Alice Munro
Alice Ann Munro, nascida Alice Ann Laidlaw, foi uma escritora canadiana de contos, considerada uma das principais escritoras da atualidade em língua inglesa. Foi agraciada com o Prémio Nobel da Literatura em 2013 e saudada como "mestre do conto contemporâneo". O trabalho de Munro foi descrito como revolucionário para a arquitetura do conto moderno, especialmente em sua tendência de avançar e retroceder no tempo, e com ciclos integrados de contos de ficção. Seu estilo tem sido comparado, ao longo dos anos, ao do grande escritor russo Anton Tchekov.
Alice Munro nasceu em Wingham, Condado de Huron, Ontário, em julho de 1931. Viveu primeiro numa quinta a oeste dessa zona, numa época de depressão económica. Muito jovem, conheceu James Munro, na Universidade de Western Ontario. Por essa época, Alice exercia trabalhos manuais para manter os estudos. Os dois se casaram em 1951 e instalaram-se em Vancouver. Tiveram três filhas: Sheila (1953), Catherine (1955) e Jenny (1957). Catherine morreu logo após o nascimento, em consequência de uma disfunção renal. Em setembro de 1966, nasceria a caçula, Andrea Sarah. Em 1963 a família mudou-se para Victoria, na Colúmbia Britânica, onde o casal abriu a livraria Munro's Books, que ainda hoje funciona. O casal divorciou-se em 1972, e Alice regressou à sua província natal, sendo escritora-residente na sua antiga universidade. Munro voltou a casar-se em 1976, com Gerald Fremlin, um cartógrafo e geógrafo que ela conhecera desde a época da universidade. A partir de então, ela consolidou sua carreira de escritora, iniciada em 1950, com a publicação do conto "The Dimensions of a Shadow", quando ainda estudante de inglês e jornalismo, na Western. Nesse período, ela trabalhou como garçonete, colhedora de fumo e atendente de biblioteca. O casal mudou-se para uma fazenda, na localidade de Clinton, Ontário, e, mais tarde, para uma casa em Clinton, onde Fremlin morreu em 17 de abril de 2013, aos 88 anos.
Imagem: Andreas Vartdal - Andreasv at Norwegian Nynorsk Wikipedia · BY-SA · Openverse
Alice Munro morreu em sua casa, na cidade de Port Hope, Ontário, no dia 13 de maio de 2024, aos 92 anos. A causa da morte não foi divulgada. Em 7 de julho de 2024, logo após a morte de Munro, sua filha mais nova, Andrea Skinner, publicou um ensaio no Toronto Star, revelando ter sofrido abuso sexual por parte de seu padrasto, Gerald Fremlin, desde 1976, quando ela tinha nove anos, até a adolescência. Ela relata que falou com a mãe sobre isso em 1992. Ao saber do abuso, Munro se separou de Fremlin por alguns meses, mas acabou voltando para ele. De acordo com Skinner, Munro disse que ela havia sido “informada tarde demais”, que amava muito o marido e que queria ficar com ele. Em 2002, Skinner cortou o contato com a mãe, depois que esta se opôs ao fato de Skinner não querer Fremlin perto de seus próprios filhos. Em 2005, Fremlin se declarou culpado de agressão sexual; foi condenado mas teve uma sentença suspensa, recebendo dois anos de liberdade condicional. Os outros membros da família de Munro continuaram a manter contato regular com Munro e Fremlin, enquanto Skinner afastou-se de todos eles.
Munro reconheceu a influência na sua obra de grandes escritoras, como Katherine Anne Porter, Flannery O’Connor, Carson McCullers e Eudora Welty, bem como de escritores como James Agee e especialmente William Maxwell. Os seus relatos centram-se nas relações humanas analisadas através da lente da vida quotidiana. Por isso e pela sua qualidade, ela tem sido chamada "Chekov do Canadá". Munro começou a escrever quando ainda era adolescente. Sua primeira coletânea de histórias, "Dance of the Happy Shades" [Dança das Sombras Felizes] (1968), foi aclamada pela crítica e ganhou o maior prêmio literário do Canadá, o Governor General's Award for Fiction. Esse sucesso foi seguido por "Lives of Girls and Women" [Vidas de Meninas e Mulheres]] (1971), uma coleção de histórias interligadas e "Who Do You Think You Are?" [Quem Você Pensa Que É?] (1978), este último rendendo a Munro um segundo Prêmio Literário do Governador General, tendo sido também selecionado para o Prêmio Booker de Ficção em 1980 sob seu título internacional, "The Beggar Maid".
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Por toda a sua obra, em 2013, Alice Munro recebeu o Prêmio Nobel de Literatura como “mestre do conto contemporâneo”. O prêmio foi para o Canadá pela primeira vez e para uma mulher pela 13ª vez; foi também a primeira vez que um escritor exclusivamente contista recebeu o prêmio.
Frequentemente comparada com Anton Chekhov, John Cheever e um punhado de outros contistas, Munro alcançou uma estatura rara para uma forma de arte tradicionalmente colocada abaixo do romance. A Academia Sueca declarou-a uma “mestre do conto contemporâneo” que poderia “acomodar toda a complexidade épica do romance em apenas algumas páginas curtas”. Suas histórias supostamente "incorporam mais do que anunciam, revelam mais do que desfilam". Seu mundo ficcional abrange todo o Canadá, de Ontário à Colúmbia Britânica, mas a maioria dos leitores concorda que suas histórias de Ontário, enraizadas como estão em seu próprio passado formativo, representam cenários mais evocativos vividos na infância e relembrados por uma memória adulta perceptiva. Segundo o crítico norte-americano Harold Bloom, Munro figura ao lado de alguns dos contistas mais proeminentes do século XX, tais como: Ítalo Calvino, Thomas Mann, Flannery O'Connor, Eudora Welty, Vladimir Nabokov, Edith Wharton, Katherine Anne Porter, Vladimir Nabokov, Shmuel Yosef Agnon, Isak Dinesen, Edna O'Brien, entre outros. O critico chama sua arte de mimética, afirmando que "Munro desfoca a linha entre o objetivo e o subjetivo, entre o pequeno e o grande, a fim de descobrir o que será suficiente para satisfazer uma vida mais abundante".
Imagem: Andreas Vartdal - Andreasv at Norwegian Nynorsk Wikipedia · BY-SA · Openverse
Várias adaptações das histórias de Alice Munro apareceram nas telas. A autora chegou às telas pela primeira vez através de uma produção para a televisão exibida pela rede canadense CBC. Trata-se da adaptação do conto "The Ottawa Valley" (1974), publicado no livro "Something I’ve Been Meaning to Tell You" (1974). Em 1984, estreou um curta baseado em “Boys and Girls” (do livro "Dance of the Happy Shades") e foi estrelado por Megan Follows, tendo ganhado um Oscar de melhor curta-metragem em 1984. Em 1994, foi lançado o suspense Edge of Madness baseado em "Uma Estação Deserta", conto presente na coletânea "Falsos Segredos" do mesmo ano. Em 2006, Away from Her, dirigido por Sarah Polley, foi lançado uma notável versão cinematográfica estrelada pela lendária atriz Julie Christie, para o conto "The Bear Came Over the Mountain", presente em sua coletânea de 2001 Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento. O conto que dá nome à coletânea também foi adaptado para o cinema sob o título de Hateship Loveship (2013), estrelado por Kristen Wiig e Guy Pearce. Em 2016 foi lançado Julieta, de Pedro Almodóvar, filme inspirado em diversas histórias da coletânea "Fugitiva" (2006).


