Enéas Carneiro
Enéas Ferreira Carneiro foi um militar, professor, médico e polímata brasileiro, mais conhecido por sua atuação como cardiologista e político. Considerado uma liderança do conservadorismo nacionalista no Brasil, fundou o extinto Partido de Reedificação da Ordem Nacional (PRONA). Foi filiado a ele de 1989, sua fundação, até 2006, quando ocorreu a fusão do PRONA com o antigo Partido Liberal (PL), surgindo o Partido da República (PR), atualmente Partido Liberal (PL), ao qual Enéas foi filiado de 2006 a 2007, ano de sua morte.
Enéas Ferreira Carneiro nasceu na cidade de Rio Branco, no estado do Acre, em 1938. Filho de Eustáquio José Carneiro, barbeiro, e Mina Ferreiro Carneiro, dona de casa. Perdeu o pai aos nove anos, sendo obrigado a trabalhar desde essa idade para sustentar a si e à sua mãe. Quando nasceu, sua família estava em condições de miséria. Mudou-se para Belém (Pará), com condições financeiras um pouco melhores, onde morou em um barraco e tinha como alimentação farinha e café. Foi casado com Jamile Augusta Ferreira, que conheceu na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro quando estava lendo um livro de ciências exatas, sendo abordado por ela, interessada pela leitura, posteriormente tornando-se seu namorado. O casal teve uma filha quando terminaram os estudos na escola de medicina, chamada Janete. Cinco anos mais tarde, Enéas teve outra filha, chamada Gabriela, de sua união com a fonoaudióloga Selene Maria, relacionamento que, como o anterior, não foi duradouro. Enéas, por volta de 1982, casou-se com a promotora da auditoria militar Adriana Lorandi. Com ela teve sua terceira filha, Lígia. O casal acabou se separando, pois para criar o PRONA Enéas precisou se desfazer de muitos bens. "Ela não aguentou. Torrei todo meu patrimônio, uns imóveis e joias porque queria construir o PRONA".
Estudos e serviço militar
Iniciou os seus estudos no final da década de 1950, em 1958, no Rio de Janeiro, na Escola de Saúde do Exército. No ano seguinte, formou-se terceiro-sargento auxiliar de anestesiologia, sendo primeiro lugar de sua turma. Em 1960, iniciou seus estudos na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Em fevereiro de 1962, prestou exame vestibular para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Estado da Guanabara (atual UERJ), curso de licenciatura em matemática e física. Aprovado em primeiro lugar, no mesmo ano iniciou atividade como professor destas disciplinas, preparando alunos para vestibulares. Formou-se médico, em 1965, pela supracitada Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, pedindo então baixa do exército após oito anos de serviço ativo no Hospital Central do Exército, onde auxiliou os médicos em mais de 5 mil anestesias, já tendo recebido a medalha Marechal Hermes.
Candidaturas à presidência
Enéas fundou, em 1989, o PRONA, lançando-se imediatamente candidato à presidência nas primeiras eleições diretas do Brasil, após o período da ditadura militar. O seu tempo na propaganda eleitoral gratuita era de quinze segundos. Todavia, aliada a uma fala rápida e a um discurso inflamado e nacionalista (terminado sempre por seu bordão: "Meu nome é Enéas"), sua propaganda fez com que o então desconhecido político angariasse mais de 360 mil votos, colocando-o em 12º lugar entre 21 candidatos. A propaganda vinha sempre acompanhada pela Sinfonia n.º 5 de Ludwig van Beethoven. Lançou-se candidato nas eleições de 1994 com o tempo 1 minuto e 17 segundos no horário gratuito. Mesmo sendo o PRONA um partido ainda sem expressão, o resultado surpreendeu os especialistas em política. Enéas foi o terceiro mais votado, com mais de 4,6 milhões de votos (7%), posicionando-se à frente de políticos consagrados, como o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, e o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, ficando atrás apenas de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Candidatura à prefeitura de São Paulo
Em 2000 candidatou-se à prefeitura de São Paulo, obtendo 3% dos votos, e conseguiu reunir votos para a eleição de sua candidata ao legislativo, a vereadora Havanir Nimtz. Em destaque nesta campanha, o debate na Rede Bandeirantes, quando o ex-presidente Collor não quis fazer pergunta a Enéas: "fale qualquer coisa". “Ótimo. Já que vossa excelência ex-presidente da República nada tem a dizer, eu tenho muito”, iniciou o candidato do PRONA em sua resposta, ao qual concluiu com a afirmativa: “Eu tenho tristeza em pensar que o senhor presidiu esse país”.
