Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade
Perturbação de hiperatividade com défice de atenção (PHDA) (português europeu) ou Transtorno do Déficit de Atenção / Hiperatividade (TDAH) (português brasileiro) é um transtorno neurobiológico ligado ao neurodesenvolvimento caracterizado pela desatenção, hiperatividade, desregulação emocional e a impulsividade em graus inconsistentes com o nível de desenvolvimento do indivíduo. Os critérios de diagnóstico requerem que os sintomas se comecem a manifestar antes dos doze anos de idade, que estejam presentes durante mais de seis meses e que causem problemas em pelo menos dois cenários diferentes, como na escola e em casa, por exemplo. Em crianças, a desatenção é muitas vezes a causa de maus resultados escolares. Embora cause dificuldades, sobretudo na sociedade contemporânea, muitas crianças com PHDA conseguem se concentrar em tarefas que consideram interessantes.
O transtorno se caracteriza por frequente comportamento de desatenção, inquietude e impulsividade, em pelo menos dois contextos diferentes (casa, escola, trabalho, etc). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM IV) subdivide o TDAH em três tipos: O indivíduo também pode preencher os critérios para hiperatividade-impulsividade, mas os sintomas de desatenção são predominantes. O indivíduo também pode preencher os critérios para desatenção, mas os sintomas de hiperatividade-impulsividade são predominantes. Na década de 1980, a partir de novas investigações, passou-se a ressaltar aspectos cognitivos na definição de síndrome, principalmente o déficit de atenção e a impulsividade ou falta de controle, considerando-se, além disso, que a atividade motora excessiva é resultado do alcance reduzido da atenção do indivíduo e da mudança contínua de objetivos e metas a que é submetido.
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O diagnóstico de TDAH é fundamentalmente clínico, realizado por profissional que conheça profundamente o assunto e que necessariamente descarte outras doenças e transtornos, para então indicar o melhor tratamento. O termo hiperatividade tem sido popularizado e muitas crianças rotuladas erroneamente[carece de fontes?]. É preciso cuidado ao se caracterizar uma criança como portadora de TDAH. Somente um médico (preferencialmente psiquiatra), juntamente com psicólogo ou terapeuta ocupacional especializados, podem confirmar a suspeita de outros profissionais de áreas afins, como fonoaudiólogos, educadores ou psicopedagogos, que devem encaminhar a criança para o devido diagnóstico. Existem testes e questionários que auxiliam o diagnóstico clínico. Hoje já se sabe que a área do cérebro envolvida nesse processo é a região orbital frontal (parte da frente do cérebro)[vago] responsável pela inibição do comportamento, pela atenção sustentada, pelo autocontrole e pelo planejamento do futuro[carece de fontes?]. Entretanto, é importante frisar que o cérebro deve ser visto como um órgão cujas partes se interligam. Portanto, o funcionamento inadequado de outras áreas conectadas à região frontal pode levar a sintomas semelhantes aos do TDAH.[carece de fontes?]
