Acidente do ônibus espacial Columbia
O acidente do ônibus espacial (português brasileiro) ou vaivém (português europeu) Columbia ocorreu no dia 1 de fevereiro de 2003, durante a fase de reentrada na atmosfera terrestre, a apenas dezesseis minutos de tocar o solo no regresso da missão STS-107, causando a destruição total da nave e a morte dos sete astronautas que compunham a tripulação. Esta missão, de objectivo científico, teve a duração de dezesseis dias, ao longo dos quais foram cumpridas com sucesso, as cerca de oitenta experiências programadas.
No dia 1 de fevereiro de 2003, os sete astronautas a bordo do ônibus espacial Columbia iniciam os preparativos para regressarem a casa: terminam a última verificação dos sistemas da nave e comunicam ao controlo da missão no Centro Espacial Lyndon B. Johnson, localizado em Houston, no Texas, que se encontravam alinhados para o início da reentrada. Os foguetes de manobra orbital são acionados às oito horas e quinze minutos UTC durante a 255.ª órbita e a reentrada é iniciada. Após a fase de ionização, na qual as comunicações com a nave não são possíveis e o voo é controlado pelos computadores de bordo, o piloto William C. McCool e o comandante da missão Rick Husband assumem os comandos, iniciando as manobras para diminuírem a velocidade e monitorizar os indicadores, confirmando a trajetória correta. A astronauta Laurel Clark inicia a captação de imagens (que depois seriam recuperadas dos destroços) durante aproximadamente treze minutos, mostrando uma tripulação bem disposta e descontraída. Às 13 horas e 48 minutos UTC, a tomada de imagens é interrompida, o Columbia encontra-se então sobre o oceano Pacífico a sudoeste da baía de São Francisco. Entretanto às 13 horas e 45 minutos UTC o controlo da missão considerava a reentrada como quase perfeita e previa um regresso tranquilo. Oito minutos após tudo se alterava: A telemetria começava a revelar as primeiras leituras do aquecimento não habitual de várias secções da nave. O Columbia viajava então a 21 200 km/h a uma altitude de 63,1 quilómetros sobre a parte norte do estado do Texas. Faltavam 2 250 km, equivalentes a 16 minutos, para tocarem o solo.
Compilação dos principais eventos ocorridos durante a reentrada na atmosfera terrestre da Columbia no dia 1 de fevereiro de 2003 (em UTC (Tempo Universal Coordenado):
Ainda no dia da tragédia, 1 de Fevereiro de 2003 pelas 14 horas e 4 minutos EST, o Presidente dos Estados Unidos George W. Bush, dirigiu-se ao país, numa alocução com a duração exacta de quatro minutos, nos seguintes termos: A bordo estavam sete tripulantes: Coronel Rick Husband, o tenente-coronel Michael Anderson; Comandante Laurel Clark, comandante David Brown; Comandante William McCool, Dr. Kalpana Chawla, e Ilan Ramon, um coronel da Força Aérea Israelense. Estes homens e mulheres assumiram grandes riscos ao serviço de toda a humanidade. Numa época em que o voo espacial quase que se tornou rotineiro, é fácil ignorar os perigos de viajar num foguetão e navegar no ambiente exterior e inóspito do nosso planeta. Estes astronautas conheciam e enfrentaram os perigos de livre vontade, sabendo que tinha um elevado e nobre propósito nas suas vidas. Por causa da coragem, ousadia e idealismo, a perda das suas vidas assume um significado ainda maior.
As buscas intensivas em mais de 40 000 km² no Texas e Louisiana, dos quais 2 850 km² a pé e os restantes recorrendo a aeronaves, recuperaram 83 900 pedaços de destroços, pesando um pouco mais de 38 toneladas correspondentes a aproximadamente 37% da massa do vaivém. 75 000 destroços tiveram a sua localização (latitude e longitude) registada e gravada. A maioria dos itens recuperados não eram maiores do que 0,5 metros quadrados. Mais de 40 000 itens não puderam ser positivamente identificados, mas foram classificados segundo a sua composição (metal, plástico, tecido, etc.).
