Gueorgui Júkov
Gueorgui Konstantínovitch Júkov foi um destacado militar e político russo, e o oficial mais condecorado da história da União Soviética. Primeiro sargento do Exército Imperial Russo na Primeira Guerra Mundial, ao longo da Guerra Civil Russa tornou-se oficial do Exército Vermelho e membro do Partido Comunista. No período entreguerras ele cresceu firmemente nos quadros militares, e comandou as forças soviéticas na batalha final de Halhin-Golie. Por seu papel na vitória contra o Japão, Josef Stalin o nomeou Chefe do Estado-Maior General, já durante a Segunda Guerra Mundial.
Origens
Júkov nasceu no vilarejo rural de Strelkovka, no Império Russo, e que atualmente é parte da cidade de Júkov, no Distrito de Maloiaroslavetski do Oblast de Kaluga. Seu pai, Konstantin, nascera em 1841 e, órfão ainda pequeno, fora criado por uma velha senhora, Anna Júkova. Anna morreu em 1849, obrigando Konstantin a trabalhar desde cedo. Ele empregou-se inicialmente em uma sapataria de um vilarejo vizinho, e aos onze anos partiu para Moscou para trabalhar em uma famosa fabrica de botas. Ele se casou pela primeira vez em 1870 com Anna Ivanova, e o casal teve dois filhos, Grigori e Vassili (este último morto antes dos dois anos). Anna Ivanova morreu de tuberculose em 1892, e no mesmo ano Konstantin desposou Ustienia Artémievna, nascida em 26 de setembro de 1863 em uma aldeia próxima, Tchernaia Griaz. Filha mais velha de camponeses cuja situação beirava a servidão, seus pais inicialmente não possuíam sobrenome, mas na década de 1880 adotaram o nome Pilikhin. Em 1885 ela havia se casado com Faddei Stefanovitch, que quatro anos depois morrera também de tuberculose, deixando-lhe um filho pequeno, Ivan. Em 1886 ela havia dado à luz outro filho, Gueorgui, que morrera ainda bebê.
Infância e juventude
O pequeno Gueorgui Júkov nasceu na mesma isbá que seu pai herdara de Anna Júkova. Em suas memórias ele descreveria essa habitação de um cômodo e duas janelas como "uma casa muito velha e com um canto afundado [na terra]. Com o tempo as paredes e o telhado tinham sido tomados pelo musgo e pelo mato". No verão de 1901 o telhado dessa casa desabou, e a família foi forçada a vender a vaca e a égua, a fim de construir uma nova casa. Esta casa foi feita às pressas, e apesar de nova era um reflexo da miséria da família: "Do lado de fora esta casa era a pior de todas [do vilarejo], a varanda era feita de madeiras velhas, as janelas feitas com vidros aos pedaços".
Primeira Guerra Mundial
— Juramento de lealdade do Exército Imperial Russo. Após a declaração de guerra do Império Alemão contra a Rússia, em 1 de agosto de 1914, o czar não tardou a mobilizar suas tropas. Júkov não foi chamado inicialmente porque era demasiado jovem, mas em 7 de agosto de 1915 foi recrutado pelo Exército Imperial Russo e incorporado ao quartel de Maloiaroslavets. Como ele sabia montar, foi posto na cavalaria e recebeu um primeiro treinamento em Kaluga, na caserna do 189.º Batalhão de Infantaria de Reserva. Em setembro, após um mês de formação inicial, Júkov foi transferido para o 10.º Regimento de Dragões de Novgorod, que se encontrava perto de Carcóvia. O treinamento da cavalaria durou mais oito meses, e em março de 1916 os recrutas partiram para o front, no contexto da preparação da ofensiva Brusilov. Júkov, contudo, foi selecionado para ser treinado como sub-oficial, e então enviado para Izium. Após seu exame final, ele foi feito segundo sub-oficial e enviado ao seu regimento, que lutava no front sudoeste.
