Acinonyx jubatus
O guepardo ou chita é um animal da família dos felídeos (Felidae), ainda que de comportamento atípico, se comparado com outros da mesma família. É a única espécie vivente do gênero Acinonyx. Tendo como habitat a savana, vive na África, península Arábica e no sudoeste da Ásia. Também é conhecido pelos nomes de cheetah, cheetah-africana, lobo-tigre, leopardo-caçador ou onça-africana. Fisicamente, o guepardo ou chita é significativamente parecido com o leopardo. As almofadas das patas da chita têm ranhuras para se moverem melhor em alta velocidade, e sua longa cauda serve para lhe dar estabilidade nas curvas em alta velocidade. Cada chita pode ser identificada pelo padrão exclusivo de anéis existentes em sua cauda, tem uma cabeça pequena e aerodinâmica e uma coluna incrivelmente flexível, são habilidades que ajudam bastante na hora da perseguição.
O nome do gênero biológico, Acinonyx, significa, em grego, "garras imóveis", já que é o único felídeo que não as consegue retrair por completo, permanecendo visíveis mesmo quando recolhidas ao máximo, sendo usadas para permitir uma maior aderência ao solo enquanto corre, acelera e manobra no terreno, porém, os filhotes conseguem subir em árvores por terem as garras mais finas. O epíteto específico, "jubatus", significa em latim "com juba", e se refere às crinas que as crias da chita apresentam. A palavra "chita", de som semelhante à palavra inglesa cheetah, deriva da língua hindi chiita que, por seu lado, talvez derive do sânscrito chitraka, que significa "salpicada de manchas". Outras línguas europeias relevantes usam variantes do latim medieval "gatus pardus", ou seja, "gato-pardo": guépard (francês); Gepard (alemão, russo); jachtluipaard (neerlandês); guepardo (português); onza ou leopardo cazador (espanhol); ghepardo (italiano).
Encontram-se guepardos no estado selvagem atualmente em porções da África e Irã ainda que no passado se distribuíssem desde a costa mediterrânea até os mares de Aral e Cáspio chegando a Índia, Afeganistão e Usbequistão. Habitam preferencialmente planícies gramadas abertas, mas também são encontradas em vegetações arbustivas, bosques abertos e semidesertos embora sejam ausentes em florestas tropicais. Uma combinação desses bosques com as planícies abertas é provavelmente o habitat ideal. Também mostram grande adaptação a ambientes áridos. No Monte Quênia, já foram relatadas a até 4.000 metros de altitude. A maior parte de sua população e de habitats viáveis se concentra no sul e leste da África. A Namíbia, ao sul, concentra a maior população de chitas selvagens com 2000 animais. No total, estima-se que 4.500 animais existam na região sul da África que engloba Angola, Moçambique, Namíbia, Botswana, Malawi, África do Sul, Zâmbia, Zimbábue. Em algumas partes dessa região ocorrem fora de zonas protegidas em fazendas de pecuária, onde grandes predadores como leões e hienas foram extintos, diminuindo a competição.
Na Índia
A Índia acolhia as chitas asiáticas, mas a espécie foi declarada extinta em 1952. Consta que Maharaja Ramanuj Pratap Singh Deo matou os últimos três espécimes no final da década de 1940. O desaparecimento da chita na Índia é principalmente atribuído aos caçadores, mas também à perda do seu habitat. Em 2020 o Supremo Tribunal autorizou a sua introdução. Em setembro de 2022, doados pelo governo namibiano, oito felinos (cinco fêmeas e três machos) foram transportados para a Índia num avião de carga especialmente fretado. Após um período de quarentena, os animais forma libertado no Parque Nacional de Kuno, situado a 320 quilómetros a sul de Deli. O plano não correu muito bem e em poucos meses 6 das chitas importados morreram.
