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Mikhail Bakhtin

Mikhail Mikháilovitch Bakhtin foi um filósofo da linguagem, historiador e teórico da literatura e da cultura russo. Seus escritos inspiraram trabalhos de estudiosos de diferentes tradições e em disciplinas diversas como crítica literária, história, filosofia, antropologia e psicologia. É conhecido por ter desenvolvido o conceito de dialogismo, que, segundo o autor, é uma propriedade constitutiva da linguagem humana. Bakhtin é também autor de diversas obras sobre aspectos mais gerais da teoria literária, como o estilo e os gêneros do discurso.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 11/07/2026
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Biografia

Imagem: Mister Higgs · BY-NC-SA · Openverse

Nascido em Oriol, localidade a sul de Moscovo, de família aristocrática em decadência, cresceu entre Vilnius e Odessa, cidades fronteiriças com grande variedade de línguas e culturas. Mais tarde, estudou Filosofia e Letras na Universidade de São Petersburgo, abordando em profundidade a filosofia alemã. Viveu em Leningrado após a vitória da Revolução de 1917. Entre 1924 e 1929, conheceu os principais expoentes do Formalismo russo e publicou Freudismo (1927), O método formal nos estudos literários (1928). Marxismo e filosofia da linguagem (1929), antes considerada como sua obra mais importante, é atualmente atribuída a seu amigo e discípulo Valentin Volóchinov e só a partir dos anos 1970 teria difusão e reconhecimento significativos. Em 1929, Bakhtin foi obrigado ao exílio interno no Cazaquistão, onde permaneceria até 1936, acusado de atividades ilegais ligadas à Igreja Ortodoxa - o que nunca veio a ser demonstrado. Pouco tempo depois, durante a purga de 1937, ver-se-ia forçado a novo exílio, dessa vez em Saransk, capital da Mordóvia.

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Marxismo e filosofia da linguagem

Bakhtin compôs seus principais estudos sobre a linguagem entre os anos 1920 e 1930, em contraposição a duas correntes dominantes no pensamento filosófico-linguístico da época: o subjetivismo idealista (Humboldt e Vossler) e o objetivismo abstrato (Ferdinand de Saussure). Os diversos integrantes do chamado Círculo de Bakhtin contribuíram para a sistematização do pensamento bakhtiniano. Em Marxismo e Filosofia da Linguagem, por exemplo - obra atualmente atribuída a Volóchinov -, são tecidas críticas a essas duas correntes dominantes, com argumentos em favor de uma abordagem marxista da linguagem, ou seja, de uma aplicação do método sociológico à linguística.[nota 1] O objetivo de Marxismo e filosofia da linguagem é dotar a teoria marxista de uma formulação coerente em relação à ideologia e à psicologia, superando em simultâneo o objetivismo abstrato ou positivista e o subjetivismo idealista. Para tal, desvela-se, no signo linguístico, um signo social e ideológico que põe em relação a consciência individual e a interação social. O pensamento individual não cria ideologia; é a ideologia que cria o pensamento individual. E "uma das tarefas mais essenciais e urgentes do marxismo é constituir uma psicologia verdadeiramente objetiva. No entanto, seus fundamentos não devem ser nem fisiológicos nem biológicos, mas sociológicos".

A questão da autoria da obra

Algumas das obras que levam os nomes de dois amigos íntimos de Bakhtin - Volóchinov e Pavel Medvedev - foram atribuídas a Bakhtin - particularmente Marxismo e Filosofia da Linguagem e O Método Formal na Pesquisa Literária. Essas atribuições tiveram origem no início da década de 1970 e foram referidas na biografia de Bakhtin, escrita por Clark e Holquist, em 1984. Nos anos que se seguiram, entretanto, a maioria dos acadêmicos passou a concordar que Volóchinov e Medvedev devem ser considerados os verdadeiros autores dessas obras, embora Bakhtin os tenha indubitavelmente influenciado e possa até mesmo ter participado da composição das obras. Bakhtin teve uma vida e uma carreira difíceis, e poucas de suas obras foram publicadas de forma autorizada durante sua vida. Como resultado, há discordâncias significativas sobre questões que normalmente seriam consideradas como resolvidas: em que disciplina ele trabalhou (era filósofo ou crítico literário?), como periodizar seu trabalho e até mesmo quais textos ele escreveu. Bakhtin é conhecido por uma série de conceitos que foram usados e adaptados em várias disciplinas: dialogismo, carnavalização, cronótopo, heteroglossia e "exotopia" ou outsidedness (tradução, em inglês, do termo russo vnenakhodimost). Todos esses conceitos delineiam uma filosofia da linguagem e da cultura que tem em seu centro a afirmação de que todo discurso é, em essência, uma troca dialógica e que isso confere a toda linguagem uma força ética ou ético-política específica.

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Teoria literária

Imagem: Mister Higgs · BY-NC-SA · Openverse

Conceitos fundamentais associados à obra de Bakhtin incluem o dialogismo, a Polifonia (literatura), a heteroglossia e o carnavalesco. Todos eles se afirmam na sua teoria literária, formulada principalmente na sua tese de doutoramento: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1941), em que rechaça a norma unívoca e a rigidez dos padrões e estilos. Reivindica a ambivalência, o discurso carnavalesco, amplo, polifónico e dialógico. Opõe-se à unidirecionalidade da retórica clássica e reivindica uma interpretação participativa, integradora, social, diversa e múltipla na construção da obra literária. Interessante também é a sua concepção de tempo da obra literária, desenvolvida principalmente em seu artigo "A ciência da literatura hoje (resposta a uma pergunta da revista Novyi Mir)", publicado originalmente em 1970. Nele, Bakhtin propõe duas tarefas para os estudos da literatura: o estabelecimento do vínculo com a história da cultura e o não fechamento do fenômeno literário com a sua época de criação. Quanto à primeira, o autor afirma que "a literatura é parte inseparável da cultura, não pode ser entendida fora do contexto pleno de toda a cultura de uma época." Critica a ligação estreita dos estudos literários com fatores socioeconômicos, deixando a cultura de lado, quando, de fato, esses fatores agiriam sobre a cultura e essa, então, influenciaria a literatura. "Sob semelhante enfoque [isolamento da obra em relação à cultura] é impossível penetrar nas profundezas das grandes obras, e a própria literatura começa a parecer algo pequeno e assunto desprovido de seriedade." Quanto à segunda, diz Bakhtin: "Por hábito, procuramos explicar um escritor e suas obras precisamente a partir de sua atualidade e do passado imediato". Isso significa analisar a obra a partir do pequeno tempo, o tempo da escrita, o que impossibilita o aprofundamento dos sentidos da obra no futuro: "As obras dissolvem as fronteiras da sua época, vivem nos séculos, isto é, no grande tempo, e além disso levam frequentemente (as grandes obras, sempre) uma vida mais intensa e plena do que em sua atualidade." Para Bakhtin, portanto, uma obra literária não acontece inteiramente no presente, no tempo de sua criação. Suas raízes estão no passado - ao qual a obra pode ser uma resposta - mas ela também se completa ao projetar no devir dos séculos vindouros, no grande tempo, suscitando outras respostas, ao adquirir novos sentidos.

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