Revolta dos camponeses na Inglaterra em 1381
A revolta camponesa de 1381, também chamada revolta de Wat Tyler ou o Grande Levante, foi uma grande revolta em grande parte da Inglaterra em 1381. O evento teve várias causas, incluindo tensões socioeconômicas e políticas geradas pela Peste Negra na década de 1340, os altos impostos resultantes do conflito com a França durante a Guerra dos Cem Anos e a instabilidade na liderança local de Londres. O estopim da revolta foi a intervenção de um oficial real, John Brampton, em Essex, em 30 de maio. Suas tentativas de cobrar o imposto por cabeça não pago em Brentwood terminaram em um confronto violento, que se espalhou rapidamente pelo sudeste do país. Um amplo espectro da sociedade rural, incluindo muitos artesãos locais e oficiais de aldeia, levantou-se em protesto, queimando registros judiciais e abrindo as prisões locais. Os rebeldes exigiram redução na tributação, o fim no sistema de trabalho não livre da servidão e a remoção dos altos funcionários e cortes do rei.
Economia
A revolta dos camponeses foi alimentada pela agitação econômica e social do século XIV. Nessa época, a maioria dos ingleses trabalhava na economia rural que alimentava as vilas e cidades do país e apoiava um extenso comércio internacional. Em grande parte da Inglaterra, a produção era organizada em torno de feudos, controlados por senhores locais – incluindo a nobreza e a Igreja – e governada através de um sistema de cortes senhoriais. Parte da população era de servos sem liberdade, que trabalhavam nas terras de seus senhores por um período a cada ano, embora o equilíbrio entre livres e não livres variasse em toda a Inglaterra, e no sudeste houvesse relativamente poucos servos. Alguns servos nasceram sem liberdade e não podiam deixar seus feudos para trabalhar em outro lugar sem o consentimento do senhor local; outros aceitavam limitações à sua liberdade como parte do contrato de posse de suas terras agrícolas. O crescimento da população levou a pressão sobre as terras agrícolas disponíveis, aumentando o poder dos proprietários locais.
Guerra e finanças
Outro fator na revolta dos camponeses foi a condução da guerra com a França. Em 1337, Eduardo III de Inglaterra havia pressionado suas reivindicações ao trono francês, iniciando um conflito de longa duração que ficou conhecido como Guerra dos Cem Anos. Eduardo teve sucesso inicial, mas suas campanhas não foram decisivas. Carlos V de França tornou-se mais ativo no conflito depois de 1369, aproveitando a maior força econômica de seu país para iniciar ataques através do canal contra o inimigo. Na década de 1370, os exércitos da Inglaterra no continente estavam sob enorme pressão militar e financeira; as guarnições de Calais e Brest, por exemplo, estavam custando 36 mil libras por ano para manutenção, enquanto expedições militares poderiam consumir 50 mil libras em apenas seis meses.[nota 1] O rei inglês morreu em 1377, deixando o trono para seu neto, Ricardo II, então com apenas dez anos.
Protesto e autoridade
As décadas que antecederam 1381 foram um período rebelde e conturbado. Londres era um foco particular de inquietação, e as atividades das guildas e fraternidades politicamente ativas da cidade muitas vezes alarmaram as autoridades. Os habitantes se ressentiam da expansão do sistema jurídico real na capital, em particular o aumento do papel da Corte Marshalsea em Southwark, que tinha começado a competir com as autoridades da cidade pelo poder judicial em Londres.[nota 3] A população da cidade também se ressentia da presença de estrangeiros, em especial os tecelões flamengos. Os londrinos detestavam João de Gante porque ele era um defensor do reformador religioso John Wycliffe, que o público da capital considerava um herege. Gante também estava envolvido em uma briga com a elite de Londres e havia rumores de que planejava substituir o prefeito eleito por um capitão, nomeado pela Coroa. A própria elite de Londres travava uma batalha viciosa e interna pelo poder político. Como resultado, em 1381 as classes dominantes da capital eram instáveis e divididas.