Candidatura a deputado federal e reeleição
Em 2002 candidatou-se a deputado federal por São Paulo, obtendo a maior votação da história brasileira para aquele cargo: cerca de 1,57 milhão de votos, recorde que permanecia não superado até 2018, quando Eduardo Bolsonaro obteve 1,8 milhão de votos. Seu partido obteve votos suficientes para, através do sistema proporcional, eleger mais cinco deputados federais, todos homens fundadores do partido, para atuação em Brasília (mesmo com votações inexpressivas, abaixo dos mil votos). No início de 2006, Enéas passou por sérios problemas de saúde, uma pneumonia e uma leucemia mieloide aguda, fazendo com que ele optasse por retirar sua emblemática barba, antes que a quimioterapia o fizesse. Ainda em função de seus problemas de saúde, em junho de 2006 Enéas anunciou que desistiria de sua candidatura à Presidência da República e que concorreria novamente à Câmara dos Deputados. Na nova campanha, mudou seu bordão para "Com barba ou sem barba, meu nome é Enéas". Foi reeleito com a quarta maior votação no estado de São Paulo, atingindo 386 905 votos, cerca de 1,90% dos votos válidos no estado.
Fusão do PRONA com o PL
Após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, o seu partido, o PRONA, anunciou uma fusão com o antigo Partido Liberal (PL), fundando, assim, o Partido da República (PR). A fusão ocorreu para garantir a superação da cláusula de barreira, mais tempo de TV e maior acesso ao fundo partidário. Após aguardar o registro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por cerca de um mês, a fusão foi finalmente concretizada. À época, a presidência do novo partido ficou com Sérgio Tamer (PL), enquanto Enéas com a vice-presidência. Anos depois o PR voltaria a ser chamado de Partido Liberal (PL).
Espectro político
Enéas Carneiro se opôs à classificação esquerda-direita, dizendo que não via, "no mundo moderno, condição para que se fale em esquerda e direita", confirmando este pensamento em uma entrevista à IstoÉ ao ser interrogado se achava a esquerda "burra". Em resposta, o político disse que "a discussão, ao meu ver, não é mais entre esquerda e direita. É de um lado, a globalização; de outro, o Estado nacional soberano". Apesar dessa autodefinição, ele é considerado como parte da chamada "direita envergonhada", sendo um membro da extrema-direita que adaptou seu discurso ao contexto da redemocratização brasileira, diante das transformações institucionais e sociais do período.
Economia e geopolítica
No programa especial do PRONA, o candidato criticou o estado mínimo, alegando que o pensamento de que o estado deve ser o menor possível é "modernismo". Em seguida o candidato ataca a política de privatizações, alegando que elas são "negociatas feitas para transferir o formidável patrimônio público para uma minoria privilegiada de representantes legítimos do sistema financeiro internacional". Dentre suas propostas, estavam a intervenção do Estado em oligopólios e monopólios e a redução dos juros ao nível do mercado internacional. Em seu livro Um Grande Projeto Nacional, Enéas critica várias privatizações, como a privatização da Vale e das telecomunicações: "Sua alienação é inconstitucional. Não há valor para elas (as ações da empresa) e, se houvesse, esse valor estaria acima de dois trilhões de dólares, e muito mais quando se levam em conta cenários do comércio mundial diferentes do absurdo de hoje, em que não se dá valor às riquezas naturais".
