Biscoitos
Biscoitos é uma freguesia do município de Praia da Vitória, na ilha Terceira, Região Autónoma dos Açores, com 26,30 km² de área e 1449 habitantes. A sua densidade populacional é 55,1 hab./km².
O nome desta localidade é simultaneamente o nome dado nos Açores a duas entidades diferentes, sendo que uma delas se refere a uma massa doce tradicional feita com especiarias, e à outra à terra queimada, nascida dos vulcões (basalto preto). Neste caso, os biscoitos são terrenos formados pelas lavas provenientes de erupções vulcânicas. Trata-se de uma zona de importante tradição vinícola justamente por a terra queimada ser pobre e pouco mais dar do que vinha que ainda assim tem de ser protegida das intempéries por curraletas feitos com a própria pedra de basalto, exemplo da luta dos homens contra os elementos. O vinho Verdelho aqui produzido é de excelente qualidade e com grande tradição, já era consumido nas naus nos tempos dos descobrimentos portugueses pois era um produto que se aguentava bem no mar. A altura em que se iniciou o cultivo da vinha nos Biscoitos é desconhecida, sendo, no entanto, de presumir que se tenha iniciado juntamente com o cultivo do trigo e outros produtos indispensáveis ao sustento dos povoadores. A cepa da casta da uva verdelho aparece como a mais antiga. Em tempos passado o vinho foi de tal abundância que na freguesia, em 1649, chegou-se a trocar uma pipa de vinho por cinco cavalas e um tostão. Devido à praga de Filoxera que atacou a cultura no século XIX, esta entrou em forte declínio e só voltou a recuperar-se por volta de 1870 com a introdução de novas castas resistentes a doença e que depois foram de novo enxertadas.
A 22 de novembro de 1761, iniciaram-se uma série de grandes tremores de terra que continuaram, com alguma frequência, até 14 de abril do ano seguinte (1762). A 17 do mesmo mês e ano, na parte da manhã teve início uma erupção vulcânica com a lava a surgir de debaixo do chão e ser atirada até ao sítio conhecido como Mistério Velho. Com este fenómeno natural, a freguesia dos Biscoitos viu-se sob o risco de ser inteiramente destruída. No dia 21 de Abril, no lugar do Mistério Velho aconteceu uma nova erupção distanciando-se esta cerca de uma légua da anterior. Esta segunda erupção durou oito dias. Começou com uma explosão de grande força que se fez ouvir em muitos quilómetros em redor e levantou no ar muita pedra de grande dimensão. Com o início destes acontecimentos começou o êxodo das populações que fugiam o mais depressa que podiam deixando a freguesia deserta. Todos abandonaram as suas casas, levando o que puderam. Os párocos mudaram o Santíssimo Sacramento para a Igreja de Santa Beatriz das Quatro Ribeiras. Ninguém morreu porque todos tiveram tempo para se porem a salvo. Nos primeiros tempos a água das nascentes e chafarizes daqueles sítios, tinha um ardor como o da malagueta.
O nome desta via de comunicação, segundo reza a tradição popular deve o seu nome a um acontecimento que ocorreu durante o tempo da dominação filipina. Quando as forças castelhanas invadiram a freguesia dos Biscoitos e foi travado um combate tão violento que o sangue dos soldados correu de forma a tornar-se necessário espalhar sal, para se evitar uma epidemia de peste que segundo se acreditava na altura poderia provir simplesmente do sangue espalhado.
As tradições populares concretizam-se através de vários eventos distribuídos ao longo do ano e que demonstram uma declaração de fé e outras do profano. São bastante variadas, sendo no entanto de destacar: as festas do bairro de São Pedro que se realizam na primeira semana de Julho e são composta por iluminação noturna, missa solene e uma procissão em honra de São Pedro; uma tourada à corda na Rua Longa; um bodo de leite em honra de São João com missa, procissão e bênção da massa cevada; bazar e música. Festa do Imaculado Coração de Maria que se realiza no fim de Setembro à semelhança da Festa do Bairro de São Pedro são compostas por uma abertura das festas com rainha, desfiles de filarmónicas, procissão antecedida de missa solene; tourada no Largo Francisco Maria Brum; bodo de leite, normalmente com bailinhos e desfile de carros alegóricos, atuações de grupos musicais, iluminação e bazar.
