Antes do Baile Verde
Antes do Baile Verde é uma obra de contos brasileira escrita por Lygia Fagundes Telles e publicada originalmente pela Editora Bloch em 1970. É considerada uma das publicações mais relevantes da autora, a qual iniciou a consagração de sua carreira na década de 1970. O livro agrupa contos contemporâneos realistas de caráter intimista, refletindo características da terceira geração modernista e do Concretismo.
Âmbito literário
O Modernismo no Brasil iniciou-se com a Semana de Arte Moderna em 1922. Dentre suas características, observou-se o abandono das perspectivas passadistas e a liberdade formal, aproximando a fala da escrita, ainda na primeira geração, na qual se destacaram Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. A preocupação existencial do homem no mundo e suas relações sociais conquistaram espaço na produção literária brasileira, nítidos na segunda fase modernista, na qual Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Rachel de Queiroz, por exemplo, refletiam sobre o contexto sociopolítico da época.
Âmbito social
Após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939—1945), o continente europeu iniciou um processo gradual de reconstrução, em meio à destruição humana. A filosofia existencialista, portanto, se destacou como análise das questões individuais, principalmente com o início da Guerra Fria, a qual dividiu o mundo em dois blocos: capitalista (comandado pelos Estados Unidos) e socialista (liderado pela União Soviética). No Brasil, Getúlio Vargas renunciou em 1945, após quinze anos de governo, e logo Eurico Gaspar Dutra venceu as eleições, iniciando no país uma política desenvolvimentista, ao lado do bloco capitalista. Em 1951, Vargas volta ao poder democraticamente, porém seu mandado não se concluiu por ele cometer suicídio em 1954, diante de escândalos envolvendo seu nome no atentado da rua Tonelero. Em 1955, Juscelino Kubitschek propôs o crescimento industrial acelerado e um consequente crescimento urbano; em 1960, Jânio Quadros foi eleito presidente, mas renunciou após polêmicas com seus planos. Com a renúncia de Quadros, seu vice, João Goulart assumiu o governo e procurou implementar políticas de esquerda.
Estrutura
Antes do Baile Verde não é subdividido em capítulos ou partes menores; apenas são inseridos os dezoito contos. Na edição original, são apresentados respectivamente: Os Objetos, Verde Lagarto Amarelo, Apenas um Saxofone, Helga, O Moço do Saxofone, Antes do Baile Verde, A Caçada, A Chave, Meia-Noite em Xangai, A Janela, Um Chá Bem Forte e Três Xícaras, O Jardim Selvagem, Natal na Barca, A Ceia, Venha Ver o Pôr do Sol, Eu Era Mudo e Só, As Pérolas e O Menino. Na versão original, ainda é apresentada uma carta escrita por Carlos Drummond de Andrade a Lygia Fagundes Telles em 1966: Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1966.Lygia querida:[...] O livro está perfeito como unidade na variedade, a mão é segura e sabe sugerir a história profunda sob a história aparente. Até mesmo um conto passado na China você consegue fazer funcionar, sem se perder no exotismo ou no jornalístico. Sua grande força me parece estar no psicologismo oculto sob a massa de elementos realistas, assimiláveis por qualquer um. Quem quer a verdade subterrânea das criaturas, que o comportamento social disfarça, encontra-a maravilhosamente captada por trás da estória. Unir as duas faces, superpostas, é arte da melhor. Você consegue isso. Tão diferente da patacoada desses contistas que se celebram a si mesmo nos jornais e revistas e a gente lê e esquece o que eles escreveram! Conto de você fica ressoando na memória, imperativo.Tchau, amiga querida. Desejo para você umas férias tranquilas, bem virgilianas.
