Roma Antiga
Roma Antiga foi uma civilização itálica que surgiu no século VIII a.C. Localizada ao longo do mar Mediterrâneo e centrada na cidade de Roma, na península Itálica, expandiu-se para se tornar um dos maiores impérios do mundo antigo, com uma estimativa de 50 a 90 milhões de habitantes e cobrindo 6,5 milhões de quilômetros quadrados no seu auge entre os séculos I e II.
Fundação
Os primeiros habitantes de Roma, os latinos e sabinos, integram o grupo de populações indo-europeias originárias da Europa Central que vieram para a península Itálica em ondas sucessivas em meados do milênio II a.C.; Velho Lácio (Latium Vetus) era o antigo território dos latinos, atualmente o sul do Lácio; em caso de perigo, as habitações latino-sabinas uniam-se em confederações para enfrentar seus inimigos.[b] As colinas de Roma começaram a ser ocupadas nos primórdios do milênio I a.C.; restos arqueológicos datados entre os séculos XIV-X a.C. são as primeiras evidências de habitação no monte Palatino. Três recintos muralhados sucessivos sobrepostos foram datados no local, dois dos séculos VIII-VII a.C. e um dos séculos VII-VI a.C..
Reino
A documentação do período monárquico de Roma encontrada até hoje é muito precária, o que torna este período menos conhecido que os períodos posteriores. Várias dessas anotações registram a sucessão de sete reis, começando com Rômulo em 753 a.C., como representado nas obras de Virgílio (Eneida) e Tito Lívio (História de Roma). A região do Lácio foi habitada por vários povos. Além dos latinos, os etruscos tiveram um papel importante na história da monarquia de Roma, já que vários dos reis tinham origem etrusca. O último rei de Roma teria sido Tarquínio, o Soberbo (r. 534–509 a.C.) que, em razão de seu desejo de reduzir a importância do senado na vida política romana, acabou sendo expulso da cidade e também assassinado. Este foi o fim da monarquia em Roma. Durante esse período, o monarca (rei) acumulava os poderes executivo, judicial e religioso, e era auxiliado pelo senado, ou conselho de anciãos, que detinha o poder legislativo e de veto, decidindo aprovar, ou não, as leis criadas pelo rei.
República
De acordo com a tradição e escritores posteriores como Tito Lívio, a República Romana foi fundada por volta de 509 a.C., quando o último dos sete reis de Roma, Tarquínio, o Soberbo, foi deposto por Lúcio Júnio Bruto e um sistema baseado em magistrados eleitos anualmente e em várias assembleias representativas foi estabelecido. Uma constituição estabeleceu uma série de pesos e contrapesos e a separação de poderes. Os magistrados mais importantes eram os dois cônsules, que juntos exerciam autoridade executiva, como o imperium, ou o comando militar. Os cônsules tiveram que trabalhar com o senado, que inicialmente era um conselho consultivo da nobreza, ou patrícios, mas cresceu em tamanho e poder.
Império
Em 27 a.C. e com a idade de 36 anos, Otaviano era o único líder romano. Naquele ano, ele tomou o nome de Augusto. Esse evento é geralmente considerado pelos historiadores como o início do Império Romano — embora Roma fosse um estado "imperial" desde 146 a.C., quando Cartago foi arrasada por Cipião Emiliano e a Grécia foi conquistada por Lúcio Múmio. Oficialmente, o governo era republicano, mas Augusto assumiu poderes absolutos. Sua reforma do governo provocou um período de dois séculos coloquialmente referido pelos romanos como Pax Romana. A dinastia júlio-claudiana foi estabelecida por Augusto. Os imperadores desta dinastia foram: Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. A dinastia é assim chamada devido às gente Júlia, a família de Augusto, e as gente Cláudia a família de Tibério. Os júlio-claudianos iniciaram a destruição dos valores republicanos, mas, por outro lado, impulsionaram o estatuto de Roma como a principal potência do mundo antigo.
Império do Oriente (ou Bizantino)
O Império do Oriente teve um destino diferente. Ele sobreviveu por quase mil anos após a queda de sua contraparte ocidental e se tornou o reino cristão mais estável da Idade Média. O Oriente foi poupado das dificuldades enfrentadas pelo Ocidente no século V, em parte devido a uma cultura mais urbana e a mais recursos financeiros que lhe permitiram evitar invasões pagando tributos e contratando mercenários estrangeiros. Teodósio II (r. 408–450) comissionou em Constantinopla as muralhas que levaram seu nome (408–413), o que deixou a cidade imune à maior parte dos ataques; as muralhas mantiveram-se inexpugnáveis até 1204. Com o fim da ameaça huna, o Império do Oriente viveu um período de paz, enquanto o Império do Ocidente continuou seu lento declínio em decorrência da expansão dos povos germânicos: por esta altura muitos de seus antigos territórios já haviam sido perdidos, terminando por ser completamente conquistado em 476 pelo oficial de origem germânica Odoacro, que forçou o imperador Rômulo Augusto (r. 475–476) a abdicar.
