Arcangelo Corelli
Arcangelo Corelli foi um professor, maestro, violinista e compositor italiano.
Origens e primeiros anos
Arcangelo Corelli nasceu em 17 de fevereiro de 1653 na vila de Fusignano, então parte dos Estados Pontifícios, como o quinto filho de Arcangelo Corelli e Santa Raffini. Seu pai faleceu pouco mais de um mês antes de seu nascimento. Biografias antigas construíram para sua família genealogias ilustres que remontavam ao romano Coriolano ou aos poderosos patrícios venezianos Correr, mas elas carecem de fundamento. Não obstante, foram documentados em Fusignano desde 1506, onde ingressaram no patriciado rural, vindo a adquirir riqueza e considerável extensão de terras. Sua família foi turbulenta e orgulhosa, e por muito tempo disputou com a família Calcagnini para ser investida do feudo de Fusignano, que a outra detinha, sem consegui-lo.
Período bolonhês
Com treze anos estava em Bolonha, onde sua vocação se definiu e decidiu dedicar-se integralmente à música. Não se sabe o que havia aprendido em Lugo e Faenza, mas segundo o testemunho do douto padre Martini, até esta época seu conhecimento de música era medíocre. Em Bolonha entrou em contato com afamados professores, entre eles Giovanni Benvenuti e Leonardo Brugnoli, e talvez também Giovanni Battista Bassani, e começou a se manifestar sua preferência pelo violino. Seu progresso nos estudos do instrumento foi tão rápido que apenas quatro anos depois, em 1670, foi admitido na prestigiada Academia Filarmônica, uma das mais seletivas da Itália, embora seu nascimento patrício possa ter tido alguma influência no processo. É ignorado até que ponto a escolha dos professores foi intencional ou meramente produto das circunstâncias, mas a julgar por uma observação que deixou em 1679, eles lhe pareceram os melhores mestres disponíveis na cidade, não havendo outros que pudessem oferecer instrução mais apurada, mesmo que limitada a certos aspectos da arte. De qualquer forma, eles se alinhavam a uma nova corrente que dava uma ênfase maior ao brilhantismo na execução, em detrimento das tradições da antiga escola contrapontística, em que os instrumentos tinham um peso mais ou menos similar nos conjuntos. De fato, em sua maturidade Corelli seria um dos grandes agentes da rápida ascensão do violino como instrumento solista e apto para exibir a virtuosidade dos intérpretes. O estilo que consolidou nesta primeira fase mostra especial influência de Brugnoli, cuja execução foi descrita pelo Martini como original e maravilhosa, sendo excelente também na improvisação.
Roma: maturidade e consagração
Simonelli era um classicista e exímio contrapontista, e exerceu importante influência no seu amadurecimento como compositor e no desenvolvimento do estilo de composição que o tornaria famoso, que se afastou do simples virtuosismo que herdara de Bolonha e passou a mostrar um notável equilíbrio entre brilho instrumental e uma distribuição de papéis mais equitativa entre as vozes da orquestra, que se revelaria magistralmente nos seus doze concertos grossos, sua obra-prima. Seu primeiro registro seguro em Roma, de 31 de março de 1675, o mostra entre os violinistas na execução de um grupo de oratórios na Igreja de São João dos Florentinos, incluindo a obra San Giovanni Battista, de Alessandro Stradella. Em 25 de agosto constou na lista de pagamento pela execução de obras na Festa de São Luís realizada na Igreja de São Luís dos Franceses, em presença da nobreza e do corpo diplomático. Entre 1676 e 1678 é documentado como segundo violino na mesma Igreja. Em 6 de janeiro de 1678 foi o primeiro violino e regente da orquestra que apresentou a ópera Dov'è amore è pietà, de Bernardo Pasquini, na inauguração do Teatro Capranica. Esta apresentação significou sua consagração no mundo musical romano. Tornou-se primeiro violino da orquestra de São Luís e em 1679 entrou no serviço da ex-rainha Cristina da Suécia, que se radicara em Roma e ali mantinha uma corte brilhante.