Linguagem
A linguagem de Antes do Baile Verde modifica conforme a temática de cada conto. Em geral, há um tom engajado como denúncia velada à desigualdade social e uma oposição ao regime militar no Brasil; a presença ampla do discurso indireto livre para enfatizar a análise psicológica feita das personagens e o uso de inúmeras figuras de linguagem, como metáfora, personificação e sarcasmo. A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Telles: a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte. As variações linguísticas são também usufruídas como representação das personagens retratadas de acordo com seu nível social e com a situação da comunicação. Outros dois traços marcantes na literatura de Lygia são a ambiguidade e a ironia, também presentes em Ciranda de Pedra (1954) e As Meninas (1973), nas quais a escritora estabelece conflitos internos do homem vivendo em sociedade.
Estilo e temática
Cronologicamente, Lygia Fagundes Telles se posiciona na geração modernista de 1945, ao lado de Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Rubem Braga e Dalton Trevisan; portanto, observa-se influência do fluxo de consciência e da epifania, recursos utilizados por esses escritores. Os contos da autora também refletem o estilo de Edgar Allan Poe, escritor estadunidense de tendência romântica. Além disso, há um grande espaço destinado às figuras femininas em suas obras, tendo como temas recorrentes o ódio, o ciúme e a solidão.[carece de fontes?] A escritora constrói uma perspectiva feminina da realidade e do mundo interior humano. Em geral, suas personagens são seres inquietos e vulneráveis, instrumentos de reflexão psicológica, que se movimentam em aparente espontaneidade, como representação irônica da sociedade.
O livro, publicado em 1970, recebeu inúmeras críticas positivas. O escritor Caio Fernando Abreu avaliou, por meio de Antes do Baile Verde, que Lygia Fagundes Telles "[é] basicamente uma contadora de histórias, no melhor e mais vasto significado da expressão". O crítico literário Suênio Campos de Lucena classifica as personagens em três categorias: "personagens que querem esquecer, mas não conseguem; personagens que gostariam de lembrar; e personagens que lembram nostalgicamente; possível pensar-se, ainda, em uma quarta categoria: aqueles que lembram dolorosamente. A memória da dor e da rejeição é dominante nos textos da escritora que trabalham com essa tensão entre lembrar e esquecer. As personagens, quase sempre desintegradas/corrompidas por relações familiares desgastantes ou pela própria sociedade, vêem-se às voltas com lembranças as quais queriam esquecer, com suas vivências fragmentadas, um passado que atormenta, um rememorar que não cessa".
Edições
Publicado originalmente na Coleção Estória pela Editora Bloch em 1970, no Rio de Janeiro, Antes do Baile Verde reúne, em 237 páginas, contos escritos por Lygia Fagundes Telles entre 1949 e 1969. Basicamente, as narrativas inscritas no livro foram redigidas em São Paulo e Águas de São Pedro. Logo após seu lançamento, recebeu o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França. Outras editoras distribuíram a obra de Lygia mantendo o texto integral: Círculo do Livro em 1971; a Livraria José Olympio Editora em 1983; a Nova Fronteira em 1986; a Editora Rocco em 2008 e a Companhia das Letras em 23 de abril de 2009. Edições posteriores foram publicadas com mudanças adequadas ao Acordo Ortográfico de 1990.
Em outros países
Antes do Baile Verde foi publicado no idioma original em Portugal pela editora Livros do Brasil. Os contos As Pérolas e A Chave foram traduzidos respectivamente para língua italiana e para língua polonesa, respectivamente, em obras que expõem narrativas brasileiras. Integralmente, o livro foi publicado na França e na República Tcheca, sob o título de Un Thé bien fort et trois tasses e Pred zelenym bálem.
Um dos contos de Antes do Baile Verde que foi adaptado para o audiovisual foi O Moço do Saxofone, que conta a história de um motorista que se instala em uma pensão, onde se inquieta com a comida indigesta, alguns anões que também se hospedam no local e uma triste canção de saxofone. A protagonista, portanto, busca saber quem é o saxofonista que executa a música. De forte caráter introspectivo, o texto foi encenado no episódio "Era Uma Vez... Valdete", da série Retrato de Mulher, exibida pela Rede Globo em 1993. As Três Mortes de Solano, baseado no conto A caçada, é um longa-metragem dirigido por Roberto Santos e produzido pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.


