As Coletividades Anormais
O legado de Nina Rodrigues, (1862-1906) é ofuscado por seu compartilhamento com as teorias racistas da superioridade das raças e degenerescência dos mestiços, mas sempre com a ressalva que o seu espírito científico, questionador o fez um dos primeiros a colocar em pé de igualdade aos fatores supostamente hereditários às más condições sociais em que viviam as populações descendentes de africanos e indígenas brasileiros.
No prefácio dessa coletânea que organizou, Arthur Ramos, o primeiro professor do primeiro curso e livro de psicologia social do Brasil (1937), refere-se ao seu reconhecimento internacional situando-o entre os clássicos de Gustave Le Bon (1841 -1931), autor de Psicologia das Multidões, Scipio Sighele (1868 -1913) e Jean-Gabriel (de) Tarde (1843-1904), ambos com relevantes contribuições ao estudo da criminologia e associações criminosas , onde destaca a relevância das contribuições de Nina Rodrigues sobre as epidemias religiosas, onde seu nome é citação obrigatória, e à psicopatologia gregária. Ainda segundo Ramos, no prefácio da obra citada, em mais de uma oportunidade fez Nina Rodrigues referências a esse projeto de livro, cujo rascunho foi resgatado por ele, entre seus manuscritos no Instituto Nina Rodrigues. O Plano original da obra estava assim dividido: Cap. II – A epidemia de loucura religiosa de Canudos e Pedra Bonita
Ramos, (1939), ainda no prefácio da referida obra, assinala a antecipação histórica do trabalho de Nina Rodrigues no âmbito do que veio a se constituir como psicologia coletiva ou das multidões e psicologia social mostrando a complexidade que esta(s) disciplina(s) assumiram com as diversas contribuições que se sucederam desde Wilhelm Wundt (1832 - 1920) com a sua psicologia dos povos (Volkerpsychologie), William McDougall (1871 – 1938) entre outros, destacando no seu curso e livro , as contribuições de Kurt Lewin (1890 -1947) e da psicanálise para o entendimento do fenômeno da multidão e seu meneur ou líder. Uma possível definição de coletividade anormal de Rodrigues, (1939) inclui-se no âmbito do que ele denominou de psicologia coletiva inaugurada por Scipio Sighele e, tem como objeto, realizar o estudo clínico do meneur (líder) e da multidão que o segue (p. 78), realizando um estudo completo sobre as condições e a maneira como se produz o contágio das emoções, distinguindo os diversos tipos do estado de multidão, a saber: (1) heterogêneas anônimas e não anônimas (2) homogêneas, nas quais se incluem as seitas, castas e classes. Adotando a terminologia de Le Bon e a proposição de Sighele que admitem uma sucessão das multidões primitivas às grandes corporações e ao Estado moderno.