As festas do Divino Espírito Santo como muitas outras tradições dos Açores estão enraizadas na mente dos Povos açorianos de forma indelével e apesar de terem vindo de diferentes partes do mundo com os povoadores, nas ilhas adquiriram características próprias. Neste caso as festividades do Divino Espírito Santo estão ligadas à erupção Vulcânica ocorrida no vulcão que hoje é o Algar do Carvão de cujas lavas ao descerem das montanhas passaram a caminho do mar por esta freguesia reduzindo a cinzas quase todos os terrenos, ficando apenas intactos os que pertenciam a D. Violante do Canto. Acontecimento que parece estar ligado ao facto de esta senhora ser devota do Espírito Santo, e O ter invocado e prometido que se os foros a que tinha direito fossem poupados, seriam depois destinados a honrá-lo. Deu-se então o estranho caso do fogo descrever várias curvas contornando os seus terrenos sem lhes causar dano algum.
A matança do porco foi um acontecimento social de antigamente que com poucas diferenças era praticado em todas as ilhas dos Açores, e que antes de mais nada significava em épocas recuadas o armazenar da comida para os rigores do Inverno. A matança processava-se do seguinte modo: Geralmente num Domingo picavam-se a cebola, o alho e preparavam-se todas as especiarias e todos os utensílios necessários para a realização do ato. Na manhã do dia seguinte, logo pela madrugada chegavam os vizinhos, familiares, amigos e convidados, bem como o marchante que era responsável pela morte do porco. Depois do pequeno almoço composto pelo café da matança com queijo, pão caseiro e inhames, ia-se buscar o porco que depois de morto era escaldado com água a ferver e era chamuscado com mato seco de chama rápida com o objetivo de lhe tirar o pelo, sendo depois lavado com areia. Quando estava limpo abria-se e retiravam-se as tripas para um alguidar de barro, para serem lavadas com laranja-azeda (Citrus aurantium L.) e folha seca de milho, sendo esta parte do serviço quase sempre da responsabilidade das mulheres.
Por alturas da desfolhada do milho, isto é, após a colheita da maçaroca, os vizinhos tinham por habito darem ajuda uns aos outros como forma de troca de trabalho. Esta desfolha (tirar a folha) era um trabalho já feito no Outono, numa altura de vida pacata em que as noites eram longas e não havia televisão ou outros meios de entretenimento. Assim as pessoas, amigos e vizinhos e familiares juntavam-se e o trabalho entrava pela noite dentro por entre cantigas e bailes. Era costume fazerem-se jogos como o Jogo das Socas que constava no simples facto: se o milho era vermelho, quem o desfolhava teria que dar um abraço em quem estivesse a seu lado, se era roxo significava um beliscão, enquanto que amarelo era um beijo. Era também comum as primeiras maçarocas desfolhadas serem cozidas e servidas às pessoas presentes que eram comidas secas ou barradas com manteiga.
O costume do uso de uma ferradura atrás da porta está ligado às crendices populares. Usava-se para dar sorte e fazer face a invejas e maus olhados. Atualmente o uso é por tradição ou como objeto decorativo. Para um semelhante servia também uma tesoura aberta que era usada para afugentar os espíritos.
A Justiça da Noite era utilizada pelos povos que em tempos antigos não tinham forma de aceder aos tribunais ou a outras instâncias capazes de resolver os problemas que iam surgindo na sociedade. Assim pela calada da noite os habitantes que de alguma forma estivesse envolvido no acontecimento mascaravam-se e atuavam em todo o tipo de situações que não fossem julgadas corretas. Eram os casos de adultério, maus tratos, roubo, calúnia e outros que pela sua natureza ou dificuldades escapavam à acção dos tribunais.


