Crise dos mísseis de Cuba
Crise dos Mísseis de Cuba, também conhecida como Crise de Outubro em Cuba ou Crise do Caribe, foi um confronto de treze dias entre os governos dos Estados Unidos e da União Soviética, no qual a instalação estadunidense de mísseis nucleares no Reino Unido, na Itália e na Turquia foi correspondida pela instalação soviética de mísseis nucleares em Cuba. A crise durou de 16 a 28 de outubro de 1962. O confronto é amplamente considerado o momento em que a Guerra Fria esteve mais próxima de se transformar em uma guerra nuclear em grande escala.
Relações entre Cuba e a União Soviética
No final de 1961, Fidel Castro solicitou mais mísseis antiaéreos SA-2 à União Soviética. O pedido não foi atendido pela liderança soviética. Nesse intervalo, Castro começou a criticar os soviéticos pela falta de "ousadia revolucionária" e iniciou conversas com a China sobre acordos de assistência econômica. Em março de 1962, Castro ordenou a expulsão de Aníbal Escalante e de seus companheiros pró-Moscou das Organizações Revolucionárias Integradas de Cuba. O episódio alarmou a liderança soviética e despertou temores de uma possível invasão estadunidense. Como resultado, a União Soviética enviou mais mísseis antiaéreos SA-2 em abril, além de um regimento de tropas regulares soviéticas.
Relações entre Cuba e os Estados Unidos
O governo cubano considerava o imperialismo estadunidense a principal explicação para as deficiências estruturais da ilha. O governo estadunidense havia fornecido armas, dinheiro e apoio político à ditadura militar de Fulgencio Batista, que governou Cuba até 1958. A maior parte da população cubana estava cansada dos graves problemas socioeconômicos associados ao domínio estadunidense sobre o país. O governo cubano estava, portanto, ciente da necessidade de pôr fim às turbulências e contradições da sociedade cubana pré-revolucionária dominada pelos Estados Unidos. Concluiu que as exigências do governo estadunidense, que faziam parte de sua reação hostil às políticas do governo cubano, eram inaceitáveis.
Relações entre os Estados Unidos e a União Soviética
Quando Kennedy concorreu à presidência em 1960, uma das principais questões de sua campanha foi uma suposta "lacuna dos mísseis" em relação aos soviéticos. Na realidade, os Estados Unidos estavam à frente dos soviéticos naquele momento, por uma margem que aumentava rapidamente. Em 1961, os soviéticos possuíam quatro R-7 Semiorka, mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs); em outubro de 1962, algumas estimativas dos serviços de inteligência indicavam um total de 75. Os Estados Unidos possuíam 170 ICBMs e construíam rapidamente outros. Também possuíam oito submarinos de mísseis balísticos das classes George Washington e Ethan Allen, com capacidade para lançar dezesseis mísseis Polaris cada um, com alcance de 4.600 km. O primeiro-secretário soviético, Nikita Khrushchov, ampliou a percepção de uma "lacuna dos mísseis" ao vangloriar-se perante o mundo de que os soviéticos estavam produzindo mísseis "como salsichas", mas a quantidade e as capacidades dos mísseis soviéticos estavam muito distantes de suas afirmações. A União Soviética possuía aproximadamente setecentos mísseis balísticos de médio alcance, mas eles eram pouco confiáveis e imprecisos. Os Estados Unidos dispunham de uma vantagem considerável no número total de ogivas nucleares — 27 mil contra 3.600 — e na tecnologia necessária para lançá-las com precisão. Os Estados Unidos também estavam à frente em capacidades de defesa antimíssil e em poder naval e aéreo. Os soviéticos possuíam uma vantagem de dois para um nas forças terrestres convencionais, especialmente em peças de artilharia de campanha e tanques no teatro de operações europeu.
Concepção
Em maio de 1962, o primeiro-secretário soviético Nikita Khrushchov decidiu combater a crescente vantagem dos Estados Unidos no desenvolvimento e na instalação de mísseis estratégicos colocando mísseis nucleares soviéticos de alcance intermediário em Cuba, apesar das reservas do embaixador soviético em Havana, Alexandr Ivanovich Alexeyev, que argumentava que Castro não os aceitaria. Khrushchov enfrentava uma situação estratégica na qual se considerava que os Estados Unidos possuíam uma "excelente capacidade de primeiro ataque", que colocava a União Soviética em desvantagem. Em 1962, os soviéticos possuíam apenas vinte ICBMs capazes de lançar ogivas nucleares contra os Estados Unidos a partir do território da União Soviética. A baixa precisão e a falta de confiabilidade desses mísseis provocavam sérias dúvidas sobre sua eficácia. Uma geração mais recente e confiável de ICBMs do programa soviético de mísseis somente entrou em operação depois de 1965.
