Cavalaria do Brasil
A cavalaria do Brasil é uma das armas que compõem seu Exército. Opera em veículos blindados e tal como a infantaria, confronta diretamente o inimigo, porém, com missões distintas tal como o reconhecimento e a vanguarda. É organizada em regimentos e esquadrões, equivalentes aos batalhões e companhias da infantaria. Seus principais tipos são os de carros de combate, mecanizados, blindados e de guarda. Seu efetivo serve nas tripulações dos veículos ou como fuzileiros embarcados, que podem também combater a pé.
As tropas podem ser classificadas em infantaria, cavalaria, artilharia, engenharia e logística. As primeiras quatro são denominadas armas, e a última é dividida em “quadros”, “serviços” e outros nomes. Cavalaria e infantaria são armas base, isto é, vão de encontro ao inimigo, ao contrário das armas de apoio, artilharia e engenharia; suas unidades são assim denominadas “de manobra”. A cavalaria tem terminologia própria para seus escalões: esquadrões e regimentos. Os primeiros são equivalentes às companhias da infantaria e baterias da artilharia, e os segundos, aos batalhões da infantaria e grupos da artilharia. As forças denominadas “mecanizadas” usam blindados sobre rodas, enquanto as “blindadas” usam blindados sobre lagartas. As cavalaria tradicionalmente segue à frente, nos flancos ou na retaguarda da força principal, com missões de segurança (por exemplo, evitando emboscadas), reconhecimento, conexão, penetração, recuperação do comando, retirada, etc. Muitos exércitos ainda dão a designação de cavalaria às unidades com essas responsabilidades. Apesar da diferença tecnológica entre cavalos e blindados, eles compartilham atributos como a mobilidade. O poder de “choque”, característico da cavalaria pesada, hoje existe no carro de combate e é produzido pela combinação da mobilidade, blindagem e potência de fogo. A essas características soma-se um sistema de comunicações capaz de coordenar forças dispersas por grandes distâncias. No Exército Brasileiro, a cavalaria é a arma que mais representa o fogo e movimento juntos, e é ela que opera os meios pesados à frente das ofensivas.
Período hipomóvel
Os governadores-gerais do Estado do Brasil usaram forças de cavalaria contra indígenas na Bahia e Espírito Santo em meados do século XVI, com o primeiro combate registrado em Porto Grande, próximo a Pirajá, Bahia, em 26 de maio de 1555. O primeiro uso decisivo foi na guerra contra os tupiniquins em 1558–1559. Porém os cavalos eram escassos e caros, um privilégio de poucos colonos. Nos dois primeiros séculos a manutenção de unidades de cavalaria foi difícil. A rede de fortificações era muito mais útil para a defesa do território do que a cavalaria. O Império Português pós-Restauração (1640) tinha um exército dividido entre Corpos Regulares, de caráter profissional e pago, e duas categorias de caráter territorial e não remunerado, os Corpos Auxiliares/Milícias e os Corpos Irregulares/Ordenanças. Ambos passavam a maior parte do tempo em suas ocupações civis e eram divididos em unidades de brancos, pardos e negros libertos. Várias companhias de cavalaria de milícias lutaram contra as invasões holandesas do Brasil, e um esquadrão participou da primeira Batalha dos Guararapes, em 1648.
Mecanização (1938–1986)
As duas guerras mundiais evidenciaram a obsolescência do cavalo no campo de batalha e sua dominação pelos veículos mecanizados. Estavam em curso dois avanços tecnológicos, a motorização e a mecanização, que podem ser respectivamente definidas como a adoção de materiais de transporte, como caminhões e tratores, e de materiais de combate como o carro de combate e o carro blindado. Para a cavalaria, a mecanização era uma mudança radical que aposentaria seu principal instrumento, o cavalo. Após 1940 a arma enfrentava a extinção, mas tinha uma alternativa: abraçar a mecanização, reconhecendo no carro de combate o sucessor do cavalo e dando continuidade às suas antigas capacidades de blindagem, choque e mobilidade. Os países centrais substituíram a cavalaria hipomóvel pelas forças mecanizadas, embora algumas unidades da arma mantiveram suas denominações. A “cavalaria” das décadas seguintes era baseada na tecnologia de ponta. Porém, nos países periféricos o cavalo continuou em uso.