Os principais grupos sociais que se construíram em Roma eram os patrícios, os clientes, os plebeus e os escravos:
Família
As unidades básicas da sociedade romana eram os lares e as famílias (ver gente), que incluíam a cabeça da casa (geralmente o pai), pater familias (pai da família), sua esposa, filhos e outros parentes. Nas classes superiores, escravos e servos também faziam parte do lar. O poder do chefe da família era supremo (patria potestas, "poder do pai") dentro da casa: ele podia forçar o casamento (geralmente por dinheiro) e o divórcio de seus filhos, vendê-los à escravidão, reivindicar a propriedade de seus dependentes ou até punir ou matar membros da família (embora esse último direito aparentemente tenha deixado de ser exercido após o século I a.C.).
Educação
No início da República, não havia escolas públicas, então os meninos eram ensinados a ler e escrever por seus pais, ou por escravos instruídos, chamados pedagogos, geralmente de origem grega. O principal objetivo da educação durante esse período era treinar jovens na agricultura, na guerra, nas tradições romanas e nos assuntos públicos. Os rapazes aprendiam muito sobre a vida cívica, acompanhando seus pais em funções religiosas e políticas, incluindo o Senado para os filhos dos nobres. Os filhos dos nobres eram aprendizes de uma figura política proeminente aos 16 anos e faziam campanha com o exército a partir dos 17 anos (esse sistema ainda estava em uso entre algumas famílias nobres na era imperial). As práticas educacionais foram modificadas após a conquista dos reinos helenísticos no século III a.C. e a resultante influência grega, embora as práticas educacionais romanas ainda fossem muito diferentes das gregas. Se seus pais pudessem pagar, meninos e algumas meninas com 7 anos de idade eram enviados para uma escola particular chamada ludus, onde um professor (chamado de litterator ou magister ludi, e muitas vezes de origem grega) lhes ensinava leitura, escrita, aritmética e, às vezes, grego, até a idade de 11 anos.
Forças armadas
O antigo exército romano (c. 500 a.C.) era, como os de outras cidades-Estado contemporâneas influenciadas pela civilização grega, uma milícia cidadã que praticava táticas hoplitas. Era pequena (a população de homens livres em idade militar era então de cerca de 9 000) e organizada em cinco classes (paralelamente à assembleia das cúrias, o corpo de cidadãos organizado politicamente), sendo que três forneciam hoplitas e duas forneciam infantaria. O exército romano primitivo era limitado taticamente e sua postura durante esse período era essencialmente defensiva. Por volta do século III a.C., os romanos abandonaram a formação de hoplitas em favor de um sistema mais flexível, no qual grupos menores de 120 (ou às vezes 60) homens chamados manípulos podiam manobrar mais independentemente no campo de batalha. Trinta manípulos dispostos em três linhas com tropas de apoio constituíam uma legião, que totalizava entre 4 000 e 5 000 homens.
Tecnologia
A Roma Antiga ostentava impressionantes proezas tecnológicas, usando muitos avanços que foram perdidos na Idade Média e não foram superados até os séculos XIX e XX. Um exemplo disso é o vidro duplo, que não foi reinventado até a década de 1930. Muitas inovações romanas práticas foram adotadas a partir de projetos gregos anteriores. Avanços foram frequentemente divididos e baseados em artesanato. Os artesãos guardavam as tecnologias como segredos comerciais. A engenharia civil e a engenharia militar romanas constituíam grande parte da superioridade e do legado tecnológico de Roma e contribuíram para a construção de centenas de estradas, pontes, aquedutos, banhos, teatros e arenas. Muitos monumentos, como o Coliseu, a Pont du Gard e o Panteão, permanecem como testamentos da engenharia e da cultura romana. Os romanos eram famosos por sua arquitetura, que é agrupada com tradições gregas em "arquitetura clássica". Embora houvesse muitas diferenças em relação à arquitetura grega, Roma foi fortemente influenciada pela Grécia ao aderir a projetos e proporções de construções rigorosas e estereotipadas. Além de duas novas encomendas de colunas, compósitas e toscanas, e da cúpula, derivada do arco etrusco.
Artes, música e literatura
A pintura como arte expressiva e decorativa foi praticada desde as origens de Roma, sendo sempre uma arte muito popular, mas a vasta maioria do acervo conhecido por relatos literários não sobreviveu. Contudo, por acaso dois grandes conjuntos de pintura mural em afresco foram preservados em Pompeia e Herculano em boas condições, e a partir deles foi criada uma sistematização para a pintura romana como um todo, dividindo-a em quatro grandes fases ou estilos. A divisão em fases artísticas é objeto de relativamente poucos estudos, e permanece bastante polêmica, pois há grande dificuldade de extrapolar essa sistematização para os remanescentes de outras regiões e outras técnicas, e em particular pela limitação na cronologia: os murais das duas cidades soterradas pelo vulcão Vesúvio (e por isso suas pinturas se preservaram) datam apenas de fins da república até os primeiros anos do império. A erupção aconteceu em 79 d.C. De qualquer forma, o que mais se preservou, mesmo em outras regiões, foram murais, decorando interiores de residências, edifícios públicos e outras estruturas.