Processos e procedimentos de pesquisa
O processo e os procedimentos para a recuperação dos detritos foram diferentes e dependeram da localização onde foram efetuados. A busca e recuperação nos estados do Texas e Louisiana foi também diferente das restantes localizações. No Texas a concentração era maior e localizada ao longo de uma faixa bem definida, no Louisiana estavam as peças maiores e mais pesadas devido ao seu maior coeficiente balístico[nota 1] e havia maior dispersão. Ao longo da trajectória do vaivém havia evidências visuais e captadas por radar da libertação de detritos, que provavelmente atingiram o solo. Assim e após a analise destas evidências e também da trajectória percorrida, foram seleccionadas as aéreas de alta probabilidade para buscas nos estados do Nevada, Utah e Novo México, bem como as áreas oceânicas junto à costa californiana. Foram publicados e rádio difundidos avisos e recorreu-se ainda a técnicas publicitárias como o uso de panfletos solicitando a colaboração da população.
Os restos mortais dos astronautas
Desde o início foi dada prioridade à recuperação dos restos mortais dos astronautas, dada a sensibilidade do assunto e a elevada emoção que a sua recuperação provocava - também a rápida degradação dos mesmos podia comprometer propósitos de investigação e outros julgados adequados. Poucos minutos após o colapso da nave, começaram a chegar os primeiros relatos da descoberta de restos humanos junto à localidade de Hemphill no leste do Texas. A responsabilidade, por inerência da lei para a recolha e investigação de vítimas em acidentes aéreos, pertence ao National Transportation Safety Board. Esta tarefa, quando executada em acidentes civis. é mais ligeira porque se está a lidar com pessoas relativamente anónimas, mas neste em particular, como em todos aqueles que envolvem aeronaves militares, têm que lidar com corpos de vizinhos, ex-camaradas de armas ou amigos. Também os astronautas depressa se juntaram às buscas desde o primeiro minuto. Era necessário encontrar os corpos dos seus amigos e colegas de profissão, para que fossem tratados com o devido respeito e honrar a sua memória condignamente.
Itens (importantes) recuperados
Entre os destroços recuperados, foram encontrados os únicos sobreviventes da missão STS-107, um grupo de nemátodos da espécie Caenorhabditis elegans. Do tamanho de uma cabeça de alfinete, estavam armazenados dentro de um cacifo em caixas de petri, o qual só foi aberto e investigado várias semanas após ter sido recuperado. Faziam parte de um conjunto de pesquisas biológicas, destinadas a estudar o efeito da gravidade sobre a fisiologia dos seres vivos. Nas proximidades da localidade de Palestine no Texas, cinco dias após o acidente foi recuperado o vídeo realizado pela astronauta Laurel Clark e do qual apenas foi possível recuperar aproximadamente 13 minutos, correspondentes à fase inicial da reentrada, revelando as actividades na cabine da tripulação e a descontracção e boa disposição com que todos encaravam o regresso.