Modernizações (1979–)
Após a mecanização, uma oportunidade nova e igualmente grande surgiu com o helicóptero. Carregando soldados e possuindo grande mobilidade e capacidade de manobra, ele foi empregado pelos americanos no Vietnã como “cavalaria aérea”. Alguns cavalarianos brasileiros viram nele a próxima evolução depois do blindado, mas as unidades de helicóptero que o Exército chegou a formar a partir de 1986 não pertenceram à cavalaria. Esse papel coube à Aviação do Exército e à infantaria aeromóvel. A indústria acumulou experiência modernizando veículos americanos e em 1979 iniciou o desenvolvimento de um carro de combate nacional, o Tamoyo, como resposta ao Tanque Argentino Mediano. Seria não uma tecnologia de ponta mas um equipamento adequado às limitações nacionais. Para acompanhá-lo viria o transporte de pessoal sobre lagartas Charrua, sucedendo o M-113. O Tamoyo tinha uma alternativa mais sofisticada, voltada ao mercado internacional, o Osório. Nenhum dos três veículos foi comprado e a indústria bélica entrou em crise nos anos 90.
O general José Pessoa considerava a Cavalaria “a arma por excelência da tradição”. A imagem da cavalaria no Velho Mundo, onde ela era toda uma “instituição político-religiosa, social, ética e estética”, foi transplantada para o Novo Mundo, e assim, há a crença na “nobreza” da Cavalaria brasileira. Esta, porém, não seria definida pelo caráter de elite feudal da cavalaria medieval, mas por determinados traços comportamentais (“elegância, lealdade e arrojo”). Espera-se dos cavalarianos que transpareçam no cotidiano as características exigidas pelas suas operações militares. Em campanha, eles precisam lutar agressivamente e tomar decisões rápidas, e por isso, comparados aos infantes, têm mais liberdade de iniciativa. Não deve haver “frescura” com as condições materiais e as diferenças hierárquicas dentro da Arma. Surge daí o “espírito” da arma, definido pela “rapidez, combatividade, coragem, flexibilidade, determinação, desprendimento, vontade de superar obstáculos”. O pessoal das outras Armas tem como estereótipos negativos os cavalarianos como “grossos, bagunceiros” e o espírito da arma como o de “rápido e malfeito”; por outro lado, reconhecem os cavalarianos como um grupo coeso e tradicional. Essa imagem foi constatada pelo antropólogo Celso Castro numa pesquisa com os cadetes da AMAN, ao final dos anos 80.
Os regimentos são de carros de combate, blindados com carros de combate e outros blindados sobre lagartas, mecanizados com blindados sobre rodas ou de guardas com cavalos. Existem esquadrões especializados nas brigadas paraquedista, aeromóvel e de selva. As brigadas são blindadas ou mecanizadas, com a Brigada de Cavalaria Blindada idêntica à Brigada de Infantaria Blindada.
Tipos de regimentos
O Regimento de Cavalaria hipomóvel de 1915 tinha quatro esquadrões, reduzidos a três em 1928 e denominados “de fuzileiros” em 1943. Novos tipos de esquadrões surgiram em 1932 (de metralhadoras) e 1943 (de morteiros e armas anticarro).[e] A motomecanização gerou novos tipos de unidades nos anos 40. A infantaria montada virou os Regimentos de Cavalaria Motorizados (RCM), e foram criados Batalhões de Carros de Combate (BCC) e Esquadrões e Regimentos de Reconhecimento Mecanizado (Esqd ou R Rec Mec).[f] O RCM era efetivamente infantaria motorizada. O Reconhecimento Mecanizado usava blindados mais leves e, além do reconhecimento, também fazia missões ofensivas, defensivas e de segurança. O nome era influência inadequada da doutrina americana. O BCC tinha blindados médios. Seu nome era também impropriedade, pois o que os americanos denominavam de “batalhão”, a cavalaria brasileira tradicionalmente chama “regimento”. Era previsto ainda um batalhão de blindados pesados, que, porém, não chegou a existir.
Esquadrões especializados
As brigadas de cavalaria blindada e infantaria têm seus esquadrões independentes de cavalaria mecanizada, com as mesmas funções dos regimentos. Em algumas, a cavalaria não é mecanizada, mas especializada para o tipo da brigada: O esquadrão da 4.ª Brigada de Infantaria Leve de Montanha não é especializado, apesar das dificuldades que ele poderá enfrentar ao operar em ambiente montanhoso.
Brigadas e divisões
Na Guerra do Paraguai os regimentos de cavalaria chegaram a ser organizados em doze brigadas, seis divisões e um corpo de exército. Entretanto, o Exército não tinha uma organização permanente de altos escalões de comando em tempo de paz até as reformas de 1908, que criaram cinco “brigadas estratégicas” e três brigadas de cavalaria.[k] As brigadas de cavalaria eram menores e mais simples, pois ficariam na fronteira, servindo de cobertura ao grosso do Exército. Essas brigadas foram expandidas a Divisões de Cavalaria (DC) em 1921.[l] De 1944 a 1946 as DCs foram agrupadas num corpo de exército. Desde 1908, havia também um regimento de cavalaria nas “brigadas estratégicas”, que eram basicamente de infantaria, e nas suas sucessoras, as “divisões de exército” (DEs) de 1915 e Divisões de Infantaria (DIs) de 1921,[m] até a eliminação desse regimento na organização de 1946. Ainda assim, as DIs passaram a ter um esquadrão de reconhecimento. Os regimentos nas brigadas ou divisões só de cavalaria eram “Independentes” (RCI), enquanto os que apoiavam as divisões à base de infantaria eram “Divisionários” (RCD); essa nomenclatura existiu de 1919 a 1946.[n]
Elementos de apoio
As atuais brigadas são unidades completas, dispondo de todos os elementos de artilharia, engenharia e logística para operar com autonomia. Esses elementos são blindados ou mecanizados, podendo assim acompanhar as unidades de manobra. Unidades de apoio sobre rodas podem acompanhar forças sobre lagartas, pois têm a mesma velocidade durante missões táticas. A Bda C Bld dispõe de obuseiros autopropulsados. Já a Bda C Mec tem obuseiros rebocados. Em ambas as brigadas o calibre era originalmente 105 mm. Atualmente a 2.ª Bda C Mec, ao contrário das demais, usa obuseiros autopropulsados, enquanto as brigadas blindadas usam autopropulsados de 155 mm. A Bda C Bld tem um grupo de artilharia de campanha com quatro baterias, enquanto a Bda C Mec tem um grupo de três. Outras forças são o próprio esquadrão de comando, a bateria de artilharia antiaérea, o batalhão ou companhia de engenharia de combate, o pelotão de Polícia do Exército e o batalhão logístico com companhias logísticas de suprimento, saúde, pessoal e manutenção. O batalhão logístico da Bda C Mec não é, na prática, capaz de manutenir os veículos sobre lagartas do RCB, e eles são então trabalhados no próprio regimento ou nos Parques Regionais de Manutenção.