Adultos
Adultos com TDAH são diagnosticados segundo os mesmos critérios, exigindo que os sinais estejam presentes entre os 6 e 12 anos. O indivíduo é a melhor fonte de informação para o diagnóstico, embora outros possam fornecer dados úteis sobre os sintomas atuais e os da infância; a história familiar de TDAH também confere peso ao diagnóstico.:7,9 Embora os sintomas centrais do TDAH sejam semelhantes em crianças e adultos, eles frequentemente se manifestam de forma diferente na idade adulta; por exemplo, a atividade física excessiva em crianças pode se traduzir em sensação de inquietação e constante atividade mental em adultos.:6 Estima-se que, mundialmente, 2,58% dos adultos tenham TDAH persistente (quando o indivíduo atende aos critérios atualmente e há evidência de início na infância), e 6,76% tenham TDAH sintomático (ou seja, atendem aos critérios independentemente do início na infância). Em 2020, os números foram de 139,84 milhões e 366,33 milhões de adultos afetados, respectivamente. Cerca de 15% das crianças com TDAH continuam a atender aos critérios completos do DSM-IV-TR aos 25 anos, e 50% ainda apresentam alguns sintomas.:2 Desde 2010[update], a maioria dos adultos permanece sem tratamento. Muitos adultos com TDAH não diagnosticados e sem tratamento levam uma vida desorganizada, e alguns recorrem a drogas não prescritas ou álcool como mecanismo de enfrentamento. Outros problemas podem incluir dificuldades em relacionamentos e no trabalho, além de risco aumentado de atividades criminosas.:6 Problemas de saúde mental associados incluem depressão, transtornos de ansiedade e dificuldades de aprendizagem. Alguns sintomas do TDAH em adultos diferem dos observados em crianças. Enquanto crianças podem escalar e correr excessivamente, adultos podem apresentar dificuldade para relaxar ou falar demais em situações sociais.:6 Adultos com TDAH podem iniciar relacionamentos impulsivamente, demonstrar comportamento de busca por sensações e ter temperamento instável.:6 Comportamentos aditivos, como abuso de substâncias e Jogo patológico, são comuns.:6 Isso fez com que indivíduos que se manifestavam de forma distinta com o envelhecimento superassem os critérios do DSM-IV.:5–6 Os critérios do DSM-5 tratam especificamente dos adultos, diferentemente do DSM-IV, que não considera plenamente as diferenças de prejuízo observadas na idade adulta em comparação com a infância.:5 Para o diagnóstico em adultos, é necessário que os sintomas estejam presentes desde a infância. Entretanto, uma parcela dos adultos que atende aos critérios para TDAH na idade adulta não teria sido diagnosticada na infância. A maioria dos casos de TDAH de início tardio se desenvolve entre os 12 e 16 anos e pode ser considerada como TDAH de início na adolescência ou no início da idade adulta.
Critérios diagnósticos (CID-10 F90.0)
As constantes queixas dos professores com relação à atenção e à indisciplina no Ensino Fundamental e no Ensino Médio revelam que é comum os docentes encaminharem alunos ao serviço médico, descrevendo comportamentos tais como agitação em demasia, incapacidade de manter a atenção e dificuldade de autorregulação. Desses encaminhamentos resultam, na maioria dos casos, os laudos de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Para se diagnosticar um caso de TDAH é necessário que o indivíduo em questão apresente pelo menos seis dos sintomas de desatenção e/ou seis dos sintomas de hiperatividade; além disso os sintomas devem manifestar-se em pelo menos dois ambientes diferentes e por um período superior a seis meses.
Na maior parte dos casos, não se sabe a causa concreta da origem da PHDA no indíviduo. É normalmente um conjunto de factores, entre eles genéticos, o meio ambiente em que se vive, factores sociais ou mesmo traumas induzidos no cérebro.
Genéticos
Os estudos indicam que a PHDA é, em muitos casos, hereditária. No entanto, dado que não existe uma causa precisa para a existência da PDHA, esta é apenas uma parte que pode levar a esta perturbação, com certas mutações a nível dos genes herdados pelos pais a contribuir para a susceptiblidade de ser afectado pela PHDA. As mutações genéticas consideradas mais comuns para a prevalência desta condição, são normalmente relacionadas com a neurotransmissão da dopamina. No entanto, a PHDA está envolvida com mais variáveis genéticas para além da dopamina. Alguns dos genes principais associados a esta perturbação são o DAT, DRD4, DRD5, TAAR1, MAO-A, COMT, DBH, ADRA2A, TPH2, GRIN2A, 5-HTT, 5-HTR1B, etc, o que demonstra a enorme complexidade desta condição, já que envolve imensos sistemas para além da dopamina.
Ambiente
Para além dos factores genéticos, alguns factores do meio ambiente do indivíduo podem levar a esta perturbação. A ingestão de alcóol durante a gravidez pode provocar várias alterações à criança, entre elas o PHDA ou sintomas semelhantes. A exposição a certas substâncias tóxicas, como o chumbo por exemplo, podem contribuir para esta perturbação, tal como a exposição ao tabaco durante a gravidez, de forma directa ou indirecta, pode aumentar a probabilidade de um diagnóstico de PHDA. Mais factores que podem aumentar a probabilidade de incidência de PHDA no indíviduo são o nascimento permaturo, nascimento com um peso corporal muito baixo, negligência, abuso ou privação social, tal como certas infeções antes, durante e após o nascimento da criança, principalmente nos primeiros anos de vida, já que a susceptibilidade é maior.