Implantação militar soviética
No início de 1962, um grupo de especialistas soviéticos em construção militar e de mísseis acompanhou uma delegação agrícola a Havana e reuniu-se com o primeiro-ministro cubano, Fidel Castro. Segundo um relato, a liderança cubana esperava que os Estados Unidos voltassem a invadir Cuba e aprovou com entusiasmo a ideia de instalar mísseis nucleares no país. De acordo com outra fonte, Castro se opôs à possibilidade de parecer um fantoche soviético, mas foi convencido de que os mísseis em Cuba irritariam os Estados Unidos e beneficiariam todo o bloco socialista. A implantação incluiria armas nucleares táticas de curto alcance, com alcance de quarenta quilômetros e utilizáveis apenas contra embarcações, que proporcionariam um "guarda-chuva nuclear" contra ataques à ilha.
Os mísseis instalados em Cuba permitiriam aos soviéticos atingir a maior parte do território continental dos Estados Unidos. O arsenal planejado consistia em quarenta lançadores. A população cubana observou a chegada e a instalação dos mísseis, e centenas de relatos chegaram a Miami. Os serviços de inteligência estadunidenses receberam inúmeros relatos, muitos deles de qualidade duvidosa ou até mesmo risíveis, a maioria dos quais podia ser descartada por descrever mísseis defensivos. Apenas cinco relatos chamaram a atenção dos analistas. Eles descreviam grandes caminhões atravessando cidades durante a noite, transportando objetos cilíndricos muito longos cobertos por lonas, que não conseguiam fazer curvas nas cidades sem recuar e realizar manobras. Acreditava-se que os veículos transportadores de mísseis defensivos poderiam fazer essas curvas sem grandes dificuldades. Os relatos não puderam ser satisfatoriamente descartados.
Confirmação aérea
Os Estados Unidos realizavam voos de vigilância com aviões U-2 sobre Cuba desde o fracasso da Invasão da Baía dos Porcos. Os voos de reconhecimento foram interrompidos em 30 de agosto de 1962, depois que um U-2 operado pelo Comando Aéreo Estratégico da Força Aérea dos Estados Unidos sobrevoou por engano a ilha de Sacalina, no Extremo Oriente Russo. Os soviéticos apresentaram um protesto, e os Estados Unidos pediram desculpas. Nove dias depois, um U-2 operado por Taiwan foi abatido no oeste da China por um SA-2, um míssil superfície-ar (SAM). As autoridades estadunidenses temiam que um dos SAMs cubanos ou soviéticos em Cuba abatesse um U-2 da CIA, provocando outro incidente internacional. Em uma reunião com os integrantes do Comitê de Reconhecimento Aéreo (COMOR), em 10 de setembro de 1962, o secretário de Estado Dean Rusk e o conselheiro de Segurança Nacional McGeorge Bundy restringiram novos voos de U-2 sobre o espaço aéreo cubano. A consequente ausência de cobertura da ilha durante as cinco semanas seguintes tornou-se conhecida entre os historiadores como a "lacuna fotográfica". Durante esse período, não foi obtida nenhuma cobertura significativa do interior da ilha por aviões U-2. As autoridades estadunidenses tentaram utilizar um satélite de fotorreconhecimento Corona para fotografar as instalações militares soviéticas relatadas, mas as imagens do oeste de Cuba obtidas por uma missão Corona KH-4, em 1º de outubro de 1962, foram encobertas por nuvens e névoa e não forneceram informações aproveitáveis. No final de setembro, uma aeronave de reconhecimento da Marinha fotografou o navio soviético Kasimov, que transportava no convés grandes caixotes com as dimensões e o formato de fuselagens de bombardeiros a jato Il-28.
Presidente informado
Em 15 de outubro de 1962, o Centro Nacional de Interpretação Fotográfica (NPIC) da CIA examinou as fotografias do U-2 e identificou objetos que pareciam ser mísseis balísticos de médio alcance. Essa identificação foi realizada em parte com base nas informações fornecidas por Oleg Penkovsky, um agente duplo do GRU que trabalhava para a CIA e o MI6. Embora não tenha fornecido relatos diretos sobre a instalação de mísseis soviéticos em Cuba, os detalhes técnicos e doutrinários sobre os regimentos de mísseis soviéticos fornecidos por Penkovsky nos meses e anos anteriores à crise ajudaram os analistas do NPIC a identificar os mísseis nas imagens do U-2.
