Lêmure
Lêmure (português brasileiro) ou lémure (português europeu) é a denominação atribuída às espécies de primatas esprepsirrinos que pertencem à superfamília Lemuroidea ou infraordem Lemuriformes, a depender do critério de classificação. Todas as espécies conhecidas são endêmicas da ilha de Madagascar (África), no que apenas duas também ocorrem em Comores — provavelmente introduzidas por seres humanos. Apesar de apresentarem uma limitada distribuição geográfica, os lêmures configuram-se como um grupo morfologicamente diversificado, ocupando uma grande variedade de nichos ecológicos. Expressam hábito arborícola, sendo que as espécies, geralmente, são diurnas ou crepusculares. Desse modo, correspondem a um clado de expressiva diversidade dentro do grupo dos primatas, havendo cinco famílias extantes: Cheirogaleidae, Lemuridae, Lepilemuridae, Indriidae e Daubentoniidae, que denotam um total de 15 gêneros e cerca de 100 espécies ; além de três famílias levadas à extinção pela ação antrópica: Archaeolemuridae, Palaeopropithecidae e Megaladapidae.
Lêmures são primatas estrepsirrinos extremamente diversificados em termos ecológicos e fenotípicos que pertencem à superfamília Lemuroidea (ou infraordem Lemuriformes, a depender da classificação). Todas as espécies conhecidas, tanto as fósseis quanto as extantes, são endêmicas de Madagascar e Comores (África) (nessa última, provavelmente levadas por humanos). Não há consenso nos estudos filogenéticos sobre as relações de parentesco entre as diferentes linhagens (famílias) de lêmures entre si, sendo as hipóteses ainda muito controversas. Não obstante, tem-se bem estabelecido que esses organismos configuram um grupo monofilético, irmão do clado formado pelos lorisídeos e galagonídeos (superfamília Lorisoidea ou infraordem Loriformes, a depender da classificação). Ademais, a posição basal dos Daubentoniidae (aie-aie como o único representante vivo) é, frequentemente, suportada. Desse modo, os Lemuroidea e Lorisoidea são agrupados em um clado de grau hierárquico superior, a infraordem Lemuriformes. Dentre as diversas características compartilhadas pelos Lemuriformes, pode-se destacar a projeção dos dentes caninos e incisivos, que são justapostos, formando um pente dental; além de garras, em vez de unhas, no segundo dedo (membros inferiores). Essas estão associadas ao hábito de catação apresentado por esses organismos. Ademais, características gerais compartilhadas também incluem a presença de uma barra pós-orbital e uma membrana externa da narina que é conectada ao lábio superior.
Lêmures são, naturalmente, endêmicos de Madagascar, a leste da costa de Moçambique (África). Considerando essa localidade, apresentam grande dispersão e ocupam diversos nichos ecológicos, desde a leste, caracterizado por possuir alta umidade até oeste, caracterizado por ser mais árido; além do sul, que pode ser muito mais seco que a região oeste. Possuem hábito arborícola, entretanto, algumas espécies podem passar algum tempo no solo. O maior número de lêmures é encontrado em regiões com árvores altas e locais beneficiados durante estações chuvosas, pois há maior disponibilidade de alimentos. Por possuir alta habilidade de adaptação às diferentes regiões onde vivem, durante o restante do ano, diversos lêmures deixam estas regiões e buscam outras, onde podem obter mais recursos. Diversas características ambientais exercem influência na capacidade dos lêmures habitarem determinado local. Cada espécie responde de forma diferente a um mesmo ambiente, principalmente pelas diferenças geradas entre cada uma ao longo de sua história evolutiva. A distribuição e abundância do gênero de árvores Canarium possui grande relação com a distribuição de lêmures como o aie-aie (Daubentonia madagascariensis) (Daubentoniidae). De forma análoga, a presença de arbustos frutíferos, secreções de insetos e árvores produtoras de goma são de grande importância para lêmures onívoros.
Os lêmures, em comparação com os antropóides, são animais pequenos, com um cérebro proporcionalmente diminuto em relação a seu tamanho corporal. Em animais quadrúpedes (que é o caso dos lêmures), que correm e escalam, a proporção de tamanho entre os membros torácicos e pélvicos é semelhante, sendo os membros pélvicos pouco maiores que os torácicos. Possuem focinhos longos, com olhos em posição frontal e próximos um ao outro. A posição dos olhos nestes animais promoveu a melhor locomoção em ambientes tridimensionais, ou seja, a locomoção pelas árvores, e facilitam a precisão para coletar e capturar alimentos. Possuem coxins palmares e plantares com muitos sulcos e estrias, como na maioria dos primatas. Os prossímios, exceto o aie-aie, possuem unhas nos dedos das mãos e na maioria dos dedos dos pés. O aie-aie possui garras em seus dedos, exceto no hálux, onde tem uma unha. Os demais prossímios de Madagascar possuem uma garra no segundo dedo do pé, que é usada para arranhar e, sobretudo, para a catação (para esse hábito, há ainda a presença de um pente dental). Esta conformação também ocorre em prossímios que não habitam Madagascar, sendo que a única exceção é o gênero Tarsius, que possui esta garra no segundo e terceiro dedo do pé. A maior parte dos primatas inferiores possui 5 dedos nos pés, sendo que o hálux encontra-se mais abduzido em relação aos demais, uma das adaptações dos primatas para agarrar-se em troncos de árvores.
