Anarquismo cristão
Anarquismo cristão é um movimento da teologia política centrado na noção de que o anarquismo, em sua essência e ideal, é inerente ao Cristianismo e aos Evangelhos. O movimento fundamenta-se na ideia de que, em última análise, Deus é a autoridade sobre todas as coisas, sendo o Soberano Governador sobre todas as nações. Do mesmo modo, o movimento rejeita a ideia de que os governos humanos têm autoridade máxima sobre as sociedades. Anarquistas cristãos rejeitam a soberania do Estado, argumentando que ele é inseparável da violência e da idolatria. Sustentam, pois, que, sob o "Reino de Deus", as relações humanas seriam caracterizadas pela liderança servidora e pela compaixão universal, no lugar das estruturas hierárquicas e autoritárias e, quase sempre interesseiras em proveito próprio, as quais normalmente são atribuídas às ordens religiosa, social e política vigentes. A maioria dos anarquistas cristãos são pacifistas, rejeitando, pois, a guerra e a violência.
Adin Ballou (1803 - 1890) - Ministro Unitarista que influenciou Leon Tolstoi Leon Tolstói (1828-1910) escreveu extensivamente sobre princípios anarquistas. De acordo com o autor, ele chegou a esses princípios por meio da fé cristã. Sua trajetória é narrada nas obras O Reino de Deus Está Dentro de Vós, A lei da violência e a lei do amor e Cristianismo e Patriotismo onde Tolstói critica o governo e a Igreja em geral. O Reino de Deus Está Dentro de Vós é considerado o texto-chave na formulação do anarquismo cristão. Tolstói procurou separar o cristianismo ortodoxo russo - que foi fundido com o Estado - do que ele acreditava ser a verdadeira mensagem de Jesus contida nos Evangelhos, baseando-se fundamentalmente no Sermão da montanha. Tolstói considera que todos os governos bélicos apoiados pela igreja são uma afronta aos princípios cristãos da não-violência e da não-resistência. Embora Tolstói nunca tenha usado o termo "anarquismo cristão", defendia uma sociedade baseada na compaixão, pacifismo e liberdade. Tolstói era um pacifista e vegetariano. Sua visão para uma sociedade ideal era uma espécie de versão anarquista do georgismo, que ele menciona especificamente em sua novela Ressurreição.
Antiga Aliança
Jacques Ellul, filósofo francês e anarquista cristão, observou que o versículo final do Livro dos Juízes (Juízes 21:25) afirma que não havia rei em Israel, pois "todos fizeram o que acharam conveniente" Posteriormente, conforme registrado no primeiro Livro de Samuel (Samuel 8), o povo de Israel desejava um rei "como o têm as demais nações." Deus declarou então que o povo o havia rejeitado como seu rei. Ele advertiu que um rei humano levaria ao militarismo, ao recrutamento e à tributação, e que as súplicas de misericórdia às vontades desse rei não seriam atendidas. Samuel transmitiu o aviso de Deus aos israelitas, mas ainda assim eles exigiram um rei, e Saul tornou-se o governante de Israel.
Nova Aliança
Mais do que qualquer outra fonte bíblica, o Sermão da Montanha, relatado em Mateus, capítulos 5 a 7, bem como em Marcos 9:49-50, Lucas 6:20-23,37,38,41,42,46-49; 11:9-13,33; 12:22-31; 13:24; 14:34-35, é frequentemente usado como base para o anarquismo cristão. Alexandre Christoyannopoulos explica que o Sermão ilustra perfeitamente o ensino central de amor e perdão de Jesus Cristo. Anarquistas cristãos afirmam que o estado, fundado na violência, corrompe o mandamento de amar nossos inimigos, precisamente por instituir ordens sociais e políticas e jurídicas restritas e restritivas, as quais, com demasiada frequência, são manipuladas em favor de interesses daqueles que se apropriam do poder, em detrimento dos demais, que vêm a ser os mais necessitados. Assim, pois, argumentam os anarquistas cristãos, só o Reino de Deus é a solução.
