Análise do discurso
Análise do discurso é um campo da linguística, filosofia e comunicação especializado em analisar o uso das línguas naturais, particularmente a maneira como ocorrem as construções ideológicas em um texto. É frequentemente utilizada para analisar textos da mídia e as ideologias que os produzem. Em algumas de suas vertentes, a análise do discurso é proposta a partir da filosofia materialista, que põe em questão a prática das ciências humanas e a divisão do trabalho intelectual.
Imagem: Monica M Pinheiro · BY-NC · Openverse
Segundo Maldidier, Semântica e Discurso é "uma obra forte de um filósofo inquieto com a linguística "em que "o discurso é a figura central", pois "liga todos os fios: da linguística e da história, do sujeito e da ideologia, da ciência e da política". A análise da oposição entre relativa explicativa e relativa determinativa revela os efeitos de sentido no nível discursivo. Segundo Pêcheux (1988:44), "a relação determinativa, pelo jogo de relação entre compreensão e extensão, diz respeito exclusivamente à ordem do ser, o mundo das essências, fora de toda adjunção do pensamento: estamos no nível em que o ser se designa a si mesmo. A relação explicativa, ao contrário, intervém como uma incidência do pensamento sobre a ordem das essências". Pêcheux (1988:99) utiliza o termo "pré-construído", proposto por Paul Henry, "para designar o que remete a uma construção anterior, exterior, mas sempre independente, em oposição ao que é 'construído' pelo enunciado. Trata-se do efeito discursivo ligado ao encaixe sintático". Ainda segundo ele, "[...] o fenômeno sintático da relativa determinativa é, ao contrário, a condição formal de um efeito de sentido cuja causa material se assenta, de fato, na relação dissimétrica por discrepância entre dois "domínios de pensamento", de modo que um elemento de um domínio irrompe num elemento do outro sob a forma do que chamamos "pré-construído", isto é, como se esse elemento já se encontrasse aí." O "pré-construído" e a "articulação dos enunciados" são funcionamentos determinantes na compreensão do processo discurso: o primeiro termo remete à realidade e ao seu sentido; o segundo diz respeito ao sujeito e sua relação com o sentido.
Antecedentes
Numa França ainda conturbada pelo movimento de Maio de 1968 e sob a influência do estruturalismo (cf. DOSSE, 2007), a AD francesa foi fomentada tanto por motivações políticas quanto linguísticas, as quais levaram à ruptura política e epistemológica vivenciada à época. As ciências humanas, especificamente a Linguística, estavam sujeitas ao estruturalismo. No campo social, aumentavam as desigualdades e discriminações sociais na Europa ocidental. Nas palavras de Jean Jacques Courtine, maio de 1968 "marca a emergência repentina de novos valores: um desejo de liberdade individual, de expressão pessoal que refuta as hierarquias, as tutelas e as tradições".
Michel Pêcheux e o surgimento da disciplina
A Análise de Discurso Francesa, também chamada de AD, é uma disciplina que abarca conhecimentos da Linguística, do Marxismo e da Psicanálise, as quais sofrem questionamentos e intervenções da AD. Os pressupostos teóricos da AD despontaram com Michel Pêcheux no final da década de 60 na França e eram distintos dos pressupostos da discourse analysis já existente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos O nascimento da AD francesa está atrelado a uma proposta de intervenção política que "aparece como portadora de uma crítica ideológica apoiada em uma arma científica", cujo objetivo é o de combater o formalismo linguístico, a automatização presente na relação com a linguagem. Para desconstruir a ilusão de que haveria neutralidade na gramática e a de que os sujeitos são as fontes de seus dizeres e sentidos, Pêcheux ancora seu trabalho na noção de sujeito, que foi deliberadamente excluída durante o percurso estruturalista como forma de marcar posição contrária aos postulados advindos de ciências como a fenomenologia, a hermenêutica e o psicologismo no campo dos estudos da linguagem.
