Arte da Roma Antiga
A arte da Roma Antiga foi uma das manifestações mais importantes da sua cultura, e é uma das mais ricas fontes de estudo para a compreensão do mundo romano como um todo. Os romanos derivaram sua arte originalmente dos povos itálicos que habitavam em seu entorno. Entre eles destacaram-se os etruscos, que no período da monarquia dominaram os romanos política e culturalmente. No entanto, a cultura etrusca se construíra muito sobre a grega, transmitindo-se aos romanos esta influência precoce. Em breve, no seu processo de expansão territorial, os romanos entrariam em contato direto com colônias gregas no sul da Itália e depois com a Grécia mesma, iniciando um longo período de absorção intensa de suas referências culturais, que se tornaram o fundamento de toda a cultura romana, expressando-se em uma variedade de campos artísticos, como a literatura, a pintura, a escultura, a música, as artes decorativas e a arquitetura.
A pintura como arte expressiva e decorativa foi praticada desde as origens de Roma, sendo sempre uma arte muito popular, mas a vasta maioria do acervo conhecido por relatos literários não sobreviveu. Contudo, por acaso dois grandes conjuntos de pintura mural em afresco foram preservados em Pompeia e Herculano em boas condições, e a partir deles foi criada uma sistematização para a pintura romana como um todo, dividindo-a em quatro grandes fases ou estilos. Até agora o tema foi objeto de relativamente poucos estudos, e permanece bastante polêmico, pois há grande dificuldade de extrapolar essa sistematização para os remanescentes de outras regiões e outras técnicas, e em particular pela limitação na cronologia: os murais das duas cidades soterradas pelo vulcão Vesúvio (e por isso suas pinturas se preservaram) datam apenas de fins da república até os primeiros anos do império. A erupção aconteceu em 79 d.C.. De qualquer forma, o que mais se preservou, mesmo em outras regiões, foram murais, decorando interiores de residências, edifícios públicos e outras estruturas.
Assim como em outros aspectos, também na escultura os romanos foram grandes devedores dos gregos, e também neste eles puderam desenvolver um caráter próprio, fundando um estilo original de narrativa nos relevos figurativos dos monumentos públicos, apreciando temas como a velhice, o humor, a infância e a morte, e fazendo a arte do retrato florescer a níveis de realismo e força expressiva nunca vistos. Foram sempre ávidos apreciadores e colecionadores de tudo o que fosse grego, e esculturas gregas sempre estiveram entre as presas de guerra mais cobiçadas, valendo fortunas. Muitos escultores gregos foram trabalhar em Roma e nas principais províncias, fundando escolas. Este seu amor foi fundamental na preservação para a posteridade de um repertório de tipos e estilos de representação figurativa cujos originais gregos se perderam. A produção de Policleto e Praxíteles, por exemplo, só é conhecida através de cópias helenísticas e romanas.
De todas as artes romanas a música talvez seja a mais envolta em mistério e a menos estudada; alguns importantes compêndios recentes sobre a Roma Antiga sequer a mencionam ou o fazem apenas de passagem. Nenhuma partitura sobreviveu, não se conhece um sistema de notação definido, e somente pela literatura se veio a saber algo sobre o assunto. Sobreviveram vários tratados de teoria e obras de crítica musical, e alusões à música e ao seu poder abundam na obra de poetas e cronistas. Aparentemente a música na fase republicana era associada a uma sociedade viciosa e à vida desregrada, sendo objeto de frequentes censuras de oradores e moralistas, mas a arte foi cultivada largamente pelas classes populares e nos ambientes militar, religioso, rural e teatral. Era usada também em magias e rituais de cura. Começou a ganhar prestígio generalizado na fase imperial, aparecendo em uma multiplicidade de contextos de entretenimento e festividade e surgindo diversas obras de teoria e crítica. Nesta fase músicos e cantores virtuosos foram altamente apreciados e bem pagos, embora no geral o status social dos músicos profissionais fosse muito baixo. Alguns poucos instrumentos antigos ou seus fragmentos chegaram aos dias de hoje, mas sobreviveu principalmente um expressivo acervo de imagens relativas a atividades musicais em pinturas, mosaicos, relevos e outros suportes, que dão uma boa ideia do variado instrumental empregado e de usos específicos em cada atividade. A partir da grande admiração que tinham pela cultura grega, das referências literárias e tratadísticas, e considerando as muitas similitudes no instrumental, conclui-se que a música romana soava muito como a grega, usava seus modos e regras compositivas, suas leis de acústica, sua textura monofônica-homofônica-heterofônica, mas pode também ter se desenvolvido em direções originais, embora nada se possa afirmar com segurança neste sentido.
