Batalha de Balaclava
A Batalha de Balaclava foi uma batalha da Guerra da Crimeia, travada entre o Império Russo e a coligação anglo-franco-otomana, à qual se juntaria, depois da batalha, o Reino da Sardenha. Foi travada em 25 de outubro de 1854, em Balaclava, na margem do Mar Negro e foi o segundo maior confronto durante este conflito (1854-1856). O seu resultado tem sido visto ou como uma vitória pírrica dos aliados ou como um empate não decisivo no decurso da guerra.
A Rússia de Catarina, a Grande (1729-1796) tinha sido geralmente pró-britânica. O seu sucessor, Paulo I (1796-1801) tendia politicamente para Bonaparte, mas não viveu muito para impor essa marca na política externa do Império. O seu filho, Alexandre I da Rússia (1801-1825) fez realinhar com brevidade a Rússia com os britânicos e este alinhamento manteve-se até ao fim das Guerras Napoleônicas. A frustrada invasão da Rússia pelas tropas de Napoleão Bonaparte em 1812 resultou numa maior preponderância dos Romanov na cena internacional. Após a morte de Alexandre I em 1825, o novo czar, o seu irmão Nicolau I (1825-1855), revelou-se um tirano, obcecado com a expansão territorial. Esta mudança conduziria a dois novos pontos de atrito na fronteira sul da Rússia, que eram a tentativa de tomar a península da Crimeia ao Império Otomano e a tentativa de desestabilizar os britânicos na Índia. Este conjunto de movimentações ficou conhecido como o "Grande Jogo" pelos britânicos e como "Torneio das Sombras" entre os russos. Seguiu-se um período de pequenos confrontos e guerras locais, que iria ter o seu auge na Primeira Guerra do Afeganistão (1839-1842). A "Fronteira Noroeste" (as terras entre o Afeganistão e o Paquistão de hoje) do Império Britânico continuariam sendo um problema por mais um século do "Grande Jogo".
A caminho de Sebastopol
As frotas britânicas e francesas partiram do porto búlgaro de Varna em 5 de setembro de 1854, em direção à Baía Kalamita, na Crimeia. No dia 14 desse mês as tropas começaram o desembarque. Em quatro dias as forças aliadas tinham reunido 61 400 homens de infantaria, 1,2 mil na cavalaria e 137 armas pesadas. A cerca de 53 km a sul da zona do desembarque, para lá dos rios Bulganak, Alma, Katcha e Belbek, ficava a base naval russa e fortaleza militar de Sebastopol, o objetivo principal dos aliados na Crimeia. O general Menshikov, ciente da presença aliada, preparou as suas tropas nas margens do rio Alma, num esforço para deter o avanço anglo-francês, mas em 20 de setembro foi severamente derrotado na Batalha de Alma, a primeira grande batalha na península da Crimeia. As notícias da derrota russa foram encaradas com incredulidade pelo czar Nicolau I em São Petersburgo - pareceria que era apenas uma questão de tempo até que Sebastopol caísse. Mas a hesitação aliada, primeiro do comandante em chefe francês, Canrobert (que tinha sucedido ao recentemente falecido por cólera Marechal Saint-Arnaud), e depois de Lord Raglan, permitiu aos desmoralizados russos escapar do campo de batalha em relativa ordem e a Menshikov e seu exército atingirem Sebastopol, reorganizarem-se e recuperar o moral. "É terrível pensar no que poderia ter acontecido", escreveu o vice-almirante Vladimir Kornilov, "se não tivesse acontecido este erro do inimigo".
Deslocação dos aliados
Balaclava era muito pequena para ser usada por ambos os exércitos aliados em simultâneo. Por direito seriam os franceses que deveriam ocupá-la, enquanto os britânicos se moveriam para oeste, para os portos de Kazatch e Kamiesh. Canrobert ofereceu aos britânicos a hipótese de escolha, mas, mal aconselhado pelo almirante Lyons, Lord Raglan escolheu Balaclava para a sua base, sem se aperceber que as outras duas baías ofereciam melhores condições como portos de reabastecimento. Mais ainda, Raglan comprometeu o Exército Britânico a defender o flanco direito da operação aliada, garantindo a segurança de ambos os exércitos contra a ameaça colocada pelas forças de Menshikov a leste. A decisão de Raglan foi um grave erro, e um pelo qual o Exército Britânico pagaria um alto preço.
