Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz GOMM • GOIH foi uma escritora, jornalista, tradutora, cronista e dramaturga brasileira. É considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século XX, tendo sido uma figura pioneira no cenário literário nacional, sobretudo, na produção intelectual e criativa feminina. A escritora foi uma das primeiras cronistas mulheres do país. Autora de destaque na ficção social nordestina, foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras em 1977, também a primeira mulher galardoada com o Prêmio Camões. Ingressou na Academia Cearense de Letras no dia 15 de agosto de 1994, na ocasião do centenário da instituição.
Infância
Rachel era filha de Daniel de Queiroz Lima e Clotilde Franklin de Queiroz, descendente pelo lado materno da família de José de Alencar. Nascida e criada em um ambiente intelectual, tornou-se íntima da literatura desde cedo lendo obras de Júlio Verne, Machado de Assis, Eça de Queiroz, além do próprio parente, Alencar. Em 1915, após uma grande seca, a qual inspiraria a escrita de seu primeiro livro, muda-se com seus pais para o Rio de Janeiro e logo depois para Belém do Pará. Retornou para Fortaleza dois anos depois, onde matriculou-se no Colégio da Imaculada Conceição, onde fez o curso normal, diplomando-se em 1925, aos 15 anos de idade. Em 1927, após ler a notícia a respeito de um concurso promovido pelo jornal O Ceará, no qual a jornalista Suzana de Alencar Guimarães era promovida ao posto de "Rainha dos Estudantes", Rachel resolve escrever uma carta ao referido jornal sob o pseudônimo "Rita de Queluz", ridicularizando o concurso e sua eventual vencedora, que utilizando de um estilo pseudolírico, assinava suas crônicas como A Marquesa.
Primeira fase
Aos dezenove anos, após contrair uma congestão pulmonar e, com suspeita de tuberculose, foi obrigada a ficar em repouso. Nesse período escreve seu primeiro romance O Quinze (1930), obra que retrata a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria. O romance foi escrito às escondidas durante a noite, depois que seus pais iam dormir. Demonstrando preocupação com questões sociais e hábil na análise psicológica de seus personagens, destaca‐se no desenvolvimento do romance regionalista. O livro causou grande impacto no meio literário brasileiro e tornou o nome de Rachel reconhecido nacionalmente. Personalidades literárias como Augusto Frederico Schmidt, Alceu Amoroso Lima, Artur Mota e Graça Aranha saudaram com entusiasmo sua estreia literária. Em março de 1931, o livro foi contemplado com o Prêmio Graça Aranha na categoria romance.
A Cronista
Na década seguinte, Rachel exerceu seu ofício de escritora em jornais tais como O Correio da Manhã, O Diário da Tarde, O Jornal e A Vanguarda Socialista, jornal fundado pelo grupo de trotskistas, passando a cronista exclusiva da revista O Cruzeiro, onde atuou por trinta anos, de 1945 até a extinção da revista em 1975. Também se encontra colaboração de sua autoria na revista luso-brasileira Atlântico. e também no jornal O Estado de S. Paulo. A partir da década de 40, Rachel torna-se cada vez mais popular por suas crônicas que, nos anos que se seguiram, seriam agrupadas e reagrupadas em vários volumes e coletâneas. A donzela e a moura torta, de 1948, foi seu primeiro volume de crônicas publicadas, com seleção da própria autora. A este seguiram-se mais 12 livros de compilação de seu trabalho como cronista, dos quais destacam-se: Um Alpendre, uma Rede, um Açude (1958), O Brasileiro Perplexo (1964), O Caçador de Tatu (1967), As Menininhas e Outras Crônicas (1976), O Jogador de Sinuca e Mais Historinhas (1980).
Ilha do Governador e O Galo de Ouro.
Entre as décadas de 1940 e 1960 Rachel de Queiroz viveu na carioca Ilha do Governador, na Rua Carlos Ilidro — mesma rua onde morou o compositor Assis Valente. A Ilha, inclusive, foi cenário do livro O Galo de Ouro, romance em folhetim lançado semanalmente pela revista O Cruzeiro em 1950, mas só publicado em formato de livro vinte e cinco anos depois, em 1985. O livro narra a trajetória de Mariano, um garçom que após sofrer um acidente automobilístico, além de perder a esposa, fica com o braço direito seriamente comprometido. Mariano deixa a filha criança aos cuidados de uma comadre, tenta a sorte em brigas de galo e como bicheiro. Sobre o livro, afirmou Antonio Carlos Villaça: “A ação neste romance é tudo. Vemos e ouvimos. As personagens estão ao nosso lado, estão perto de nós. E entram em nós com desenvoltura. Um romance, este, de visualidade cinematográfica”.