Eclosão da revolta
A revolta de 1381 eclodiu em Essex, após a chegada de John Brampton para investigar o não pagamento da capitação em 30 de maio. Brampton era membro do Parlamento, um Juiz da Paz e um cidadão conectado com os círculos reais. Estabeleceu-se em Brentwood e convocou representantes das aldeias vizinhas de Corringham, Fobbing e Stanford-le-Hope para explicar e corrigir os déficits em 1º de junho. Os aldeões parecem ter chegado bem organizados e armados com velhos arcos e paus. Ele primeiro interrogou o povo de Fobbing, cujo representante, Thomas Baker, declarou que sua aldeia já havia pago seus impostos e que não haveria mais dinheiro disponível. Quando o Juiz e dois sargentos tentaram prender Baker, a violência eclodiu. Brampton escapou e retirou-se para Londres, mas três de seus funcionários e vários cidadãos de Brentwood que concordaram em atuar como jurados foram mortos. Robert Bealknap [en], Chefe de Justiça da Corte de Apelações Comuns, que provavelmente já estava mantendo uma corte na área, foi encarregado de prender e lidar com os autores.
Eventos em Londres
Os rebeldes começaram a atravessar de Southwark para a Ponte de Londres na tarde de 13 de junho. As defesas na Ponte de Londres foram abertas por dentro, em simpatia pela causa ou por medo, e os insurretos avançaram para a cidade.[nota 8] Ao mesmo tempo, a força de Essex seguiu em direção a Aldgate [en], no lado norte da cidade. Os rebeldes seguiram para o oeste pelo centro da cidade, e Aldgate foi aberta para deixar o resto deles entrar. A multidão de Kent tinha reunido uma ampla lista de pessoas que queriam que o rei entregasse para execução. Ela incluía figuras nacionais, como João de Gante, os arcebispos Sudbury e Hales; outros membros importantes do conselho real; funcionários, como Belknap e Brampton, que haviam intervindo em Kent; e outros membros odiados do amplo círculo real. Quando chegaram à Prisão de Marshalsea em Southwark, eles a destruíram. A essa altura, aos rebeldes de Kent e Essex haviam se juntado muitos rebeldes da capital. As prisões de Fleet e Newgate foram atacadas pelas multidões, e os insurretos também investiram contra casas de imigrantes flamengos.
Expansão da revolta
Enquanto a revolta se desenrolava em Londres, John Wrawe liderava sua força em Suffolk. Ele teve uma influência considerável no desenvolvimento da revolta em todo o leste da Inglaterra, onde pode ter havido quase tantos rebeldes quanto no levante de Londres. As autoridades ofereceram muito pouca resistência à revolta: os principais nobres não conseguiram organizar as defesas, as principais fortificações caíram facilmente para os rebeldes e as milícias locais não foram mobilizadas. Como em Londres e no sudeste, isso se devia em parte à ausência de líderes militares importantes e à natureza da lei inglesa, mas qualquer homem recrutado localmente também pode ter se mostrado pouco confiável em face de um levante popular.
Supressão
A supressão real da revolta começou logo após a morte de Wat Tyler em 15 de junho. Sir Robert Knolles, Sir Nicholas Brembre e Sir Robert Launde foram nomeados para restaurar o controle da capital. Uma convocação foi feita para soldados, provavelmente cerca de 4 mil homens compareceram em Londres, e logo ocorreram expedições para outras partes problemáticas do país. A revolta na Ânglia Oriental foi suprimida independentemente por Henrique Despenser, o bispo de Norwich [en]. Henrique estava em Stamford, Lincolnshire, quando a revolta estourou e, quando soube disso, marchou para o sul com oito homens de armas e uma pequena força de arqueiros, reunindo mais forças à medida que avançava. Ele marchou primeiro para Peterborough, onde derrotou os rebeldes locais e executou todos os que conseguiu capturar, incluindo alguns que se abrigaram na abadia local. Ele então se dirigiu ao sudeste via Huntingdon e Ely, alcançou Cambridge em 19 de junho e, em seguida, dirigiu-se para as áreas controladas pelos rebeldes de Norfolk. Henrique recuperou Norwich em 24 de junho, antes de sair com uma companhia de homens para rastrear o líder rebelde, Geoffrey Litster. As duas forças se encontraram na Batalha de North Walsham em 25 ou 26 de junho; as forças do bispo triunfaram e Litster foi capturado e executado. A ação rápida de Henrique foi essencial para a supressão da revolta na Ânglia Oriental, mas era muito incomum se resolver o problema com as próprias mãos dessa maneira, e a execução dos rebeldes sem sanção real era ilegal.