O corpo da chita é esbelto, musculoso e esguio, ainda que de aparência delgada e constituição aparentemente frágil. Tem uma caixa torácica de grande capacidade, um abdômen retraído, uma coluna extremamente flexível além de pernas longas; adaptações para a corrida em alta velocidade. Tem uma cabeça pequena, um focinho curto, olhos posicionados na parte superior da face, narinas largas e orelhas pequenas e arredondadas com uma mancha preta na parte de trás. O seu pelo é amarelado, salpicado de pontos negros arredondados, e na face existem duas linhas negras, de cada lado do focinho, que descem dos olhos até à boca, formando de fato um trajeto de lágrimas. Sua função acredita-se ser para proteger do brilho sol, já que caçam durante a claridade do dia. O guepardo tem um coração relativamente pequeno que bombeia apenas uma pequena quantidade de sangue. Um animal adulto pode pesar entre 28 e 65 kg. O comprimento total do corpo varia de 112 a 150 cm. O comprimento da cauda, usada para equilibrar o corpo do animal durante a corrida, pode variar entre 66 e 84 cm. O guepardo-asiático tem uma cabeça menor do que os seus primos africanos. Suas pernas são mais curtas, sua pelagem mais espessa e seu pescoço é mais poderoso.
Velocidade
As chitas sempre foram famosas por sua velocidade, mas a velocidade máxima alcançada ainda é controversa. Em distâncias de até 500m ela é grandemente considerada entre 96 e 104 km/h. Em 78 arrancadas na natureza, a velocidade média foi 87 km/h Velocidades de 114, 135 e 145 km/h também já foram relatadas, mas ainda assim são improváveis. Entretanto, é seguro afirmar que em condições ideais e ao nível do chão, ele pode atingir velocidades próximas a 112 km/h. Em uma certa ocasião, foi relatado um guepardo que correu atrás de sua presa por 640 metros em 20 segundos (medidos com um cronômetro) e 73 metros em aproximadamente dois segundos - 115,2 e 131,4 km/h respectivamente.
Com exceção do leão (Panthera leo), o guepardo é considerado o mais sociável dos grandes felinos. Irmãos ficam juntos por cerca de seis meses depois de deixar a mãe e irmãos, muitas vezes, permanecem juntos por toda a vida. No Serengeti, onde a maioria das pesquisas sobre o guepardo foram realizadas, as coalizões masculinas são comuns e em torno de um terço do tempo estas envolvem machos não relacionados. Os benefícios de guepardos machos vivendo em grupos incluem ser capaz de obter e manter territórios, que por sua vez permite um maior acesso às fêmeas. Com exceção de quando têm filhotes, as fêmeas são solitárias e não-territoriais; ocupando grandes áreas de vivência tão grandes quanto 800 km². O guepardo não forma bandos para caçar como os leões, mas os machos se juntam às vezes para caçar em pequenos grupos, especialmente se nasceram na mesma ninhada, casais também podem usualmente caçar juntos.
Em relação às fêmeas
Uma certa análise da genética das chitas, na Tanzânia, África, apontou que as fêmeas da espécie são extremamente "promíscuas". Cientistas das cidades de Londres, Nova Iorque, Arusha e Bangcoc analisaram o DNA coletado de amostras de fezes de cerca de 176 guepardos, ou chitas, e ao longo de um período que durou nove a dez anos no Parque Nacional do Serengeti na África. Foi constatado que 45% de 47 ninhadas continham o DNA de mais de 2 pais. Segundo Dada Gottelli, da Sociedade Zoológica de Londres, isto pode acarretar em diversas doenças aos indivíduos da espécie. Ainda segundo Gottelli, tais estatísticas poderiam ser muito maiores já que a equipe de cientistas não conseguiu analisar mais amostras de fezes já que filhotes de chitas sofrem uma alta taxa de mortalidade nas primeiras semanas de vida, então é difícil pegar amostras de todos eles.
Em relação aos machos
Os machos da espécie são muito sociáveis e são preparados para a vida social formando grupos quando jovens. Esses grupos são chamados coligações. Os machos são muito territoriais e o tamanho do território, que também depende dos recursos que estiverem disponíveis, podendo variar de 35 a 160 km². Machos costumam marcar seus territórios urinando em objetos como árvores, troncos e rochas por exemplo e tentam matar qualquer intruso que o mesmo possa expulsar, e as lutas variam de lesões leves até a morte. Machos de guepardo adotam os filhotes perdidos ou órfãos de outros guepardos e os criam como se fossem seus próprios filhotes, fazendo o papel de pai e mãe. Algo extremamente incomum no reino animal, principalmente entre os guepardos, já que os machos costumam matar seus próprios filhotes, isto se a mãe não estiver sob uma vigília constante. Os guepardos machos são completamente ausentes na criação dos filhotes, ficando com as fêmeas somente na época do acasalamento, o que de certa forma contribui para a relativamente baixa variabilidade genética dos guepardos, já que vários filhotes possuem um mesmo pai.