Guerra Civil Russa
— Juramento de lealdade do Exército Vermelho, em 1918. Iniciada a Guerra Civil Russa, em janeiro de 1918 Júkov decidiu se juntar à Guarda Vermelha. Contudo, no início de fevereiro ele caiu doente, com tifo exantemático, e a partir de abril teve febre tifoide recorrente. Assim ele só pôde juntar-se ao Exército Vermelho seis meses depois, ao alistar-se como voluntário no 4.º Regimento da 1.ª Divisão de Cavalaria de Moscou, em agosto.[nota 2] Pela segunda vez, Júkov foi incorporado à cavalaria, prestando novo juramento. O 4.º Regimento da Divisão de Cavalaria de Moscou foi fundado em 10 de outubro de 1918, e assentado em um campo de manobra a noroeste da capital. Ele permaneceu lá por oito meses, sujeito à fome e à deserção, e sofrendo da falta de equipamentos e supervisão. Como as antigas fileiras do exército haviam sido abolidas, Júkov era então um simples "soldado vermelho", mas rapidamente foi feito comandante de esquadrão.
Ascensão na carreira
A Guerra Civil chegou a termo em junho de 1922, e a maior parte do Exército Vermelho foi transferida para a fronteira ocidental da Rússia, junto aos Países Bálticos, a Polônia e a Romênia. Júkov comandou lá um esquadrão do 38.º Regimento de Cavalaria (parte da 7.ª Divisão de Cavalaria, chamada Samara), cujos alojamentos foram estabelecidos no campo de Vietka, na Bielorrússia. No final do ano ele foi promovido a vice-comandante do 40.º Regimento da mesma divisão e, em 8 de julho de 1923, comandante do 39.º Regimento de Cavalaria de Buzuluk. No contexto da desmobilização do Exército Vermelho, que se seguiu à Guerra Civil, ele se encontrava entre aqueles que permaneceram no exército "porque, por seus gostos e habilidades, haviam decido consagrar-se ao serviço militar". No verão de 1924, pelo bom desempenho de seu regimento, Júkov foi notado por Mikhail Tukhachevski, que buscava reorganizar o Exército Vermelho. Como resultado, foi selecionado para se juntar à Escola Superior de Cavalaria, no outono de 1924.
Batalha de Halhin-Golie
Em maio de 1939 Júkov foi convocado a Moscou, temeroso que chegara sua vez nos expurgos. Para sua surpresa, ele fora convocado pelo ministro Kliment Vorochilov, que lhe mostrou um grande mapa, dizendo: "tropas japonesas invadiram o território da Mongólia, e o governo soviético, de acordo com o tratado de 12 de março de 1936, tem a obrigação de defende-lo contra qualquer agressão externa. Eis o mapa das áreas de penetração e da situação em 30 de maio. [...] acho que este é o começo de uma séria campanha militar. Em todo caso, as coisas não vão ficar assim... Você pode tomar um avião imediatamente e, se necessário, assumir o comando das tropas?"
Às vésperas de Barbarossa
Após o armistício com o Japão, Gueorgui Konstantínovich se estabeleceu em Ulã Bator, aguardando o fim das tratativas. Sem muitos compromissos de trabalho, ele fez vir sua família e participou de caçadas com Horloogiin Choibalsan. Retornando a Moscou, em 2 de junho de 1940 Júkov conheceu pessoalmente Josef Stalin, que desejava discutir a batalha de Halhin-Golie. Nos dias 3 e 13 de junho ele assistiu às reuniões do Politburo do Partido Comunista da União Soviética. Algumas semanas depois Júkov foi um dos três primeiros promovidos ao recém-criado posto de general de exército, e nomeado chefe do Distrito Militar Especial de Kiev, o principal comando ao longo da fronteira ocidental soviética. Uma vez na Ucrânia, ele buscou melhorar a disciplina e o treinamento de suas tropas, e a partir de 28 de junho foi chamado a envolver suas tropas contra o Reino da Romênia, durante a ocupação soviética da Bessarábia e do norte da Bucovina. Com os romenos tentando evacuar seus equipamento para além do rio Prut, Júkov tomou a iniciativa e decidiu-se por lançar paraquedistas sobre os entroncamentos ferroviários de Belgrado, Cahul e Izmail, efetivamente frustrando a fuga inimiga.
