Ambientalismo
O ambientalismo, movimento ecológico ou movimento verde consiste em um heterogêneo feixe de correntes de pensamento e movimentos sociais que têm na defesa do meio ambiente sua principal preocupação, reivindicando medidas de proteção ambiental e sobretudo uma ampla mudança nos hábitos e valores da sociedade de modo a estabelecer um paradigma de vida sustentável.
Primeiros ensaios
Expressões de interesse pela natureza, bem como diversas agressões a ela, foram registradas desde a Antiguidade, mas poucas vezes foram tomadas medidas efetivas para sua proteção. Alguns casos são dignos de nota, como os babilônios, que tinham leis para a proteção das margens dos rios e canais e regulavam o abate de florestas; os indianos, que estabeleceram florestas sagradas desde os tempos védicos; os etruscos, que aparentemente praticavam o florestamento planejado, e os egípcios, que penalizavam quem cortasse árvores sem a autorização do Estado e desenvolviam programas de reflorestamento em terras degradadas, propriedades públicas, nas margens do Nilo e dos canais. Segundo Brennan & Lo, os antigos gregos parecem ter dado pouco valor à natureza em si mesma, a não ser quando seu dano revertesse em prejuízo das pessoas. Aristóteles disse que "a natureza fez todas as coisas especificamente para o benefício humano", mas seu mestre Platão deixou um registro sobre o desmatamento que ocorria em seu tempo, dizendo que "o que hoje resta (de florestas) comparado com o que havia é como o esqueleto de um homem doente: toda a gordura e a carne tenra se foram, deixando apenas a moldura nua da terra".
Fortalecimento
Uma nova visão da natureza surgiu em meados do século XIX, através da obra de Charles Darwin, cuja revolucionária teoria da seleção natural obrigou, depois de intensa polêmica e de sofrer inúmeras chacotas, tanto a comunidade científica quanto o grande público a iniciar uma revisão em seus conceitos, elaborando, nas palavras de Bocchi & Cerutti, "uma nova imagem do tempo, do decurso evolutivo, da história", e provocando um redirecionamento nas formas com que o homem se relacionava com o ambiente. Foi Ernst Haeckel, um darwinista, quem cunhou o termo ecologia, a partir de duas palavras gregas: oikos (casa ou lugar) e logos (estudo ou conhecimento), significando originalmente a relação de um animal com seus ambientes orgânico e inorgânico.
A emergência do ambientalismo contemporâneo
Ao final das guerras o modelo de civilização baseado no capitalismo havia triunfado em escala quase mundial, mas já crescia também a percepção de que seus princípios estavam equivocados, e que o progresso cobrava um preço elevado demais, tanto na questão do ambiente como em aspectos sociais e culturais. Com isso, entre os anos 50 e 60 surgiu, principalmente na Europa e América, uma série de fortes movimentos sociais, incluindo o movimento hippie, o pacifismo, a revolução sexual, o feminismo e o black power, que, reunidos sob o rótulo de contracultura, contestavam o modelo de civilização em vigor e defendiam valores de liberdade, direitos humanos, respeito às minorias, paz e desenvolvimento equitativo. Os países detrás da Cortina de Ferro, embora dirigidos por princípios políticos e econômicos diferentes, não parecem ter tido melhor sucesso no manejo do ambiente, e mesmo as regiões orientais, com tradições muito distintas do ocidente, também enfrentavam problemas similares, como foi o caso da Índia, que somente entre meados do século XIX até o início do século XX perdeu 33 milhões de hectares de mata, ou da China, onde se cultuava a natureza, mas que desde o início da dinastia Qin, em 221 a.C., até a fundação da República Popular, em 1949, reduziu sua área florestada de 60% para 10% do território.
Anos recentes
A partir da década de 1980 o ambientalismo se multidisciplinarizou definitivamente, consagrou a importância da educação ambiental para uma mudança geral de hábitos e se tornou um movimento quase onipresente, muito diversificado e em grande parte solidamente embasado na ciência, embora muitas vezes ainda se encontrem agudas dissidências internas, incoerências, utopias, mistificações, expressões emocionais e teorias não comprovadas ou extravagantemente fantasiosas entre seus defensores, o que acaba por prejudicar a credibilidade do movimento como um todo. Também contribuiu para sua rejeição previsões consideradas alarmistas sobre um colapso global dentro de pouco tempo se não ocorresse uma verdadeira e profunda revolução em práticas e conceitos.