Distribuição geográfica
As três divisões de cavalaria originais ficavam nas fronteiras do Rio Grande do Sul, onde se esperava a maior ameaça militar estrangeira. Uma quarta foi criada na fronteira com o Paraguai, no sul de Mato Grosso, em 1949, mas sua prioridade era menor. A mecanização converteu-as na 1.ª Bda C Mec, de Santiago, 2.ª Bda C Mec, de Uruguaiana, 3.ª Bda C Mec, de Bagé, e 4.ª Bda C Mec, de Campo Grande. Surgiram quatro brigadas blindadas: a 5.ª Bda C Bld, antiga Divisão Blindada, no Rio de Janeiro e a 5.ª Bda Inf Bld, de Ponta Grossa, 6.ª Bda Inf Bld, de Santa Maria, e 11.ª Bda Inf Bld, de Campinas. Apesar da aproximação das relações entre Argentina e Brasil desde os anos 80, a cavalaria mecanizada, blindados, artilharia autopropulsada e rebocada, engenheiros e Força Aérea brasileiros permanecem concentrados na região Sul, com a cavalaria disposta próximo à fronteira argentina. No início do século XXI, ainda mais blindados foram transferidos ao Sul, sob a justificativa de que o terreno é ideal para o treinamento. Das duas brigadas blindadas no Sudeste, uma (a 11.ª de Infantaria) tornou-se de infantaria leve e outra (a 5.ª de Cavalaria) passou a existir em Ponta Grossa, tomando o lugar e absorvendo as unidades da antiga 5.ª de Infantaria. Como resultado do Plano Básico de Estruturação do Exército de 2004, os carros de combate foram concentrados nessas duas brigadas restantes no sul do país.
O Exército Argentino possui brigadas blindadas com cavalaria de tanques (TAM) e infantaria mecanizada (TAM VCTP [es]), quaternárias como as brasileiras, e brigadas mecanizadas com cavalaria de tanques (SK-105 Kürassier) e infantaria mecanizada (M-113). Ambas têm também a cavalaria de exploração, que utiliza o AML-90 e tem função semelhante à cavalaria mecanizada brasileira. Em 2010 tanto a cavalaria de tanques quanto a infantaria mecanizada das brigadas blindadas argentinas eram denominadas regimentos e organizados em três esquadrões/companhias. O TAM é da 2.ª geração do pós-guerra ou 1.ª geração intermediária. Em 2021 ainda estava em modernização para o modelo TAM 2C. É um blindado a par do Leopard 1 A5 BR. Ambos têm canhão de 105 mm. O alcance com alta chance de impacto do TAM 2C é inferior (2 000 contra 2 500 m), dando ao Leopard 1 a capacidade de standoff, ou seja, de atacar o alvo quando este ainda está longe demais para responder. Por outro lado o TAM 2C tem melhor periscópio do comandante e tecnologia embarcada. A blindagem não foi prioridade no projeto original do TAM, mas se equipara com todas as modernizações e tem como boas características defensivas a silhueta baixa e mobilidade. Neste último quesito o TAM 2C é superior na transposição de obstáculos.
A maioria das Polícias Militares opera unidades a cavalo. No cotidiano fazem policiamento ostensivo, podendo em casos vigiar eventos previsíveis (esportivos, artísticos, políticos, exposições, etc.), realizar escoltas cerimoniais e atuar no controle de distúrbios e reintegrações de posse. A cavalaria policial é considerada excelente tropa de choque. No Corpo de Fuzileiros Navais não há cavalaria; a única arma base é a infantaria e os blindados são considerados de apoio. Entretanto, os fuzileiros navais podem realizar tarefas que seriam típicas de cavalaria no Exército, tendo inclusive unidades próprias para tanto, como Companhias de Reconhecimento Terrestre e Anfíbio. Oficiais mais antigos, treinados até 1990 na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército, ainda admitiam usar blindados como arma base. O mais próximo a uma “cavalaria anfíbia” estaria nos blindados do Corpo; os pioneiros do EE-11 Urutu na Marinha, de 1973 a 1975, usavam como símbolo o cavalo-marinho. No final dos anos 90, discutia-se a formação de um “Batalhão de Infantaria Mecanizado de Fuzileiros Navais”, com estrutura semelhante a uma Brigada de Cavalaria Blindada do Exército.