Teatro
Ainda na década de 50, Rachel aventura-se como dramaturga, publicando duas peças teatrais premiadas: a primeira intitulada Lampião, leva aos palcos as figuras emblemáticas do famoso cangaceiro nordestino, Virgulino Ferreira, e de sua corajosa companheira, Maria Bonita. A montagem paulista do drama no Teatro Leopoldo Fróes, rendeu-lhe o Prêmio Saci, do jornal O Estado de S. Paulo, na categoria de melhor autor de 1953. Sobre o drama em cinco atos, escreveu o crítico de arte Sérgio Milliet: "Rachel de Queiroz não endeusou o cangaceiro, nem lhe desculpou os crimes. Não quis fazer sociologia nem tirar nenhum partido ideológico do fenômeno cangaço. Cortou apenas na vida de Lampião a sequência de maior dramaticidade e no-la projetou de um modo quase objetivo. Para tanto, sacrificou os possíveis efeitos que teria alcançado apelando para o pitoresco, mas ganhou uma profundidade rara em nossa literatura."
Literatura infantil
Em 1969, lança-se na literatura infanto-juvenil com O Menino Mágico, ilustrado por Gian Calvi, em edição da José Olympio. Para o público infantil, Rachel escreveria ainda as obras: Cafute & Pena-de-Prata, com ilustrações de Ziraldo (Rio de Janeiro: José Olympio, 1986); Andira, ilustrado por Pink Wainer (São Paulo: Siciliano, 1992); Xerimbabo, com ilustrações de Graça Lima (Rio de Janeiro: José Olympio, 2002) e Memórias de Menina, ilustrado por Mariana Massarani (Rio de Janeiro: José Olympio, 2003).
Retorno ao romance
Lançou Dôra, Doralina em 1975, retornando ao romance após um hiato de mais de trinta e cinco anos. O romance trás evidentes traços biográficos, como havia feito em 1939, com As Três Marias. A trama é dividida em três partes: I - Livro de Senhora; II - Livro da Companhia; e III - Livro do Comandante; e narra a história de Maria das Dores, apelidada por Dôra, jovem que vive à sombra da autoritária mãe a quem trata apenas pelo pronome "Senhora". Já viúva, após a morte misteriosa do marido, Dôra embarca rumo à capital Fortaleza, onde se torna atriz de uma companhia de teatro mambembe, percorrendo várias regiões do país, até conhecer o homem que seria grande amor de sua vida, o "Comandante", com quem tenta construir uma família.
Dentre as suas atividades literárias, destacava-se também a de tradutora, com cerca de quarenta volumes vertidos para o português. Rachel traduziu nomes importântes da literatura mundial, tais como: Emily Brontë, Leon Tolstói, Dostoiévsky, Samuel Butler, Honoré de Balzac, Jane Austen, Pearl Buck, Verner von Heidenstam, John Galsworthy, François Mauriac, entre outros. Também teve seus livros traduzidos para linguas como: o inglês, alemão, francês e japonês.
Em 1980, foi exibida pela Rede Globo em forma de telenovela uma adaptação do romance As Três Marias, escrita por Wilson Rocha e Walther Negrão, sob direção geral de Herval Rossano. A novela contava com Gloria Pires, Maitê Proença e Nadia Lippi no papel das protagonistas. Rachel de Queiroz não gostou da adaptação pela forma como foi retratada na TV, chegando a exigir que a novela fosse tirada do ar, o que não foi possível devido a novela já estar totalmente gravada. Desgostosa com a adaptação, Rachel de Queiroz revelou em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, que havia acordado com a Globo para que seu nome fosse desvinculado da adaptação e sequer creditado, caso a novela fosse exportada. Memorial de Maria Moura foi adaptada para a televisão em 1994 numa minissérie apresentada também pela Rede Globo de Televisão. Foi exibida entre maio e junho de 1994 no Brasil, e apresentada em Angola, Bolívia, Canadá, Guatemala, Indonésia, Nicarágua, Panamá, Peru, Porto Rico, Portugal, República Dominicana, Uruguai e Venezuela, sendo lançada em DVD em 2004. A minissérie obteve estrondosa audiência.
Ligação com o Partido Comunista
Começa a se interessar em política social em 1928-1929 ao ingressar no que restava do Bloco Operário Camponês em Fortaleza. Foi nomeada secretária do partido na região do Ceará, pelo que acabou se tornando uma das fundadoras do Partido Comunista Cearense. Bastante engajada politicamente durante esse período, Rachel militou na linha de frente do Partido, chegando a ser fichada pela polícia de Pernambuco como perigosa agitadora comunista. Sua ligação com o partido durou até 1932, quando a agremiação exigiu alterações no texto de seu segundo romance, João Miguel.