Em 2 de janeiro de 1943 Júkov chegou ao comando da Frente de Voronej para preparar a Ofensiva Ostrogojsk–Rossochansk. O ataque começou no dia 12, fazendo recuar o 2.º Exército húngaro e o Corpo Alpino italiano. Ele continuou com a Operação Voronej-Kastornoie, que permitiria aos soviéticos retomar Kursk. Em 10 de janeiro Júkov se juntou a Vorochilov na supervisão da Operação Iskra. Lá, ele coordenou as ações das frentes de Leningrado e Volkhov, e, após uma intensa preparação de artilharia, no dia 12, a -23 °C, ambas atacam o corredor de Shlisselburg por lados opostos. A junção das duas frentes ocorreu após cinco dias, mas os alemães se entrincheiraram na altura de Siniávino. Júkov exerceu forte pressão sobre suas tropas, sobretudo sobre a liderança da 136.ª Divisão, exigindo um ataque definitivo, mesmo que a um alto custo. A vitória veio, e o cerco a Leningrado foi suspenso depois de 506 dias. Como recompensa, em 18 de janeiro Stalin elevou Júkov ao posto de Marechal da União Soviética, e um mês depois o condecorou com a Ordem de Suvorov. Em ambos os casos, Júkov foi o primeiro a ser honrado desde o início da guerra.
Início (1941)
Júkov passou a noite de 21 a 22 de junho de 1941 no prédio do Comissariado da Defesa. No final da noite, ele chamou pelo rádio os três comandantes dos distritos militares de fronteira, que comporiam o grosso das forças soviéticas naquilo que os Aliados ocidentais viriam a chamar de Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial, e que para os russos consistiu na Grande Guerra Patriótica. Júkov falou sucessivamente com Fiodor Kuznetsov (chefe do Distrito Especial do Báltico, que se tornaria no dia seguinte a Frente Noroeste), Dmitri Pavlov (chefe do Distrito Ocidental, em seguida a Frente Ocidental) e Mikhail Kirponos (chefe do Distrito Especial de Kiev, logo mais a Frente Sudoeste), anunciando-lhes o estado de emergência. Às 3h17min o almirante da Frota do Mar Negro reportou numerosos aviões desconhecidos chegando por via marítima. Júkov, embora formalmente não tivesse autoridade para isso, deu-lhe permissão para abrir fogo. Às 3h30min foi a vez do Distrito Ocidental relatar um bombardeio aéreo, depois Kiev, e finalmente o Báltico às 3h40min. Às 4h Timoshenko e Júkov mandaram acordar Stalin, e pediram por telefone permissão para revidar. Este último respondeu convocando os dois militares e o Politburo ao Kremlin. Uma reunião começou às 4h30, com Stalin bastante exaltado. Vatutin, então um dos adjuntos de Júkov, informou-os que após uma preparação de artilharia, as tropas alemãs atacavam. Às 5h o embaixador Friedrich von der Schulenburg entregou a Viatcheslav Molotov a declaração de guerra alemã. Às 5h30min Stalin enfim autorizou uma resposta limitada,[nota 5] mas sua demora em lançar um contra-ataque custou caro aos soviéticos.
Ielnia e Leningrado (1941)
Durante a reunião de 29 de julho de 1941 com Stalin, Júkov expôs novos planos, que embora militarmente sólidos, previam um alto custo político: abandonar Kiev aos alemães. Enfurecido, Stalin acusou-o de "falar bobagem", e Júkov demitiu-se e pediu para ser enviado ao front. Assim, em 30 de julho Chápochnikov assumiu o comando do Estado-Maior, e Júkov foi rebaixado a comandante de uma frente, embora mantendo seu lugar na Stavka. Ele deixou Moscou em 31 de julho a fim de se juntar à equipe da Frente da Reserva, que se encontrava estacionada perto de Gjatsk. Júkov encontrou uma situação adversa, para além do conflito armado que se desenrolava. Seu politruk era Sergei Kruglov, um amigo próximo de Lavrenti Beria, e suas unidades, compostas de conscritos, não possuíam oficiais qualificados ou equipamentos decentes. Sua missão era retomar Ielnia, que estava no centro de um bolsão alemão: seu antecessor não conseguira retoma-la, daí a sua substituição. No comando do 24.º Exército, a 120 quilômetros de Gjatsk, de 2 a 6 de agosto Júkov relançou-o em ataque contra o saliente. Inicialmente sem sucesso, ele persistiu, ameaçando executar os oficiais que não cumprissem suas missões. Depois de uma pausa para reforçar suas provisões, o ataque recomeçou em 30 de agosto. Eventualmente as tropas de Júkov conquistaram uma importante vitória, e os alemães do 20.º Corpo de Exército abandonaram Ielnia a partir de 2 setembro.