Análise Automática do Discurso
A Análise de Discurso que se estabelece na França tem como marco a publicação de Análise Automática do Discurso em 1969 por Pêcheux. Conforme aponta Denise Maldidier, esse livro é o "primeiro momento de um itinerário" no qual questões fundamentais sobre os textos, a leitura e o sentido são abordadas por Pêcheux. Na introdução do livro, Pêcheux contesta que as disciplinas que se afastam de uma relação com a política possam ser chamadas de ciências. Ao tratar do texto como material de análise, Pêcheux afirma que a construção da Linguística enquanto ciência se deu por conta do que foi chamado de "esquecimento voluntário": o sujeito e a situação relacionados ao texto foram deixados de lado. Desse modo, para passar da função para o funcionamento do objeto simbólico, Pêcheux prevê elementos que dariam conta de uma teoria do discurso, ainda que essa expressão não apareça com solidez. Pêcheux permite ao leitor de suas reflexões inferir que essa teoria, a qual ainda está por ser desenvolvida, estará relacionada com uma teoria da ideologia e com uma teoria do inconsciente. Essas inferências partem da ideia de que o texto deve ser analisado a partir de uma inclusão daquilo que foi desprezado. Pêcheux postula a construção de uma teoria não subjetiva do sujeito e a existência de uma relação constitutiva entre o texto e a situação, isto é, entre o texto e as condições de produção. Maldidier sintetiza essas questões ao apresentar o que Pêcheux sugere nas últimas páginas de Análise Automática: "uma teoria do discurso é postulada, enquanto teoria geral da produção dos efeitos de sentido, que não será nem o substituto de uma teoria da ideologia nem o de uma teoria do inconsciente, mas poderá intervir no campo dessas teorias".
A revista Langages
O lançamento da revista Langages, organizada por Jean Dubois, também é de suma importância na consolidação da escola francesa de Análise de Discurso. Pêcheux publica dois artigos nessa revista: "A semântica e o corte saussuriano: língua, linguagem e discurso", publicado no nº 24 de 1971 — escrito em colaboração com Claudine Haroche e Paul Henry — e "Atualizações e perspectivas a propósito da análise automática do discurso", publicado no nº 37 em março de 1975 — escrito em colaboração a linguista Catherine Fuchs. O primeiro artigo apresenta de modo mais cuidadoso e preciso as novas bases sobre as quais estão assentadas as discussões sobre a relação entre língua e discurso, asseverando a existência de um nível discursivo, enquanto o segundo trata das relações entre análise de discurso e teorias do discurso.
A semântica e o corte saussuriano
A partir de uma análise crítica da Semântica em Saussure, os autores, desenvolvendo uma ideia presente em Análise Automática, expõem que, diferentemente dos níveis fonológico, morfológico e sintático, o sentido, objeto da semântica, extrapola o campo da Linguística: "o laço que liga as 'significações' de um texto às condições sócio-históricas desse texto não é de forma alguma secundária, mas constitutivo das próprias significações". É a partir do funcionamento desses diferentes níveis que se precisará refletir sobre os processos discursivos. Outro ponto central do artigo são as contribuições do materialismo histórico e da teoria das ideologias. Determinados em lutar contra o empirismo e o formalismo, os autores, com base no materialismo histórico, postulam conceitos atrelados ao discurso, os quais são postos em relação com a ideologia. Neste artigo, são definidos conceitos indispensáveis à AD, como "formação ideológica" e "formação discursiva" (expressão inicialmente usada por Foucault em Arqueologia do Saber (1969)): "as formações ideológicas [...] comportam necessariamente como um de seus componentes uma ou mais formações discursivas inter-relacionadas que determinam o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.) a partir de uma posição dada em uma conjuntura".
Atualizações e perspectivas a propósito da análise automática do discurso
A principal questão deste artigo é a organização de um quadro epistemológico de referência para a AD que envolve o materialismo histórico (enfatizando a questão da ideologia), a Linguística e a teoria do discurso. Essas três referências estavam interligadas à psicanálise sob o rótulo de "teoria da subjetividade". O centro da proposta de Pêcheux e Fuchs é a questão da leitura na relação que se estabelece com o sujeito. Com base na fórmula althusseriana de que "a ideologia interpela os indivíduos em sujeito", Pêcheux inaugura uma reflexão sobre a relação entre ideologia e inconsciente. É neste artigo que emergem as duas formas de esquecimento presentes no discurso. O esquecimento número 1 é resultado do modo como somos afetados pelo inconsciente. É dele que decorre a ilusão de que somos a fonte do sentido quando, na verdade, retomamos sentidos preexistentes. Já o esquecimento número 2 situa-se na fronteira entre o dito e o não dito, haja vista que o dizer pode ser outro. Neste artigo, então, Pêcheux apresenta o primeiro esboço da relação entre enunciação e imaginário que será desenvolvido no livro Semântica e Discurso publicado em Maio de 1975. Cumpre dizer que, apesar da proximidade temporal das publicações do nº 37 (março de 1975) e desse livro (maio de 1975), o artigo foi escrito bem antes. Essa distância é percebida pelo amadurecimento das reflexões de Pêcheux na leitura de ambos os textos.