Trotskistas
Em 1933 se aproxima de Lívio Xavier e de seu grupo em São Paulo, lá indo morar até 1934. Milita então com Aristides Lobo, Plínio Mello, Mário Pedrosa, se filiando ao sindicato dos professores de ensino livre, controlado naquele tempo pelos trotskistas. Para fugir da perseguição por ser esquerdista, muda-se para Maceió, em 1935. À época, durante o Estado Novo, viu seus livros serem queimados junto com os de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos sob a acusação de serem subversivos. Em 1939, já escritora consagrada, muda-se para o Rio de Janeiro. No mesmo ano foi agraciada com o Prêmio Felipe d'Oliveira pelo livro As Três Marias.
Ditadura Militar
Aos poucos, Rachel foi mudando de posicionamento político. Chegou a ser convidada para ser ministra da Educação por Jânio Quadros, convite o qual recusou objetando, espirituosamente, que não nascera para ser mulher pública. Em 1964, apoiou a ditadura militar que se instalou no Brasil. Integrou o Conselho Federal de Cultura e o diretório nacional da ARENA, partido político de sustentação do regime. Dois anos depois, é indicada pelo então presidente Castelo Branco, que era também seu parente e conterrâneo, para compor a delegação do Brasil à 21.ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, junto à Comissão dos Direitos Humanos. Em 1967, foi nomeada para o Conselho Federal de Cultura, Rachel participa do colegiado até 1985, com amigos e colegas como Guimarães Rosa e Ariano Suassuna.
Em 1932, casou-se com o bancário e poeta bissexto José Auto da Cruz Oliveira, conhecido como "Zé Auto", com quem teve sua única filha, Clotilde, nascida em Fortaleza, onde a família Queiroz mantinha o sítio Pici, em 2 de setembro de 1933. Um mês depois do nascimento da filha, Zé Auto foi transferido para o Rio de Janeiro, onde passa a residir numa casa alugada que já teve por inquilino o poeta Manuel Bandeira, que a apelidava como "pouso de poetas modernistas". A propriedade ficava na então rua do Curvelo 51, hoje rua Dias de Barros 53, em Santa Teresa. Por causa de mais uma transferência do bancário, em meados de 1934, depois de rápida passagem por São Paulo, a família muda-se para Maceió, onde a escritora passa a frequentar os cafés literários da capital alagoana na companhia de nomes como Graciliano Ramos, Jorge de Lima e José Lins do Rego, todos também já com livros publicados. Em 1935, sua filha Clotilde, não resistindo a uma meningite aguda, vêm a falecer, causando a perda pessoal mais dolorosa da vida de Rachel de Queiroz, que confessa em entrevista a Hermes Rodrigues Nery, publicado no livro Presença de Rachel, em 2002: "Eu a amei apaixonadamente e nunca me recuperei do golpe que foi perdê-la, assim tão novinha".
Rachel de Queiroz faleceu em 4 de novembro de 2003, vítima de problemas cardíacos, no seu apartamento no Rio de Janeiro, dias antes de completar 93 anos. Foi enterrada no cemitério São João Batista, sob a rede onde costumava dormir.
Concorreu contra o jurista Pontes de Miranda para a vaga de Cândido Mota Filho da cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras. Venceu o pleito ocorrido em 4 de agosto de 1977 por 23 votos, contra 15 dados ao opositor e um em branco. Foi empossada em 4 de novembro de 1977. Recebida por Adonias Filho, foi a quinta ocupante da cadeira 5, que tem como patrono Bernardo Guimarães. Foi a primeira mulher a ingressar na ABL.
Rachel de Queiroz é considera uma das escritoras brasileiras mais importantes e influentes do século XX, sendo bastante enaltecida pela critica literária: Em análise à obra de Rachel de Queiroz no seu monumental livro História da Literatura Brasileira, a historiadora literária italiana Luciana Stegagno Picchio escreve: "Especialmente nas suas primeiras obras, Rachel de Queiroz constrói ainda tradicionalmente as suas histórias com personagens de ascendência naturalista. A própria língua não parece atingida por preocupações de experimentalismo: a não ser na compilação de canções do Nordeste e na inserção de diálogos caboclos (aqueles diálogos tão espontâneos que justificarão a experiência teatral) na trama narrativa. O que conta, de qualquer modo, nesses textos é a intenção: arte instrumental, a serviço de uma ideia regionalista, em que seca e coronelismo são as duas chagas, a da natureza-inimiga e a dos homens, de uma sociedade que só em si, na solidariedade consciente dos seus filhos, pode encontrar uma via de salvação.


