Antissemitismo
Antissemitismo é o preconceito, hostilidade ou discriminação contra judeus. Na sua forma mais extrema, "atribui aos judeus uma posição excepcional entre todas as outras civilizações, difamando-os como um grupo inferior e negando que eles sejam parte da(s) nação(ões) em que residem". A pessoa que defende este ponto de vista é chamada de "antissemita". O antissemitismo é uma forma de racismo.
Uso
Apesar do uso do prefixo anti, os termos semita e antissemita não são diretamente opostos. O antissemitismo refere-se especificamente ao preconceito contra judeus em geral, apesar do fato de existirem outros falantes de idiomas semitas (isto é, árabes, etíopes ou assírios) e de nem todos os judeus empregarem linguagem semita. O termo antissemita foi utilizado em algumas ocasiões para expressar o ódio a outros povos falantes de idiomas semitas, mas tal utilização não é amplamente aceita. Estudiosos defendem o uso sem hífen do termo antissemitismo para evitar provável confusão a respeito de o termo referir-se especificamente a judeus, ou a falantes de idiomas semitas como um todo. Emil Fackenhiem, por exemplo, apoiou a utilização sem hífen para "repelir a noção de que há todo um 'semitismo' ao qual o 'antissemitismo se opõe".
Etimologia
Considerando a etimologia da palavra, antissemitismo significaria aversão aos semitas — segundo a Bíblia, os descendentes de Sem, filho mais velho de Noé — grupo étnico e linguístico que compreende os falantes do hebraico, o aramaico e o árabe. Mas, de fato, a palavra antisemitismus foi cunhada, em língua alemã, no século XIX, numa altura em que a ciência racial estava na moda na Alemanha, e foi usada pela primeira vez já com o sentido de aversão aos judeus, pelo jornalista alemão Wilhelm Marr, em 1873, por soar mais "científica" do que Judenhass ("ódio aos judeus"). Há autores (como Gustavo Perednik) que preferem utilizar o termo judeofobia, significando "aversão a tudo o que é judaico". e esse tem sido o uso normal da palavra desde então.[nota 1]
Definição
Embora a definição geral de antissemitismo seja hostilidade ou preconceito contra os judeus e, de acordo com Olaf Blaschke, tenha se tornado um "termo genérico para estereótipos negativos sobre os judeus", várias autoridades desenvolveram definições mais formais. Para François de Fontette, o antissemitismo moderno se difere de um antijudaísmo por seu caráter racista. Se a intolerância aos judeus é milenar, ela sofre uma reconfiguração no século XIX com o eugenismo e as teorias racistas pseudocientíficas. Antes, o antijudaísmo estava fortemente vinculado ao cristianismo e a uma rejeição da fé judaica - um tipo de antissemitismo antirreligioso, por assim dizer. O judaísmo passa a ser encarado como uma questão de raça, uma identidade étnica, não apenas como religião.
Muitos fatores motivaram e fomentaram o antissemitismo, incluindo fatores sociais, econômicos, nacionais, políticos, raciais e religiosos, ou combinações destes fatores. Um dos grandes propagadores do antissemitismo no século XX foi o regime nazista alemão. Atualmente, o ódio ao judeu frequentemente apoia-se em ideais nazistas, ainda que o pensamento antissemita seja muito mais antigo.
