Pesquisa · Mapa mental

Athos Damasceno Ferreira

Athos Damasceno Ferreira foi um poeta, romancista, cronista, tradutor, jornalista, crítico literário e historiador brasileiro. É tido como o mais importante historiador e cronista da cidade de Porto Alegre, é o fundador da historiografia da arte no estado do Rio Grande do Sul, e deixou destacada contribuição para a historiografia estadual nos campos da cultura e sociedade, sendo um pioneiro no estudo de vários temas. Foi um defensor da reavaliação dos regionalismos e um refinado poeta e novelista, embora nesta área seja pouco lembrado.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 18/07/2026
01

Carreira

Era filho de João Armando Damasceno Ferreira e Ana Dias da Silva. Fez os primeiros estudos em colégios religiosos, depois estudou Línguas com Ildefonso Gomes e Humanidades com Henrique Emílio Meyer, e chegou a iniciar um curso de Direito no Rio de Janeiro, mas não o concluiu, voltando a Porto Alegre e tornando-se funcionário público estadual, trabalhando na Secretaria do Interior e depois na Secretaria de Educação e Cultura, onde aposentou-se chefiando a Diretoria de Letras. Desde 1917 atuou como jornalista e cronista, colaborando em revistas e jornais como Máscara, Província de São Pedro, Eco do Sul, Ilustração Rio-Grandense, Tribuna Ilustrada, Gazeta do Povo, A Federação, Diário de Notícias e Correio do Povo. Foi ainda tradutor da Editora Globo, um dos fundadores da Fundação Eduardo Guimarães, que veio a presidir, e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e da Comissão Estadual do Folclore.

02

Obra

História

Segundo Maria Beatriz Papaléo, Damasceno abordava a História numa óptica peculiar, rejeitando revestir o passado de mitologias e enfocando os aspectos populares e mesmo humorísticos, criando um retrato original da cidade que recuperava informações pouco valorizadas por outros historiadores, sendo, em suas palavras, um "artífice minucioso do cotidiano” que deixou um "inventário popular da cidade”. Isso no entanto não rebaixa o interesse de suas pesquisas, cuja seriedade e competência é amplamente reconhecida, ao contrário, acrescenta riqueza humana ao corpo historiográfico. Disse Joana Figueiredo que "como intelectual à frente do seu tempo, o autor já sabia que nem toda a história se faz de mito e de grandeza, mas de pontos e linhas, nós e botões — com algumas miçangas e turbantes para dar cor e alegria".

Regionalismo

Parte de seu trabalho como historiador esteve ligado à temática do gaúcho, um dos personagens formadores da cultura estadual e um tópico de grande interesse para os intelectuais de sua geração. Foi um articulador dos conceitos relativos ao regionalismo, tornando-se célebre a polêmica que travou com o tradicionalista Vargas Netto sobre este tema. Na época de sua atividade a oficialidade do Rio Grande do Sul buscava criar uma nova identidade cultural e política para o estado e seu povo, num tempo em que a cultura se internacionalizava e as antigas raízes culturais se dissolviam. Damasceno tomou parte ativa neste processo, analisando quais eram as rupturas com o passado e quais as continuidades, e como elas deveriam ser interpretadas e ressignificadas, considerando que a modernidade deveria ser incluída necessariamente na nova identidade que se buscava consolidar. Ele não negava o passado, de fato, o valorizava, mas exigia uma interpretação imparcial das fontes antigas, sem glamurizá-las, e condenava aqueles que tentavam ressuscitar acriticamente antigos modos de ser e ver o mundo passando ao largo das mudanças sociais que os tempos haviam trazido, os chamados saudosistas, que resumiam todo o povo rio-grandense na figura do gaúcho, então erigido como a imagem ideal do homem valente, livre e aguerrido, e centravam a herança cultural do estado no passado campeiro e militar e na contribuição lusa. É ilustrativo de sua posição um trecho de um dos artigos que alimentaram a polêmica com Vargas Netto:

Literatura

No início sua obra poética foi influenciada pelo Simbolismo de poetas como Mallarmé, Rodenbach e Verlaine e músicos como Debussy, deixando duas notáveis coleções de peças neste estilo. A primeira, Poemas do Sonho e da Desesperança (1925), é dedicada à sua esposa, Clara, e centrada na temática de um amor místico e espiritual, tingido pela melancolia, pelo sentimento de saudade e pelo desejo de evasão da realidade, que eram compensados pela esperança e pela piedade. A segunda, Poemas de Minha Cidade (1936), é um dos pontos culminantes do Simbolismo em terras gaúchas, criando as mesmas atmosferas enevoadas, crepusculares e subjetivas da outra obra, mas também adicionando toques de ironia e humor, e revelando, como afirma Cristiano Fretta, "um artista cônscio da universalidade da literatura mas extremamente atrelado ao meio (provinciano) em que se encontrava", "o que significa dizer que os artistas da época tinham nítida consciência do que era a cidade de então". Neste ínterim já havia feito experiências com o Modernismo na coleção Lua de Vidro (1930), que da mesma forma permanece como uma das principais contribuições gaúchas a esta escola.

03

Legado

Sua contribuição historiográfica ainda é uma referência obrigatória, e sua destacada posição como fundador da história da arte gaúcha e um dos principais historiadores de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul continua indisputada. Como disse Celso Luft, sua produção neste campo é preciosa, sendo autor culto, de grande capacidade analítica e interpretativa, que manejando uma prosa tersa e fluente deixou livros ao mesmo tempo instrutivos e agradáveis à leitura. Por outro lado, sua produção poética e literária, "amplamente difundida e admirada", que lhe deu renome nacional enquanto viveu e fez Carlos Reverbel chamá-lo de poeta "de primeira água", está agora bastante esquecida. Segundo Luís Augusto Fischer, ele foi "um dos grandes escritores sul-riograndenses ofuscados pela notável qualidade literária de Erico Verissimo". Sua obra completa e 28 pastas de material de pesquisa e correspondência estão depositadas no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Armando Albuquerque musicou várias de suas poesias. Em 1975 foi escolhido como o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, cidade que o homenageou batizando uma praça com seu nome.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando