Guerra dos Farrapos
A Guerra dos Farrapos, também conhecida como Revolução ou Revolta Farroupilha, foi um conflito regional de caráter republicano que eclodiu na então província de São Pedro do Rio Grande do Sul contra o governo imperial brasileiro. O movimento resultou na declaração de independência da província, dando origem à República Rio-Grandense. Estendendo-se por quase uma década, de 20 de setembro de 1835 a 1º de março de 1845, a guerra foi marcada por intensas disputas políticas, econômicas e sociais.
Pontos-chave
- A Guerra dos Farrapos foi um conflito republicano contra o governo imperial, resultando na criação da República Rio-Grandense.
- As causas incluíram o desejo por maior autonomia provincial, a posição econômica secundária do Rio Grande do Sul e a alta tributação do charque.
- O termo 'farrapos', inicialmente pejorativo, foi adotado pelos próprios revolucionários liberais e radicais.
- Indígenas e negros participaram ativamente da guerra, embora a presença indígena seja sub-representada na historiografia.
- A proclamação da República Rio-Grandense ocorreu após a Batalha do Seival, liderada por Antônio de Sousa Neto.
A revolta farroupilha teve suas raízes em um complexo cenário político e econômico. Politicamente, havia um choque entre os liberais, que defendiam maior autonomia para as províncias, e o modelo centralizador imposto pela Constituição de 1824. Economicamente, a província de São Pedro do Rio Grande do Sul sentia-se marginalizada. Diferente de outras províncias que exportavam produtos como açúcar e café, o Rio Grande do Sul produzia principalmente charque e couro para o mercado interno, enfrentando alta tributação. Além disso, a concorrência do charque argentino e uruguaio, que chegava ao Brasil com custos mais baixos devido ao câmbio supervalorizado e benefícios tarifários, prejudicava as charqueadas gaúchas. A exigência dos estancieiros e charqueadores por tributação sobre produtos externos colidia com os interesses dos grandes compradores brasileiros, que não queriam ver seus custos de manutenção de escravos aumentarem.
Os termos 'farroupilhas' ou 'farrapos' eram inicialmente pejorativos, usados para designar os sul-rio-grandenses ligados ao Partido Liberal, que se opunham de forma radical ao governo central. Já utilizados uma década antes da guerra, esses termos se referiam a figuras como os 'jurujubas'. Com o tempo, os próprios revolucionários adotaram a alcunha, de forma similar aos 'sans-culottes' na Revolução Francesa. Seus oponentes imperiais eram chamados de 'caramurus' ou 'camelos'. Em 1831, jornais como 'Jurujuba dos Farroupilhas' e 'Matraca dos Farroupilhas' já circulavam no Rio de Janeiro. Em 1832, o tenente Luís José dos Reis Alpoim fundou o Partido Farroupilha em Porto Alegre. O grupo se reunia na casa do major João Manuel de Lima e Silva, que também abrigava a Sociedade Continentino e seu jornal 'O Continentino', um crítico ferrenho do Império. Em 24 de outubro de 1833, os farroupilhas já promoviam levantes, como o ocorrido contra a instalação da Sociedade Militar em Porto Alegre.
Nos anos que antecederam a Guerra dos Farrapos, os indígenas eram considerados parte da população livre e desempenhavam trabalhos similares aos de homens brancos e livres, incluindo atividades pecuárias e bélicas. A aldeia de São Nicolau, em Rio Pardo, era proeminente, composta por indígenas das reduções orientais. Assim como os negros, os indígenas tiveram um papel ativo e fundamental na Guerra dos Farrapos, do início ao fim. Embora sua presença seja escassa na historiografia tradicional do conflito, a análise de cartas militares, planos estratégicos e relatórios comprova sua importância. Mudanças demográficas em aldeamentos indígenas durante a guerra, como a queda populacional em Capela de Santa Maria e a predominância de velhos e crianças em São Nicolau (devido à ida dos homens adultos para a guerra), e o desaparecimento de São Vicente e Santa Isabel em menos de três anos, são evidências indiretas de seu envolvimento.