Respostas consideradas
Os Estados Unidos não possuíam um plano de resposta preparado, pois nunca haviam esperado que os soviéticos instalassem mísseis nucleares em Cuba. O EXCOMM discutiu várias possibilidades de ação: O Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos concordou unanimemente que um ataque e uma invasão em grande escala constituíam a única solução. Seus integrantes acreditavam que os soviéticos não tentariam impedir que os Estados Unidos conquistassem Cuba. Kennedy estava cético: Eles, tanto quanto nós, não podem deixar essas coisas acontecerem sem fazer nada. Depois de todas as suas declarações, não podem permitir que eliminemos seus mísseis, matemos muitos russos e depois não fazer nada. Caso não reajam em Cuba, certamente reagirão em Berlim.
Dois planos operacionais (OPLANs) foram considerados. O OPLAN 316 previa uma invasão completa de Cuba por unidades do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais, apoiadas pela Marinha, após ataques da Força Aérea e da aviação naval. As unidades do Exército nos Estados Unidos teriam dificuldades para mobilizar meios mecanizados e logísticos, e a Marinha dos Estados Unidos não poderia fornecer navios de desembarque anfíbio em quantidade suficiente para transportar sequer um contingente blindado modesto do Exército. O OPLAN 312, principalmente uma operação da Força Aérea e de porta-aviões da Marinha, foi concebido com flexibilidade suficiente para realizar desde ataques contra instalações individuais de mísseis até o fornecimento de apoio aéreo às forças terrestres do OPLAN 316.
Kennedy consultou os integrantes do EXCOMM e outros assessores de alto escalão durante todo o dia 21 de outubro e considerou as duas opções restantes: um ataque aéreo dirigido principalmente contra as bases de mísseis cubanas ou um bloqueio naval de Cuba. Uma invasão em grande escala não era a primeira opção do governo. McNamara apoiava o bloqueio naval como uma ação militar vigorosa, porém limitada, que manteria o controle da situação nas mãos dos Estados Unidos. O termo "bloqueio" era problemático: segundo o direito internacional, um bloqueio constitui um ato de guerra, mas o governo Kennedy não acreditava que os soviéticos seriam levados a atacar em resposta a um simples bloqueio. Especialistas jurídicos do Departamento de Estado e do Departamento de Justiça concluíram que uma declaração de guerra poderia ser evitada caso outra justificativa jurídica, baseada no Tratado do Rio para a defesa do Hemisfério Ocidental, fosse obtida por meio de uma resolução aprovada por dois terços dos integrantes da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Discurso à nação
Às 15h do horário de verão do Leste dos Estados Unidos, em 22 de outubro de 1962, o presidente Kennedy estabeleceu formalmente o Comitê Executivo (EXCOMM) por meio do Memorando de Ação de Segurança Nacional (NSAM) 196. Às 17h, reuniu-se com líderes do Congresso, que se opuseram ao bloqueio e exigiram uma resposta mais vigorosa. Em Moscou, o embaixador estadunidense Foy D. Kohler informou Khrushchov sobre o bloqueio iminente e o discurso de Kennedy à nação. Embaixadores de todo o mundo notificaram os dirigentes de países que não pertenciam ao Bloco de Leste. Antes do discurso, delegações estadunidenses reuniram-se com o primeiro-ministro canadense John Diefenbaker, o primeiro-ministro britânico Harold Macmillan, o chanceler da Alemanha Ocidental Konrad Adenauer, o presidente francês Charles de Gaulle e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, José Antonio Mora, para informá-los sobre as informações de inteligência e a resposta proposta pelos Estados Unidos. Todos apoiaram a posição estadunidense. Durante a crise, Kennedy conversou diariamente por telefone com Macmillan, que apoiava publicamente as ações dos Estados Unidos.