Cristianismo Inicial
De acordo com Alexandre Christoyannopoulos, vários dos escritos dos Padres da Igreja sugerem o anarquismo como o ideal de Deus. Os primeiros cristãos se opuseram ao primado do Estado: "Devemos obedecer a Deus como governante no lugar de homens" ( Atos 4:19, 5:29, 1 Coríntios 6: 1-6); "E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo". (Colossenses 2:15). Além disso, algumas comunidades cristãs primitivas parecem ter praticado uma espécie de comunismo anarquista. Os integrantes da comunidade de Jerusalém descrita em Atos compartilhavam o trabalho e dinheiro de forma equivalente entre seus membros. Alguns anarquistas cristãos, como Kevin Craig, insistem que essas comunidades estavam centradas no amor verdadeiro e se preocupavam umas com as outras em vez de se preocuparem com uma liturgia. Eles também alegam que a razão pela qual os primeiros cristãos foram perseguidos não era porque adoravam a Jesus Cristo, mas porque se recusavam a adorar os ídolos humanos que reivindicavam o status divino. Dado que eles se recusaram a adorar o Imperador romano, eles se recusaram a jurar qualquer ato de fidelidade ao Império. Por exemplo, quando solicitado que eles jurassem pelo nome do imperador, Speratus, porta-voz dos mártires scillitanos, disse: "Eu reconheço não o império deste mundo... pois eu sei que meu Senhor é o Rei dos reis e imperador de todas as nações".
Império Romano
Para os anarquistas cristãos, o momento que sintetizou a degeneração do cristianismo foi a conversão do Imperador Constantino após a sua vitória na Batalha da Ponte Mílvia em 312. Após este evento, o cristianismo foi legalizado pelo Édito de Milão de 313, fato que marcou a transformação de uma igreja humilde governada de baixo para cima para a edificação de uma organização autoritária que governava de cima para baixo. Os anarquistas cristãos apontam o édito como o ponto inicial da "mudança constantiniana", na qual o cristianismo gradualmente foi se mesclando com a vontade da elite dominante, e terminou como a Igreja Estatal do Império Romano. Sob essa perspectiva, o Édito também foi responsável pelas Cruzadas, pela Inquisição e pelas Guerras religiosas na França.
Idade Média
Após a conversão de Constantino, Alexandre Christoyannopoulos relata que o pacifismo cristão e o anarquismo foram abandonados por quase um milênio até o surgimento de pensadores como Francisco de Assis e Petr Chelčický. Francisco de Assis (c.1181-1226) era um pregador ascético, pacifista e amante da natureza. Como filho de um rico comerciante de roupas, ele desfrutou de uma vida privilegiada, mas se alistou como soldado e, a partir de então, mudou radicalmente suas crenças e práticas após um despertar espiritual. Francisco tornou-se um pacifista e evitou bens materiais, tentando seguir os passos de Jesus. Peter Maurin, co-fundador do Movimento dos Trabalhadores Católicos, foi fortemente influenciado por Francisco de Assis. O trabalho de Petr Chelčický (c.1390-c.1460), especificamente The Net of Faith, influenciou Leon Tolstói e é referenciado em seu livro O Reino de Deus Está Dentro de Vós.
Era Pós-Reforma
Vários autores socialistas libertários identificaram o do reformador social protestante inglês Gerrard Winstanley bem como o ativismo social de seu grupo, os escavadores, como coerentes com o anarquismo cristão. Para o historiador anarquista George Woodcock "Embora (Pierre Joseph) Proudhon tenha sido o primeiro escritor a se chamar anarquista, pelo menos dois predecessores delinearam sistemas que contêm todos os elementos básicos do anarquismo. O primeiro foi Gerrard Winstanley (1609-c. 1660). Winstanley e seus seguidores protestaram em nome de um cristianismo radical contra a crise econômica que se seguiu à Guerra civil inglesa e contra a desigualdade que os grandes do novo exército pareciam querer preservar".
Pacifismo
Os cristãos anarquistas, baseados no Sermão do Monte, tendem a ser pacifistas e contrários a guerras e violência. Essa ideia é baseada na recomendação de Jesus para "dar-lhe a outra face" presente em Mateus 5:38-42, ou seja, resistir ao mal sem ser violento, não ser violento nem em legítima defesa. Essa ideia é a principal do anarquismo cristão, e a razão pela qual os anarquistas cristãos rejeitam a autoridade estatal. Para os anarquistas cristãos, matar outras pessoas não é uma demonstração de amor, mas de medo ou raiva, e os meios justificam os fins.
Rejeição à lei
Anarquistas cristãos como Tolstói defendem que a lei é falha e sujeita a erros, por ser elaborada pelo ser humano, que carece de perfeição. Os anarquistas cristãos defendem que o homem é "cego" e hipócrita, já que julga os outros mesmo que seja imperfeito. Esta é outra tese defendida pelo anarquismo cristão que leva à rejeição da autoridade estatal.