Protegendo Moscou (1941)
Estabilizada a situação em Leningrado, em 5 de outubro de 1941 Stalin convocou Júkov, pois desde 30 de setembro os alemães haviam retomado a ofensiva no centro do front, pressionando e cercando as unidades da Frente Ocidental (comandadas por Ivan Konev), da Frente da Reserva (Budionni), e da Frente de Briansk (Ieremenko), a oeste de Viazma e em ambos os lados de Briansk. Júkov foi enviado para lá, e, na noite do dia 6, juntou-se ao Estado-Maior da Frente Ocidental, perto de Gjatsk. No dia 7, sempre por estrada e viajando durante a noite, foi a vez da Frente da Reserva em Obninsk, e depois de Budionni em Maloiaroslavets. Ele encontrou unidades sem liderança e agindo desordenadamente. No dia 9 de outubro Júkov foi re-designado para o comando da Frente da Reserva. As chuvas da rasputitsa[nota 7] tornam tudo lamacento, diminuindo consideravelmente a mobilidade. No dia 10 Júkov recebeu também o comando da Frente Ocidental, e decidiu estacionar seu Estado-Maior perto de Moscou. A Frente da Reserva foi absorvida pela Frente Ocidental no dia 12. Por essa época, Júkov tomou como amante uma jovem cirurgiã assistente, a primeira-tenente Lida Zakharova.
Rjev (1942)
Em 7 de janeiro de 1942 uma reunião no Kremlin entre Júkov, Stalin e Aleksandr Vassilevski[nota 9] definiu novos objetivos para a Frente Ocidental: sua ala direita (1.º de Choque, 20.º e 16.º exércitos) participaria da destruição do saliente de Rjev; o centro (cinco exércitos) tomaria Gjatsk, Iukhnov e Viazma; a ala esquerda (10.º Exército e o 1.º Corpo de Cavalaria comandado por Belov) faria uma incursão na retaguarda alemã e se juntaria ao 11.º Corpo de Cavalaria (em Kalinin), cercando o Grupo de Exércitos Centro nazi. Em 10 de janeiro a Carta Diretriz da Stavka n.º 3 "sobre as ações de grupos de choque e a organização de ofensivas de artilharia" ordenou às frentes soviéticas atacarem rumo ao oeste. No mesmo dia, Júkov reenviou ao ataque a sua Frente Ocidental e a Frente de Kalínin: elas avançaram por meio de assaltos frontais, mas não conseguiram tomar Rjev, Viazma e Iukhnov. Nos dias 3 e 4 de fevereiro a situação mudou: o 9.º Exército alemão cercou um exército da Frente de Kalínin; o 4.º Exército alemão fez o mesmo com o 33.º Exército soviético e o 1.º Corpo de Cavalaria da Guarda. Júkov tentou socorrer essas tropas, mas a Stavka lhe atribui objetivos nas regiões do Desna e do Dniepre, incluindo uma série de ataques frontais compostos por ondas de infantaria. Embora as tropas de Belov tenham escapado, o 33.º Exército foi esmagado perto do rio Ugrá.
Stalingrado (1942)
Em 27 de agosto de 1942 Júkov foi nomeado Vice-Comandante Supremo. Essa nova promoção foi movida pelos fracassos da estratégia de Stalin, que previra um novo ataque a Moscou, quando Júkov vinha lhe alertando que o ataque ocorreria mais ao sul. Júkov tornou-se então o principal conselheiro e o homem de ação de Stalin". Júkov recebeu assim a autoridade para articular as diferentes frentes da guerra, incluindo a Frente de Stalingrado, que desde o mês anterior lutava na Batalha de Stalingrado. Os alemães controlavam cerca de noventa por centro da cidade, e Stalin ordenou a Júkov atacar no norte, entre o Don e o Volga, visando quebrar o cerco. Em 3 de setembro Júkov atacou com o 1.º Exército da Guarda, mas esse ataque resultou em uma derrota sangrenta. Stalin comandou um novo ataque, e o massacre se repetiu quase todos os dias de 4 a 12 de setembro, com o 1.º Exército, logo apoiado pelos 24.º e 66.º exércitos, conseguindo ao menos interromper o avanço do XIV Corpo Panzer rumo ao norte de Stalingrado.