Comunicação
O guepardo não pode rugir, ao contrário de outros grandes felinos. Algumas das vocalizações listadas na literatura são:
A chita é um animal carnívoro. Alimenta-se essencialmente de mamíferos abaixo dos 40 kg, incluindo gazelas e impalas, filhotes de gnu, lebres, aves e quando tem vontade, pode comer até insetos. A presa é seguida, silenciosa e vagarosamente, numa distância que varia, em média, de dez a trinta metros, até ser atacada de surpresa. A perseguição que se segue dura geralmente menos de um minuto ou um minuto, durando no máximo um minuto e meio, e se a chita falha numa captura rápida, desiste, com o intuito de não gastar energia desnecessariamente, pois seu corpo superaquece, porém, mais da metade dos ataques são vitoriosos, 70% em média, ficando atrás apenas do cão-selvagem-africano, que obtém 80% de sucesso em suas caçadas. Com isso, após a caça, a chita fica exausta, o que facilita a perda da presa capturada para animais como a hiena e o leão por exemplo. Depois que o guepardo pega a presa, leões e hienas percebem o cheiro de carne fresca e vêm disputá-la com o guepardo. Ele, muitas vezes, sai de perto, discretamente, evitando brigas, pois não tem massa muscular comparável a estes outros animais.
Os machos atingem a maturidade sexual a partir dos dois anos e meio ou três anos. A fêmea, um pouco mais precoce (dois anos) pode gerar de um a oito filhotes, depois de uma gestação de 90 a 95 dias. O desmame ocorre cerca de 3 meses e meio após o parto chegando a 6 meses no máximo e, entre os 14 e 18 meses, abandonam a guarda da mãe para passarem a ter uma vida independente. Ao contrário de outros felinos, as fêmeas não têm um verdadeiro território próprio e demarcado, parecendo, no entanto, evitar a presença das outras. Os machos podem, eventualmente, juntar-se em grupos, especialmente se nasceram na mesma ninhada. Os filhotes nascem com um manto cinzento característico. Várias hipóteses sugerem sua função: camuflagem, termorregulagem ou proteger do sol e chuva. Kingdon sugeriu que pode servir para apaziguamento, inibindo a agressão de machos ao imitar o ventre pálido dos adultos. Também pode servir para imitar o ratel (um animal agressivo) e inibir predadores.
Subespécies
Antigamente, os faraós, sultões e Babilônios usavam o guepardo como cão-de-guarda e para caçar antílopes, como se fossem galgos. A subespécie de guepardo mais ameaçada atualmente é a asiática, com pouco mais de 40 exemplares vivendo livremente na natureza, sem contar as populações isoladas e os exemplares que vivem em zoológicos espalhados ao redor do mundo, porém, ainda são estatísticas alarmantes.
Guepardo-asiático
O guepardo asiático, também conhecido como chita asiática (Acinonyx jubatus venaticus), é uma das mais raras e principais subespécies de guepardo, que é endêmica do Irã, embora seja vista com muita dificuldade em outros países do oriente médio. Já teve como habitat grande parte do Sudoeste Asiático, indo da Arábia ao Afeganistão, Paquistão, Irã e a Índia, particularmente abundante nos dois últimos. Está ameaçada pela caça, destruição do habitat e diminuição do número de suas presas devido a caça e competição com o gado doméstico. Dos cerca de 200 na década de 1970 permanecem de 40 a 70 exemplares nas zonas áridas do Irã de acordo com uma pesquisa de 2013 da Sociedade Iraniana de Guepardos (ICS, em inglês). Atualmente existe um programa para proteger o guepardo asiático, que é sediado também no Irã.