Factores sociais
As crianças mais novas no período escolar, em comparação com os seus colegas ligeiramente mais velhos, têm maior probabilidade de ser diagnosticadas com PHDA, possivelmente pelo seu desenvolvimento ainda estar ligeiramente atrás em comparação a estas. Em alguns casos, o diagnóstico da PHDA deve-se não a problemas com o indivíduo em si mas com a educação e expectativas dos pais em relação ao filho/a. Crianças vítimas de violência e abuso emocional são mais susceptíveis de apresentar comportamentos relacionados com esta patologia, a exemplo da desregulagem emocional. Por fim, a caracterização da PHDA é sempre sujeita ao que é considerado um comportamento normal e um comportamento anormal pela sociedade. O que pode ser considerado um caso de PHDA segundo o critério do DSM-IV, pode não o ser segundo o critério do ICD-10.
Os modelos atuais de TDAH sugerem que ele está associado a comprometimentos funcionais em alguns sistemas de neurotransmissores do cérebro, particularmente os envolvendo dopamina e noradrenalina. As vias dopaminérgicas e noradrenérgicas originadas na área tegmental ventral e no locus coeruleus projetam-se para diversas regiões cerebrais, regulando processos cognitivos variados. As vias que se dirigem ao córtex pré-frontal e ao estriado modulam a função executiva (controle cognitivo do comportamento), motivação, percepção de recompensa e função motora; essas vias desempenham papel central na fisiopatologia do TDAH. Modelos mais amplos, incluindo vias adicionais, também foram propostos.
Estrutura cerebral
Em crianças com TDAH, verifica-se redução geral do volume em certas estruturas cerebrais, com diminuição proporcionalmente maior do volume do córtex pré-frontal esquerdo. O córtex parietal posterior apresenta afinamento em indivíduos com TDAH em comparação com controles, e outras estruturas dos circuitos pré-frontal-estriatal-cerebelar e pré-frontal-estriatal-talâmico também diferem entre pessoas com e sem TDAH. Os volumes subcorticais do núcleo accumbens, da amígdala, do caudado, do hipocampo e do putâmen parecem menores em indivíduos com TDAH. Estudos com ressonância magnética estrutural também revelaram diferenças na matéria branca, com assimetria inter-hemisférica distinta entre jovens com TDAH e aqueles com desenvolvimento típico. Estudos com fMRI evidenciam maior conectividade entre regiões subcorticais e corticais, como entre o caudado e o córtex pré-frontal, grau esse que se correlaciona com a gravidade da desatenção ou hiperatividade; processos de lateralização hemisférica também foram postulados, embora os dados empíricos sejam divergentes.
Vias dos neurotransmissores
Sugeriu-se anteriormente que o aumento de transportadores de dopamina em pessoas com TDAH fazia parte da fisiopatologia, mas esse aumento pode ser uma adaptação à exposição a medicamentos estimulantes. Os modelos atuais envolvem a via dopaminérgica mesocorticolímbica e o sistema noradrenérgico do locus coeruleus. Os psicoestimulantes demonstram eficácia ao aumentar a atividade dos neurotransmissores nesses sistemas, e podem haver anormalidades adicionais nas vias serotoninérgica, glutamatérgica ou colinérgica.
Função executiva e motivação
O TDAH decorre de um déficit central nas funções executivas (como controle atencional, inibitório e memória de trabalho), essenciais para selecionar e monitorar comportamentos que facilitem a obtenção de objetivos; essas deficiências resultam em dificuldades para manter a organização, cumprir horários, controlar a procrastinação, concentrar-se, prestar atenção, ignorar distrações, regular as emoções e lembrar detalhes, enquanto a memória de longo prazo permanece preservada, com os problemas de recordação sendo atribuídos à memória de trabalho comprometida. Devido à maturação cerebral e ao aumento das demandas por controle executivo com a idade, as dificuldades do TDAH podem não se manifestar completamente até a adolescência ou início da idade adulta, embora trajetórias divergentes de maturação possam favorecer uma melhora tardia das funções executivas. O TDAH também está associado a déficits motivacionais em crianças, que tendem a preferir recompensas imediatas em detrimento de benefícios a longo prazo.
Reação paradoxal a substâncias neuroativas
Outra característica do processamento alterado no sistema nervoso central é a reação paradoxal, observada em cerca de 10–20% dos pacientes, na qual as respostas ocorrem na direção oposta ao efeito esperado ou de forma significativamente diferente. Essas reações são provocadas por substâncias neuroativas como anestésicos locais, sedativos, cafeína, anti-histamínicos, neurolepticos fracos e analgésicos centrais e periféricos; considerando que suas causas são, ao menos parcialmente, genéticas, pode ser útil, em situações críticas – por exemplo, antes de cirurgias – questionar se tais anomalias ocorrem também em familiares.
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Os neurotransmissores que parecem estar deficitários em quantidade ou funcionamento nos indivíduos com TDAH são basicamente a dopamina e a noradrenalina e podem ser estimulados através de medicação, com o devido acompanhamento médico, de modo a amenizar os sintomas de déficit de atenção/hiperatividade. Entretanto, nem todas as pessoas respondem positivamente ao tratamento. É importante que seja avaliada criteriosamente a utilização dos medicamentos em função dos seus efeitos colaterais. A duração da administração varia em cada caso, a depender da resposta do paciente, não se justificando o uso dessas drogas nos casos em que os pacientes não apresentem melhora significativa. Cerca de 70% dos pacientes respondem adequadamente ao metilfenidato e o toleram bem. Como a meia-vida do metilfenidato é curta, geralmente utiliza-se o esquema de duas doses por dia, uma de manhã e outra ao meio dia. A disponibilidade de preparados de ação prolongada tem possibilitado maior comodidade aos pacientes.
Terapias comportamentais
Há boas evidências para o uso de terapias comportamentais no TDAH. Elas são o tratamento de primeira escolha recomendado para aqueles que apresentam sintomas leves ou que estão em idade pré-escolar. As terapias psicológicas utilizadas incluem: intervenção psicoeducacional, terapia comportamental, Terapia cognitivo-comportamental, Psicoterapia interpessoal, Terapia familiar, intervenções escolares, treinamento de habilidades sociais, intervenção comportamental entre pares, treinamento organizacional, e treinamento para pais. O Neurofeedback apresenta efeitos terapêuticos maiores do que controles não ativos por até seis meses — e possivelmente até um ano — após o tratamento, podendo ter efeitos comparáveis aos controles ativos (tratamentos comprovadamente eficazes) nesse mesmo período. Apesar da eficácia observada em pesquisas, há regulamentação insuficiente da prática de neurofeedback, o que leva a aplicações ineficazes e alegações falsas sobre inovações. O treinamento de pais pode melhorar diversos problemas comportamentais, incluindo comportamentos opositores e de não cooperação.
Intervenções digitais
Vários ensaios clínicos investigaram a eficácia de terapias digitais, particularmente a terapia digital baseada em videogame AKL-T01, da Akili Interactive Labs, comercializada como EndeavourRx. O ensaio clínico pediátrico STARS-ADHD, randomizado, duplo-cego, em grupos paralelos e controlado, demonstrou que o AKL-T01 melhorou significativamente o desempenho no Teste de Variáveis de Atenção, uma medida objetiva de atenção e controle inibitório, em comparação com um grupo de controle após quatro semanas de uso domiciliar. Um estudo pediátrico subsequente, de rótulo aberto, chamado STARS-Adjunct, publicado na Nature Portfolio na npj Medicina Digital, avaliou o AKL-T01 como tratamento complementar para crianças com TDAH que estavam em uso de medicação estimulante ou que não estavam em farmacoterapia com estimulantes. Os resultados mostraram melhorias na deficiência relacionada ao TDAH (medida pela Escala de Avaliação de Deficiência) e nos sintomas de TDAH após 4 semanas de tratamento, com efeitos persistindo durante uma pausa de 4 semanas e melhorando ainda mais com um período adicional de tratamento. Notavelmente, a magnitude da melhora medida foi semelhante para crianças tanto em uso quanto fora do uso de estimulantes.
