Salvador Allende
Salvador Guillermo Allende Gossens foi um médico e político social-democrata chileno. Fundador do Partido Socialista local, governou seu país de 1970 a 1973, quando foi deposto por um golpe de estado liderado por seu chefe das Forças Armadas, o general Augusto Pinochet.
Família e juventude
Salvador Allende nasceu em Valparaíso, em 26 de junho de 1908, filho do advogado e notário Salvador Allende Castro e de Laura Gossens Uribe, de classe média-alta. Allende iniciou seus estudos na seção preparatória do Liceo de Tacna, dirigida pelo professor Julio Angulo. Foi mostrado como uma criança safada e enérgica, segundo Zoila Rosa Ovalle, a babá que cuidou de Allende na infância e na adolescência. Ela o apelidaria de Chichito, daí a origem do apelido Chicho Allende. Após oito anos em Tacna, a família mudou-se por um pequeno período para Iquique e estudou no Liceo de Hombres (hoje "Liceo Libertador General Bernardo O'Higgins Riquelme), em 1916. Em 1918 estudou brevemente no Instituto Nacional General José Miguel Carreira durante sua curta estada em Santiago. Em 1921, Allende estudou no Liceo Eduardo de la Barra onde conheceu Juan De Marchi, um velho sapateiro anarquista que, segundo o próprio Allende, teria uma influência fundamental. Em 1924 decidiu fazer o serviço militar e em 1926 ele entrou na Universidade do Chile para estudar medicina.
Carreira política
Allende estudou medicina na Universidade do Chile. Em 1927, é eleito presidente do Centro de Alunos, onde aprofundou o seu interesse pelo marxismo. Em 1930 foi vice-presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile, mas devido a certos cargos foi expulso dela. Apesar disso, ele continuou a atuar como líder estudantil, o que lhe valeu sua prisão pelos agentes do então ditador Carlos Ibáñez del Campo. Enquanto estava preso, ele soube que seu pai estava morrendo de diabetes. Eles permitiram que ele saísse e ele conseguiu vê-lo em seus últimos momentos. Em 1933, Allende foi um dos fundadores do Partido Socialista Chileno, onde fez parte do grupo parlamentar entre 1937 e 1943.
Eleito presidente
Em 1964, perdeu as eleições presidenciais para Eduardo Frei, o candidato do Partido Democrata Cristão, graças a uma intervenção da CIA (o serviço de inteligência dos Estados Unidos) que apoiou Frei provendo mais da metade das verbas de sua campanha política, e promovendo uma maciça campanha publicitária em seu favor. Em 1966, Allende participou da Primeira Conferência Tricontinental realizada em Cuba, onde expressou: "Será o povo do Chile e as condições de nosso país que determinarão que utilizemos este ou aquele método para derrotar o inimigo imperialista e seus aliados". No ano seguinte, após o sucesso da conferência, Allende deu a iniciativa de criar a Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS).
"Via chilena para o socialismo"
Allende assume a presidência e tenta socializar a economia chilena, com base num projeto de reforma agrária e nacionalização das indústrias. A sua política, a chamada "via chilena para o socialismo", pretendia, segundo ele, uma transição pacífica, com respeito às normas constitucionais chilenas e sem o emprego de força, para uma sociedade de paradigma socializante. O chefe econômico do governo era Pedro Vuskovic, que executaria o plano de transição do capitalismo ao socialismo. O plano para chegar ao socialismo consistia nos seguintes pontos: Essas ações combinaram políticas econômicas socialistas (nacionalizações) com outras que visavam obter uma rápida reativação econômica após uma drástica redistribuição da riqueza. A nacionalização das empresas foi efetuada com recurso a determinadas lacunas legais (Decreto-Lei n.º 520, de 1932), que data da República Socialista. O processo consistia em que quando uma empresa considerada fundamental para a economia parasse de produzir, o Estado pudesse intervir para que voltasse a produzir. O sistema foi considerado ilegal pela oposição, mas foi sancionado como legal pela Controladoria-Geral da República.
