Atuação política e coroação húngara
Após uma longa estadia em Veneza e uma cura em Bad Kissingen, Isabel retornou a Viena em 1862. Seu retorno estava condicionado à implementação de mudanças na corte. Durante sua ausência, amadureceu e passou a impor sua vontade em diversos pontos, confrontando a influência de sua sogra, a arquiduquesa Sofia. Como parte dessas mudanças, Isabel passou a resistir à posição subordinada que anteriormente ocupava na hierarquia cortesã. Embora seu título conferisse precedência formal, a maior parte dos direitos práticos ainda estava sob controle da arquiduquesa. Após o retorno, Isabel retomou o estudo da língua húngara iniciado na Madeira, com aulas regulares retomadas em 9 de fevereiro de 1863, quando Imre Homoky ingressou em sua corte. Para aprofundar seu conhecimento, buscou a companhia de uma dama húngara, superando resistências da corte, e recrutou Ida Ferenczy em 1864. Ferenczy não só atuava como interlocutora e conselheira de Isabel, como também influenciava sua percepção da questão húngara. Outra dama húngara de Isabel era a condessa Marie Festetics, que serviu a rainha durante um total de 29 anos.
Incidente de Mayerling
Em 1889, a vida de Isabel foi destruída pela morte de seu único filho Rodolfo, que foi encontrado morto junto com sua jovem amante, a baronesa Mary Vetsera, no que se suspeitou ser um assassinato-suicídio da parte de Rodolfo. O escândalo ficou conhecido como Incidente de Mayerling, devido à localização do pavilhão de caça de Rodolfo na Baixa Áustria, onde foram encontrados. Isabel nunca se recuperou da tragédia, afundando ainda mais na melancolia. Em poucos anos, ela perdeu seu pai, Maximiliano José (em 1888), seu único filho, Rodolfo (1889), sua irmã, a duquesa Sofia Carlota da Baviera (1897), Helena (1890) e sua mãe, Luísa (1892). Após a morte de Rodolfo, ela teria se vestido apenas de preto pelo resto de sua vida, embora um vestido azul claro e creme descoberto pelo Museu Sisi de Hofburg seja dessa época. Para agravar suas perdas, o conde Gyula Andrássy morreu um ano depois, em 18 de fevereiro de 1890. "Meu último e único amigo está morto", lamentou ela. A arquiduquesa Maria Valéria declarou: "[…] ela se apegou a ele com amizade verdadeira e inabalável como talvez, a nenhuma outra pessoa.". Quer sua relação pessoal fosse íntima ou não, seus sentimentos por ele eram os mesmos que ela sentia por seu país, e que ela sabia serem correspondidos de todo o coração pelos magiares.[carece de fontes?]
Assassinato
Às 13h35 de sábado, 10 de setembro de 1898, Isabel e a condessa Irma Sztáray, sua dama de companhia, deixaram o hotel às margens do Lago de Genebra a pé para pegar o vapor Genève para Montreux. Visto que a imperatriz desprezava as procissões, ela insistia que andassem sem os outros membros de sua comitiva. As senhoras estavam caminhando pelo calçadão quando o anarquista italiano Luigi Lucheni, de 25 anos, se aproximou delas, tentando espiar por baixo da sombrinha da imperatriz. Segundo Sztáray, quando o sino do navio anunciava a partida, Lucheni pareceu tropeçar e fez um movimento com a mão como se quisesse manter o equilíbrio. Na verdade, em um ato de "propaganda do feito", ele apunhalou Isabel com uma lima de agulha afiada de 4 polegadas (100 mm) de comprimento (usada para lixar os orifícios de agulhas industriais) que ele inseriu em um cabo de madeira.