Medicamentos
Os medicamentos para TDAH parecem aliviar os sintomas por meio de seus efeitos sobre as regiões e redes executivas pré-frontais, estriatais e relacionadas no cérebro; geralmente aumentando a neurotransmissão de noradrenalina e dopamina. Metilfenidato e anfetamina ou seus derivados são frequentemente tratamentos de primeira linha para o TDAH. Cerca de 70% respondem ao primeiro estimulante testado e apenas 10% não respondem nem a anfetaminas nem ao metilfenidato. Os estimulantes também podem reduzir o risco de lesões não intencionais em crianças com TDAH. Estudos de ressonância magnética sugerem que o tratamento a longo prazo com anfetamina ou metilfenidato diminui anomalias na estrutura e função cerebrais encontradas em indivíduos com TDAH.
Microdosagem com psilocibina
O estudo intitulado Microdosing with psychedelics to self-medicate for ADHD symptoms in adults, A prospective naturalistic study, publicado na revista Neuroscience Applied, investigou os efeitos da microdosagem (MD) com psilocibina como forma de automedicação para tratar sintomas de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) em adultos. O TDAH em adultos, frequentemente subdiagnosticado e mal gerido, pode impactar gravemente a qualidade de vida. Embora os tratamentos farmacológicos de primeira linha, como metilfenidato e atomoxetina, sejam eficazes, muitos pacientes interrompem seu uso devido a efeitos colaterais adversos ou à ausência de resposta terapêutica. Diante desse cenário, tem-se observado um crescente interesse no uso de psicodélicos clássicos em doses baixas e repetidas, prática conhecida como microdosagem. Estudos retrospectivos anteriores indicavam que a MD poderia ser percebida como mais eficaz do que os tratamentos convencionais. Este estudo adotou um desenho prospectivo e naturalístico para avaliar, por meio de questionários validados e tarefas cognitivas, os efeitos da MD sobre os sintomas do TDAH, o bem-estar geral e a percepção do tempo.
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Comorbidades psiquiátricas
Em crianças, o TDAH ocorre com outros transtornos em cerca de dois terços dos casos. Outras condições do neurodesenvolvimento são comorbidades comuns. Transtorno do espectro autista (TEA), que ocorre em 21% dos casos com TDAH, afeta as habilidades sociais, a capacidade de comunicação, o comportamento e os interesses. Verificou-se que deficiências de aprendizagem ocorrem em cerca de 20–30% das crianças com TDAH. Tais deficiências podem incluir transtornos do desenvolvimento da fala e da linguagem, bem como transtornos das habilidades acadêmicas. O TDAH, contudo, não é considerado uma deficiência de aprendizagem, embora frequentemente cause dificuldades acadêmicas. Também são comuns deficiências intelectuais(p75) e síndrome de Tourette. O TDAH é frequentemente acompanhado de transtornos disruptivos, de controle de impulsos e de conduta. O transtorno negativista desafiador (TND) ocorre em cerca de 25% das crianças com apresentação desatenta e em 50% das que apresentam a forma combinada.(p75) É caracterizado por humor irritadiço ou colérico, comportamento argumentativo ou desafiador e vindicatividade inadequados para a idade. O transtorno de conduta (TC) é outro transtorno comórbido comum em adolescentes com TDAH, ocorrendo em 25% dos indivíduos com apresentação combinada.