Consequências
O governo real e o Parlamento começaram a restabelecer os processos normais de governança após a revolta; como descreveu o historiador Michael Postan, a revolta foi, em muitos aspectos, um "episódio passageiro". Em 30 de junho, o rei ordenou aos servos da Inglaterra que retornassem às condições anteriores de serviço e, em 2 de julho, as cartas reais assinadas sob coação durante o levante foram formalmente revogadas. O Parlamento reuniu-se em novembro para discutir os acontecimentos do ano e a melhor forma de responder aos seus desafios. A insurreição foi atribuída à má conduta de funcionários reais, que, argumentou-se, haviam sido excessivamente gananciosos e autoritários. A Câmara dos Comuns apoiou as leis trabalhistas existentes, mas solicitou mudanças no conselho real, o que Ricardo concedeu. O rei também concedeu perdão geral àqueles que executaram rebeldes sem o devido processo, a todos os homens que permaneceram leais e a todos aqueles que se rebelaram – com exceção dos homens de Bury St Edmunds, todos os que estiveram envolvidos na morte dos conselheiros do rei e aqueles que ainda estavam fugindo da prisão.
Os cronistas descreveram os rebeldes principalmente como servos rurais, usando termos latinos variados e depreciativos, como serviles rustici, servile genus e rusticitas. Alguns cronistas, incluindo Knighton, também notaram a presença de aprendizes, artesãos e outros fugitivos, às vezes denominando-os de "comuns menores". As evidências dos registros da corte após a revolta, embora enviesadas de várias maneiras, mostram de forma semelhante o envolvimento de uma comunidade muito mais ampla, e a percepção anterior de que os rebeldes eram constituídos apenas de servos não livres agora é rejeitada.[nota 15] Os rebeldes rurais vieram de uma ampla variedade de origens, mas normalmente eram, como o historiador Christopher Dyer descreve, "pessoas bem abaixo das fileiras da pequena nobreza, mas que possuíam principalmente algumas terras e bens", e não os mais pobres da sociedade, que formavam uma minoria do movimento insurreto. Muitos ocuparam cargos de autoridade na governança da aldeia local e parecem ter liderado a revolta. Alguns eram artesãos, incluindo, como lista o historiador Rodney Hilton, "carpinteiros, serradores, pedreiros, sapateiros, alfaiates, tecelões, amassadores de roupas, luveiros, camiseiros, peleiros, padeiros, açougueiros, estalajadeiros, cozinheiros e um caieiro". Eles eram predominantemente homens, mas com algumas mulheres em suas fileiras. Os revoltosos eram geralmente analfabetos; apenas entre 5 e 15% da Inglaterra sabiam ler durante esse período. Também vieram de uma ampla gama de comunidades locais, incluindo pelo menos 330 aldeias do sudeste.
Historiografia
Os cronistas contemporâneos da revolta formaram uma fonte importante para os historiadores. Eles eram tendenciosos contra a causa rebelde e tipicamente retratavam os insurretos, nas palavras da historiadora Susan Crane, "como bestas, monstruosidades ou tolos desorientados". Os cronistas de Londres também não estavam dispostos a admitir o papel dos londrinos comuns na revolta, preferindo colocar a culpa inteiramente nos camponeses do sudeste. Entre os principais relatos estava o anônimo Anonimalle Chronicle, cujo autor parece ter feito parte da corte real e uma testemunha ocular de muitos dos eventos na capital. O cronista Thomas Walsingham [en] esteve presente em grande parte da revolta, mas concentrou seu relato no terror da agitação social e foi extremamente tendencioso contra os amotinados. Os eventos foram registrados na França por Jean Froissart, o autor das Crônicas. Ele tinha fontes bem colocadas perto da revolta, mas estava inclinado a elaborar os fatos conhecidos com histórias coloridas. Nenhum relato simpático aos rebeldes sobreviveu.
Cultura popular
A revolta dos camponeses tornou-se um assunto literário popular. O poeta John Gower, que tinha laços estreitos com funcionários envolvidos na repressão da revolta, alterou seu famoso poema Vox Clamantis após o ocorrido, inserindo uma seção condenando os rebeldes e comparando-os a animais selvagens. Geoffrey Chaucer, que viveu em Aldgate e pode ter estado em Londres durante a insurreição, usou o assassinato rebelde de flamengos como metáfora para uma desordem mais ampla no conto O Padre que Acompanhava a Freira [en], de Os Contos de Cantuária, parodiando o poema de Gower. Por outro lado, Chaucer não fez referência à revolta em sua obra, possivelmente porque, como era cliente do rei, seria politicamente imprudente discuti-la. William Langland, autor do poema Piers Plowman, amplamente utilizado pelos rebeldes, fez várias alterações em seu texto após a revolta para se distanciar de sua causa.