As populações de lêmures, em geral, apresentam apenas uma temporada de partos ao ano, que se concentram em um período de um ou dois meses, ocorrendo em períodos diferentes a depender da espécie. As fêmeas podem ser mono ou poliéstricas sazonais, enquanto os machos de algumas espécies podem apresentar variações sazonais no tamanho e função testicular. O ciclo estral destes animais é controlado pelo fotoperiodo, sendo que algumas espécies são de dias longos, como o Microcebus murinus (Cheirogaleidae), e outras de dias curtos, como o Lemur catta (Lemuridae). O estímulo social, como a introdução de machos em um ambiente com fêmeas, e a alteração artificial do fotoperíodo são fatores que podem influenciar o ciclo estral de fêmeas em cativeiro. Lêmures, em geral, apresentam um curto período de gestação, em comparação com outros primatas de tamanho similar.
Os lêmures vivem em grupos sociais pequenos, sendo raro encontrar grupos contendo mais de 15 indivíduos, A maior parte das espécies é diurna ou crepuscular, com exceção dos gêneros Cheirogaleus, Microcebus, Mirza, Allocebus, Phaner, Lepilemur, Avahi e Daubentonia, que são noturnos. Os membros da comunidade compartilham uma área de vida que abrange várias áreas centrais usadas preferencialmente por grupos de 2 a 5 indivíduos. É comum que no caso de outros primatas, como os símios, os machos sejam dominantes sobre as fêmeas, ou que haja codominância entre fêmeas e machos. Porém, entre a maioria das espécies de lêmures, suas sociedades são organizadas com a dominância de fêmeas adultas sobre todos os machos. As fêmeas lêmures toleram apenas outras fêmeas da mesma matriz; quando o tamanho do grupo aumenta e o nível de parentesco genético entre seus membros femininos diminui, as fêmeas expulsam outras fêmeas que não possuem semelhanças com o grupo.
Lêmures possuem uma dieta muito variada, algumas espécies mais que outras. Essa dieta pode, em geral, variar de folhas jovens a gemas axilares, frutas, flores ou insetos e até mesmo, em algumas espécies, néctar. Tal hábito de alimentar-se de néctar parece ser mais comum entre os lêmures do que entre outros primatas que, mesmo também se alimentando de flores, são pouco capazes de explorar apenas o néctar. Alguns estudos têm proposto a importância de lêmures nectarívoros enquanto polinizadores em regiões como Madagascar, onde morcegos e pássaros nectarívoros são raros ou ausentes. Além disso, o grupo inclui alguns dos únicos primatas que se alimentam principalmente de folhas em vez de frutas, o que pode ser explicado pelo estudo que mostra a carência de nitrogênio nas frutas de Madagascar, quando comparadas às frutas de outras regiões. Isso sugere que os lêmures adotaram as folhas em sua dieta como forma de compensar essa carência nutricional das frutas.
Os lêmures são considerados os mamíferos que mais correm risco de extinção no mundo. Seus hábitats têm sido massivamente degradados ao longo dos anos, havendo diversas queimadas e desmatamento, além da predação por humanos e tráfico de animais. As queimadas e desmatamento em Madagascar causam uma brusca mudança no hábitat. As florestas passam a ser ocupadas por agricultura e pecuária, afetando não apenas os lêmures, como todas os outros organismos que vivem nestas regiões. Evidências geradas por subfósseis permitem concluir que antes do desmatamento causado por humanos, Madagáscar abrigava diversos lêmures que dependiam extensivamente da estrutura das florestas presentes. A distribuição disjunta vista atualmente entre as diversas espécies de lêmures indica que as florestas, em seu platô, eram contínuas o suficiente para permitir migração constante para espécies como o aie-aie, lêmures marrons e outros. Além do mais, evidências oriundas de sequências de paleopólen indicam que durante o platô das florestas de Madagascar, havia um ecossistema extremamente dinâmico, com mudanças bióticas e abióticas muito significativas. Estimativas conservadoras indicam que entre 1950 e 2000 houve perda de aproximadamente 40% da mata original de Madagascar.