O plano russo
À medida que as armas do cerco aliado bombardeavam Sebastopol, as reservas russas estavam a caminho da Crimeia. Na frente desses reforços estava a 12.ª Divisão de Infantaria - parte do 4.º Corpo russo - sob as ordens do general Pavel Liprandi. Esta divisão, que consistia nos regimentos Azovsky, Dniepre, Ucrânia e Odessa, juntamente com quatro baterias de artilharia, tinha chegado da Bessarábia. Quando a divisão chegou à Crimeia, Menshikov tinha decidido usá-la para atacar a retaguarda dos aliados a partid de Chorgun, e marchar para Balaclava. A vulnerabilidade de Balaclava era bem conhecida por ambos os lados. Fazer o cerco em torno de Sebastopol, mantendo a segurança em simultâneo no flanco oriental dos aliados, fez com que os recursos de Raglan não pudessem responder a tudo. As vítimas britânicas na batalha de Alma haviam sido muitas, e muitos estavam ainda a sofrer com a epidemia de cólera, e outros simplesmente adoeciam de exaustão. Com a chegada de mais reforços russos, Menshikov passaria a dispor de um força no teatro de operações (incluindo a 12.ª Divisão) com cerca de 65 000 homens. O resto do 4.º Corpo - Divisões 10 e 11 - também foi a caminho da Crimeia, mas Menshikov, sob pressão de Nicolau I, decidiu não esperar por essas tropas antes do início do ataque.
A batalha ocorreu enquanto ingleses e franceses realizavam o cerco a Sebastopol. Preocupado com a potencial vulnerabilidade do abastecimento da base em Balaclava, Lord Raglan marchou para Sapoune em 18 de setembro, mas não via nenhum perigo imediato, apesar dos relatos de movimentação russa nas margens do Rio Tchernaya. No entanto, sob o comando do Príncipe Menshikov, os russos preparavam o seu avanço e continuavam a fazê-lo no início ou em meados de outubro. Na manhã de 25 de outubro o Exército Imperial Russo, alertado em relação ao avanço da cavalaria britânica sob o comando de Lord Lucan, preparou-se para o combate.
Forças envolvidas
As forças envolvidas foram as seguintes: Cerca de 1 500 turcos (comandados pela artilharia britânica) e um número não registado de sardo-piemonteses participaram também. Total: cerca de 20 000 homens e 41 armas pesadas. O exército russo no local (composto por cerca 25 000 homens e 78 armas pesadas sob o comando local do tenente-general Pavel Liprandi) poderia atravessar o rio e alcançar o aqueduto (que transportava água para o abastecimento de Sebastopol). O exército russo tinha quatro regimentos de infantaria, lanceiros, hussardos, cossacos e artilharia para defender o porto de Balaclava.
Fases da batalha
A batalha pode ser decidida em quatro fases principais: A primeira fase começou de madrugada com o avanço da infantaria britânica sobre os russos. A segunda fase da batalha começou cerca das oito e meia da manhã. Liprandi deu ordem a Ryzhov para liderar a principal força de cavalaria russa que avançasse contra o acampamento inimigo. O ataque da artilharia e infantaria russas incidiu sobre os redutos otomanos que formavam a primeira linha de defesa de Balaclava. Os turcos inicialmente resistiram ao assalto russo, mas a falta de apoio forçá-los-ia a retirar. Ryzhov começou a avançar ao longo do oeste do Vale do Norte, apoiado por 26 canhões de campo, mas estava preocupado com infantaria inimiga. Entretanto a cavalaria russa foi forçada a recuar, pelo major-general Sir Colin Campbell com cerca de 700 britânicos e mil turcos, numa ação determinada que ficou conhecida como 'A Fina Linha Vermelha' (The Thin Red Line), embora esta designação só se tenha tornado conhecida mais de 20 anos depois da batalha. Esta linha manteve-se e repeliu o ataque, tal como as tropas da Brigada Pesada do general James Yorke Scarlett, que carregaram e derrotaram grande parte do avanço da cavalaria, forçando os russos a colocar-se em posição defensiva.