(p75) Caracteriza-se pela agressividade, destruição de propriedade, desonestidade, furtos e violação de regras. Adolescentes com TDAH que também apresentam TC têm maior probabilidade de desenvolver transtorno de personalidade antissocial na idade adulta. Imagens cerebrais indicam que o TC e o TDAH são condições distintas: o transtorno de conduta demonstra redução do tamanho do lobo temporal e do sistema límbico, bem como aumento do córtex orbitofrontal, enquanto o TDAH mostra redução das conexões no cerebelo e no córtex pré-frontal de forma mais ampla. O TC envolve maior comprometimento no controle da motivação que o TDAH. O transtorno explosivo intermitente é caracterizado por explosões súbitas e desproporcionais de raiva, ocorrendo com mais frequência em indivíduos com TDAH do que na população geral. Transtornos de ansiedade e do humor são comorbidades frequentes; observou-se que transtornos de ansiedade ocorrem com mais frequência na população com TDAH, assim como transtornos do humor (especialmente transtorno bipolar e transtorno depressivo maior). Meninos diagnosticados com a forma combinada de TDAH têm maior propensão a apresentar um transtorno do humor. Adultos e crianças com TDAH às vezes apresentam transtorno bipolar, o que exige avaliação cuidadosa para diagnosticar e tratar ambas as condições. Transtornos do sono e TDAH frequentemente coexistem, podendo também ocorrer como efeito colateral de medicamentos usados para tratá-lo. Em crianças com TDAH, a insônia é o transtorno do sono mais comum, com a terapia comportamental sendo o tratamento preferido. Problemas para iniciar o sono são comuns, embora esses indivíduos geralmente durmam profundamente e tenham dificuldade significativa para se levantar pela manhã. A melatonina é, às vezes, utilizada em crianças com insônia de início de sono. A síndrome das pernas inquietas é mais comum em indivíduos com TDAH e muitas vezes se deve à anemia por deficiência de ferro. Entretanto, as pernas inquietas podem ser simplesmente parte do TDAH, exigindo avaliação cuidadosa para diferenciá-las. O transtorno de fase do sono atrasada também é uma comorbidade comum. Indivíduos com TDAH apresentam risco aumentado de transtorno por uso de substâncias.:9 Isso é mais comumente observado com álcool ou cannabis.:9 A causa pode ser uma alteração na via de recompensa no cérebro, automedicação e aumento dos fatores de risco psicossociais, o que dificulta a avaliação e o tratamento do TDAH, sendo que os problemas graves de uso de substâncias geralmente são tratados primeiro devido aos riscos maiores. Outras condições psiquiátricas incluem o transtorno de apego reativo, caracterizado por uma severa incapacidade de se relacionar socialmente de forma adequada, e a síndrome de desengajamento cognitivo, um transtorno de atenção distinto que ocorre como comorbidade em 30–50% dos casos de TDAH, independentemente da apresentação; alguns casos diagnosticados com TDAH-PIP foram constatados ter, em vez disso, a síndrome de desengajamento cognitivo. Indivíduos com TDAH têm três vezes mais probabilidade de serem diagnosticados com um transtorno alimentar do que aqueles sem TDAH; inversamente, pessoas com transtornos alimentares têm duas vezes mais chance de apresentar TDAH.
Trauma
O TDAH, o trauma e as experiências adversas na infância também são comórbidos, o que pode, em parte, ser explicado pela similaridade na apresentação entre diferentes diagnósticos. Os sintomas do TDAH e do TEPT podem se sobrepor significativamente – em particular, inquietação motora, dificuldade de concentração, distração, irritabilidade/raiva, constrição ou desregulação emocional, controle deficiente de impulsos e esquecimento são comuns em ambos. Isso pode levar a que transtornos relacionados ao trauma ou o TDAH sejam equivocadamente identificados um como o outro. Além disso, eventos traumáticos na infância são fatores de risco para o TDAH; que podem levar a alterações estruturais no cérebro e ao desenvolvimento de comportamentos típicos do TDAH. Por fim, as consequências comportamentais dos sintomas do TDAH aumentam a probabilidade de o indivíduo vivenciar trauma (e, portanto, o TDAH pode resultar num diagnóstico concreto de transtorno relacionado ao trauma).
