Aldir Blanc
Aldir Blanc Mendes OMC foi um letrista, compositor, cronista e médico brasileiro. Abandonou a profissão de médico para tornar-se compositor, sendo considerado um dos grandes letristas da música brasileira.
Vida pessoal
Blanc nasceu em 2 de setembro de 1946, no bairro do Estácio, no décimo mês de gestação de sua mãe, Helena, cujo trauma deixou uma espécie de depressão pós-parto na mãe. Nunca mais engravidou e quase não saía de casa - comportamento mais tarde adotado pelo filho - até sua morte, em 2002, com 80 anos. Seu pai, Alceu, era funcionário do antigo Iapetec e amava jogar sinuca e nos cavalinhos. Sujeito de poucas palavras, tornou-se o maior amigo de Aldir com o tempo. Filho único, teve no avô materno, o português Antônio Aguiar, a presença mais afetuosa em sua infância, que praticamente criou o neto na casa de Vila Isabel, bairro onde estariam tipos e cenários fundamentais para os textos e as letras do futuro letrista e cronista. Aos 11 anos, seus avós foram morar no Estácio. Com o passar dos anos, o contato com os malandros da área aumentou, levando os avós a persuadi-lo a morar com um primo um pouco mais velho, na Tijuca, que o levou a conhecer bailes, noitadas boêmias, mulheres, futebol, a quadra da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro (que se tornaria a escola do coração de Blanc), os blocos de Carnaval.
Morte e repercussão
Em 10 de abril de 2020, Blanc deu entrada no Hospital Municipal Miguel Couto com infecção urinária e pneumonia. Com o agravamento do seu quadro clínico, o letrista foi transferido dias depois para a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde um exame revelou uma infecção pelo COVID-19. Na madrugada de 4 de maio, acabou por não resistir e morreu por complicações da doença. Aldir deixou a esposa Mari Lucia, quatro filhas, cinco netos e um bisneto. A morte de Blanc foi lamentada por diversos artistas e personalidades. João Bosco, seu longo parceiro musical, publicou texto em rede social no qual dizia que sua própria vida se confundia com a vida de Blanc. Segundo Bosco, "não existe João sem Aldir". João Bosco concluiu: "perco o maior amigo, mas ganho, nesse mar de tristeza, uma razão para viver: quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças. Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui para fazer o espírito do Aldir viver". Também parceiro de Aldir Blanc, Moacyr Luz afirmou que o amigo "vai fazer uma falta incrível".
Música
Aldir Blanc deu seus primeiros passos na música em meados da década de 1960, quando começou a compor aos 16 anos e aos 17 aprendeu a tocar bateria, fundando o grupo Rio Bossa Trio, que com a entrada do músico Sílvio da Silva seria rebatizado para GB-4. Com o novo integrante, Blanc firmou sua primeira parceria musical. Uma dessas parcerias, "A noite, a maré e o amor", competiu no III Festival Internacional da Canção em 1968. A partir de 1969, surgiu uma nova parceria com César Costa Filho, compositor do qual foi colega no Movimento Artístico Universitário, que integrou ao lado de nomes como Ivan Lins e Gonzaguinha. Dessa parceria, classificou duas canções no II Festival Universitário da Música Popular Brasileira: "De esquina em esquina" (interpretada por Clara Nunes e "Mirante" (interpretada por Maria Creuza). Também nesse festival teve "Nada sei de eterno", defendida por Taiguara e fruto de parceria com Sílvio da Silva. Em 1970, com a coautoria de Silva, despontou o primeiro grande sucesso, “Amigo É pra Essas Coisas”, que chegou ao segundo lugar no III Festival Universitário de Música Popular Brasileira, da TV Tupi, na interpretação do grupo MPB-4. Ainda naquele ano, teve no V Festival Internacional da Canção a canção "Diva", feita com César Costa Filho - mas desentendimento entre os autores por questões ideológicas ceifou essa parceria em 1971.
Literatura
Estamos falando do ourives do palavreado. Estamos falando de poesia verdadeira. Todo mundo é carioca, mas Aldir Blanc é carioca mesmo. Dorival Caymmi, em apresentação no disco-tributo "Aldir Blanc - 50 Anos" Paralelamente a sua carreira como letrista, Aldir Blanc começou a escrever crônicas inspiradas na sua vida nos subúrbios cariocas para os jornais "Última Hora", "Tribuna da Imprensa" e a revista "Homem", até fixar-se em "O Pasquim", em 1975. Da compilação de crônicas escritas para este último nasceriam os livros "Rua dos Artistas e Arredores" (1978) e "Porta de Tinturaria" (1981), que seriam reunidos em um só volume como o título "Rua dos artistas e transversais" (2006). Em suas crônicas, Blanc reconstruia cenas do cotidiano de ruas e personagens da sua infância em Vila Isabel, que segundo o cronista, existiram de fato, como o primo Esmeraldo (conhecido pelas domésticas da Penha como "Simpatia É Quase Amor", cognome que inspirou a criação do famoso bloco de Carnaval de Ipanema), Lindauro, Belizário, Pelópidas, Tatinha, Gogó de Ouro, Paulo Amarelo, Waldir Iapetec, Tuninho Sorvete. Também foi cronista dos jornais O Globo, Jornal do Brasil e O Dia, além da revista Bundas.
Imagem: Avelludo · BY-SA · Openverse
Naquele tarde chuvosa no Maracanã, o goleiro do Bangu bobeou. Vavá marcou; Na arquibancada molhada, o negro e o português, por antecipação, tinham em mãos o caneco de 56; Daquela tarde aos 10 não me esquecerei: fui para a Rua dos Artistas, me gripei, caí de cama; Doído, com 40 graus, escolhido dentro do pijama, contraí esse doença: ser Vasco da Gama! Aldir Blanc, trecho do texto "Febre Vascaíno" Neto de um imigrante português, Blanc passou a torcer pelo Vasco por influência de seu pai, vascaíno, que costumava levá-lo aos jogos da equipe quando era criança. Segundo Blanc, o amor pelo Vasco "se cristalizou" quando o Vasco ganhou o Campeonato Carioca de 1956 por antecipação, em cima do Bangu. A conquista foi posteriormente lembrada por Blanc na crônica "Febre Vascaíno", publicada pela primeira vez na Revista Placar, em 1993, e posteriormente no livro "Direto do Balcão". Aldir Blanc já foi descrito como "vascaíno apaixonado", "fanático" e "vascaíno incurável", "porta-voz" do Vasco, como um dos "vascaínos mais célebres" e como alguém que conseguia como poucos "traduzir tão bem o significado de ser vascaíno". Sua relação com o Vasco já foi apresentada como "um caso de amor", e o Vasco sua "grande paixão". Sua relação com o Vasco era tão intensa que Luis Fernando Veríssimo certa vez escreveu: "é preciso lembrar sempre que o Vasco da Gama não é o Eurico Miranda. É sua história e suas glórias, incluindo o Aldir Blanc". Blanc era crítico feroz de Eurico Miranda, ex-presidente do Clube, a quem chegou a acusar de chefiar a instituição com "uma retórica fundamentalista e estúpida anti-Flamengo", afirmando ainda que Eurico seria um "almocreve de charuto importado", em referência ao hábito do ex-mandatário de fumar charutos.