Dos quase sete meses de duração do inquérito oficial ao acidente, composto por uma comissão independente de 13 membros, aproximadamente 120 investigadores e milhares de técnicos da NASA em missão de apoio, foi produzido um extenso relatório dividido em seis volumes, um principal onde são apresentadas as causas, conclusões e recomendações e cinco com documentação de suporte, num total de 400 páginas. No preâmbulo em jeito de declaração de intenções é afirmado o seguinte: Ainda numa fase preliminar do inquérito, foi reconhecido pela comissão que o acidente, provavelmente não foi originado por um evento aleatório, mas sim por práticas comportamentais, enraizadas na cultura humana e história dos voos espaciais da NASA. Assim sendo o objectivo e propósito da comissão foi ampliado, investigando também uma vasta gama de questões históricas e organizacionais, incluindo as considerações políticas e orçamentais, os compromissos e as prioridades ao longo da vida do programa do space shuttle. No decorrer do processo de investigação, foram ainda identificados uma série de factores pertinentes, agrupados em três categorias distintas:
Causa física
A causa física da perda do Columbia e da sua tripulação foi uma brecha no sistema de protecção térmica no bordo de ataque da asa esquerda, causado por um pedaço de espuma isolante que se separou da seção esquerda do suporte duplo do tanque de combustível externo, 81,7 segundos após o lançamento, e atingiu a parte inferior da asa nas proximidades do painel térmico de carbono reforçado número oito. Durante a reentrada esta violação no sistema de protecção térmica permitiu que ar superaquecido penetrasse através do isolamento e progressivamente derretesse a estrutura de alumínio da asa esquerda, resultando num severo enfraquecimento estrutural, até que o aumento das forças aerodinâmicas, causadas pelo atrito da cada vez maior densidade atmosférica, destruísse a asa provocando a perda de controle e o imediato colapso da nave. Este acidente verificou-se num regime de voo em que com a actual concepção, não havia qualquer possibilidade de sobrevivência para a tripulação.
Causa organizacional
As causas organizacionais do acidente, estão profundamente enraizadas na cultura humana criada pela própria história da exploração espacial e o desenvolvimento do programa space shuttle, incluindo os compromissos necessários para a sua aprovação, anos consecutivos de restrições orçamentais, flutuação de compromissos, descaracterização da capacidade operacional do vaivém, falta de visão consensual para o futuro da exploração espacial por voos tripulados. Traços culturais e práticas organizacionais, prejudiciais para a segurança foram autorizados e desenvolvidas, incluindo a dependência do sucesso passado, como um substituto para boas e recomendadas práticas de engenharia, tais como testes para entender como os sistemas
Recomendações
São vinte e nove as recomendações que emanam do relatório final, que abrangem o sistema de protecção térmico, mais e melhores imagens, mais testes, mais inspecções, medidas de prevenção contra colisões de micro meteoritos em órbita, certificação de materiais, métodos organizacionais e ainda recomendações para um futuro processo do incremento da vida útil da frota para além de 2010, das quais se destacam (em ordem aleatória) as consideradas indispensáveis para o retorno aos voos: As recomendações reflectem o forte apoio da comissão de inquérito para o retorno à condição de voo na data mais próxima possível, compatível com o objectivo primordial da segurança, e a convicção de que a operação do space shuttle e de todos os voos espaciais tripulados, é uma actividade com altos riscos inerentes.
Podia ter sido evitado?
No dia seguinte ao lançamento, engenheiros de nível inferior (na organização da NASA) iniciaram a visualização das imagens da ascensão do Columbia, como sempre fazem de cada vez que é realizada mais uma missão. Detectaram a libertação de um pedaço de espuma isolante proveniente do suporte de amarração do tanque de combustível externo. Mostrando preocupação pelo seu tamanho e velocidade com que impactou na asa esquerda da nave, compilaram as imagens e como seria de esperar, fizeram a sua distribuição, por correio electrónico, para os engenheiros de nível superior (na organização da NASA) responsáveis pelo voo e gestores da missão no Centro Espacial Lyndon Johnson localizado em Houston no Texas. Por iniciativa própria e fora dos canais de comunicação oficiais, inquiriram o departamento de defesa sobre a possibilidade da obtenção de imagens em órbita e de alta resolução, da parte inferior do Columbia, utilizando as capacidades dos satélites espiões ou instalações no solo.
