Fração do Exército Vermelho
Fração do Exército Vermelho ou RAF, alemão: [ɛʁʔaːˈʔɛf] ), também conhecida como Grupo Baader-Meinhof, ) foi uma organização guerrilheira alemã de extrema-esquerda, fundada em 1970, na antiga Alemanha Ocidental, e dissolvida em 1998. Um dos mais proeminentes grupos extremistas da Europa pós-Segunda Guerra Mundial, seus integrantes se autodescreviam como um movimento de guerrilha urbana comunista e anti-imperialista, engajado numa luta armada contra o que definiam como um "Estado fascista".
Origens
As raízes da RAF podem ser encontradas no movimento estudantil alemão dos anos 1960. Nações industrializadas do fim da década experimentavam o aparecimento de movimentos culturais ortodoxos, produto do amadurecimento da geração dos baby boomers - as crianças nascidas depois do fim da II Guerra Mundial - da Guerra Fria e do fim do colonialismo. Novas subculturas como as comunas e assuntos como racismo, movimentos feministas e anti-imperialismo, estavam na linha de frente das preocupações das políticas de esquerda. Muitos jovens viviam alienados de suas famílias e descrentes das instituições do Estado. Inicialmente centrados na crítica à instituição universitária, os estudantes alemães da época viraram suas atenções para eventos internacionais, como a Guerra do Vietnã, a pobreza no Terceiro Mundo e a questão da energia nuclear. Eles criticavam igualmente aquilo que lhes parecia ser a relutância da sociedade alemã em confrontar-se com seu passado nazista. Para alguns, o Estado que vigorava na República Federal da Alemanha era uma continuação do antigo Reich. O legado histórico do nazismo havia criado uma fenda entre as gerações e aumentado a suspeita de estruturas autoritárias na sociedade. Na juventude esquerdista alemã, havia raiva com as falhas no processo de desnazificação da Alemanha no pós-guerra, visto como ineficiente. O Partido Comunista alemão havia sido posto fora da lei desde 1956. Cargos eletivos e não-eletivos da administração pública, dos mais altos a nível nacional até pequenos cargos municipais, eram frequentemente ocupados por ex-nazistas. Até o primeiro chanceler da então Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, tinha um antigo nazista em seu gabinete. A mídia conservadora era vista por eles como tendenciosa, controlada por empresários como Axel Springer - dono do tablóide sensacionalista Bild-Zeitung e do jornal Die Welt, entre os de maior circulação na Europa - um implacável oponente do radicalismo estudantil.
A RAF
Os quatro incendiários foram condenados a três anos de prisão por incêndio provocado e por colocarem a vida humana em perigo. Entretanto, em junho de 1969, eles receberam uma condicional temporária, revogada em novembro de mesmo ano, quando foram intimados a reapresentarem-se para cumprir o resto da pena. Dos quatro, apenas Horst Söhnlein acatou a ordem do Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, enquanto Baader, Ensslin e Thorwald Proll fugiram para Paris, onde durante algum tempo, com a ajuda da irmã de Thorwald, Astrid Poll, se refugiaram num apartamento de propriedade do jornalista e revolucionário Régis Debray famoso por sua amizade com Che Guevara e por seus trabalhos teóricos sobre a criação de focos de guerrilha urbana. Dali, eles mudaram-se para a Itália onde foram visitados por Horst Mahler, seu advogado no caso dos incêndios, que os encorajou a voltarem juntos para a Alemanha e fundarem um grupo guerrilheiro, nos mesmo moldes dos Tupamaros no Uruguai.
Período 1970-1972
Depois da fuga e antes das ações armadas que empreenderiam, Baader, Meinhof e Ennslin foram para a Jordânia através da Alemanha Oriental, acompanhados de outros militantes, onde participaram de treinamento de guerrilha num campo da Frente Popular para a Libertação da Palestina, comandados por Ali Hassan Salameh, criador do grupo terrorista palestino Setembro Negro, durante o verão europeu de 1970. De regresso à Alemanha, eles planejaram e realizaram assaltos conjuntos a três bancos na mesma hora para arrecadar dinheiro e armas. Também foram realizados ataques à bomba contra instalações militares dos Estados Unidos, postos policiais e edifícios do império jornalístico de Axel Springer, além da tentativa de assassinato de um juiz. Novos recrutas uniram-se à organização: Jan-Carl Raspe, Marianne Herzog e 'Ali' Jansen. Num período de dois anos, o Baader-Meinhof assaltou bancos, roubou carros, falsificou documentos, colocou bombas no centro de Inteligência Militar do Exército dos Estados Unidos em Frankfurt am Main, em instalações militares em Heidelberg e em centrais de polícia em Augsburg e Munique.
