Império Almorávida
O Império Almorávida foi um império islâmico fundado por uma dinastia berbere do norte da África e que se centrou no território atual de Marrocos. O império foi estabelecido no século XI no Magrebe ocidental e Alandalus, englobando territórios atualmente pertencentes à Mauritânia, Saara Ocidental, Marrocos e a metade sul da Península Ibérica. A capital do império foi a cidade de Marraquexe, fundada pelo líder almorávida Abu Becre ibne Omar por volta de 1070. A dinastia emergiu de uma aliança entre as tribos nómadas berberes lantunas, judalas e massufas, habitantes das atuais Mauritânia e Saara Ocidental, atravessando o território entre os rios Drá, Níger e Senegal.
Almorávida é uma adaptação europeia do termo al-murābiṭūn. Uma das primeiras atestações de almorávida decorre de uma canção anônima de um trovador do século XII, chamada Chevalier, mult estes guariz, na qual se afirma o seguinte: "Cavaleiros, vossa salvação está assegurada, pois Deus vos convocou a tomar Seu partido contra os turcos e os almorávidas". Em português, foi registrado a primeira vez em 1594 como almorauides. O termo al-murābiṭūn, de modo geral, derivou dos monges guerreiros (os marabutos) que habitavam as arrábitas, os conventos fortificados situados nas fronteiras do mundo islâmico. No entanto, entre os almorávidas do deserto, parece ter sido empregado metaforicamente, com um sentido de disciplina espiritual, e não como uma designação toponímica ou geográfica literal ligada a um convento ou retiro específico. Eles podem ter se considerado, desde o início, afiliados à Casa dos Marabutos (Dār al-Murābiṭīn), estabelecido pelo sábio de Suz Uagague em Malcus.
Contexto histórico
O Magrebe Ocidental — interior, exterior e montanhoso — estava povoado por tribos que levavam uma vida rudimentar, agrícola ou pastoril. No século XI, no seio das tribos montanhosas do Grande Atlas, surgiriam o movimento almorávida que, pela primeira vez, unificou toda a região política, militar e religiosamente, num esforço de renovação. Portanto, ao tratar do surgimento dos almorávidas, três fatores contextuais se sobressaem, ou seja, a configuração tribal local, alinhada com as particularidades geográficas da região, a falta de unidade política e a divergência religiosa decorrente da histórica disputa xiita-sunita em paralelo à permanência de práticas pagãs autóctones.
Movimento almorávida
Os sanajas alcançaram o Saara Ocidental durante a Antiguidade e conviveram durante longo período com os autóctones, que acabaram por ser dominados, permitindo a expansão sanaja até o Níger. Algumas tribos, como os sartas, permaneceram na região dos oásis de Bani, onde estavam estabelecidas no século XI; os targas margeavam o rio Drá; os judalas nomadizavam com outras tribos entre o Drá e Segelmeça; os massufas dominavam a região situada entre Segelmeça e o Império do Gana dos soninquês, numa extensão equivalente a dois meses de marcha; os lantas percorriam a região do Suz e ocupavam, em meados do século XI, os oásis do Jabal Bani e o vale do rio Nune, onde, por essa época, devem ter fundado Nul Lanta, que se tornou um importante centro do comércio saariano; Os jazulas, divididos em numerosas frações, eram vizinhos dos lantas e percorriam igualmente a região compreendida entre o Suz e o Nune, bem como as zonas próximas ao deserto; e os lantunas que, situados mais perto do país dos negros, nomadizavam por uma vasta zona desde o sul do Drá até o Níger. Os lantunas tinham como riqueza seu gado e alimentavam-se de carne e leite. Não sabiam cultivar a terra, de modo que alguns só dispunham de farinha e podiam comer pão quando comerciantes de outras regiões lhes forneciam esse produto.
Segundo Azuri, os chefes da cidade comercial de Tademeca, os berberes tanmaquitas, foram islamizados sete anos após a população de Gana ter sido forçada pelos novos convertidos ganenses. É provável que, neste caso, a conversão tenha consistido na imposição do maliquismo almorávida a um povo que já professava a fé carijita, haja vista a circulação e permanência de comerciantes advindos das regiões convertidas ao ibadismo no Magrebe. A influência ibadita no Saara Meridional e Sudão Ocidental desapareceriam após a chegada dos almorávidas. A suposta conquista do Império do Gana em 1076 pelos almorávidas é muito citada como um ponto importante à islamização do Saara, mas estudos recentes apontam que o papel desempenhado pela conquista foi de pouca importância, salvo no Sudão Oriental, onde uma importante colonização árabe teve papel decisivo para a propagação da religião, mas tardiamente. Alguns historiadores modernos sustentam que é mais verossímil pensar que soninquês do Gana tenham mantido boas relações com os almorávidas do deserto, que eles tenham se tornado aliados e que tenha sido por meios pacíficos que estes últimos os persuadiram a adotarem o islã sunita como religião do Império do Gana. Segundo diversas fontes árabes, notadamente Albacri, a capital ganense contava, durante o período pré‑almorávida, com uma importante comunidade muçulmana, compreendendo não somente mercadores, mas cortesãos e ministros. É provável que o islã tenha surgido em Gana sob a forma carijita e a conversão dos ganenses pelos lantunas em 1075/6, como evocado pelo Azuri, pode ter sido uma imposição do maliquismo aos ibaditas locais, como ocorrido em Audagoste.
Fez, a antiga capital do Emirado Idríssida e uma das principais cidades do Magrebe Ocidental, originalmente dividia-se em duas metades, estabelecidas em momentos distintos: a primeira, fundada em 789 por Idris I (r. 789–791) na margem direita do rio Fez, e povoada por berberes; e a segunda, fundada em 809 por Idris II (r. 792–828), na marque esquerda. Ambas as porções eram separadas por muralhas próprias e foi no tempo do Império Almorávida que elas foram unificadas por uma muralha única.
No Oeste muçulmano, sobretudo em razão do difícil acesso a minas de ouro, o Magrebe e o Alandalus permaneceram por longo período ligados ao dirrã de prata. No entanto, no século X, quando iniciam as importações de ouro provenientes do Sudão Ocidental, e sob o Império Almorávida, o dinar tornar-se-ia uma moeda internacionalmente reconhecida. A crescente emissão de moedas de ouro e prata nesse período teve repercussões na vida econômica regional, com o crescente consumo de bens estimulando a produção, mas causando um aumento significativo dos preços.
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Mesmo após a absorção dos berberes no califado árabe a partir do século VI, em vários locais as cabilas do Orés, Grande Cabília, vale do rio Nilo e cordilheira do Atlas foram capazes de preservar sua língua e costumes. Entre esses traços distintivos destacam-se a existência de um direito consuetudinário e de uma organização judiciária não corânica, características fundamentais do direito berbere. Este se manifestava, por exemplo, no testemunho coletivo como meio de prova, em regulamentos e tarifas de penalidades conhecidos sob a designação de ikānūn (kānūn), bem como na administração da justiça por juízes árbitros ou por assembleias locais. Tais práticas não entravam em conflito direto com o direito corânico, mas é possível, contudo, que tenham constituído um fator de resistência diante do avanço do sunismo maliquita uniformizador no tempo do Império Almorávida. Seja como for, o eco dessas particularidades pode ser percebido na própria organização do mundo almorávida, onde, ao preço dessa relativa liberdade, os berberes do norte aceitaram sua integração e ofereceram sua participação militar, ainda que esta fosse, por vezes, objeto de negociação entre príncipes rivais, sobretudo nos séculos X e XI.