Anos finais
Em 1708 circulou uma notícia de que havia morrido, gerando pesar em várias cortes europeias. Era notícia falsa, mas no mesmo ano, uma carta que escreveu para o eleitor do Palatinado para esclarecer que ainda vivia, parece dizer que sua saúde já não era boa. Nela também declarava que já estava empenhado na elaboração de sua última coleção de obras, os concertos grossos, que não veria ser publicada. Em 1710 deixou de aparecer em público, sendo substituído por seu discípulo Fornari na direção da orquestra de São Luís. Até 1712 residiu no Palácio da Chancelaria, e no fim deste ano, talvez pressagiando seu fim, mudou-se para o Palazzetto Ermini, onde moravam seu irmão Giacinto e seu filho.
O homem
Corelli nunca se casou e não se conhece que tenha mantido qualquer relacionamento amoroso senão com sua arte. Já foi especulado que possa ter sido amante de seu discípulo Fornari, com quem viveu nos palácios de seus mecenas, mas não há nenhuma base segura para afirmá-lo. Sua personalidade foi descrita em geral como tímida, regrada, austera, servil e tranquila, uma imagem de serenidade e doçura invariável, mas quando estava em seu trabalho revelava-se enérgico, exigente e decidido. Händel, que manteve contato com ele em Roma, deixou um comentário: "Suas duas características dominantes eram sua admiração pelas pinturas, as quais diz-se que sempre recebeu de presente, e uma extrema parcimônia. Seu guarda-roupa não era grande. Ordinariamente vestia-se de negro, e costumava usar um manto escuro; deslocava-se sempre a pé, e protestava vigorosamente se alguém queria obrigá-lo a tomar uma carruagem". Uma descrição da época diz que quando era solista ao violino sua figura se transmutava, se contorcia, seus olhos se tingiam de vermelho e giravam nas órbitas como se estivesse em agonia, mas isso também pode ser uma elaboração folclórica.
Contexto
Corelli floresceu no auge do período Barroco, uma corrente cultural que se caracterizou pela expressão artística floreada e luxuriante, carregada de dramaticidade e contrastes acentuados. Sua música se desenvolveu a partir da polifonia renascentista, mas neste período iniciou uma transição para uma maior independência entre as vozes. Novos fatores socioculturais e religiosos, bem como uma forte influência do teatro e da retórica, determinaram a elaboração de um idioma musical renovado que pudesse expressar melhor o espírito da época, desenvolvendo-se com isso uma ampla gama de novas técnicas harmônicas, vocais e instrumentais. É o período em que o sistema tonal se consolida definitivamente, abandonando o antigo sistema modal, tendo sua expressão mais típica no estilo de escrita conhecido como baixo contínuo ou baixo cifrado, onde a linha de baixo e a linha superior são escritas por extenso, deixando ao critério do intérprete a realização do recheio harmônico atribuído às outras partes, indicado pelo autor resumidamente por meio de cifras convencionadas. A grande importância atribuída à voz superior, que passou a conduzir uma melodia principal, relegando as outras partes a um papel subordinado, levou ao surgimento da figura do solista virtuoso.
O violinista
Como já foi assinalado, Corelli aprendeu as bases de sua técnica violinística em Bolonha, seguindo as linhas estabelecidas por Ercole Gaibara, tido como o fundador da escola bolonhesa, e sendo discípulo dos virtuosos Giovanni Benvenuti e Leonardo Brugnoli. Ele mais tarde instruiu muitos alunos e gerou uma escola por si mesmo, mas apesar de sua fama neste campo, sobrevivem surpreendentemente poucas e imprecisas descrições de sua técnica, gerando considerável controvérsia entre a crítica, uma lacuna que é agravada pelo fato de que ele não escreveu nenhum manual ou tratado sobre o assunto. Em seu tempo havia várias escolas de violino na Itália, que propunham diferentes métodos de execução e mesmo maneiras como o instrumentista deveria segurar o violino. Há uma considerável iconografia representando essas diferenças, onde os violinistas apoiam o instrumento debaixo do queixo, sobre o ombro ou junto ao peito, em variadas inclinações. Naturalmente, essas diferenças implicavam em diferentes técnicas de mão esquerda e de arco e em certa medida definiam o estilo e complexidade da música que eram capazes de executar.