Envolvimento soviético
Forçado a buscar fontes alternativas de comércio e financiamento, o Chile obteve compromissos da União Soviética de investir cerca de US $ 400 milhões no Chile nos próximos seis anos. O governo Allende ficou desapontado por ter recebido muito menos ajuda econômica da União Soviética do que esperava. O comércio entre os dois países não aumentou significativamente e os créditos estavam principalmente ligados à compra de equipamento soviético. Além disso, os créditos da Rússia eram muito inferiores aos fornecidos pela China e pelos países do Leste Europeu. Quando Allende visitou a União Soviética no final de 1972 em busca de mais ajuda e linhas de crédito adicionais, ele foi recusado.
Reforma agrária e outras atividades
Para aprofundar a reforma agrária, seguiu-se a lei de reforma agrária de Eduardo Frei, que continha várias brechas legais que a Unidade Popular aproveitou para promover a "grilagem" pelos camponeses, fazendo com que a Corporação da Reforma Agrária (CORA) desapropriasse as fazendas. No final de 1971, foi realizada a desapropriação de mais de 2 milhões de hectares. Essas grilagens começaram a adquirir contornos cada vez mais violentos. O primeiro morto foi Rolando Matus, um pequeno fazendeiro que morreu enquanto defendia uma propriedade no sul do Chile contra aqueles que poderiam ocupá-la à força. No âmbito da reforma agrária, foram documentadas mais de 500 mortes entre proprietários e trabalhadores que defendiam as propriedades das ocupações.
Participação cubana
Fidel Castro tinha uma posição cética (assim como a URSS) em relação às reformas promovidas por Allende, antes mesmo, na eleição presidencial de 1970, Castro manteve uma atitude cética em relação a uma possível vitória. Produzida a vitória, Allende restabelece relações diplomáticas com Cuba. O responsável pela abertura da embaixada cubana em Santiago foi Luis Fernández Oña, que assumiu a direção comercial. Em 1971, Fidel Castro visitaria o Chile por 24 dias em vez dos 10 oficiais. Nas memórias de Carlos Altamirano, ele diz que Allende pediu-lhe que intercedesse para que Castro encerrasse sua visita, pedido que foi negado por Altamirano. De acordo com o guarda-costas de Castro, Juan Reinaldo Sánchez, Castro não acreditava em Allende, mas nos líderes do MIR. .mw-parser-output .flexquote{display:flex;flex-direction:column;background-color:#F1F1F1;border-left:3px solid #C7C7C7;font-size:100%;margin:1em 4em;padding:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.flex{display:flex;flex-direction:row}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.quote{width:100%}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.separator{border-left:1px solid #C7C7C7;border-top:1px solid #C7C7C7;margin:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.cite{text-align:right}@media all and (max-width:600px){.mw-parser-output .flexquote>.flex{flex-direction:column}}@media screen{html.skin-theme-clientpref-night .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}@media screen and (prefers-color-scheme:dark){html.skin-theme-clientpref-os .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}
Uma das razões diretas do fracasso da "via chilena para o socialismo" deveu-se à situação geopolítica mundial de então, de plena Guerra Fria, com os Estados Unidos envolvidos na Guerra do Vietnã, não podendo admitir o nascimento de um segundo regime socialista na sua área de influência, após Cuba. Cuba, por sua vez, após o fracasso das invasões que realizou em 1959 no Haiti, Panamá, Nicarágua e República Dominicana, se tornaria um centro de formação ideológica comunista na região que levaria ao nascimento de grupos guerrilheiros e terroristas, além de proporcionar treinamento e apoio logístico a essas organizações. Nesse contexto, na década de 1970, na América do Sul inteira era o teatro de operações tanto para os comunistas quanto para aqueles apoiados pelos Estados Unidos. As nacionalizações e estatizações adotadas pela Unidade Popular feriram diretamente os interesses de grandes corporações americanas, dentre elas a então poderosa ITT, que passou a pressionar o governo Richard Nixon "a tomar providências". Um memorando interno da ITT detalhava os planos estadunidenses: "A esperança mais realista dentre aqueles que desejam destituir Allende é que uma rápida deterioração da economia provoque uma onda de violência que provoque um golpe militar". Em 1970 a CIA criara o Projeto FUBELT (também chamado Track II, ou "política dos dois trilhos"), com o objetivo de impedir a ascensão de Allende ao governo. Com a posse de Allende o Projeto FUBELT fracassou, e acabou sendo desativado e substituído por outros, não sem antes ter contribuído para o assassinato do Comandante em Chefe das Forças Armadas chilenas, o general constitucionalista René Schneider. Nisso também o Projeto FUBELT não obteve grande sucesso porque o general assassinado foi substituído pelo não menos constitucionalista general Carlos Prats. Esse projeto abarcou um amplo espectro de atividades que iam do apoio a assassinatos seletivos ao fomento greves desestabilizadoras, bem como à contratação de políticos e militares direitistas para articular um golpe de estado.