Operação Marte (1942)
Ao mesmo tempo em que planejava a contra-ofensiva na região do Don, Júkov convencera Stalin a deixá-lo liderar uma grande ofensiva em Moscou, utilizando as tropas das frentes de Kalínin e Ocidental, que eram as mais poderosas do exército. Vassilevski fora encarregado de executar a Operação Urano, que, avançando até Rostov-sobre-o-Don, daria lugar à Operação Saturno. Júkov reservara-se primeiro a execução da Operação Marte, que cercaria o saliente de Rjev, e em seguida a execução da Operação Júpiter. Quatro grandes operações foram assim preparadas, cada uma prevendo um cerco. A chuva levara ao adiamento da Operação Marte, de 12 para 28 de outubro. Quatro exércitos (o 20.º no leste, o 39.º no norte, e 41.º e 22.º no oeste) foram encarregados de penetrar a defesa inimiga, seguidos por três corpos de blindados e um corpo de cavalaria. O efetivo soviético era três vezes maior que o de seu alvo, o 9.º Exército alemão do general Walter Model (15 divisões de infantaria, cinco divisões Panzer e uma de cavalaria) e três divisões de blindados do Grupo de Exércitos Centro. A terceira batalha por Rjev, apelidada "viagem de inverno" pelos alemães e "moedor de carne de Rjev" pelos soviéticos, começou em 25 de novembro, sob a neve e a -10 °C. Os exércitos soviéticos avançam lentamente por quatro dias e foram interrompidos pela chegada de reservas alemãs; os alemães contra-atacaram, isolando e em seguida destruindo dois corpos soviéticos. Confiante, Júkov persistiu, lançando outros três exércitos ao ataque, e depois um ataque geral. Apesar de submeter suas tropas a uma situação atroz, o massacre durou até 20 de dezembro e não resultou em progresso. Enquanto Vassilevski obteve uma vitória pouco custosa em Stalingrado, as tropas de Júkov sofreram baixas contabilizando cerca de cem mil mortos, 235 mil feridos e doentes e 1,6 mil blindados destruídos.
Júkov retornou a Moscou em 19 de maio de 1945, e foi convidado para jantar no Kremlin com os demais marechais e líderes do partido. Stalin dedicou o primeiro brinde aos "grandes capitães da guerra", com Júkov na liderança. Em 31 de maio, Stalin nomeou Júkov representante da URSS para o Conselho de Controle Aliado, o órgão responsável por gerir zonas ocupadas pelos Aliados na Alemanha. Em 1 de junho ele foi feito pela terceira vez Herói da União Soviética, pela captura da capital adversária. A primeira reunião do Conselho de Controle Aliado foi realizada em Berlim em 5 de junho, com Dwight Eisenhower, Bernard Montgomery e Jean de Lattre de Tassigny, os outros três comandantes-em-chefe dos exércitos da ocupação, episódio em que assinam uma declaração conjunta. Em 7 de junho Harry Hopkins, assessor diplomático dos presidentes americanos Roosevelt e Truman, esteve em Berlim e reuniu-se com Júkov. Ele lhe anunciou a realização próxima de uma conferência aliada na capital ocupada, que efetivamente ocorreu em Potsdam por recomendação de Júkov, mas sem a sua presença. Mais tarde, no dia 7 Júkov deu uma entrevista coletiva em sua residência, à beira do Wannsee. O correspondente do The Sunday Times perguntou-lhe o que achava da declaração alemã de que ele aprendera a arte militar da Wehrmacht, ao que Júkov respondeu: "Deixe os alemães dizerem o que querem. [...] sempre considerei, e ainda considero, que nossa arte operativa é superior à alemã. Esta guerra acaba de prová-lo incontestavelmente". Em 10 de junho Júkov foi recebido na sede americana em Frankfurt, iniciando uma amizade com Eisenhower que se estenderia por muitos anos.[nota 14] Este, celebrou-o durante o brinde: "A nenhum homem as Nações Unidas devem mais do que ao marechal Júkov".[nota 15]
Apoteose