Agravamento da crise
Em 23 de outubro de 1962, aeronaves RF-101A/C Voodoo da Força Aérea dos Estados Unidos e RF-8A Crusader da Marinha dos Estados Unidos começaram a realizar missões de fotorreconhecimento em altitudes extremamente baixas e altamente perigosas sobre Cuba. Em apenas uma ocasião, a Força Aérea Cubana enviou um MiG-19 para tentar abater uma dessas aeronaves, mas a tentativa fracassou. Às 11h24 do horário de verão do Leste dos Estados Unidos, em 24 de outubro, um telegrama enviado pelo subsecretário de Estado George Ball aos embaixadores estadunidenses na Turquia e na OTAN informou que o governo considerava oferecer a retirada dos mísseis da Itália e da Turquia em troca da retirada soviética de Cuba. As autoridades turcas responderam que ficariam "profundamente ressentidas" com qualquer acordo que envolvesse a presença dos mísseis estadunidenses em seu país. Na manhã do dia seguinte, 25 de outubro, o jornalista estadunidense Walter Lippmann propôs a mesma solução em sua coluna distribuída nacionalmente. Castro reafirmou o direito de Cuba à autodefesa, declarou que todas as armas do país eram defensivas e afirmou que Cuba não permitiria uma inspeção.
Reação internacional
No Reino Unido, o primeiro-ministro Harold Macmillan apoiou a resposta de Kennedy. O embaixador britânico nos Estados Unidos, David Ormsby-Gore, era um amigo próximo da família Kennedy e participou ativamente das discussões realizadas na Casa Branca sobre como solucionar a crise. Na Alemanha Ocidental, os jornais apoiaram a resposta estadunidense, contrastando-a com as ações fracas dos Estados Unidos na região durante os meses anteriores. Também manifestaram certo temor de que os soviéticos pudessem retaliar em Berlim. O governo da Alemanha Ocidental apoiou o bloqueio. Na França, em 23 de outubro, a crise ocupou a primeira página de todos os jornais diários. No dia seguinte, um editorial do Le Monde manifestou dúvidas sobre a autenticidade das provas fotográficas da CIA. Dois dias depois, após a visita de um agente de alto escalão da CIA, o jornal reconheceu a validade das fotografias. O presidente francês Charles de Gaulle concedeu apoio total a Kennedy, mas considerou a crise uma demonstração da vulnerabilidade da Europa aos conflitos entre as superpotências.
Transmissão e comunicações soviéticas
A crise prosseguiu sem sinais de abrandamento e, na noite de 24 de outubro de 1962, a agência de notícias soviética TASS transmitiu um telegrama de Khrushchov a Kennedy no qual o dirigente soviético advertia que a "pirataria descarada" dos Estados Unidos provocaria uma guerra. Às 21h24, Khrushchov enviou outro telegrama a Kennedy, recebido às 22h52, no horário de verão do Leste dos Estados Unidos. Khrushchov declarou: "Se o senhor avaliar a situação atual com serenidade, sem se deixar dominar pelas emoções, compreenderá que a União Soviética não pode deixar de rejeitar as exigências despóticas dos Estados Unidos". A União Soviética considerava o bloqueio "um ato de agressão", e seus navios receberiam instruções para ignorá-lo. Depois de 23 de outubro, as comunicações soviéticas com os Estados Unidos apresentaram cada vez mais indícios de terem sido redigidas às pressas. Sem dúvida em consequência da pressão, não era incomum que Khrushchov se repetisse e enviasse mensagens sem uma revisão elementar. Depois que o presidente Kennedy revelou suas intenções agressivas de realizar um possível ataque aéreo seguido de uma invasão de Cuba, Khrushchov passou a buscar um compromisso diplomático. As comunicações entre as duas superpotências haviam entrado em um período novo e revolucionário, no qual a ameaça de destruição mútua acompanhava a implantação de armas nucleares.