Legalização das drogas
O político também se declarava contrário à legalização de drogas. Em um debate para a prefeitura de São Paulo, transmitido pela Rede Bandeirantes, Enéas foi criticado sobre sua afirmação de que Lula teria assinado uma campanha de combate a guerra às drogas. Em resposta, Enéas afirmou que um documento publicado pelo The New York Times mostra a assinatura de Lula na campanha, cujo organizador principal era George Soros, citado por Enéas como o verdadeiro dono da privatização da Vale. Enéas, em crítica ao documento, definiu-se como sendo radicalmente contra a legalização das drogas, e afirmou que "é absolutamente imperdoável que um homem público ponha sua assinatura nisto".
Aborto e homossexualidade
Ao referir-se, em entrevista, ao aborto, Enéas disse que está dentro do projeto mundial neo-malthusiano, que visa diminuir a população brasileira para que o território não possa ser defendido, em virtude da baixa natalidade. Completou afirmando que o "aplauso ao homossexualismo" faz parte dessas políticas. Apesar de condenar a "ovação em torno do homossexualismo", o político negou atacar a existência de homossexuais. Devido às suas críticas ao que ele considera como uma ovação ao homossexualismo, Enéas foi acusado várias vezes de ser homofóbico, acusação que ele contestou em duas das entrevistas das quais participou.
Forças armadas e ditadura militar
Em entrevista concedida ao jornal Tribuna da Imprensa, Enéas disse que pretendia, no mínimo, triplicar o efetivo das forças armadas, para ter um braço armado do povo. Na mesma entrevista, ao ser perguntado se aumentar o efetivo das forças armadas não subjugaria o povo, disse que "o respeito às forças armadas foi uma tônica não só de nossa população como de todas as outras", e depois afirmou que "no curto período em que os generais governaram o país, com um governo muito ruim, agigantou o fosso que existia entre o Brasil e as potências do atual G7", referindo-se à ditadura militar de 1964. Enéas defendia a construção da bomba atômica. "Não para jogar em ninguém, mas para sermos respeitados". Enéas afirmou à IstoÉ que isso permitiria ao país "conversar em condições de igualdade" com as potências militares globais.
Greve, parlamentarismo e pena de morte
Ao ser entrevistado no Roda Viva da TV Cultura, afirmou que "a greve é um direito inalienável do trabalhador [...] isto é uma coisa, outra coisa é viver da greve", ao receber uma afirmação que insinuava que o político era contra o ato. Em outra entrevista, Enéas propôs uma greve geral por um dia, apelando a quem tivesse capacidade de organizá-la, como forma de alertar os dirigentes da nação. No programa Tribuna Independente, ao ser indagado se o comunismo seria a solução, afirmou: "Não, não é. A experiência histórica é o maior de todos os mestres" e que "o comunismo nem chegou a existir, o que existiu foi o socialismo, a fase pré-comunista". Numa entrevista dada ao Programa Delas, Enéas Carneiro criticou o parlamentarismo. "Eles são uma fileira enorme de medíocres lutando contra a liderança", afirmou o político, completando com a afirmação "eles são uma fila de mentecaptos, cada um esperando sua vez de chegar ao poder".
Morreu em 6 de maio de 2007, aos 68 anos, vitimado pela leucemia mieloide aguda, após ter desistido do tratamento quimioterápico e abandonado o hospital onde era tratado, o Hospital Samaritano, por acreditar que seu tratamento não mais surtiria efeito. O seu corpo foi velado na manhã do dia 7 de maio no Memorial do Carmo e cremado na tarde do mesmo dia no crematório da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. O último pedido de Enéas foi que sua família jogasse suas cinzas na Baía de Guanabara. A sua suplente na Câmara foi Luciana de Almeida Costa (PR, candidata pelo PRONA), que conseguira apenas 3 980 votos na eleição de 2006. Foi homenageado em uma passeata contra o aborto, em Brasília, no dia 8 de maio de 2007. Segundo o Partido da República, o político era um dos organizadores do evento. Em 2017, foi apresentado um projeto de lei que dispõe sobre sua inclusão como herói da pátria e seu nome no "Livro de Aço" do Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves. Um projeto de lei para o denominar patrono da eletrocardiografia foi aprovado na Câmara, mas arquivado no Senado.