Primeira tentativa
A primeira tentativa de golpe resultou de uma aliança entre o Patria y Libertad e militares chilenos, quando essa organização se aliou a um setor do exército que ocupava altos postos através do Chile, num projeto — fracassado — que pretendia tomar de assalto o Palácio de La Moneda e derrubar o governo. A operação ficou conhecida como El Tanquetazo e foi realizada em 29 de junho de 1973. A inteligência do exército, então comandado pelo general constitucionalista Carlos Prats, detectou a tentativa de golpe e ele teve que ser abortado, não sem antes alguns tanques terem saído às ruas e se dirigido a La Moneda.
O Estado de sítio
Logo após ter debelado El Tanquetazo, ainda envergando capacete e uniforme de combate, o Comandante em Chefe das Forças Armadas chilenas, o general Carlos Prats, dirigiu-se pessoalmente a Allende para dizer que era imperiosa a instauração imediata do estado de sítio no Chile, sem o que ele considerava ser impossível às forças armadas sufocar os atentados terroristas de direita e de esquerda, que já se multiplicavam, e assegurar a ordem constitucional no Chile. Em 2 de junho de 1973 a requisição de Allende, solicitando a instauração do estado de sítio, fora negada pelo Congresso Nacional, por 51 votos a 82. O povo, revoltado, clamava em uníssono nas ruas de Santiago do Chile pelo fechamento do Congresso Nacional, aos gritos de: "a cerrar, a cerrar, el Congresso Nacional…". Diante disso, Allende fez um discurso, no qual chegou até a ser vaiado pela multidão:
O cerco se fecha
O general Prats, de fortes tendências constitucionalistas, e que se recusava a participar de qualquer golpe militar, desacatado publicamente por uma manifestação de esposas de oficiais golpistas diante de sua residência, se viu obrigado a renunciar a seu posto de Comandante em Chefe das Forças Armadas, e, em 11 de setembro seu sucessor, o general Pinochet, um antigo homem de confiança de Allende, lançaria um golpe contra ele. Allende fez um discurso, transmitido pelas rádios fiéis ao governo, informando que não renunciaria. Mais tarde, Allende cometeria suicídio. O general Prats foi assassinado pela DINA — a polícia secreta pinochetista — no seu exílio em Buenos Aires, num atentado à bomba, no contexto da Operação Condor.
Embora Allende se declarasse marxista, aliado dos governos de Cuba e União Soviética, o historiador marxista Moniz Bandeira alega que o chileno não seguiu à risca os ensinamentos do filósofo do século XIX, e acabou isolado no poder. Segundo escreve Bandeira em seu livro Fórmula para o Caos, que narra a experiência socialista do Chile: "a proposta da Unidade Popular de adotar um modelo vinho e empanadas de revolução estava destinada ao fracasso. Karl Marx dizia que o socialismo é inviável como via de desenvolvimento, sobretudo num país atrasado como o Chile, em que 70% da produção era de cobre e 70% dos alimentos tinham de ser importados. Era um país vulnerável, ainda mais na esfera de influência dos Estados Unidos(…)". "Minha ideia é sair do lugar comum de que a CIA fez tudo, ou de que o Brasil fez tudo. O projecto era inviável".
Versões sobre a morte
Há duas versões aceitas sobre a morte de Allende: a mais aceita é que ele se suicidara no Palácio de La Moneda, cercado por tropas do exército, com a arma que lhe fora dada por Fidel Castro; a outra versão é que ele fora assassinado pelas tropas invasoras. Sua sobrinha Isabel Allende Llona era uma das que acreditam que seu tio fora assassinado. A filha do ex-presidente, a deputada María Isabel Allende, declarou que a versão do suicídio era a correta. Allende foi inicialmente enterrado numa cova comum, num caixão com as iniciais "NN". Com o término da ditadura de Pinochet, Allende teve um funeral com honras militares, em 1990 no Cemitério Geral de Santiago.