Guepardo "real"
A primeira aparição do guepardo "real" foi na Rodésia do Sul, atual Zimbábue, no ano de 1926. O fazendeiro que havia comprado a pele, a doou ao museu em Harare e depois foi examinada pelo Major A. C. Copper que achou que fosse um híbrido de guepardo e leopardo. A pele foi então mandada para Reginald Innes Pocock no Museu Britânico que em 1927, classificou o "novo" animal como Acinonix rex. Alguns até sugeriram que era apenas uma forma aberrante e chegou-se até a sugerir um novo gênero Paracinonyx. Em 1939 Pocock revogou da classificação dada por ele. Pensava-se que era realmente uma nova espécie, quando, na realidade, trata-se de uma mutação que torna o sua pelagem diferente dos guepardos "comuns", que ao invés das tradicionais manchas redondas pequenas, existem manchas igualmente redondas, só que maiores e formando pequenas listras, e daí o nome científico Acinonyx rex, que hoje é considerado como inválido. Os nativos chamam este tipo de guepardo como "leopardo-hiena", e é considerado um animal sagrado pelos nativos, praticamente tanto quanto o leão branco.
História evolutiva
Teriam evoluído na África durante a época Miocena (de há 26 milhões a 7,5 milhões anos atrás), antes de migrarem para a Ásia. Espécies extintas atualmente incluíam a Acinonyx pardinensis (da época Pliocena), muito maior que a chita atual, encontrada na Europa, Índia e China; a Acinonyx intermedius (Pleistoceno médio), com a mesma distribuição geográfica, e a Acinonyx kurteni, do período plioceno, encontrado na China. Aventou-se recentemente, no entanto, que o gênero norte-americano Miracinonyx seria um exemplo de convergência evolutiva, constituindo-se então, não num parente próximo da atual chita, mas numa forma corredora do puma, ou suçuarana como é chamada no Brasil.
Eles enfrentam ameaças como a perda de seu habitat e a caça clandestina. Além disso, crias de guepardo sofrem de elevados índices de mortalidade devido a fatores genéticos e à predação por parte de carnívoros que competem com esta espécie, como o leão e a hiena. Alguns biólogos defendem a teoria de que, em resultado da endogamia, o futuro da espécie possa estar comprometido. As chitas estão incluídas na lista de espécies vulneráveis da IUCN (no português, União Internacional pela Conservação da Natureza), como espécie africana ameaçada e subespécie asiática em situação crítica. Os guepardos foram perseguidos e caçados durante muito tempo pelos agricultores e pastores que os acusavam de matar os rebanhos. Quando tal espécie começou a ficar ameaçada de extinção, (vulnerável), promoveram-se inúmeras campanhas com o intuito de informar e educar ambiental e mentalmente os fazendeiros, incentivando-os a proteger este animal, e não matá-lo. O guepardo asiático também foi muito caçado, o que contribuiu para a diminuição desta subespécie, o motivo para esta excessiva caça também era a cobiçada pele e, como consequência, atualmente está em perigo crítico de extinção com entre 40 e 70 exemplares vivendo na natureza e outros vivendo em vários zoológicos do mundo. Recentemente, guepardos-asiáticos foram localizados para serem colarizados e monitorados, no Irã, para assegurar o futuro desta subespécie de guepardo.
Importância econômica
A pele do guepardo, ou chita como é conhecido este felino, foi durante muito tempo, considerada como um símbolo de status. No Egito antigo era muito frequente a sua utilização como animal de estimação, já que os mesmos podem ser domesticados, com cautela, claro, por tratar-se de um animal selvagem. Hoje têm uma importância econômica crescente devido ao ecoturismo, além de se encontrarem vários exemplares distribuídos por jardins zoológicos em todo o mundo. Como são muito menos agressivos que outros felinos de grande porte, as crias são facilmente vendidas como animais de estimação, principalmente na África, já que na Ásia é mais difícil de se capturar os filhotes devido à proteção que têm, principalmente no Irã, (na Ásia os guepardos são bem mais protegidos a este tipo de tráfico). Este comércio é ilegal na maioria dos países mas em países da Ásia Ocidental e nos Emirados Árabes Unidos ele ainda é legal se os guepardos tiverem nascidos em cativeiro.


