Filipe II, Duque de Orleães
Filipe II Carlos de Orleães, foi um nobre francês, tendo sido Duque de Orleães e Regente da França de 1715 até 1723. Sendo sua regência durante a menoridade de Luís XV a última no reino da França, ele ainda é habitualmente chamado de "o Regente" e seu governo de "a Regência".
Filipe Carlos nasceu em 2 de agosto de 1674, no Castelo de Saint-Cloud. Seu pai era Filipe de França, Duque de Orleães, irmão mais novo do rei Luís XIV e conhecida na corte como "Monsieur". Sua mãe era Isabel Carlota do Palatinado, apelidada de Liselotte, filha de Eleitor do Palatinado. Como neto do rei Luís XIII, ele detinha o estilo de tratamento de "Neto da França" (Petit-enfant de France). Ao nascer, ele foi intitulado como "Duque de Chartres" e era formalmente chamado de "Monsieur le Duc de Chartres". Sendo o segundo filho vivo de seus pais, seu nascimento não foi recebido com o entusiasmo. Quando do seu nascimento, Filipe ocupava o quarto lugar na linha de sucessão ao trono francês, apenas atrás do Grande Delfim, seu próprio pai e seu irmão mais velho, Alexandre Luís, Duque de Valois. Devido à morte prematura de seu irmão mais velho, o príncipe Filipe se tornou o herdeiro aparente do duque de Orleães. A educação do príncipe foi dirigida pelo abade de espírito livre Guillaume Dubois, que mais tarde se tornou ministro do rei Luís XV. A mãe de Filipe, Isabel Carlota, opôs-se à chamada visão de mundo "degenerada" de Dubois, mas em vão. Filipe aprendeu física, matemática e música, além de história, filosofia e política da França.
Em 1688, Luís XIV comunicou ao seu irmão mais novo, Monsieur, seu desejo de casar sua filha legitimada Francisca Maria de Bourbon, conhecida como Mademoiselle de Blois, com o duque de Chartres. Francisca Maria era uma das filhas do rei com sua amante mais célebre, Madame de Montespan. Os pais de Chartres se opuseram fervorosamente ao projeto de casamento. Monsieur, percebeu uma intenção mal disfarçada do irmão em forçar um príncipe de um ramo légitimo da Casa de Bourbon a se casar com uma bastarda real, o que significava diminuir o prestígio da dinastia e, portanto, eliminar qualquer chance do ramo de Orleães de herdar o trono francês. A mãe de Filipe, Isabel Carlota, também protestou de todas as maneiras possíveis contra a união de seu filho com quem ela considerava "fruto do adultério duplo". "Se eu pudesse ter impedido o casamento do meu filho derramando meu sangue, eu o teria feito, mas desde que o assunto foi resolvido, eu só desejei a reconciliação", escreveu a duquesa em suas memórias. Apesar da oposição, Luís XIV e o abade Dubois encorajaram persistentemente a união e o jovem Chartres acabou por ceder à vontade real. Isabel Carlota viu o casamento do filho como uma má aliança e uma humilhação e reagiu com indignação e raiva. Vários cronistas relatam que ela não estava mais no controle de suas emoções e começou a chorar de desespero na frente de toda a corte. O Duque de Saint-Simon relatou que quando a duquesa se interou que o filho consentiu com o casamento ela deu-lhe uma bofetada no rosto na frente de toda a corte.
Em 1701, seu pai, Monsieur, na sequência de uma discussão furiosa com Luís XIV sobre questões financeiras e familiares, sofre um derrame e morre. Filipe, na altura com vinte e sete anos, herda o título de "Duque de Orleães", bem como os Condados de Anjou, Montpensier, o Ducado de Némours e o Principado de Joinville. Luís XIV, sentindo uma certa responsabilidade pela morte repentina de seu único irmão, assegurou ao jovem duque de Orleães sua confiança e apoio. Ele foi encarregado de altos cargos de comando militar durante a campanha italiana da Guerra da Sucessão Espanhola, bem como ganhou grande reconhecimento por sua atuação na Batalha de Turim em 1706. Filipe foi condecorado com a Ordem do Templo. Entretanto Orleães e o tio Luís XIV frequentemente entravam em atrito, em grande parte ao liberalismo e ateísmo do jovem duque. Apesar disso, o rei já idoso, em seu testamento, nomeia o sobrinho como regente do reino em caso da sua morte durante a menoridade de seu único descendente direto sobrevivente, o bisneto Luís, Duque de Anjou. Mas, o rei desconfiado tentou limitar o poder do sobrinho e, no mesmo testamento, transferiu o poder governamental real para um conselho de regentes, do qual Orleães seria apenas presidente. O testamento retirou a educação do Duque de Anjou das mãos do regente, confiando-a Luís Augusto de Bourbon, Duque de Maine, filho legitimado do rei com Madame de Montespan. Do mesmo modo, o testamento garantia que, em caso de morte do Duque de Anjou, o trono poderia ser herdado pelo próprio bastardo legitimado de Luís XIV, em detrimento dos membros da Casa de Orleães.