Regime físico
Na juventude, Isabel seguiu a moda vigente, que por muitos anos consistiu em saias de aro com crinolina em gaiola. Quando o estilo começou a mudar, ela esteve entre as primeiras a abandonar essas saias em favor de uma silhueta mais justa e alongada. Ela se incomodava menos com o custo das roupas do que com o protocolo que exigia trocas constantes de vestuário. Preferia trajes simples, monocromáticos e semelhantes a hábitos de montaria. Não usava anáguas nem outras peças volumosas de "roupa de baixo", pois acrescentavam volume ao corpo. Muitas vezes era literalmente costurada em suas roupas para evitar dobras e rugas e para acentuar ainda mais a "cintura de vespa" que se tornou sua marca registrada.
"Culto" à beleza
Além de seu regime de exercícios, Isabel também seguia rotinas de beleza exigentes. Os cuidados diários com seus cabelos longos, que com o tempo passaram do loiro-escuro para um tom castanho, levavam pelo menos três horas. O cabelo era tão comprido e pesado que ela frequentemente se queixava de dores de cabeça causadas pelo peso das tranças duplas e dos inúmeros grampos. Sua cabeleireira, Franziska Feifalik, havia trabalhado originalmente como cabeleireira de palco no Wiener Burgtheater. Responsável por todos os penteados ornamentados da imperatriz, ela geralmente a acompanhava em suas viagens. Feifalik era proibida de usar anéis e precisava trabalhar usando luvas brancas. Depois de horas penteando, trançando e prendendo o cabelo de Isabel, os fios que caíam precisavam ser recolhidos e apresentados em uma tigela de prata para inspeção da imperatriz. A cada duas semanas, o cabelo de Isabel era lavado com uma mistura de ovos e conhaque. Nesses dias, todas as atividades e compromissos eram cancelados. Antes da morte de seu filho, a imperatriz também ordenava que Feifalik removesse qualquer fio grisalho. Mesmo assim, no fim da vida, seu cabelo foi descrito como "abundante, embora já apresentasse algumas mechas prateadas".
Alegações de bissexualidade
Nas últimas décadas, novas biografias lançaram luz sobre uma personalidade tão rica quanto complexa. A escritora Ángeles Caso foi uma das primeiras a escrever que Sissi era muito diferente da mítica Romy Schneider dos filmes e que, para além de uma vida de fantasia, a sua era uma existência muito infeliz. Mais recentemente, a escritora Ana Polo Alonso foi um passo mais longe e propôs que, muito provavelmente, Sissi devia sentir-se muito atraída por algumas damas da sua corte, ao ponto de poder ter mantido uma amizade romântica com algumas delas. Este fato, aliado à obsessão da imperatriz por colecionar fotografias de mulheres (algumas muito eróticas para a época), poderia sugerir uma possível bissexualidade.
Após sua morte, Francisco José fundou a Ordem de Isabel em sua memória. Existem várias estátuas da imperatriz na Áustria, na Hungria, na Eslováquia e em outros países. A Ponte Isabel (Most Erzsébet em húngaro) conecta as cidades de Komárno, na Eslováquia, e Komárom, na Hungria, que formavam uma única cidade à época de sua construção. Inaugurada em 1892, a ponte recebeu o nome de Isabel. Em território suíço, há um monumento à imperatriz criado por Antonio Chiattone em 1902. Ele está localizado entre Montreux e o Castelo de Chillon, e a inscrição menciona suas muitas visitas à região. Perto do local de seu assassinato, no cais de Genebra, às margens do lago de Genebra, encontra-se uma estátua em sua memória, criada por Philip Jackson e inaugurada em 1998, no centenário do seu assassinato. Diversas residências frequentadas por Isabel estão preservadas e abertas ao público, incluindo seus aposentos na Hofburg e o Palácio de Schönbrunn, em Viena, a vila Imperial em Bad Ischl, o Achilleion, na ilha de Corfu, e sua residência de verão em Gödöllő, na Hungria. A antiga casa de verão de sua família, em Possenhofen, abriga o Museu Imperatriz Isabel (Kaiserin Elisabeth Museum em alemão).
Representações na cultura
Teatro O teatro japonês Takarazuka Revue apresenta, esporadicamente, desde 1995, um musical baseado na vida da imperatriz.[carece de fontes?]
Honras
Grã-Mestra de todas as Ordens de Cavalaria da Áustria