Antiguidade
O mais antigo episódio conhecido do que poderiam ser as primeiras manifestações de antissemitismo é o passado em Elefantina, uma pequena ilha no rio Nilo, cerca de 410 a.C., onde um grupo de egípcios em revolta contra o domínio persa reduziu a cinzas o templo da comunidade judaica. Contudo, Phyllis Goldstein e outros historiadores pensam que o caso dificilmente se enquadra num "antissemitismo" tal como o concebemos actualmente, antes sendo devido a um choque de culturas e desacordos políticos — os judeus eram leais aos persas. Os primeiros exemplos claros de sentimento antijudaico remontam ao século III a.C., em Alexandria, o lar da maior comunidade da Diáspora judaica no mundo nessa época e onde a Septuaginta, uma tradução grega da Bíblia hebraica, foi produzida. Manetão, um sacerdote e historiador egípcio da época, escreveu mordazmente sobre os judeus. Seus temas são repetidos nos trabalhos de Chaeremon, Lisímaco, Posidónio, Apolônio Mólon, e em Apião e Tácito. Agatárquides de Cnido ridicularizou as práticas dos judeus e o "absurdo de sua Lei", fazendo uma referência trocista ao facto de Ptolemeu I Sóter ter sido capaz de invadir Jerusalém em 320 a.C. porque seus habitantes estavam observando o Sabat. Um dos primeiros editos antijudaicos, promulgado por Antíoco IV Epifânio, em cerca de 170-167 a.C., provocou uma revolta dos Macabeus na Judeia.
Idade Média
No final do século VI, o recém católico Reino Visigótico na Hispânia emitiu uma série de decretos antijudaicos que proibiam os judeus de se casarem com cristãos, praticar a circuncisão e observar os dias santos judaicos. Continuando ao longo do século VII, tanto os reis visigóticos como a Igreja foram ativos na criação de agressão social e de "punições cívicas e eclesiásticas" para com os judeus, que variavam entre conversão forçada, escravidão, exílio ou morte. Como resultado, aquando da Invasão muçulmana da Península Ibérica, no século VIII, muitos judeus acolheram bem e ajudaram os conquistadores. O invasor islâmico, embora classificando judeus e cristãos como dhimmis, permitiu que os judeus praticassem sua religião mais livremente do que o poderiam fazer na Europa cristã medieval. Houve uma idade dourada da cultura judaica em Espanha, que durou até pelo menos o século XI. Terminou quando vários pogrons muçulmanos contra os judeus tiveram lugar na Península Ibérica, incluindo aqueles que ocorreram em Córdoba em 1011 e em Granada em 1066. Vários decretos que ordenavam a destruição das sinagogas também foram promulgados no Egito, Síria, Iraque e Iêmen do século XI. Além disso, os judeus foram obrigados a se converter ao Islã ou enfrentar a morte em algumas partes do Iêmen, Marrocos e Bagdá várias vezes entre os séculos XII e XVIII.
Idade Moderna
Durante meados do século XVII, a República das Duas Nações (ou Comunidade Polaco-Lituana) foi devastada por vários conflitos, em que a comunidade perdeu mais de um terço de sua população (mais de 3 milhões pessoas), e as perdas judaicas foram contadas em centenas de milhares. O primeiro desses conflitos foi a revolta de Chmielnicki contra o domínio polaco, (1648-49) quando os partidários de Bogdan Khmelnitski massacraram dezenas de milhares de judeus nas áreas orientais e meridionais que ele controlava (hoje Ucrânia). O número exato de mortos pode nunca ser conhecido, mas a diminuição da população judaica durante esse período é estimada em 100 000 a 200 000.
Idade Contemporânea
Em 1790, Iázide, Sultão de Marrocos, subindo ao poder, ordenou a destruição total do bairro judeu de Tetuão. Os seus exércitos saquearam, mataram e violaram. As comunidades de Larache, Arzila, Alcácer Quibir, Taza, Fez e Mequinez sofreram o mesmo destino. Todos os judeus que tinham servido ao sultão anterior foram pendurados pelos pés nos portões de Mequinez, onde permaneceram até morrer. Alguns notáveis e povo muçulmanos, porém, intervieram em favor dos judeus, escondendo muitos em suas casas e salvando muitos outros. Outras atrocidades se seguiram. Pouco antes de morrer como resultado de uma ferida recebida em uma batalha perto de Marraquexe, Al Iázide ordenou a elaboração de longas listas de notáveis judeus e muçulmanos em Fez, Mequinez e Mogador que seriam executados - no entanto morreu antes da ordem ser realizada.


