Alessandro Scarlatti
Alessandro Scarlatti, cujo nome verdadeiro era Pietro Alessandro Gaspari, foi um compositor italiano de grande importância para a música lírica do período barroco. Seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da ópera séria e da ópera bufa do seu tempo. Ele é considerado o pai da escola napolitana de ópera, a qual contou, mais tarde, com membros como Leonardo Leo, Francesco Feo, Leonardo Vinci, Giovanni Battista Pergolesi e Johann Adolf Hasse, entre outros.
Origem na Sicília (1666–1672) e primeira estada em Roma (1672–1684)
Scarlatti nasceu na Sicília, em Trapani ou Palermo. Ainda muito jovem, no ano de 1672, foi enviado para viver com parentes em Roma. Nesta cidade, parece ter tido contado com Giacomo Carissimi (1605–1674) e há razões para crer que ele tenha tido conexões com a parte nordeste da Itália, uma vez que seus primeiros trabalhos revelam a influência de Stradella (1639–1682) e Legrenzi (1626–1690). O primeiro registro de seu trabalho como autor em Roma se refere a uma encomenda da Arquiconfraria do Santíssimo Crucifixo, que solicitou de Scarlatti um oratório em 1679. O sucesso que sua ópera Gli Equivoci nell’amore (1679) alcançou em Roma contribuiu de forma decisiva para que Scarlatti ganhasse a proteção da Rainha Cristina da Suécia (1626–1689). Cristina vivia na cidade à época depois de ter abdicado e se convertido ao catolicismo e fez de Scarlatti seu maestro di cappella. No mesmo ano, deu-se a estreia de seu primeiro oratório na Arquifraternidade do Santíssimo Crucifixo e nasceu seu filho mais velho, Pietro Filippo.
Nápoles (1684–1702)
Em fevereiro de 1684, Scarlatti foi contratado pelo ex-embaixador espanhol no Vaticano, Gaspar de Haro y Guzmán (1629–1687), o qual havia sido nomeado Vice-Rei de Nápoles, tornando-se seu maestro di cappella. Em parte, essa nomeação se deu graças à influência de uma irmã de Alessandro, uma cantora de ópera amante de um nobre napolitano influente. Um ano depois de assumir o novo posto, nasceu o sexto filho de Alessandro, Domenico, cujos méritos como tecladista o tornariam célebre. Alessandro permaneceu nessa posição até 1702 e produziu cerca de 80 óperas, das quais sobreviveram cerca de 40. Compôs ainda nove oratórios, sete serenatas e 65 cantatas. Dessa fase foram, por diversas vezes, representadas em Roma, para onde se dirigia para acompanhar a produção, além de outros centros importantes como Florença, Milão, Londres e Brunswick. Foi nesse período que Scarlatti firmou alguns dos pilares da ópera de seu tempo que estiveram em vigor até a grande revolução mozartiana. Dentre esses elementos vale citar a abertura em estilo italiano (rápido-lento-rápido), os recitativos acompanhados e a ária da capo (no formato A-B-A, ver adiante).
Segunda estada em Roma (1703–1708)
Sem conseguir o posto em Florença, Scarlatti se dirigiu novamente a Roma onde, em 1703, tornou-se vice maestro di cappella na igreja de Santa Maria Maggiore graças à influência do cardeal Pietro Ottoboni (1667–1740) que já o havia contratado no ano anterior. Durante essa nova estada em Roma, Scarlatti se tornou um requisitado compositor de cantatas, tendo recebido encomendas dos Medici e da rainha Maria da Polônia. Em 1706, Scarlatti é admitido na Academia de la Arcadia, cujo acesso estava restrito a nobres e eruditos. Durante essa estada em Roma, travou contato próximo com outro expoente da música barroca, o compositor e violinista Arcangelo Corelli (1653–1713).
Volta a Nápoles (1708–1725)
Scarlatti retomou seu posto de maestro di capella da corte Nápoles em 1708, quando os austríacos substituíram os espanhóis no comando do país. Foi decisiva para esse retorno a influência do novo vice-rei, o cardeal Vincenzo Grimani (1652–1710), admirador de Scarlatti e autor do libreto da ópera Agrippina, de Händel (1709). Grimani havia conhecido os dois compositores quando ocupava o posto de embaixador do Império Austríaco junto à corte papal em Roma. O contado Scalatti com Roma permaneceu vivo mesmo após o retorno a Nápoles e o papa lhe concedeu privilégios de nobreza em 1716. Em Nápoles, porém, seguiram-se diversos fracassos no campo operístico. A cidade parecia ter se cansado de sua música. Sua ópera cômica Il trionfo dell'onore (1718) não foi bem recebida pelo público da cidade. Melhor acolhida tiveram suas obras cômicas em dialeto napolitano que começavam a entrar em moda nessa época.
A música de Alessandro Scarlatti é um elo importante entre os estilos vocais do início do barroco italiano do século XVII, cujo centro foram as cidades de Florença, Veneza e Roma, e a escola clássica cujo apogeu se dá nas obras mais tardias de Mozart (1756–1791). Suas primeiras óperas mantêm as antigas cadências nos recitativos e uma variedade considerável de formas construídas de maneira cristalina em suas charmosas pequenas árias, algumas vezes acompanhadas pelo quarteto de cordas e tratadas com cuidadosa elaboração e, outras vezes vezes, acompanhadas apenas pelo cravo. Datam desse período, que se estende até por volta de 1685, obras como Gli Equivoci nel Sembiante (1679), L’Honestà negli Amori (1680), que contém a famosa ária "Già il sole dal Gange", Pompeo (1683), que contém as bem conhecidas árias "O cessate di piagarmi" e "Toglietemi la vita ancor". Por volta de 1686 Scarlatti criou definitivamente a forma abertura italiana (segunda versão de Dal Male il Bene), e abandonou o ostinato e a ária na forma binária (com estrutura do tipo A-B) em favor da chamada ária da capo (com sua estrutura A-B-A). Suas melhores óperas desse período são La Rosaura (1690) e Pirro e Demetrio (1694), que possui as árias Rugiadose, odorose, e Ben ti sta, traditor.