Não psiquiátricas
Algumas condições não psiquiátricas também são comorbidades do TDAH. Isso inclui a epilepsia, condição neurológica caracterizada por convulsões recorrentes. Estão bem estabelecidas as associações entre o TDAH e a obesidade, asma e transtornos do sono, além de uma associação com a doença celíaca. Crianças com TDAH apresentam risco maior de enxaqueca, porém não apresentam risco aumentado para cefaleia tensional. Também podem ocorrer dores de cabeça como efeito da medicação. Uma revisão de 2021 relatou que diversos distúrbios neurometabólicos, causados por erros inatos do metabolismo, convergem em mecanismos neuroquímicos comuns que interferem com processos biológicos centrais na fisiopatologia e tratamento do TDAH, ressaltando a importância de colaboração estreita entre os serviços de saúde para evitar sobreposição clínica. Em junho de 2021, Neuroscience & Biobehavioral Reviews publicou uma revisão sistemática de 82 estudos que confirmaram ou sugeriram maior propensão a acidentes em pacientes com TDAH, indicando que o tipo de acidente ou lesão e o risco global variam ao longo da vida desses pacientes. Em janeiro de 2014, Accident Analysis & Prevention publicou uma meta-análise de 16 estudos que examinaram o risco relativo de colisões de trânsito para motoristas com TDAH, encontrando estimativas de risco relativo de 1,36 sem controle de exposição, 1,29 controlando o viés de publicação, 1,23 com controle de exposição e 1,86 para motoristas com TDAH que apresentam transtorno negativista desafiador ou transtorno de conduta como comorbidades.
Risco de suicídio
Revisões sistemáticas de 2017 e 2020 encontraram evidências robustas de que o TDAH está associado a um aumento do risco de suicídio em todas as faixas etárias, além de indicar que um diagnóstico de TDAH na infância ou adolescência representa um fator de risco significativo para suicídio no futuro. As causas potenciais incluem a associação do TDAH com comprometimento funcional, resultados sociais, educacionais e ocupacionais negativos e dificuldades financeiras. Uma meta-análise de 2019 indicou associação significativa entre o TDAH e comportamentos do espectro suicida (tentativas, ideação, planos e suicídios consumados); a prevalência de tentativas de suicídio em indivíduos com TDAH foi de 18,9%, comparada a 9,3% em indivíduos sem TDAH, com achados replicados entre os estudos que ajustaram para outras variáveis. Contudo, a relação entre TDAH e comportamentos suicidas permanece pouco clara devido a resultados variados em estudos individuais e ao impacto dos transtornos psiquiátricos comórbidos. Não há dados claros sobre se existe uma relação direta entre o TDAH e a suicidabilidade ou se o TDAH aumenta o risco de suicídio por meio de comorbidades.
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Embora o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) compartilhem algumas características, como dificuldades na regulação da atenção e no controle de impulsos, são condições distintas com causas, manifestações e abordagens terapêuticas diferentes. Embora haja sobreposição em algumas manifestações, como dificuldade de atenção e comportamento impulsivo, a principal diferença está no núcleo dos transtornos. O TDAH afeta a regulação da atenção e a atividade motora, enquanto o autismo está mais relacionado com as dificuldades de interação social e a presença de comportamentos repetitivos ou interesses restritos. Além disso, o tratamento de cada condição tende a ser adaptado de acordo com as necessidades específicas de cada indivíduo, com intervenções que podem incluir terapia comportamental, medicamentos ou apoio educacional.
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O TDAH — seu conceito, seu diagnóstico e seu tratamento — tem sido objeto de crítica e controvérsias desde os anos 1970. As controvérsias envolvem médicos, professores, formuladores de políticas públicas, pais e a mídia. As opiniões sobre o TDAH vão desde a descrença na sua existência até a crença de que a síndrome realmente exista e que possa ter uma base genética e fisiológica. Há também discordância quanto ao uso de medicação estimulante no tratamento. Tal diagnóstico, contudo, tem sido realizado e descrito sem levar em conta as barreiras culturais e sociais que permeiam a regulação da atenção, além de desconsiderar o desenvolvimento do indivíduo e de suas funções psicológicas superiores (FPS), em sua totalidade (Caliman, 2008). Aquilo que, até a última década do século XX, era, salvo raras exceções, considerado como uma desordem passageira e infantil, agora é classificado como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), transtorno psiquiátrico que pode constituir-se em um rótulo por toda a vida (Caliman & Domitrovic, 2013).
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Brasil
A única lei federal direcionada a portadores de TDAH no Brasil é a lei nº 14.254/21, assinada por Jair Bolsonaro. Ela prevê o apoio para crianças e adolescentes diagnosticadas com TDAH nas redes públicas e privadas de ensino. Também há em tramitação o projeto de lei nº 2.630/21, do deputado Capitão Fábio Abreu (PL-PI).