O ambientalismo de modo geral se fundamenta nas noções de que a vida na Terra é integrada e interdependente, que as outras espécies, tanto como o homem, têm o direito à vida, que a ação humana tem um importante efeito sobre o meio ambiente, efeito pelo qual o homem é responsável, e que os recursos naturais são limitados e devem ser manejados com objetividade e prudência, tendo em vista também a justiça social e a viabilidade econômica. São propostas inúmeras possibilidades de ação para conseguirmos um equilíbrio entre a vida humana e a natureza e para a criação e implementação de um modelo de desenvolvimento sustentável, um conceito consolidado em 1987 com o trabalho da Comissão Brundtland realizado sob a chancela da ONU, e assim definido: "Desenvolvimento sustentável é garantir o atendimento às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atender a suas próprias necessidades".
Propostas e novos desafios
Entre as principais propostas dos ambientalistas, a partir das análises de David Pepper, e Kates, Parris & Leiserowitz, podem ser destacadas: A Declaração de Estocolmo, elaborada na Conferência de Estocolmo de 1972, organizada pela ONU, estudou a problemática e fez em caráter oficial várias recomendações gerais aplicáveis globalmente, das quais podem ser citadas as seguintes: Esses princípios continuam essencialmente válidos e atuais, como atesta a Carta da Terra, aprovada pela Unesco em 2000 como um código de ética global, cujo preâmbulo reza: É importante assinalar que essas propostas não são fixadas nem com um rigor absoluto nem em definitivo, mas devem ser interpretadas com uma certa flexibilidade, adaptando-as a cada momento e a cada contexto específico, num processo de prática continuada e reavaliação constante dos resultados. De qualquer forma, a proteção à natureza e a educação ambiental deveriam fazer parte permanente do cotidiano da sociedade, pois o trabalho, enquanto houver vida, jamais estará concluído.
Ao contrário da antiga visão de que o homem é uma criatura separada da natureza e tem o direito inato de dominá-la, a ciência já provou com evidências superabundantes que toda a vida na Terra é interdependente, o que significa que mudanças em um único parâmetro podem ter repercussões de grande amplitude e com as mais diversas ramificações tanto para a vida selvagem como para a humanidade, num efeito "bola-de-neve" que pode continuar durante longos prazos, e que em grande parte é imprevisível. Seria impossível no escopo deste artigo analisar todas as inúmeras variáveis, mesmo porque a própria ciência ainda não as conhece todas, mas pode-se ilustrar simplificadamente o ponto a partir de um único aspecto, dos mais relevantes no processo todo, que já tem alguns mecanismos bem estabelecidos: a explosão demográfica, e sua consequência direta: a tendência contemporânea de urbanização das populações. Em 1800 a população da Terra estava em torno de 1 bilhão de pessoas, hoje já vivem cerca de 7 bilhões, e segundo a ONU as estimativas são de que em torno de 2050 se alcance a marca dos 9 bilhões, tendo-se nas megacidades a imagem mais visível da maciça interferência humana no meio ambiente. Além da demanda crescente por simples espaço de habitação e por alimentos, necessitando-se cada vez maiores áreas para expansão urbana, agricultura e pecuária, às expensas das áreas virgens, isso tem uma série de outros efeitos danosos ao ambiente.
O ambientalismo não pode ser descrito como um movimento homogêneo, dada a imensa variedade de correntes que o integram, com visões de mundo, objetivos e métodos de atuação distintos, transitando desde as propostas mais radicais até as mais inócuas, decorativas e superficiais, das inteiramente sedimentadas na ciência e na racionalidade até as completamente intuitivas e emocionais, que não raras vezes entram em conflito entre si e lutam por espaços diferenciados. O elo que os une é, genericamente, o interesse pela preservação da natureza e pelo estabelecimento de um modo de vida sustentável. Mas, como notou Hector Leis, A heterogeneidade que caracteriza o ambientalismo é considerada por muitos de seus integrantes como um de seus pontos fortes, permitindo-lhe absorver uma vasta gama de interesses e conhecimentos e tocar nas mais diversas questões, mas por outro lado abriu a porta para inúmeras críticas a respeito de sua alegada inconsistência.


