Alta-costura
Alta-costura refere-se à confecção de roupas sob medida caracterizada por um processo artesanal, artístico e altamente técnico, que combina tradição, inovação e excelência estética, destinada especialmente às mulheres. De modo geral, uma peça desse segmento da moda exige um trabalho minucioso e prolongado, realizado por costureiros, bordadores, artesãos e designers altamente qualificados.
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Segundo Ralph Toledano, presidente da Fédération de la Haute Couture et de la Mode, “a alta-costura é um laboratório extraordinário de artesanato e inovação em design; uma terra de livre expressão para os criadores e um poderoso construtor de imagem para as marcas”. Em 2020, estimava-se que havia aproximadamente 2.200 costureiras qualificadas para trabalhar com alta-costura em todo o mundo. Essas profissionais são conhecidas como les petites mains – expressão que significa “pequenas mãos” e ressalta a delicadeza e a precisão do trabalho que realizam. No mesmo ano, calculava-se que existiam cerca de 4.000 clientes de alta-costura globalmente, entre ultrarricos, socialites, artistas, celebridades, colecionadores e membros de monarquias, como a rainha Rania, da Jordânia, Sheikha Moza bint Nasser, do Catar, e a rainha Máxima, dos Países Baixos. O tempo necessário para confeccionar uma peça varia consideravelmente: para um traje simples, por exemplo, são previstas cerca de 150 horas; 1.000 horas para uma peça com bordados ou aplicações decorativas; e mais de 6.000 horas para os vestidos mais elaborados.
No século XIX, em contraposição a produção de vestuário feita sob encomenda por grupos sociais específicos, Charles Frederick Worth, costureiro de origem inglesa, subverte essa lógica ao apresentar coleções autorais já finalizadas. Esse modelo inaugurou um novo paradigma: costureiros deixaram de ser somente executores de demandas para assumirem o status de criadores, estabelecendo, desse modo, seus próprios ateliês. Em 1858, Worth fundou a primeira Maison de Couture em Paris, localizada no número 7 da rua de la Paix, atraindo membros da monarquia, aristocracia e de outras classes privilegiadas da sociedade francesa, consolidando as bases do sistema da alta-costura. Em 1868, sob influência de Worth e demais costureiros, foi criada a Chambre Syndicale de la Haute Couture, responsável até os dias atuais por regular o setor. No início do século XX, a alta-costura se destacou com estilistas como Coco Chanel e Christian Dior, alcançando reconhecimento internacional e transformando a maneira como as mulheres se vestiam, introduzindo novas silhuetas e estéticas. Logo, a Haute Couture (Alta Costura) tornou-se um dos pilares da identidade francesa, símbolo de luxo, exclusividade e virtuosismo técnico. Durante a Segunda Guerra Mundial, esse prestígio assumiu também uma função simbólica, sendo mobilizado como forma de resistência cultural.
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A alta-costura não se trata apenas de um segmento de luxo da indústria da moda, mas uma designação protegida por lei pelo Ministério da Indústria da França, desde 1945. Essa designação se aplica exclusivamente a marcas que atendem a critérios rigorosos estabelecidos pela Chambre Syndicale de la Haute Couture, órgão ligado à Fédération de la Haute Couture et de la Mode, responsável por regular a indústria da moda francesa e suas semanas de desfiles. Os critérios visam a garantir qualidade, excelência artesanal e exclusividade. Entre as exigências estão: manter um ateliê em Paris, onde as peças devem ser produzidas à mão; apresentar duas coleções por ano, para as temporadas primavera-verão e outono-inverno, cada uma com pelo menos 35 modelos; confeccionar roupas sob medida para clientes, com provas obrigatórias; realizar toda a construção das peças manualmente e contar com ao menos 20 artesãos no ateliê; além de empregar um número mínimo de funcionários em tempo integral e preservar técnicas tradicionais de costura.
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A perspectiva sociológica do francês Pierre Bourdieu sobre alta-costura, formulada especialmente no ensaio “Costureiro e sua grife: contribuição para uma teoria da magia”, escrito com Yvette Delsaut em 1975, compreende esse universo não somente como um segmento exclusivo da indústria da moda, mas como um campo de produção de bens de luxo, estruturado por disputas, hierarquias e mecanismos de consagração. Nesse campo específico, a alta-costura funciona de maneira análoga às artes consideradas eruditas: não se define por critérios de utilidade ou lucro imediato; mas, sim, por uma lógica de “economia invertida”, segundo a qual o desinteresse aparente, a raridade, o tempo artesanal e a atenção minuciosa ao detalhe configuram-se operadores fundamentais de valor simbólico. O que está em jogo, portanto, não é simplesmente confeccionar roupas de luxo, mas produzir distinção e crença. Dessa maneira, convertem-se técnica, tempo e raridade em prestígio e confere-se sentido às formas de vestir das frações superiores mais elevadas do espaço social.