Em 1715, Luís XIV morreu e Filipe de Orleães tornou-se regente da França. Como primeira medida, ele desafiou o testamento de Luís XIV perante o Parlamento de Paris, exigindo que o Duque de Maine fosse destituído de seus poderes e permanentemente excluído da sucessão ao trono francês. Finalmente, depois de comprometer-se com o parlamento em restaurar o direito de veto (droit de remontrance) do tribunal parisiense, o parlamento reconheceu Filipe como o único regente, cujos poderes seriam ilimitados e a formação do Conselho de Estado ficando ao seu critério. Esta concessão sinalizou o enfraquecimento do absolutismo. O período de oito anos em Filipe de Orleães governou de facto a França ficou conhecido como "a Regência" (la Régence) e foi marcado pela mudança radical no modo de governar, do despotismo ao reformismo. Adepto do liberalismo, ateísmo, o maçom Filipe afastou gradualmente os jesuítas das esferas de poder, ao mesmo tempo que promovia leituras de obras satíricas de François Rabelais e organizava orgias depravadas nos feriados católicos.
Em 15 de fevereiro 1723, o tribunal de Paris declarou o rei Luís XV maior de idade e Filipe e os membros do conselho de regência abdicaram. O jovem rei continuou a manter seu amado tio-avô ao seu lado como seu principal conselheiro. Em agosto do mesmo ano, quando o primeiro-ministro nomeado por Filipe, o influente Cardeal Dubois, morreu, o rei nomeou o próprio Filipe como o novo primeiro ministro do reino. Entretanto, a saúde de Filipe já estava debilitada. Ele sofreu um derrame e morreu em Versalhes em 2 de dezembro de 1723, aos 49 anos. Quando da sua morte, Luís XV nomeou Luís Henrique, Duque de Bourbon como seu sucessor ao cargo de primeiro ministro do rei. Filipe foi sepultado Basílica de Saint-Denis, em Paris, local de sepultamento da família real francesa. Segundo o costume da época, seu coração foi colocado na Igreja de Val-de-Grâce, em Paris, e suas entranhas, na igreja de sua cidade natal, Saint-Cloud. Seu túmulo, como outros túmulos reais, foi profanado durante a Revolução Francesa.
Filipe foi descrito como inteligente, inovador e fortemente liberal, mas sem a força de vontade, consistência e influência de seu tio Luís XIV. Suas decisões eram muitas vezes guiadas por emoções momentâneas e por conselheiros em quem confiava. Ele frequentemente mudava de opinião dependendo do seu humor. Como regente ele mudou radicalmente seu estilo de governança fundamentalmente autoritário de Luís XIV, abrindo espaço para negociações abertas entre poderosos grupos de interesse. Ele fortaleceu o Parlamento de Paris e se opôs à censura, permitindo a republicação de livros outrora proibidos no reinado de Luís XIV. Embora a Companhia de Jesus se opusesse veementemente ao estabelecimento de universidades em áreas rurais, o regente fundou universidades em Caen, Dijon e Pau, das quais os jesuítas só conseguiram colocar esta última sob seu controle. O regente era um homem extremamente educado e habilidoso. Ele próprio atuou em representações na corte das peças de Molière e Racine. As óperas que ele compôs ainda eram apresentadas regularmente nas décadas após sua morte. Ele estava extremamente interessado em novas conquistas em ciência e tecnologia e consultava regularmente os maiores cientistas. Um entusiasta das artes, Filipe deixou uma lendária coleção de pinturas. Ele aboliu as taxas de matrícula da Universidade de Sorbonne, em Paris. Durante os anos da regência de Filipe, o Rococó floresceu e Jean-Antoine Watteau realizou muitos trabalhos durante esse período.
No longa-metragem francês Que la fête begin... de 1975, o regente é interpretado por Philippe Noiret e o abade Dubois é interpretado por Jean Rochefort. No longa-metragem franco-belga L'échange des princesses de 2017, o duque de Orleães é interpretado por Olivier Gourmet. Na série de televisão espanhola La vida breve (2024), Filipe é interpretado por Alexandre Blazy.