Culinária
A gastronomia romana mudou ao longo da longa duração desta civilização antiga. Os hábitos alimentares foram afetados pela influência da cultura grega, pelas mudanças políticas de reino para república e império, como também pela enorme expansão do império, que expôs os romanos a muitos novos hábitos e técnicas culinárias dos povos conquistados. No início, as diferenças entre as classes sociais eram relativamente pequenas, mas as disparidades evoluíram com o crescimento do império. Homens e mulheres bebiam vinho com suas refeições, uma tradição que foi levada até os dias atuais.
Língua
A língua nativa dos romanos era o latim, uma língua itálica. Seu alfabeto era baseado no alfabeto etrusco, que por sua vez era baseado no alfabeto grego. Embora a maior parte da literatura latina sobrevivente seja composta quase inteiramente pelo latim clássico, uma língua literária e altamente estilizada, polida e artificial do século I a.C., a língua falada do Império Romano era o latim vulgar, que diferia significativamente do latim clássico em aspectos como gramática e vocabulário, e, eventualmente, na pronúncia. Enquanto o latim continuou a ser a principal língua escrita do Império Romano, o grego veio a ser a língua falada pela elite bem-educada, visto que a maioria da literatura estudada pelos romanos era escrita em grego. Na metade oriental do Império Romano, que mais tarde se tornou o Império Bizantino, o latim nunca foi capaz de substituir o grego e, após a morte de Justiniano I, o grego se tornou a língua oficial do governo bizantino. A expansão do Império Romano espalhou o latim em toda a Europa e o latim vulgar evoluiu para dialetos em diferentes locais, mudando gradualmente e se tornando as muitas línguas românicas distintas atuais.
Religião
A religião romana arcaica, pelo menos no que diz respeito aos deuses, era constituída não de narrativas escritas, mas de complexas inter-relações entre deuses e humanos. Ao contrário da mitologia grega, os deuses não eram personificados, mas eram vagamente definidos como espíritos sagrados chamados numes. Os romanos também acreditavam que cada pessoa, lugar ou coisa tinha seu próprio gênio, ou alma divina. Durante a República Romana, a religião era organizada sob um rígido sistema de ofícios sacerdotais, que eram mantidos por homens de posição importante no Senado. O Colégio de Pontífices era o órgão mais importante nessa hierarquia e seu principal sacerdote, o pontífice máximo, era o chefe da religião do Estado. Flâmines cuidavam dos cultos de vários deuses, enquanto os áugures eram confiáveis para receber os auspícios. O rei dos ritos sagrados assumia as responsabilidades religiosas dos reis deposto. No Império Romano, os imperadores passaram a ser deificados e o culto imperial oficial tornou-se cada vez mais proeminente.
Jogos e recreação
Os jovens de Roma tinham várias formas de jogos e exercícios atléticos, como pular, lutar, boxear e correr. No campo, os passatempos para os ricos também incluíam a pesca e a caça. Os romanos tinham várias formas de jogar bola, incluindo uma que lembrava o handebol. Jogos de dados, jogos de tabuleiro e jogos de azar também eram passatempos populares. As mulheres não participaram dessas atividades. Para os ricos, os jantares apresentavam uma oportunidade de entretenimento, às vezes com leituras de música, dança e poesia. Os plebeus às vezes desfrutavam de festas semelhantes por meio de clubes ou associações, mas para a maioria dos romanos, as refeições recreativas geralmente significavam tavernas. As crianças entretinham-se com brinquedos e jogos.
Ética e moralidade
Como muitas culturas antigas, os conceitos de ética e moralidade, embora compartilhem algumas semelhanças com a sociedade moderna, diferem bastante em vários aspectos importantes. Como civilizações antigas como Roma estavam sob constante ameaça de ataque de tribos saqueadoras, então sua cultura era necessariamente militarista, com habilidades marciais sendo um atributo valioso. Enquanto as sociedades modernas consideram a compaixão uma virtude, a sociedade romana considerava a compaixão um vício, um defeito moral. De fato, um dos propósitos principais dos jogos de gladiadores era inocular os cidadãos romanos dessa fraqueza. Em vez disso, os romanos apreciavam virtudes como coragem e convicção (virtus), o senso de dever para com o povo, moderação e evitar excesso (moderatio), perdão e compreensão (clementia), justiça (severitas) e lealdade (pietas).
A Roma Antiga é a progenitora da civilização ocidental. Os costumes, religião, direito, tecnologia, arquitetura, sistema político, militar, literatura, línguas, alfabeto, governo e muitos fatores e aspectos da civilização ocidental são todos herdados dos avanços romanos. A redescoberta da cultura romana revitalizou a civilização ocidental, desempenhando um papel no Renascimento e na Era do Esclarecimento.