Indígenas nas Tropas Farroupilhas
A participação indígena nas tropas farroupilhas é mais documentada do que nas imperiais, embora tenham lutado em ambos os lados. Diante da dificuldade de recrutar combatentes, os farroupilhas recorreram ao engajamento voluntário de indígenas. Eles desempenhavam diversas tarefas, como adestramento de cavalos e combate direto, muitas vezes sem remuneração. Sua participação era heterogênea: alguns eram presos por desobediência, indicando uma posição inferior na hierarquia militar, enquanto outros alcançavam postos de prestígio e chefia, como Roque Faustino, um capitão no exército farroupilha que foi executado como prisioneiro de guerra.
A Presença Indígena na Historiografia
Apesar da vasta bibliografia sobre a Revolução Farroupilha, a presença indígena no conflito permanece obscurecida na produção historiográfica, mesmo que documentos oficiais nunca a tenham ocultado. Uma pesquisa na Biblioteca Central da UFRGS revelou que, entre mais de 50 obras sobre a guerra, apenas oito mencionavam os indígenas. Dessas, quatro abordavam o assassinato do líder farrapo João Manoel de Lima e Silva pelo capitão indígena Roque Faustino em 1837. Contudo, enquanto Lima e Silva era descrito como 'nobre' e 'bravo', Roque Faustino era frequentemente caracterizado como 'imoral' e 'desonesto', evidenciando um viés na narrativa histórica.
Em 1835, o clima político estava tenso. Estancieiros, liberais, industriais do charque e militares locais, liderados por figuras como Bento Gonçalves, promoviam reuniões secretas. A nomeação de Antônio Rodrigues Fernandes Braga como presidente da província, apesar de ter sido indicado por Bento Gonçalves, gerou atritos. Fernandes Braga, que havia passado muito tempo na Europa e nos Estados Unidos, não possuía laços sólidos no Rio Grande do Sul. Em 22 de abril, na sessão inaugural da Assembleia Provincial, ele acusou os liberais extremados de planejar a separação do Rio Grande do Sul para uni-lo ao Uruguai, mencionando Bento Gonçalves e outros. A discussão acalorada se estendeu para a imprensa, que se tornou violenta e extremada, e as tentativas de Fernandes Braga de apaziguar os ânimos foram em vão, culminando na eclosão da revolta.
Após os conflitos iniciais, Fernandes Braga embarcou de Rio Grande para o Rio de Janeiro em 23 de outubro, apresentando sua versão dos fatos à Corte Imperial, que diferia da carta enviada por Bento Gonçalves. O novo indicado para a presidência da província, José de Araújo Ribeiro, chegou acompanhado de um aparato de guerra significativo: onze brigues e escunas, diversas canhoneiras, lanchas e iates, carregados de armamento e soldados imperiais, sob o comando do capitão de mar e guerra John Pascoe Grenfell. Araújo Ribeiro chegou a Porto Alegre no início de dezembro, mas sua posse foi adiada devido a uma confusão sobre o apoio de Pereira Duarte aos farroupilhas. Ele se retirou para Rio Grande, com a intenção de retornar à Corte, mas foi convencido por Bento Manuel e outros a permanecer, prometendo apoio à presidência. Tomou posse perante a Câmara Municipal de Rio Grande em 15 de janeiro de 1836. Os liberais interpretaram a posse de Araújo Ribeiro como uma declaração de guerra, reunindo seus soldados dispersos desde outubro sob a presidência de Marciano Ribeiro, enquanto Bento Manuel, que inicialmente apoiara a revolta, se deslocava para cercar Porto Alegre.
No início de setembro de 1836, Antônio de Sousa Neto dirigiu-se à região de Bagé, onde João da Silva Tavares, um imperial vindo do Uruguai, causava desassossego entre os farroupilhas. Em 10 de setembro de 1836, a Primeira Brigada de Neto, com 400 homens, atravessou o arroio Seival e confrontou as tropas de Silva Tavares (560 homens) na Batalha do Seival. O combate foi sangrento, com Silva Tavares fugindo e suas forças sendo derrotadas, resultando em 180 mortos, 63 feridos e 100 prisioneiros para o lado imperial, enquanto os farrapos permaneceram quase intactos. A vitória no Seival inflamou o desejo separatista. Naquela noite, republicanos fervorosos como Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro 'catequizaram' Neto, argumentando que a única saída era a independência e que o povo ansiava por liberdade, abolição da escravatura e democracia republicana. Neto, embora inicialmente hesitante e preocupado com a reprovação de seus pares, foi convencido de que Bento Gonçalves já havia se decidido pela república e que o sistema republicano priorizava a vontade popular, não a elite governativa. Aquele era o momento da afirmação da independência.