A carga da Brigada Ligeira
Este acontecimento é descrito como um dos episódios mais heróicos ou mais desastrosos de toda a história militar britânica. Lord James Cardigan realiza uma carga de cavalaria da Brigada Ligeira contra a bem defendida artilharia russa durante a Guerra da Crimeia. Os britânicos ultrapassariam a Batalha de Balaclava quando Cardigan recebeu a ordem de atacar os russos. A sua cavalaria carregou sobre os inimigos sem hesitar, mas foi dizimada pelas armas pesadas dos russos, sofrendo 40% de baixas em poucos minutos. Posteriormente, soube-se que a ordem foi o resultado de um erro (uma ordem que não foi dada intencionalmente). Lord Cardigan, que sobreviveu à carga, foi considerado um herói nacional na Grã-Bretanha.
A Batalha de Balaclava, no início da Guerra da Crimeia, representou uma nova fase da história militar, pois foi nesta ocasião que se deram numerosas estreias no campo de batalha, em relação a volume de fogo, à velocidade das informações no campo de batalha e a eventos acessórios. Algumas destas inovações deram-se na própria batalha, enquanto outras aconteceriam nos confrontos que se lhe seguiriam na mesma guerra: foram usados fuzis e canhões de retrocarga; o caminho-de-ferro foi usado de forma tática; deram-se combates em trincheiras; começaram a aplicar-se, mesmo que de forma ainda rudimentar, práticas médico-cirúrgicas com anestesia; deu-se a grande divulgação dos alimentos enlatados, processo inventado poucas décadas antes; estava-se no início do interesse do grande público pelas reportagens dos correspondentes de guerra, iniciadas poucos anos antes por Henry Crabb Robinson, jornalista do The Times, jornal que mantinha o público informado sobre os desenvolvimentos da frente; também o irlandês William Howard Russell (1821-1907), «um homem grande, barbudo, grosseiro, com a voz de barítono e um gosto todo especial por charutos e conhaque, não importando a origem ou a marca», foi dos primeiros a descrever para o público a verdade e os horrores da guerra, que considerava um inferno. Recorria ao telégrafo (inventado em 1840). Ficou célebre a sua descrição da confrontação de Balaclava: "Os cavaleiros avançam em duas linhas, aumentam o galope ao aproximar-se do inimigo… A mil e duzentas jardas, a inteira linha inimiga, de trinta bocas de ferro, um dilúvio de fumaça e chamas através do qual assobiam projéteis mortais…".
A perda da Brigada Ligeira foi um acontecimento traumático do qual os aliados não foram capazes de recuperar imediatamente, e não houve outras ações militares nesse dia. Dos cerca de 666 homens que se sabe terem entrado na carga (as fontes podem variar ligeiramente nos últimos dígitos), 271 foram baixas: 110 mortos (cerca de 17%), 129 feridos, mais 32 feridos aprisionados. Foram mortos 375 cavalos. Raglan não poderia agora arriscar as suas divisões de infantaria numa tentativa de retirar as forças russas das chamadas «Causeway Heights». Mesmo que os redutos fossem recuperados, teriam de ser defendidos por homens cuja prioridade era o Cerco de Sebastopol, e Raglan não ousou expor a sua base de abastecimentos de Balaclava a mais ataques russos. As divisões britânicas de infantaria n.º 1 e n.º 4, assim, regressaram ao planalto, a primeira ser os regimentos das Terras Altas da Escócia, a quem foi ordenado que permanecessem no vale sob o comando de Campbell.