Depois de um início sob a influência etrusca, a partir do período republicano os romanos adotaram em proporção crescente referências da arquitetura grega, com destaque para o modelo do templo grego, tipificado pela fachada com colunas apoiadas sobre um crepidoma e sustentando um frontão triangular. Os romanos, porém, introduziram variações nas plantas e volumes, adequando-as a usos seus, e duas inovações fundamentais: o concreto, que deu grande resistência às estruturas, possibilitando a construção em dimensões nunca vistas, e o arco redondo, com suas duas derivações: a abóbada e a cúpula. Estas fórmulas solucionaram um antigo problema de como cobrir grandes espaços internos sem o uso de múltiplas colunas para sustentar os tetos. Acrescentou também grande valor estético às construções. Essas inovações, que ainda estão em pleno uso, junto com muitos outros avanços na engenharia e na tecnologia, possibilitaram aos romanos deixarem estruturas do porte dos seus anfiteatros, aquedutos, palácios, fóruns, basílicas, arcos de triunfo, domus e termas, que permanecem referências centrais na história da arquitetura do ocidente. Várias tipologias são contribuições originais, como a terma, a domus e o arco de triunfo. Sabe-se que os romanos se aprofundaram também nos aspectos de teoria da arquitetura e na crítica estética, e um de seus tratados, De architectura, de Vitrúvio, redescoberto no Renascimento, se tornou uma das mais influentes obras em seu gênero em todos os tempos.
A escrita em latim como forma de comunicação e como registro de eventos e legislação é atestada pelo menos desde o século VII a.C., mas em Roma o desenvolvimento da escrita como uma forma de arte demorou. Entre os séculos IV e III a.C. já havia seguramente se formado uma rica tradição artística oral, a língua já estava bem desenvolvida, com um notável florescimento da oratória, os festivais já haviam introduzido o senso de encenação dramática, e há indícios de que a literacia já alcançava toda a elite, a classe média amplamente, e pelo menos alguns elementos também das classes baixas, mas em toda a sua história a maior parte dos gêneros foi cultivada apenas entre as elites. Mais populares eram as peças de oratória e a poesia para o teatro, a literatura dramática, que se desempenhava de viva voz diante de grandes públicos e não necessitava ser lida pela massa analfabeta. Como nas outras artes, a influência grega foi determinante na formação da literatura romana, e é sintomático que a primeira obra literária escrita em latim conhecida não seja criação original, mas a tradução de uma tragédia grega, realizada em 240 a.C. por Lívio Andrônico, um grego, autor também de outros textos latinos dos quais restam fragmentos. Mas há registros indicando que houve precedentes, perdidos com o tempo. Cícero citou que Ápio Cláudio, grande orador, havia escrito um poema e havia sido o primeiro a publicar seus discursos, e disse que a Lei das Doze Tábuas, pedra angular do Direito Romano, era um poema. Preces, ditados e fórmulas mágicas também ao que parece tinham forma poética, assim como os textos dos tratados políticos antigos, como narrou Tito Lívio. Segundo Gian Biagio Conte, isso indica que em tempos mais remotos os conceitos de prosa e poesia eram pouco diferenciados entre os romanos. Os primeiros exemplos de prosa conhecidos, de fato, são marcados por forte estilização e formalismo, ao passo que as primeiras poesias (hinos religiosos) têm caracteristicamente forma e metro frouxos. Em geral, desde cedo se percebe a inclinação para a retórica e para o uso de figuras de linguagem. Na República a literatura enfim desabrochou, surgindo muitos autores, trabalhando em prosa e poesia, cujos limites se distinguiam melhor, e se destacando na poesia lírica, dramática, cômica, erótica, política, religiosa, histórica, laudatória, moralista, pastoral e épica; na crônica, na historiografia e outras formas. Alguns outros autores célebres desta fase são Plauto, Terêncio, Catão e Névio.
As artes cênicas estiveram presentes na vida romana desde seus primórdios. Tito Lívio diz que as primeiras manifestações dramáticas foram introduzidas pelos etruscos em 364 a.C., na forma de danças acompanhadas de música, mas sabe-se que encenações de vários tipos aconteciam desde bem antes, em festas e rituais religiosos, em celebrações militares, na dedicação de templos, durante as pompas fúnebres da elite e nos banquetes públicos. Os atores em geral usavam máscaras para compor os personagens. Mulheres aparentemente não participavam. Cedo se tornaram populares as farsas atelanas, aparentemente de origem autóctone e com personagens fixos, e as flíaces, de caráter similar. Lívio Andrônico, já citado na seção anterior, foi o primeiro a escrever para o teatro à maneira grega, traduzindo tragédias e comédias em verso e inventando outras com temas romanos, e Névio foi o primeiro a levar a dramaturgia a um alto patamar de qualidade estética, preferindo a temática trágica. As comédias tendiam a ser mais leves, rústicas e populares que seus protótipos gregos, e com uma linguagem direta, e em meio ao riso escrachado, podiam lançar agudas críticas sociais, explorando o lado sombrio ou o ridículo do ser humano e da sociedade, enquanto que as tragédias em geral imitavam os gregos com mais rigor, usando uma linguagem altamente retórica e moralizante. No século III a.C. se formaram guildas de atores e escritores, indicando a popularidade do teatro e a força da categoria.
Roma foi uma civilização fortemente marcada pela visualidade. Além da arte criada nas grandes categorias como a pintura e a arquitetura, os romanos impregnaram seu cotidiano de várias outras formas menores de expressão plástica e ornamentação, obtendo resultados de alta qualidade na ourivesaria, na medalhística, na decoração de mobiliário, sarcófagos, vasos e outros objetos utilitários, no estuque decorativo, na arte do vidro, nos mosaicos e outros trabalhos com pedras, e no trabalho em metais.