Elevação do nível de alerta dos Estados Unidos
Os Estados Unidos solicitaram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas em 25 de outubro. O embaixador estadunidense nas Nações Unidas, Adlai Stevenson, confrontou o embaixador soviético Valerian Zorin e desafiou-o a admitir a existência dos mísseis. Zorin recusou-se a responder. Às 22h do dia seguinte, no horário de verão do Leste dos Estados Unidos, os Estados Unidos elevaram o nível de prontidão das forças do Comando Aéreo Estratégico (SAC) para DEFCON 2. Na única ocasião confirmada na história dos Estados Unidos, bombardeiros B-52 foram colocados em alerta aéreo contínuo. Bombardeiros médios B-47 foram distribuídos entre aeródromos militares e civis e preparados para decolar, completamente equipados, com quinze minutos de antecedência. Um oitavo dos 1.436 bombardeiros do SAC permaneceu em alerta aéreo. Cerca de 145 mísseis balísticos intercontinentais, alguns dos quais apontados para Cuba, foram colocados em estado de alerta. O Comando de Defesa Aérea (ADC) transferiu 161 caças interceptadores armados com armas nucleares para dezesseis aeródromos de dispersão no prazo de nove horas, mantendo um terço deles em alerta de quinze minutos. Vinte e três bombardeiros B-52 armados com armas nucleares foram enviados a áreas de patrulha situadas ao alcance da União Soviética, para demonstrar que os Estados Unidos estavam determinados a agir. Jack J. Catton estimou posteriormente que aproximadamente 80% das aeronaves do SAC estavam prontas para decolar durante a crise. David A. Burchinal recordou que, em contraste:
Contestação do bloqueio
Às 7h15 do dia 25 de outubro, no horário de verão do Leste dos Estados Unidos, o USS Essex e o USS Gearing tentaram interceptar o Bucharest, mas não conseguiram. Como estavam razoavelmente certos de que o navio-tanque não transportava nenhum material militar, os Estados Unidos permitiram que ele atravessasse o bloqueio. Mais tarde naquele dia, às 17h43, o comandante do bloqueio ordenou que o contratorpedeiro USS Joseph P. Kennedy Jr. interceptasse e abordasse o cargueiro libanês Marucla. A abordagem ocorreu no dia seguinte, e o Marucla recebeu permissão para atravessar o bloqueio depois que sua carga foi inspecionada. Às 17h do dia 25 de outubro, William Clements anunciou que os trabalhos nos mísseis em Cuba continuavam. A informação foi posteriormente confirmada por um relatório da CIA, segundo o qual não havia ocorrido nenhuma redução no ritmo das obras. Em resposta, Kennedy emitiu o Memorando de Ação de Segurança 199, autorizando o carregamento de armas nucleares em aeronaves subordinadas ao comandante supremo aliado na Europa (SACEUR), responsável pela realização dos primeiros ataques aéreos contra a União Soviética. Kennedy afirmou que o bloqueio havia sido bem-sucedido depois que a União Soviética ordenou o retorno de catorze navios que supostamente transportavam armas ofensivas. O primeiro indício disso surgiu em um relatório do GCHQ britânico enviado à Sala de crise da Casa Branca, que continha comunicações interceptadas de navios soviéticos informando suas posições. Em 24 de outubro, o cargueiro soviético Kislovodsk informou uma posição a nordeste daquela em que estivera 24 horas antes, indicando que havia "interrompido" sua viagem e retornava em direção ao mar Báltico. No dia seguinte, outros relatórios indicaram que mais navios originalmente destinados a Cuba haviam alterado suas rotas.
Às 13h do horário de verão do Leste dos Estados Unidos, em 26 de outubro, John A. Scali, da ABC News, reuniu-se, a pedido deste, com Aleksandr Fomin, nome de cobertura de Alexander Feklisov, chefe da estação do KGB em Washington. Seguindo as instruções do Politburo do Partido Comunista da União Soviética, Fomin observou: "A guerra parece prestes a começar". Ele pediu que Scali utilizasse seus contatos para conversar com seus "amigos em altos cargos" no Departamento de Estado e descobrir se os Estados Unidos estariam interessados em uma solução diplomática. Sugeriu que os termos do acordo incluíssem uma garantia da União Soviética de retirar as armas sob a supervisão da Organização das Nações Unidas e que Castro anunciasse publicamente que não voltaria a aceitar esse tipo de armamento, em troca de uma declaração pública dos Estados Unidos de que não invadiriam Cuba. Os Estados Unidos responderam solicitando que o governo brasileiro transmitisse a Castro uma mensagem segundo a qual os Estados Unidos "provavelmente não invadiriam" Cuba caso os mísseis fossem retirados.
Continuação da crise
Uma agressão direta contra Cuba significaria uma guerra nuclear. Os estadunidenses falam sobre essa agressão como se não soubessem ou não quisessem aceitar esse fato. Não tenho dúvidas de que perderiam essa guerra. — Che Guevara, outubro de 1962. Castro, por outro lado, estava convencido de que uma invasão de Cuba era iminente e, em 26 de outubro, enviou um telegrama a Khrushchov que aparentemente defendia um ataque nuclear preventivo contra os Estados Unidos em caso de invasão. Em uma entrevista de 2010, Castro manifestou arrependimento por sua posição de 1962 favorável ao primeiro uso de armas nucleares: "Depois de ter visto o que vi e de saber o que sei agora, não valeu a pena de modo algum." Castro também ordenou que todas as armas antiaéreas em Cuba disparassem contra qualquer aeronave estadunidense. As ordens anteriores determinavam que somente se disparasse contra grupos de duas ou mais aeronaves. Às 6h do dia 27 de outubro, no horário de verão do Leste dos Estados Unidos, a CIA entregou um memorando informando que três das quatro instalações de mísseis em San Cristóbal e as duas instalações de Sagua la Grande pareciam estar plenamente operacionais. O documento também observava que as forças militares cubanas continuavam a se organizar para entrar em ação, mas tinham ordens para não agir, a menos que fossem atacadas.