Um dia após a Proclamação da República Rio-Grandense por Antônio de Sousa Neto, em 12 de setembro, seguiu-se a solenidade de lavratura e assinatura da Ata de Declaração de Independência. Os signatários juraram não recuar de seus princípios políticos e derramar todo o sangue necessário. Cópias da Ata foram enviadas às câmaras municipais e aos comandantes do Exército Republicano, resultando em adesões e proclamações de independência em cidades como Jaguarão, Alegrete, Cruz Alta e Piratini. Bento Gonçalves, que não pôde estar presente, soube da proclamação e levantou seu acampamento na lomba do Tarumã, marchando para encontrar Neto. Devido às cheias, ele precisava atravessar o rio na Ilha de Fanfa, em Triunfo. Ciente dos movimentos, Bento Manuel, agora a serviço do Império, deslocou suas tropas com 660 homens embarcados de Triunfo para impedir a passagem de Bento Gonçalves, resultando na Batalha do Fanfa, onde Bento Gonçalves foi capturado.
Em 6 de novembro de 1836, na sessão extraordinária da Câmara de Piratini, a primeira capital da República Rio-Grandense, procedeu-se formalmente à votação para Presidente da República. Bento Gonçalves foi eleito mesmo estando ausente e sem campanha, e José Gomes de Vasconcelos Jardim foi eleito primeiro vice-presidente. Jardim assumiu interinamente a presidência, nomeou o ministério e convocou uma Assembleia Constituinte para elaborar a Constituição da República Rio-Grandense. A luta entre farroupilhas e imperiais continuou acirrada, com o Império investindo grandes somas em recrutamento de soldados (paulistas e baianos) e na compra de armas e munições, com pouco resultado prático. Pelo lado imperial, Araújo Ribeiro foi substituído em 5 de janeiro de 1837 pelo brigadeiro Antero de Brito, intensificando ainda mais a disputa. Bento Manuel, descontente com a demissão de seu parente e amigo, enviou uma carta a Antero de Brito, alegando doença e solicitando sua substituição no comando das armas, além de dispensar grande parte da tropa sob seu comando.
Em 15 de março de 1837, Bento Gonçalves tentou escapar da prisão no Rio de Janeiro com outros companheiros. No entanto, Pedro Boticário, devido ao seu porte físico, não conseguiu passar por uma janela, e Bento Gonçalves, em solidariedade, desistiu da fuga, que foi bem-sucedida para Onofre Pires e o coronel Corte Real. Após essa tentativa, Bento foi transferido para a Bahia, chegando em 26 de agosto de 1837, onde foi detido no Forte do Mar. Com o auxílio da maçonaria, conseguiu evadir-se da prisão baiana em 10 de setembro de 1837, pouco antes do início da Sabinada. Permaneceu clandestino por algum tempo em Itaparica e Salvador, onde teve contato com membros do movimento. Após despistar seus perseguidores, que acreditavam que ele havia partido para os Estados Unidos, retornou ao Rio Grande do Sul via Buenos Aires. Em 16 de dezembro de 1837, Bento Gonçalves finalmente tomou posse como Presidente da República Rio-Grandense. Nesse período, os farrapos dominavam praticamente toda a província, com as forças imperiais restritas a Rio Grande e São José do Norte.
Diante da dificuldade em quebrar a resistência de Porto Alegre, os farroupilhas decidiram atacar Rio Pardo, uma das cidades mais importantes do estado, com quase o dobro de habitantes da capital. Rio Pardo abrigava uma divisão do exército imperial, composta por dois batalhões de infantaria e dois corpos de cavalaria, totalizando 1.200 combatentes, sob o comando do marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto, com os brigadeiros Francisco Xavier da Cunha (infantaria) e Bonifácio Calderón (cavalaria). A concentração dessas tropas imperiais preocupava os farroupilhas. Em 30 de abril de 1838, Bento Manuel Ribeiro e Antônio de Sousa Neto, liderando 2.500 homens (sendo 800 de cavalaria), surpreenderam a cidade na Batalha do Barro Vermelho, na entrada da cidade. Os imperiais foram derrotados, e Rio Pardo, a então 'tranqueira invicta', foi conquistada. O confronto resultou em 370 mortos e mais de 863 prisioneiros para as forças imperiais.