O maestro
Sabe-se pouco sobre sua atuação como maestro a não ser que desempenhou com sucesso esta função ao longo de muitos anos à frente das orquestras da Igreja de São Luís e da Academia das Artes do Desenho e de inúmeros conjuntos formados para ocasiões específicas, como as récitas nas Academias privadas da nobreza, as festividades cívicas e as recepções diplomáticas. As apreciações que recebeu foram sempre muito elogiosas, sendo louvado pela grande disciplina dos músicos que comandava, resultando em interpretações vigorosas, de grande precisão no ataque das notas e poderoso efeito de conjunto. Geminiani relatou que "Corelli considerava essencial que todo o conjunto da orquestra [referindo-se de fato às cordas] movesse seus arcos exatamente juntos: todos para cima, todos para baixo; de modo que em seus ensaios, que precediam as apresentações, ele pararia a música se visse algum arco fora de posição".
O compositor
Em que pese o amor tipicamente barroco pelo extravagante, pelo bizarro, pelo assimétrico e pelo dramático, a produção de Corelli se afasta deste padrão, favorecendo os princípios classicistas de sobriedade, simetria, racionalidade, equilíbrio e moderação expressiva, bem como de perfeição formal, repetidamente apreciados pela crítica coeva e contemporânea, formulando com notável economia de meios uma estética que está entre os fundamentos da escola neoclássica de música. Na descrição da Larousse Encyclopedia of Music, "sem dúvida outros antes dele mostraram mais originalidade, mas ninguém em seu tempo exibiu mais nobre interesse por equilíbrio e ordem, ou por perfeição formal e um senso de grandeza. A despeito do seu treinamento bolonhês, ele encarna a era clássica da música italiana, devendo muito à tradição romana. [...] Mesmo que não tenha inventado as formas que usou, Corelli conferiu-lhes uma nobreza e perfeição que o tornam um dos maiores classicistas".
Chamado em vida de "a glória maior de nosso século" e de "o novo Orfeu", Corelli foi a figura dominante na vida musical de Roma a despeito de sua personalidade retraída e do enorme número de profissionais altamente qualificados em atividade, e teve sua obra difundida em uma escala inédita por toda a Europa. Sua estatura artística é acentuada pelo fato de que sua produção é pequena, exclusivamente instrumental e por nunca ter se dedicado à ópera, o gênero mais popular de seu tempo e o que fazia as maiores celebridades. Segundo George Buelow, nenhum compositor do século XVII ganhou fama comparável baseada em tão escasso número de obras, sendo também um dos primeiros a se celebrizar apenas em função de música instrumental. Charles Burney disse que "ele mais do que ninguém contribuiu para seduzir os amantes da música pelo simples poder de seu arco, sem o auxílio da voz humana". Raramente alguma figura ilustre em visita a Roma abandonava a cidade sem antes conhecê-lo pessoalmente e prestar-lhe homenagem. Roger North, um comentarista inglês da época, escreveu que "a maior parte da nobreza e da aristocracia que viajava à Itália procurava saber de Corelli, e voltava para casa tendo em tão grande consideração a música italiana como se tivesse estado no Parnaso. [...] Maravilha observar como há traços de Corelli por toda parte — nada tem sabor senão Corelli. Isso não surpreende, uma vez que o Grande Mestre fez seu instrumento falar como se fosse a voz humana, e dizia aos seus alunos: Não o ouviste falar?" Pouco depois de falecer continuaram a surgir eloquentes elogios, Couperin compôs uma Apoteose de Corelli, e formou-se copioso folclore a seu respeito, que coloriu as biografias mais antigas e preencheu a surpreendente escassez de informação factual sólida sobre sua vida, e ainda hoje muitas vezes circula como se fatos fossem, mas é um atestado indireto de sua grande fama.


