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Hellé Nice

Mariette Hélène Delangle, conhecida como Hellé Nice foi uma modelo erótica, dançarina e piloto de automóveis francesa, que muitas vezes teve que se prostituir ao longo da vida e da carreira e, ao final, foi praticamente esquecida.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 16/07/2026
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Primeiros anos e contexto histórico

Filha de Léon Delangle, o responsável pelo correio de sua cidade natal, e de Alexandrine Bouillie, Mariette mudou-se para Paris aos 16 anos e começou a posar para cartões eróticos antes de se tornar uma dançarina de cabaré, até vir a se tornar a principal atração do Casino de Paris onde, entre seus clientes, contava o famoso Maurice Chevalier. Partindo de sua pequena aldeia rural, sem pudores na capital francesa, ela logo conseguiu atingir um grande sucesso nas altas rodas, usando o pseudônimo de Hélène Nice que mais tarde abreviou para Hellé Nice; logo ganhara tanto dinheiro que chegou a comprar um iate. Além da beleza física era dotada de grande carisma, muito entusiasmo e gosto pela aventura. Depois de adquirir uma sólida reputação artística, em 1926 Hellé Nice passou a excursionar por cabarés na Europa, acompanhada por Robert Lisset, que também participava de seus números. Neste mesmo ano sobre ela escrevera o cronista Pierre Varenne: "Esta náiade revertida, abandonada, oscilante, totalmente nua, e totalmente flores".[nota 1]

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Carreira no automobilismo: a "rainha da velocidade"

Com a ajuda de Mongin (e seu carro Omega-6), Hellé treinou e ganhou uma corrida de mulheres em junho de 1929; em dezembro do mesmo ano ela bateu o recorde mundial ao dirigir um Bugatti 35B a 195 km/h num percurso de 10 km na pista de Montlhéry, nos arredores de Paris - o que a fez por uma semana a mulher mais famosa do país, e receber o título de La Reine de Vitesse - a "Rainha da Velocidade". Este carro foi a leilão, em 2014, onde se esperava um resultado em torno de 3 milhões de dólares por ele. No ano de 1930 disputou uma corrida feminina nos Estados Unidos. Também neste ano seu amante Philippe de Rothschild apresentou-a a Ettore Bugatti, que lhe emprestou um veículo de sua marca para correr e ela terminou por comprá-lo no ano seguinte, quando disputou os grandes prêmios francês e italiano, encantando as multidões ao vê-la em pé de igualdade com os homens e, embora não tenha vencido nenhuma corrida, havia deixado muitos deles para trás: tamanha fama rendia-lhe bastante com as propagandas que era contratada para fazer.

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Hellé Nice no Brasil: glória e quase morte

A vinda da corredora para o Brasil a fim de disputar, no circuito da Gávea, o Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, foi acompanhada com grande expectativa pela imprensa de todo o país; Nice enviara ao Automóvel Clube um telegrama avisando que embarcaria no dia 13 de maio rumo ao Brasil. Já em 26 de maio de 1936, por meio do telégrafo, o navio "Augustus", que a trazia junto a pilotos italianos, mandava notícias de que atracaria no dia seguinte. Seu mecânico era também amante, um italiano chamado Arnaldo Binelli (algumas fontes dizem-no francês, mas em entrevista assim que chegou ao Rio de janeiro Hellé declarou que o mesmo era suíço, e que em nome dele comprara o seu carro, pois assim burlava o embargo imposto à Itália, onde seu Alfa Romeo fora produzido - razão pela qual não tinha um carnê francês do veículo, o que dificultara sua liberação pela alfândega.). Sua chegada, aguardada com grande ansiedade, mereceu grande atenção por parte dos brasileiros: o Automóvel Clube do Brasil oferecera-lhe um almoço, ela deu entrevistas às emissoras de rádio no dia 28 de maio; na Rádio Tupi leu um texto que também fazia propaganda da emissora:

Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro

Nas provas eliminatórias que tiveram início na terça-feira, 2 de junho, um grave acidente vitimou o piloto brasileiro Antônio Botelho; as autoridades intervieram e as provas de classificação foram suspensas, de forma que Hellé Nice e os italianos tiveram sua estreia brasileira adiada para dois dias depois, na quinta-feira. Na sexta-feira, Nice anunciou que talvez não conseguisse disputar o rali, pois não acreditava encontrar a tempo um diferencial para substituir o que quebrara na véspera, durante as provas de classificação, fato que a impedira de classificar-se no primeiro pelotão. No dia 7 de junho, numa deferência da organização da prova, Nice ocupou o primeiro pelotão em substituição ao outro piloto que se acidentara; o público estimado em cerca de quinhentas mil pessoas acompanhou com grande interesse o desempenho da única mulher que disputava em igualdade com os homens, e ela não decepcionou: na primeira volta saltou para o quarto lugar, chegou a ficar em terceiro e lutou para ali se manter, embora aos poucos fosse sendo ultrapassada, e abandonou a prova depois da 11ª volta de um total de 25.

Primeiro Grande Prêmio “Cidade de São Paulo”

Os dias que antecederam a primeira edição da corrida de rua na capital paulista foram de grande expectativa do público quanto à participação ou não de Hellé Nice: no dia 25 de junho de 1936 a imprensa dava notícia que a corredora exigira do Automóvel Clube de São Paulo que só participaria do rali se tivesse todas as despesas de transporte e hospedagem pagas, e ainda um bônus de cinco contos de réis (cinco milhões); a entidade, responsável pela organização do primeiro Grand Prix paulista, enviou uma contraproposta. No dia seguinte, os jornais davam como certo que Hellé não iria a São Paulo, mas ela acabou confirmando no dia posterior. Sua chegada, em 2 de julho, foi um grande acontecimento e anunciada como

A "corrida da morte": show de pilotagem e acidente

De acordo com um sorteio prévio, Nice ficou na terceira fila para a largada (cada fila com quatro pilotos), no canto direito; o primeiro treino oficial ocorreu na sexta-feira, dia 10 de julho, num evento que contou com a presença do prefeito da cidade, Fábio Prado, mas foi Hellé quem entusiasmou o público de tal forma que muitos iriam à corrida apenas para vê-la em seu Alfa Romeo azul. Às 9 horas e 35 minutos do dia 12 de julho de 1936, o prefeito Prado agitou a bandeira simbólica e deu início à corrida e, na primeira volta, Francisco Landi assumiu a ponta, tendo Coppoli em segundo e Hellé em terceiro (Landi perdeu logo várias posições, ao quase chocar contra os boxes, tendo de frear).

No hospital

A corredora foi levada ao Sanatório Santa Catarina, onde foi feita uma radiografia que constatou que ela não sofrera nenhuma fratura; foi providenciada uma enfermeira francesa para acompanhá-la no quarto 31, onde ficou sob assistência constante; apesar de proibidas as visitas, diversas autoridades e pilotos foram até lá prestar solidariedade, num evento que comoveu toda a cidade por sua trágica extensão. No dia 13 de julho, Nice acordou; visitada por um repórter, respondeu como se sentia em italiano: "Que dor de cabeça!"; segundo fontes do hospital, ela pensava que a corrida ainda não tinha se realizado. Devido ao grande número de pessoas que acorreram ao hospital durante sua internação, foi necessário o deslocamento de destacamento policial para guarnecer o edifício. No dia 14 constatou-se grande melhora, embora ela ainda se queixasse de muitas dores, e pronunciasse frases desconexas.

A versão de Nice

Ela retornou à França em setembro daquele ano. Ali, no jornal L'Intransigeant ela publicou uma coluna intitulada «Le cauchemar que j'ai vécu» ("O pesadelo que vivi", em livre tradução) onde dizia:

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Recomeço

Com o prêmio recebido do governo brasileiro ela ainda viveu algum tempo junto ao seu amante muito mais novo Arnaldo Binelli mas, assim que o dinheiro acabou, ele a trocou por outra mulher. No ano seguinte, Hellé Nice tentou retornar às grandes competições, buscando inscrever-se para a Mille Miglia e o Grande Prêmio de Trípoli; contudo, sem os fundos necessários, voltou a disputar provas femininas. No âmbito feminino bateu dez recordes para mulheres, e outros quinze internacionais. Com a II Guerra Mundial as corridas foram suspensas e Hellé mudou-se com Arnaldo para Paris, indo por vezes passar temporadas em sua casa de Nice, na Riviera Francesa, assim permanecendo até o final da guerra.