Júkov foi convocado por Stalin em 18 ou 19 de junho, e este lhe anunciou que o havia escolhido para inspecionar a grande parada militar que era preparada em Moscou, e portanto como o principal homenageado do evento. Mais tarde autores descreveriam esse episódio como o principal momento de glória da carreira de Júkov. Em 24 de junho de 1945, precisamente às 10h, Júkov saiu a cavalo do portão da Torre de Spasskaia, no Kremlin, seguido pelo major-general Piotr Zelenski, e então atravessou metade da Praça Vermelha a galope, enquanto 1400 músicos tocavam Seja Glorificado de Mikhail Glinka. Ao pé do Mausoléu de Lenin, o marechal Rokossovski e o tenente-coronel Klikov, em dois cavalos negros, o saudaram. O quarteto então revisou os destacamentos militares, que por sua vez também lhes saudaram. Júkov então desmontou, foi até a plataforma, e fez seu discurso, que terminou dizendo:
Marginalização
No final do outono de 1945 Josef Stalin levou a cabo uma espécie de "expurgo suave", mirando seus colaboradores que haviam conquistado muito poder e prestígio. A popularidade de Júkov, em particular, se aproximava da de Stalin. O primeiro a pagar o preço foi Viatcheslav Molotov, que fez sua autocrítica no início de dezembro de 1945. Então foi a vez de Lavrenti Beria, que perdeu sua posição de Ministro do Interior em 29 de dezembro de 1945. Contra Gueorgui Malenkov e Gueorgi Júkov, Stalin confiou à MGB (que mais tarde daria lugar à KGB), a tarefa de estabelecer uma acusação. O marechal-do-ar Sergei Khudiakov foi preso em 14 de dezembro de 1945 e, sob tortura, confessou ser um espião britânico e denunciou como cúmplices Alexander Repine e o Alexei Shakhurin. Os dois últimos, presos em 8 de abril de 1946, denunciaram o marechal-comandante Alexander Nóvikov, chefe da aviação soviética. Preso em 23 de abril, e, torturado e ameaçado, Nóvikov denunciou 74 pessoas, dentre as quais Malenkov e Júkov. Malenkov perdeu o Secretariado do Comitê Central do Partido, em 4 de maio de 1946, enquanto Júkov foi chamado de volta a Moscou no início de março de 1946, para assumir o cargo de Comandante-em-Chefe das Forças terrestres soviéticas.
Re-emergência
Em 3 de março de 1953 Bulganin, então vice-presidente do Conselho de Ministros da União Soviética, convocou Júkov a Moscou, em urgência e sem informar o motivo. Chegando no dia 5, ele participou de uma reunião do Comitê Central do Partido Comunista, durante a qual anunciou-se que Stalin estava sofrendo uma hemorragia cerebral e iria morrer. Um novo governo foi imediatamente formado: Malenkov tornou-se Presidente do Conselho de Ministros; Beria, Ministro da Segurança, compreendendo o MVD e o MGB; Khrushchov, Secretário do Comitê Central do Partido; Molotov, Ministro das Relações Exteriores; Anastas Mikoian, Ministro do Comércio Exterior; Bulganin, Ministro da Defesa, com Júkov, Vassilevski e Kuznetsov como assistentes. A morte de Stalin ocorreu às 21h50min, e foi anunciada no rádio a partir das 6h do dia seguinte. Em 9 de março Júkov fez parte da guarda de honra velando o corpo de Stalin.
Aposentadoria
Em junho 1957 Júkov, no Conselho de Ministros e no plenário do Comitê Central, junto com Ivan Serov, o chefe da KGB, ajudou Khrushchov a remover do governo os stalinistas restantes (Molotov, Lazar Kaganovitch, Malenkov, Bulganin e Vorochilov). Mas os militares, liderados por Júkov e muito populares, tinham cada vez mais autonomia e peso político, e despertavam o temor das lideranças civis, que citam a Revolta Dezembrista de 1825, a dissolução do Exército Imperial Russo em 1917, e, sobretudo, seu suposto bonapartismo. O risco de um golpe de Estado tornava o exército uma ameaça, e os inimigos colecionados por Júkov se movimentaram. Em 4 de outubro de 1957 Júkov partiu para a Iugoslávia, onde conheceu Tito, e no dia 17 dirigiu-se para a Albânia. No mesmo dia, o general Alexei Jeltov, chefe da Direção Política Principal do Exército, denunciou-o em um discurso no Politburo, acusando-o de culto da personalidade, de glorificação de seu papel na guerra, de redução do poder dos oficiais políticos, de deterioração do ensino do marxismo-leninismo, e de negar o papel do Partido. No dia 19 o Politburo devolveu aos oficiais políticos o direito de interferir nas decisões dos comandantes dos distritos militares, e reuniões foram organizadas para criticar Júkov.