Elaboração da resposta
Representantes enviados por Kennedy e Khrushchov concordaram em se reunir no restaurante chinês Yenching Palace, no bairro de Cleveland Park, em Washington, D.C., na noite de sábado, 27 de outubro. Kennedy sugeriu aceitar a proposta de Khrushchov de trocar os mísseis. Sem o conhecimento da maioria dos integrantes do EXCOMM, mas com o apoio de seu irmão, o presidente, Robert Kennedy vinha se reunindo com o embaixador soviético Dobrynin em Washington para descobrir se as intenções soviéticas eram genuínas. O EXCOMM se opunha à proposta, pois ela enfraqueceria a autoridade da OTAN, e o governo turco havia declarado repetidamente que era contrário a qualquer troca dessa natureza.
Lançamento nuclear evitado
Mais tarde naquele mesmo dia, posteriormente denominado "Sábado Negro" pela Casa Branca, a Marinha dos Estados Unidos lançou uma série de cargas de profundidade de "sinalização" — cargas de "treinamento" do tamanho de granadas de mão — contra o submarino soviético B-59, que se encontrava na linha do bloqueio. Os estadunidenses desconheciam que a embarcação estava armada com um torpedo dotado de ogiva nuclear, que poderia ser lançado caso o submarino fosse danificado pelas cargas de profundidade ou por disparos provenientes da superfície. O submarino estava a uma profundidade excessiva para acompanhar as comunicações de rádio, e seu capitão, Valentin Grigoryevich Savitsky, presumindo depois do disparo de munição real contra o submarino que uma guerra havia começado, propôs lançar o torpedo nuclear contra os navios estadunidenses. Normalmente, a decisão de lançar a "arma especial" exigia apenas a concordância do comandante da embarcação e do oficial político. Entretanto, o comandante da flotilha de submarinos, Vasili Arkhipov, estava a bordo do B-59 e também precisava concordar. Arkhipov não concedeu sua autorização, e o torpedo nuclear não foi lançado. Esses acontecimentos somente se tornaram públicos em 2002.
No sábado, 27 de outubro, após longas deliberações entre a União Soviética e o gabinete de Kennedy, o presidente concordou secretamente em retirar todos os mísseis instalados na Turquia, na fronteira com a União Soviética, e possivelmente os instalados no sul da Itália, em troca da retirada de todos os mísseis soviéticos de Cuba por Khrushchov. Há controvérsia sobre se a retirada dos mísseis da Itália fazia parte do acordo secreto. Khrushchov escreveu em suas memórias que sim e, depois do término da crise, McNamara ordenou o desmantelamento dos mísseis tanto na Itália quanto na Turquia. Naquele momento, Khrushchov sabia de fatos que os Estados Unidos desconheciam. Em primeiro lugar, que o abate do U-2 por um míssil soviético havia violado ordens diretas de Moscou e que os disparos da defesa antiaérea cubana contra outras aeronaves de reconhecimento estadunidenses também haviam violado ordens diretas de Khrushchov a Castro. Em segundo lugar, os soviéticos já possuíam 162 ogivas nucleares em Cuba, cuja presença era desconhecida pelos Estados Unidos. Em terceiro lugar, os soviéticos e cubanos na ilha quase certamente teriam respondido a uma invasão utilizando essas armas, embora Castro acreditasse que todos em Cuba morreriam como consequência. Khrushchov também sabia — embora talvez não tivesse considerado o fato — que havia submarinos nas proximidades armados com armas nucleares, cuja presença talvez fosse desconhecida pela Marinha dos Estados Unidos.