Período 1972-1976
Em princípio aprisionados em locais diferentes da Alemanha, quase todos em celas de isolamento total como Ulrike Meinhof, que passou oito meses sem contato com ninguém do mundo exterior na prisão de Ossendorf, em Colônia, a partir de 1974 os principais líderes do grupo foram todos encarcerados na mesma prisão, o presídio de segurança máxima de Stammheim, em Stuttgart. Nesta prisão fora construída especialmente uma ala para abrigar os membros do grupo Baader-Meinhof, ligada a um anexo onde também foram construídas as instalações de um tribunal, ao custo de milhões de marcos, de maneira que eles não precisassem ser removidos do presídio durante as audiências de seu julgamento. Para protestar contra as condições da prisão e o confinamento em isolamento a que foram submetidos - que chegou a provocar protestos da Anistia Internacional contra o governo alemão - antes e depois de Stammheim os presos fizeram várias greves de fome, sendo eventualmente alimentados à força - amarrados a mesas e com tubos enfiados na garganta - e, numa delas, Holger Meins morreu, pesando menos de 40 quilos, em 9 de novembro de 1974, em sua cela na prisão de Wittlich. Os protestos públicos resultantes disso levaram as autoridades a afrouxarem as condições em Stammheim, permitindo um maior contato entre os presos. Pouco depois de sua morte, por insistência de Meinhof, o governo permite que o filósofo francês Jean-Paul Sartre visite e entreviste Andreas Baader na prisão. O motorista e intérprete de Sartre é Hans Joachim Klein, que em dezembro de 1975 tomará parte no sequestro dos ministros da OPEP, em Viena, integrando o grupo guerrilheiro de Carlos, o Chacal. No dia 28 de novembro, Ulrike Meinhof é sentenciada a oito anos de prisão por sua participação na libertação de Baader, em maio de 1970, e em janeiro do ano seguinte o Legislativo promulga leis de exceção, as "Leis Baader-Meinhof", entre elas a que permite que os juízes impeçam que advogados que tenham qualquer ligação com a organização possam atuar na defesa de seus integrantes, e as que permitem que os julgamentos continuem independentemente da ausência no tribunal de qualquer deles.
Outono Alemão
Após a morte de Meinhof, algumas das integrantes do Baader-Meinhof foram transferidas para a prisão de Stammheim, entre elas Brigitte Mohnhaupt e Irmgard Möller. Monhaupt, presa desde junho de 1972, é libertada em fevereiro de 1977, após cumprir quase cinco anos da sentença por porte ilegal de armas, falsificação de documentos e associação criminosa. Treinada por Baader e Ensslin para assumir a liderança da RAF em liberdade, depois da prisão de Siegfried Haag em fins de 1976, ela imediatamente volta à clandestinidade, e passa a comandar a segunda geração de militantes, com o objetivo de realizar ações para libertar seus companheiros. As ações deste grupo, principalmente durante a segunda metade de 1977, ficariam conhecidas na história da Alemanha Ocidental como Outono Alemão, quando sequestros e assassinatos em série levaram a uma crise sem precedentes no país.
A terceira geração
Ainda em liberdade após as mortes de Stammheim, Brigitte Mohnhaupt, Sieglinde Hofmann, Rolf Clemens Wagner e Peter-Jürgen Boock, todos envolvidos nas mortes de Ponto e Schleyer, fogem para a Iugoslávia e são presos em Zagreb, em maio de 1978. Com o governo alemão se nega a trocá-los por fugitivos croatas asilados no país com o governo de Tito, são novamente postos em liberdade e desaparecem. Em junho de 1979, Clemens lidera a tentativa de assassinato do general norte-americano Alexander Haig, ex-Chefe de Gabinete da Casa Branca no segundo mandato de Richard Nixon e então comandante da OTAN. Em agosto de 1981, um carro-bomba colocado pela RAF explode no estacionamento da Base Aérea de Ramstein, na Renânia-Palatinado e em setembro, outros militantes, denominando-se Comando Gudrun Ensslin e liderados por Christian Klar e Mohnhaupt, se envolvem na tentativa de assassinato de outro general, Frederick Kroesen, comandante das forças norte-americanas na Alemanha, ferido num atentado contra sua limusine blindada por um foguete antitanque nas ruas de Heidelberga, em Bade-Vurtemberga.


