Aquacultura
Aquacultura ou aquicultura é o ramo da Zootecnia que estuda a produção racional de organismos aquáticos, como peixes, moluscos, crustáceos, anfíbios, répteis e plantas aquáticas para uso das sociedades. Os peixes de aquacultura são alimentados de ração. As primeiras atividades de aquacultura realizaram-se há muito tempo, existindo registros de que os chineses já a conheciam vários séculos antes de nossa era e de que os egípcios já criavam a tilápia-do-nilo há 4000 anos.
De acordo com a FAO (Food and Agricultural Organization), órgão das Nações Unidas responsável pelo estudo dos problemas de alimentação no mundo, um hectare cultivado com peixes produz mais do que com qualquer outro animal. Enquanto os mamíferos dependem das características do ar para a sua respiração e manutenção da temperatura corporal, o peixe flutua, se locomove e regula sua temperatura interna com muito mais facilidade em virtude da densidade do seu corpo ser praticamente igual à da água. Dessa forma, os peixes despendem muito pouca energia para a flutuação, locomoção e manutenção de sua temperatura interna, o que lhes garante uma maior conversão da energia contida nos alimentos que consomem em carne, alcançando uma altíssima produtividade. Por isso, a aquacultura assume importância cada vez maior no panorama do abastecimento alimentar mundial. A aquacultura também oferece vantagens sociais às populações de inúmeros países onde o pescado marinho não pode chegar em boas condições sanitárias e a preços razoáveis.
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No Brasil, a maior parte das atividades aquícolas é praticada em propriedades rurais comuns. Na grande maioria, essas fazendas são dotadas de açudes ou represas. A atividade agropecuária normal de uma fazenda produz uma série e quantidades variáveis de subprodutos que de maneira geral não são aproveitados, principalmente quanto à sua possível transformação em proteínas para consumo humano: capins, frutos passados, palhas diversas, varreduas de depósitos de rações, camas de estábulos e galinheiros, águas servidas de estábulos, pocilgas, pequenos matadouros, resíduos de biodigestores, etc, que os peixes em cativeiro aproveitam integralmente. Além disso, pode acrescentar-se água servida em laticínios e o bagaço ou torta de filtragem da cana-de-açúcar, entre outros subprodutos de usinas de açúcar e álcool. Utilizando pouca mão-de-obra, a piscicultura nos açudes e represas não conflita com as demais atividades desenvolvidas numa fazenda. Pelo contrário, é um complemento muito proveitoso, dado que tem a característica básica de reciclar subprodutos e resíduos, transformando-os em proteína animal.
Em Portugal a aquacultura é uma atividade primária e relativamente recente. O peso da aquacultura nacional no fornecimento de pescado ao mercado português é ainda muito baixo. Em 2011 a produção nacional atingiu as 9166 toneladas. Cerca de 8051 toneladas foram produzidas em águas marinhas ou salobras. Deste total foram produzidas 4056 toneladas de peixe e 3545 toneladas de moluscos. As águas interiores completam a restante produção com 1115 toneladas produzidas. Em termos históricos, antes da entrada na CEE/UE o sector caracterizava-se pela produção de truta, em regime intensivo nas águas interiores, dourada, robalo e bivalves, em regime extensivo nas zonas estuarinas. Na década de 60 surgiu a primeira piscicultura industrial nas margens do rio Coura. Após entrada na CEE/UE em 1986 dá-se início à instalação de novas unidades aquícolas, de pequena dimensão, em regime semi-intensivo de dourada e robalo, levando ao aumento da produção até às 7000 toneladas. No entanto, a produção fica estagnada, devido às dificuldades de Licenciamento, falta de apoios tecnológicos, falta de “know-how” dos empresários aquícolas, deficientes estratégias comerciais, falhas estruturais dos métodos de produção e falta de critérios na aplicação dos Fundos Comunitários, culminando na inviabilidade económica de muitas das novas unidades. A elevada concorrência com outros países produtores, implicou uma redução da produção nacional de dourada e robalo no período 2007 - 2011. Nesse mesmo período surgiu a produção de peixes planos, iniciando-se igualmente a promoção da aquacultura Offshore.
Localização dos estabelecimentos aquícolas
Em 2011 o número de estabelecimentos licenciados foi de 1570 (cerca de 91% correspondendo ao sistema de produção extensivo de bivalves). No entanto, o número de estabelecimentos ativos foi ligeiramente inferior (1475). A maioria dos estabelecimentos encontra-se localizada na faixa litoral, desde a Póvoa de Varzim até Castro Marim, pois são as espécies marinhas que mais contribuem para a produção nacional (cerca de 88%). As pisciculturas de água doce localizam-se nos cursos de água e albufeiras da região Centro/Norte e Norte do País.
Espécies produzidas
De acordo com a última publicação do Instituto Nacional de Estatística, o pregado contribuiu com cerca de 35% da produção total aquícola em 2011 (3197 toneladas). Seguiu-se a amêijoa-fina com 26% (2339 toneladas), a truta arco íris com 12%, ostra e dourada com 9% e o robalo com 5%. O linguado, a corvina (Argyrosomus regius), o mexilhão e a camarinha (Palaemonetes varians) são outras espécies produzidas em Portugal, embora em menores quantidades. É esperado um aumento significativo na produção de mexilhão e linguado durante os próximos anos.
Sistemas de produção em Portugal
Portugal assume-se como um país onde pontifica a diversidade. Assim, praticamente todos os sistemas de produção existentes estão representados em Portugal: intensivo em estruturas flutuantes; extensivo de bivalves inshore e offshore; extensivo, semi-intensivo e intensivo de peixes inshore. O sistema de produção extensivo é o que conta com o maior número de estabelecimentos em Portugal, uma vez que existem muitos micro produtores de bivalves na Ria Formosa e Ria de Aveiro. A produção semi-intensiva é quase exclusiva para a produção de dourada e robalo, enquanto que a produção intensiva aplica-se, principalmente, na produção de peixes achatados (linguado e pregado) e de truta arco íris (águas interiores).
Águas interiores
A aquacultura em águas interiores é feita exclusivamente no sistema intensivo, quer em tanques quer em estruturas flutuantes. Os ovos ou juvenis são adquiridos em maternidades e os peixes criados até atingirem um tamanho comercial. Na produção em tanques, existem duas técnicas: o escoamento contínuo (os tanques são alimentados pela água do rio a montante e restituem-lha a jusante) e a recirculação (a água mantém-se em circuito fechado e é reciclada a fim de poder «recircular» nos tanques). Os sistemas em recirculação são mais onerosos (energia), mas permitem um melhor controlo das condições de criação (temperatura, oxigénio) e da qualidade da água. Em Portugal ainda não está implementado qualquer sistema de recirculação em água doce. As principais zonas de produção e com maior potencial são as albufeiras de barragens e troços de rio com água frias em quantidade e qualidade. A área geográfica de localização compreende o Centro/Norte e Norte do País. Atualmente, a principal espécie produzida é a truta arco íris, existindo um potencial para o achigã e enguia.
Aquacultura em esteiro
A produção em esteiros resulta do aproveitamento de antigas salinas. É o sistema de produção tradicional mais praticado em Portugal para a produção de dourada e robalo. Numa produção extensiva, os animais são introduzidos naturalmente pelos fluxos das marés, mantidos em lagoas preparadas para o efeito (antigas salinas) usando apenas alimento natural e densidades reduzidas. A introdução de alevins de maternidade, de suplementos alimentares (ração) e maiores densidades tornam este sistema em semi-intensivo. Esta forma de aquacultura desempenha um papel importante na conservação do património natural costeiro. As principais zonas de produção são a Ria de Aveiro, Estuário do Mondego, Sado, Ria de Alvor, Ria Formosa e Foz do Guadiana.
Aquacultura marinha intensiva em tanques
Em Portugal este sistema de produção é apenas usado na produção de peixes achatados, tais como o pregado e, mais recentemente, o linguado. Ao contrário dos sistemas extensivo e semi-intensivo, na produção em regime intensivo apenas se utiliza ração para a alimentação dos peixes. As densidades são também bastante mais elevadas do que nos sistemas anteriores. As melhores áreas de produção estão localizados junto à água salgada (seja ela o mar ou lençol subterrâneo), que permita captar água a temperaturas estáveis, de qualidade e com custos competitivos. Dentro deste grupo, em Portugal, existem dois sistemas de produção: o sistema de recirculação (ou sistema fechado) e o sistema aberto. O sistema de recirculação, como o próprio nome indica, implica a reutilização da água usada no circuito de produção existindo um tratamento antes de voltar a entrar nos tanques. A renovação da água é muito baixa, razão pela qual este sistema requer poucas quantidades de água quando a funcionar em regime cruzeiro. No sistema aberto a água não é reutilizada no circuito havendo uma constante renovação. As unidades produtivas que utilizam este sistema de produção, utilizam elevadas quantidades de água. As unidades aquícolas que utilizam este tipo de sistema localizam-se na Praia da Tocha, Praia de Mira, Torreira e Póvoa de Varzim.
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A aquacultura tem sido em anos recentes um dos segmentos de crescimento mais rápido da produção alimentar global. Tem sido saudada como uma resposta para os problemas resultantes da diminuição das populações selvagens de pescado, devido à sobrepesca e a outras causas. Não obstante, em 2003 houve bastante debate acerca dos méritos da aquacultura. Em países como Reino Unido, Canadá e Noruega, o cultivo de salmão e de truta são as formas de aquacultura de mais rápido crescimento, mas a medida que este tipo de exploração se expande tem vindo a afetar a qualidade dos peixes selvagens, particularmente do salmão. Na aquacultura intensiva ou industrial usam-se rações e outros produtos para maximizar a produção, entretanto os efluentes podem prejudicar o ecossistema se lançados no meio ambiente sem o devido tratamento. Alguns veem a produção orgânica de peixes como uma forma de manter a qualidade do pescado sem alterar o equilíbrio ambiental.