Na época da crise, em outubro de 1962, o número total de armas nucleares nos arsenais de cada país era de aproximadamente 26.400 para os Estados Unidos e 3.300 para a União Soviética. No caso dos Estados Unidos, cerca de 3.500 dessas armas, com uma potência explosiva combinada de aproximadamente 6.300 megatons, teriam sido empregadas em um ataque contra a União Soviética. Os soviéticos dispunham de um poder de fogo estratégico consideravelmente menor: cerca de 300 a 320 bombas e ogivas, sem armas baseadas em submarinos posicionadas para ameaçar o território continental dos Estados Unidos, enquanto a maioria de seus sistemas intercontinentais de lançamento consistia em bombardeiros, que teriam dificuldade para atravessar os sistemas de defesa antiaérea da América do Norte. Eles já haviam transferido 158 ogivas para Cuba, das quais entre 95 e 100 estariam prontas para uso caso os Estados Unidos invadissem o país, sendo a maioria delas de curto alcance. Os Estados Unidos tinham aproximadamente 4.375 armas nucleares posicionadas na Europa, a maioria das quais era composta por armas táticas, como a artilharia nuclear, com cerca de 450 destinadas a mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e aeronaves; os soviéticos dispunham de mais de 550 armas semelhantes na Europa.
O corpo de Anderson, piloto do U-2, foi devolvido aos Estados Unidos e sepultado com todas as honras militares na Carolina do Sul. Ele foi o primeiro agraciado com a recém-criada Cruz da Força Aérea, concedida postumamente. Embora Anderson tenha sido a única baixa fatal em combate durante a crise, 11 tripulantes de três aeronaves de reconhecimento Boeing RB-47 Stratojet, pertencentes à 55.ª Ala de Reconhecimento Estratégico, também morreram em acidentes ocorridos entre 27 de setembro e 11 de novembro de 1962. Sete tripulantes morreram quando um C-135B Stratolifter do Serviço de Transporte Aéreo Militar, que transportava munição para a Base Naval da Baía de Guantánamo, entrou em estol e caiu durante a aproximação para o pouso em 23 de outubro.
Liderança cubana
As decisões sobre como solucionar a crise foram tomadas exclusivamente por Kennedy e Khrushchev, e Cuba interpretou o desfecho como uma traição dos soviéticos. Castro ficou especialmente contrariado porque determinadas questões de interesse de Cuba, como a situação da Base Naval dos Estados Unidos em Guantánamo, não foram abordadas, e as relações cubano-soviéticas se deterioraram.:278 O historiador Arthur Schlesinger acreditava que, quando os mísseis foram retirados, Castro estava mais irritado com Khrushchev do que com Kennedy, pois Khrushchev não o havia consultado antes de tomar a decisão.[note 2] Embora estivesse enfurecido com Khrushchev, Castro ainda planejava atacar os Estados Unidos com os mísseis restantes caso Cuba fosse invadida.:311
Liderança romena
Durante a crise, Gheorghe Gheorghiu-Dej, secretário-geral do Partido Comunista Romeno, enviou uma carta ao presidente Kennedy dissociando a Romênia das ações soviéticas. Isso convenceu o governo dos Estados Unidos das intenções de Bucareste de se afastar de Moscou.
Liderança soviética
A percepção de que o mundo havia chegado perto de uma guerra termonuclear levou Khrushchev a propor uma ampla distensão nas relações com os Estados Unidos. Em uma carta ao presidente Kennedy datada de 30 de outubro de 1962, Khrushchev sugeriu iniciativas destinadas a impedir a possibilidade de outra crise nuclear. Entre elas estavam um tratado de não agressão entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o Pacto de Varsóvia, ou até mesmo a dissolução desses blocos militares; um tratado para encerrar todos os testes de armas nucleares e, possivelmente, eliminar todas as armas nucleares; a resolução da complexa questão alemã mediante a aceitação, por ambos os lados, da existência da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental; e o reconhecimento, pelos Estados Unidos, do governo da China continental. A carta convidava à apresentação de contrapropostas e ao aprofundamento dessas e de outras questões por meio de negociações pacíficas. Khrushchev convidou Norman Cousins, editor de um importante periódico dos Estados Unidos e ativista contrário às armas nucleares, para atuar como intermediário junto a Kennedy. Cousins se reuniu com Khrushchev durante quatro horas em dezembro de 1962.