Últimos anos
Júkov manteve o direito de usar seu uniforme, sua datcha em Sosnovka, seu apartamento em Moscou, seu motorista e os hospitais que serviam à nomenklatura. Em 4 de março de 1958, ele foi aposentado sem o benefício de um posto de inspetor (como os outros marechais e generais), e se tornou por alguns anos uma persona non grata. Em sua vida privada, Alexandra Dievna descobriu sua amante Galina Semionova e sua filha Maria. Júkov passou então a dividir seu tempo entre os dois apartamentos, da Rua Granovski (Alexandra) e da Rua Gorki (Galina), mas a situação se deteriorou e ele divorciou-se de Alexandra em 18 de janeiro de 1965, para, no dia 22, casar-se com Galina.
Joseph Brodsky, mais tarde ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, escreveu um poema por ocasião da morte de Júkov,[nota 17] e que é uma estilização da elegia escrita por Gavrila Romanovich Derzhavin sobre a morte de Alexander Suvorov, em 1800. A crítica considera esse poema um dos melhores escritos por autores da geração do pós-guerra a respeito da guerra. Ainda durante a URSS, Júkov foi homenageado em nomes de ruas, selos postais, moedas, placas e estátuas e letras de música,[nota 18]. Em 1974 uma das estradas que ligam os subúrbios ao centro de Moscou foi rebatizada Avenida do Marechal Júkov,[nota 19], e avenidas com o seu nome existem em diversas outras grandes cidades. Ruas em homenagem a Júkov também são comuns em numerosas localidades. Ainda em 1974 a vila de Ugodski Zavod foi renomeada Júkovo em homenagem ao marechal, nascido na aldeia de Strelkovka, que dela faz parte. Em 1997 Jukovo tornou-se Júkov[nota 20] e foi alçada ao status de cidade. Hoje ela é a capital do Raion Júkovski, e abriga o Museu de Estado de Marechal da União Soviética G. K. Júkov. Ainda durante a URSS, o principal centro de treinamento da atual Força de Defesa Aeroespacial Russa recebeu seu nome, e um planetóide descoberto em 1975 foi batizado 2132 Zhukov em honra do marechal. Desde o fim da URSS, essas referências se multiplicaram na Rússia, primeiro em 1995, para marcar 50 anos de vitória sobre a Alemanha e o centenário do nascimento de Júkov, e depois no século XXI, como símbolo do nacionalismo russo. Também em 1995, a Rússia estabeleceu a Ordem de Júkov e a Medalha de Júkov.[nota 21] Uma estátua equestre de Júkov foi instalada na Praça do Manege, perto da Praça Vermelha, em 8 de maio de 1995. O documentário Grande Comandante Gueorgui Júkov,[nota 22] do diretor Iuri Ozerov, entrou em cartaz no mesmo ano. Fora da Rússia, muitos monumentos foram removidos após a queda da URSS, mas há exceções notáveis em Minsk (um busto desde 2007 no Parque Júkov, ladeado pela Avenida Júkov) e em Ulã Bator. Uma versão sem censura das memórias de Júkov foi publicada em 1990, e sua décima quarta edição foi lançada em 2010. Um total de sete milhões de cópias foram vendidas em 18 idiomas.
Júkov recebeu numerosas condecorações em vida. Notavelmente, ele foi galardoado Herói da União Soviética quatro vezes, a mais alta honraria do país. Ele foi o único a ter recebido essa honraria quatro vezes (Leonid Brejnev também as teve, mas por auto-atribuição). Júkov também foi o primeiro a receber, e um dos três únicos destinatários a receber duas vezes, a Ordem da Vitória, a mais alta condecoração militar concedida pela URSS a combatentes da Segunda Guerra Mundial, e uma das honrarias mais raras do mundo. Adicionalmente, ele recebeu quinze medalhas soviéticas e foi condecorado por muitos outros países, incluindo dezessete medalhas e a participação em ordens militares.