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Pós-guerra: o fim da carreira

Embora a maioria dos homens que competiam tenha aceitado a presença de Nice entre eles, o mesmo não ocorreu com o monegasco Louis Chiron que, bastante ressentido, muito provavelmente por ter sido um dos raros pilotos que tenha sido rejeitado pela Nice, veio a se tornar o motivo de sua derrota final e posterior esquecimento. Antes do início da corrida de Monte Carlo de 1949, para a qual Hellé havia se classificado junto a uma co-piloto chamada Anne Itier, em sua primeira corrida após o conflito mundial, durante uma festa para os competidores Chiron gritou para todos que ela havia sido uma "colaboradora" dos nazistas que tinham ocupado a França, e uma traidora deveria ser impedida de participar da corrida. Esta simples afirmação era ruinosa, como fora a tantos na época; mesmo ainda competindo no prêmio monegasco, isto selou o fim de sua carreira. A acusação de Chiron teve grande efeito sobre a opinião pública, e Hellé viu-se abandonada pelos amigos e companheiros de corridas, e perdeu todos os patrocínios e contratos de propaganda, mesmo não havendo qualquer prova de que estivera a serviço da Gestapo. Instado a retratar-se, Chiron simplesmente preferiu não responder; uma hipótese seria a de que ele a tinha confundido com outra piloto, Violette Morris - esta sim colaboracionista.

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Últimos anos

Ela teve uma intensa vida amorosa que incluiu de nobres e milionários a jovens mecânicos, e ao menos três dos pilotos com quem teve relacionamento morreram em acidentes, numa lista tão longa quanto a das corridas em que participou ao longo da carreira; todos eles, contudo, se esqueceram dela. De garota-propaganda de marcas famosas como os cigarros Lucky Brand e da petrolífera Esso, passou a uma vida de penúria e obscuridade. Pobre e sem dentes, morava em Nice, num apartamento infestado de ratos. Usava um nome falso e tinha como único luxo um casaco de pele de leopardo esgarçado; guardava ainda alguns troféus e recortes amarelados de jornais falando de suas proezas. Durante os últimos 25 anos de sua vida foi evitada por sua irmã Solange, e sobrevivia graças a uma instituição de caridade parisiense devotada às velhas estrelas de espetáculos necessitadas ("La Roue Tourne"); parecia uma caricatura de si mesma, lembrando velhos sucessos e reclamando do amante infiel a quem chamava ironicamente de "Senhor Três Minutos".

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Post-mortem: reconhecimento

A biógrafa da corredora, Miranda Seymour, teve uma grande dificuldade para localizar onde Hellé Nice havia sido enterrada: havia na França quatro vilas chamadas Sainte-Mesme e, quando finalmente conseguiu localizar, ficara chocada com o fato de não haver qualquer identificação de quem estava ali sepultado; em seu livro ela exortava que esta situação fosse alterada. A norte-americana Sheryl Greene, então, motivada pela obra de Seymour, criou em 2008 a Hellé Nice Foundation que, junto aos parentes remanescentes da piloto e vários outros simpatizantes, procurou arrecadar fundos e confeccionar uma lápide que lembrasse a corredora e sua importância histórica - e encontraram uma grande dificuldade no país: a obra de Seymour não tivera edição francesa, e seus compatriotas e familiares não percebiam a grandiosidade de seu nome. Após meses de esforços, finalmente, com o apoio do Mullin Automobile Museum, do American Bugatti Club, de entusiastas da Alfa Romeo e das corridas, e de artistas que doaram obras para leilão, entre outros, em 4 de setembro de 2010 uma cerimônia celebrou a instalação de um marco na sepultura de Nice, com presença de membros da família Delangle: a memória de Hellé Nice estava a ser preservada.

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