Liderança dos Estados Unidos
O nível de alerta global DEFCON 3 das forças dos Estados Unidos voltou ao DEFCON 4 em 20 de novembro de 1962. O general Curtis LeMay disse a Kennedy que a resolução da crise havia sido a "maior derrota de nossa história". LeMay havia defendido uma invasão imediata de Cuba assim que a crise começou e continuou favorecendo a invasão mesmo depois de os soviéticos retirarem seus mísseis. Vinte e cinco anos depois, LeMay ainda acreditava que: "Poderíamos ter retirado não apenas os mísseis de Cuba, mas também os comunistas de Cuba naquela ocasião". Até 1962, o presidente Kennedy havia enfrentado quatro situações de crise: o fracasso da Invasão da Baía dos Porcos; as negociações para um acordo entre o governo pró-Ocidente do Laos e o movimento comunista Pathet Lao — "Kennedy contornou a questão do Laos, cujo terreno acidentado não constituía um campo de batalha adequado para soldados estadunidenses.":265 —; a construção do Muro de Berlim; e a Crise dos Mísseis de Cuba. Kennedy acreditava que outro fracasso em controlar a situação e deter a expansão comunista prejudicaria irremediavelmente a credibilidade dos Estados Unidos. Estava determinado a "traçar uma linha na areia" e impedir uma vitória comunista no Vietnã. Logo após sua reunião de cúpula em Viena com Khrushchev, disse a James Reston, do The New York Times: "Agora temos o problema de tornar nosso poder digno de crédito, e o Vietnã parece ser o lugar".
Liderança chinesa
A solução pacífica acordada entre a União Soviética e os Estados Unidos para a crise dos mísseis enfureceu Pequim. A China maoista condenou posteriormente o covarde "capitulacionismo" de Khrushchev diante dos estadunidenses e a "traição ao povo cubano" por parte de Moscou. Em resposta, Khrushchev criticou duramente os chineses pela agressão no conflito sino-indiano e pela postura oportunista da China durante a Crise dos Mísseis de Cuba.
Santa Sé
Em abril de 1963, o Papa João XXIII publicou a encíclica Pacem in Terris como resposta à crise. Foi a primeira encíclica dirigida a "todos os homens de boa vontade", em vez de apenas aos membros da Igreja Católica. O documento discutiu os direitos e deveres das pessoas e de seus Estados e defendeu a não proliferação nuclear. Segundo o periódico The Catholic World Report, "Dois anos depois, ela foi tema de uma conferência nas Nações Unidas da qual participaram mais de 2.000 estadistas e acadêmicos".
Quase confronto submarino
O que pode ter sido o momento mais perigoso da crise somente foi reconhecido durante a conferência sobre a Crise dos Mísseis de Cuba realizada em Havana, em outubro de 2002, por ocasião de seu 40.º aniversário. A conferência, com duração de três dias, foi patrocinada pela organização privada National Security Archive, pela Universidade Brown e pelo governo cubano e contou com a presença de muitos veteranos da crise. Eles souberam que, em 27 de outubro de 1962, um grupo de onze contratorpedeiros da Marinha dos Estados Unidos e o porta-aviões USS Randolph havia localizado, nas proximidades de Cuba, o submarino soviético B-59, do Projeto 641 — designação da OTAN: Classe Foxtrot —, movido a diesel e armado com um torpedo nuclear. Apesar de o submarino estar em águas internacionais, os estadunidenses começaram a lançar cargas de profundidade de treinamento na tentativa de forçá-lo a emergir.
Possibilidade de lançamento nuclear
No início de 1992, foi confirmado que as forças soviéticas em Cuba já haviam recebido ogivas nucleares táticas para seus foguetes de artilharia e bombardeiros Il-28 quando a crise começou. Castro declarou que teria recomendado seu emprego caso os Estados Unidos invadissem Cuba, mesmo que isso resultasse na destruição do país. Cinquenta anos após a crise, Graham Allison escreveu: Há cinquenta anos, a Crise dos Mísseis de Cuba levou o mundo à beira de um desastre nuclear. Durante o confronto, o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, estimou que a probabilidade de uma escalada para a guerra estava "entre uma chance em três e cinquenta por cento", e nada do que aprendemos nas décadas seguintes reduziu essa probabilidade. Sabemos agora, por exemplo, que, além dos mísseis balísticos com ogivas nucleares, a União Soviética havia instalado cem armas nucleares táticas em Cuba e que o comandante soviético local poderia ter lançado essas armas sem códigos ou ordens adicionais de Moscou. O ataque aéreo e a invasão estadunidenses programados para a terceira semana do confronto provavelmente teriam provocado uma resposta nuclear contra navios e soldados estadunidenses, e talvez até mesmo contra Miami. A guerra resultante poderia ter causado a morte de mais de cem milhões de estadunidenses e mais de cem milhões de russos.