Outras considerações
A missão STS-107 foi a 28.ª do Columbia e a 113.ª do programa de voos do ônibus espacial O voo estava perto de atingir o seu final. Infelizmente não foram detectados indícios pela tripulação a bordo, ou pelos engenheiros de voo no controle da missão, que a mesma se encontrava em apuros, como resultado do impacto de um pedaço de espuma isolante, durante a subida. A gestão da missão falhou ao ignorar sinais, mesmo que fracos, de que a nave estava com problemas e não adoptou as necessárias medidas de correcção. O Columbia foi o primeiro veículo orbital reutilizável, efectuou os primeiros quatro voos de testes orbitais do programa ônibus espacial. Porque foi o primeiro do seu tipo, diferia ligeiramente das outras naves, OV-099 Challenger, OV-103 Discovery, OV-104 Atlantis e OV-105 Endeavour. Construído com um padrão de engenharia mais antigo, era ligeiramente mais pesado, e embora pudesse atingir a órbita de alta inclinação da estação espacial internacional (ISS), a carga transportada era insuficiente para equilibrar a relação custo-benefício das missões. Consequentemente, era apenas utilizado em missões científicas e manutenção do telescópio espacial Hubble. Acresce ainda e porque não estava equipado com um sistema de acoplamento, libertava mais espaço no compartimento de carga para acomodar cargas mais longas, como os módulos científicos Spacelab e Spacehab.
Reparação dos danos em órbita
Esta opção foi classificada como logisticamente possível, mas de muito alto risco pelos imponderáveis que acarretava. Seria necessário um fazer uma caminhada espacial até à ponta da asa esquerda para colmatar um buraco com supostamente 15 centímetros, num painel de carbono reforçado, transportando ferramentas e utilizando pedaços de titânio ou outro material similar que fosse possível subtrair do compartimento da tripulação, teria ainda que ser utilizado um saco de água, que com o frio extremo do espaço sideral solidificaria moldando o perfil original da asa, de modo a evitar turbulência aerodinâmica aquando da reentrada. Não foi possível à NASA determinar se as reparações teriam sucesso e ou sobrevivido à reentrada, mesmo utilizando um perfil mais suave, acresce que nunca antes tinham sido tentadas, treinadas, ou sequer pensadas. Apesar de não estar prevista na missão STS-107 qualquer atividade extra veicular, na tripulação do Columbia os astronautas Michael Anderson e David Brown, estavam treinados nas técnicas necessárias.
Apenas cerca de 400 pessoas tiveram oportunidade de voar no espaço ao longo dos últimos cinquenta anos, somente umas poucas ficaram famosas ou são conhecidas do grande público, as que participaram em missões históricas e as que morreram no decorrer das missões que terminaram em tragédia devido a acidente. Foram inúmeras as manifestações de evocação e homenagem à memória dos sete astronautas, celebradas particularmente nos Estados Unidos, mas também um pouco por todo o mundo, umas de carácter oficial, outras de cunho religioso, outras ainda de índole popular promovidas pela espontaneidade. Ficam aqui apenas alguns exemplos, em modo aleatório e não exaustivo, transcritas também como manifestação evocativa da sua memória.
Todo o programa espacial Norte-Americano foi suspenso, mesmo com projectos em andamento, como a construção da Estação Espacial Internacional, cuja finalização estava totalmente dependente dos vaivéns, os únicos capazes de transportar os módulos em falta. Em 2004 é dado o primeiro sinal do futuro abandono do programa ônibus espacial, o presidente George W. Bush, anuncia o que chamou de "Visão para a exploração espacial dos Estados Unidos", na qual indicava que a NASA deveria desenvolver e construir novos veículos que permitissem o regresso do Homem à Lua, até ao ano 2020. Anunciou ainda o fim da era dos ônibus espacial, após décadas de serviço. Em Julho de 2005 a NASA regressou aos voos com o lançamento do Discovery, após mais de dois anos de interregno, para logo de imediato voltar a imobilizar a frota de vaivéns Durante a ascensão, tal como na fatídica missão STS-107, (também na maioria das missões anteriores) foi observada a libertação de destroços de espuma isolante, desta vez sem resultados catastróficos...


