Boto-cor-de-rosa
Boto-cor-de-rosa, boto-vermelho, boto-rosa, boto-malhado, boto, costa-quadrada, cabeça-de-balde ou uiara são nomes comuns dados a 3 espécies de golfinhos fluviais do gênero Inia. As espécies se distribuem nas bacias dos rios Amazonas e Solimões, na sub-bacia Boliviana e na bacia do rio Araguaia.
"Boto-branco", "boto-vermelho", "boto-cor-de-rosa" e "boto-malhado" são referências à sua coloração, especialmente da região ventral, que é branca com tendência para o avermelhado. "Uiara" vem do tupi ï'yara, que significa "senhor(a) da água". O epíteto específico homenageia o naturalista francês Étienne Geoffroy Saint-Hilaire.
A espécie foi descrita em 1817 por Henri Marie Ducrotay de Blainville como Delphinus (Delphinorhynchus) geoffrensis. Em 1824, Alcide d'Orbigny descreveu o Inia boliviensis como uma espécie distinta, criando assim um novo gênero. Em 1846, John Edward Gray recombinou o nome científico cunhado por de Blainville para Inia geoffroyii. Em 1855, Paul Gervais recombinou a espécie para Inia geoffrensis.
Subespécies
Três subespécies são tradicionalmente aceitas: Em 1977, uma análise morfológica e morfométrica com base em indivíduos depositados em museus considerou a população boliviana uma espécie distinta. A distinção foi contestada uma vez que os caracteres utilizados eram muito variáveis para serem utilizados na distinção das populações em duas espécies distintas, e podiam significar apenas uma variação clinal. Com base na morfologia do crânio, em 1994, foi proposto novamente que o I. g. boliviensis representava uma espécie distinta, entretanto, devido ao pequeno número de espécimes analisados a conclusão foi enviesada. Alguns autores seguiram o arranjo taxonômico de considerar a população boliviana como uma espécie distinta, enquanto outros continuaram a tratá-la como uma subespécie.
Dentre os golfinhos de água doce, é o que apresenta a maior distribuição geográfica, ocorrendo em uma área de cerca de sete milhões de quilômetros quadrados, e podendo ser encontrado em seis países da América do Sul: Bolívia, Brasil, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. Ocorre em todos os afluentes do rio Amazonas, incluindo lagos e pequenos cursos d'água, desde sua foz, próxima a Belém (Pará), até sua nascente nos rios Marañón e Ucayali, no Peru. Seus limites são estabelecidos por cachoeiras intransponíveis, como as dos rios Xingu e Tapajós no Brasil, e por águas muito rasas. Uma série de quedas d'água e cachoeiras no rio Madeira isolaram a população ao sul da bacia Amazônica na Bolívia. O boto também está distribuído na bacia do rio Orinoco, com exceção do rio Caroni e porção superior do rio Caura na Venezuela. A única conexão entre o Orinoco e o Amazonas é através do Canal do Cassiquiare.
O boto-cor-de-rosa é o maior dos golfinhos fluviais, com os machos atingindo 2,55 metros de comprimento e 185 quilogramas e as fêmeas 2,15 metros e 150 quilogramas. Possui uma estrutura corpórea encorpada e robusta, mas extremamente flexível. As vértebras cervicais não fundidas permitem o movimento da cabeça em todas as direções. O rostro é longo e estreito e o melão é bem distinto, mas pequeno e flácido, podendo ser alterado no formato por controle muscular. Os olhos são pequenos mas funcionais, e a visão é boa tanto sobre como abaixo da linha da água. As nadadeiras peitorais são grandes e largas, com formato de remo, a nadadeira dorsal é pouco proeminente e as nadadeiras caudais são triangulares e largas. Possui um terço das mandíbulas fundidas. A dentição é heterodonte e o número de dentes por ramo varia de 22 a 35. A coloração nos adultos depende da temperatura e turbidez da água, da idade e da localização geográfica. Adultos que vivem em rios turvos tendem a ser rosados, em rios mais claros a região dorsal é acinzentada e o ventre e flancos rosados. Os juvenis são cinza-escuros. Apresenta um forte dimorfismo sexual, sendo os machos 16% maiores e 55% mais pesados que as fêmeas, e também mais rosados.
Geralmente de hábito solitário, raramente é visto em grupos com mais de três indivíduos, exceto na época reprodutiva. Quando visto em pares, geralmente são a mãe e o filhote. As migrações sazonais estão relacionadas com a migração dos cardumes e ao ciclo anual das águas. Apresentam uma área de vida, mas não têm comportamento territorial. São nadadores lentos, atingindo 2,4 a 5,1 quilômetros por hora, com picos de >22,5 quilômetros por hora. Raramente saltam. Partilha a área de ocorrência com o tucuxi (Sotalia fluvitialis), que não é um golfinho estritamente fluvial.
Alimenta-se principalmente de peixes, mas, por causa da dentição, consegue segurar e esmagar presas com carapaças, fazendo com que caranguejos (Poppiana argentiniana) e tartarugas (Podocnemis sextuberculata) entrem na sua dieta. Mais de 50 espécie de peixes consumidos pelos botos já foram catalogadas, entre os quais as espécies das famílias Scianeidae, Cichlidae e Characidae são as consumidas com maior frequência. O tamanho das presas oscila entre 5 e 80 centímetros, com média de 20 centímetros. Os peixes são capturados com os dentes anteriores, e depois passados aos posteriores para serem partidos e posteriormente engolidos. Geralmente, se alimentam sozinhos, caçando tanto durante o dia quanto a noite; entretanto os picos de maior atividade ocorre entre 6:00 e 9:00 horas e entre 15:00 e 16:00 horas. Consome cerca de 2,5% de seu peso corpóreo ao dia.
Imagem: josé hilton · BY-NC-SA · Openverse
A estação reprodutiva coincide com os baixos níveis de água. Os nascimentos concentram-se com o pico das cheias nos rios. A gestação dura entre 10 e 11 meses. O filhote nasce com cerca de 80 centímetros de comprimento. Os machos atingem a maturidade sexual quando atingem 200 centímetros de comprimento e as fêmeas entre 160 e 175 centímetros, geralmente entre 6 e 7 anos de vida. A lactação dura em média 1 ano e o intervalo entre partos é de 2 a 3 anos.
O boto foi classificado como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) até 2011, quando foi reclassificado para uma categoria de espécies com dados insuficientes devido a quantia limitada de informações disponíveis sobre ameaças, ecologia e do número e tendência da população. Na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES), está listada no "Apêndice II", e na Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) também aparece no "Apêndice II". Nas áreas onde os botos foram estudados, a espécie parece estar bem distribuída e é relativamente abundante. Entretanto, estas áreas representam só uma pequena proporção da distribuição total da espécie e, frequentemente, são lugares com alguma proteção. Por esse motivo, as informações dessas regiões podem não ser representativas e/ou válidas a longo prazo.
Cativeiro
O boto-cor-de-rosa está presente em diversos aquários ao redor do mundo. A primeira captura registrada foi em fevereiro de 1956, em Leticia, na Colômbia, quando uma expedição do Silver Springs Nature Theme Park capturou quatro exemplares para expor nos Estados Unidos.
Imagem: josé hilton · BY-NC-SA · Openverse
No folclore brasileiro, diz-se que o boto-cor-de-rosa tem a propriedade de se transformar em um jovem galante e engravidar moças.[carece de fontes?]


