Hispânia
Hispânia foi o nome dado a toda a Península Ibérica durante a Roma Antiga. A conquista romana da Península foi iniciada em 218 a.C. em Ampúrias e concluída quase 200 anos depois, com as guerras Cantábricas.
O nome "Hispânia" é latino, cunhado pelos romanos (Hispaniae), embora o território já fosse conhecido pelos Gregos como Ibéria. Consequentemente, a historiografia tem algum cuidado na utilização dos termos iber ou hispanus, já que a utilização de cada um, em referência aos povos ibéricos, transporta consigo diferenças temporais e sociais. A literatura romana emprega sempre o nome "Hispânia", citado pela primeira vez pelo poeta Quinto Ênio, em 200 a.C., enquanto que a literatura grega emprega sempre o nome "Ibéria". Sabe-se que os fenícios e os cartagineses se referiam à Península Ibérica pelo nome de Span ou Spania tendo como significado "oculto" (país escondido e remoto). Existe outra versão de que a origem do nome estará na terminação fenícia I-shphanim, que literalmente significa "de dassies" (shphanim é a forma plural de shaphán, utilizada para designar a família Hírax) que foi o vocábulo com que decidiram os Fenícios, à falta de nome melhor, denominar o coelho Oryctolagus cuniculus, por eles pouco conhecidos e que abundava no extremo da Península. Outra versão desta teoria aponta para a derivação de Hi-shphanim, ou "ilha de coelhos". Por outro lado, os híraxes não eram os únicos animais a despertar a atenção pela sua abundância: os Gregos chamaram à Península Ophioússa, que significa "terra de serpentes", e só mais tarde alteraram o nome para "Ibéria" porque, segundo parece, iber era uma palavra muito utilizada pelos habitantes da Península, que é um vocábulo geográfico, embora não se possa associar concretamente ao rio Ebro pois também era usado em regiões mais distantes, como a atual Andaluzia. Alguns linguistas colocam a hipótese de significar simplesmente "rio", embora na realidade não se possa ter a certeza.
Nativos ibéricos
Além dos povos autóctones, já entre os séculos VIII-VII a.C. os Fenícios (e, posteriormente, os cartagineses) se haviam fixado na zona oriental, a sul do rio Ebro. Instalaram-se na faixa costeira mediterrânica, estabelecendo grandes entrepostos comerciais que, além de lhes servir para canalizar para o comércio regional os minerais e outros recursos abundantes na Península, introduziram também na região alguns dos produtos elaborados no outro extremo mediterrânico. Como potência comercial, Cartago ampliava os seus interesses até à ilha da Sicília e ao sul da península Itálica, o que depressa resultou num conflito de interesses entre esta e o incipiente poder que surgia em Roma, confrontando as duas potências nas célebres Guerras Púnicas. À primeira, que culminou senão num instável armistício, depressa se seguiu a segunda, que terminaria doze anos depois com o domínio efetivo de Roma sobre as regiões cartaginesas no sudeste da Península.
A Ibéria cartaginesa
Depois da Primeira Guerra Púnica, conflito travado entre 264−241 a.C., que opôs Cartago à República Romana, as maiores potências da região do Mediterrâneo da época, os cartagineses de Amílcar Barca iniciaram a submissão efetiva da Península, que se estendeu a uma grande parte, sobretudo no sul e na costa oriental. O feito foi conseguido mediante tributos, alianças, matrimónios ou, simplesmente, usando a força. A Península iria proporcionar a Cartago um importante abastecimento de tropas, quer mercenárias quer aliadas, bem como de recursos minerais, com que poderia enfrentar Roma e reafirmar o seu domínio no Norte de África. Entretanto, o conflito pela hegemonia de Sagunto, na atual província de Valência, cidade costeira helenizada e aliada de Roma, dava início à Segunda Guerra Púnica. Como reação à pressão do conflito, foram assassinados os partidários de Cartago e, em resposta, Aníbal cercou a cidade (218 a.C.) — que apesar de solicitar a ajuda de Roma nunca a chegou a receber —, apoderando-se dela após uma dura e sangrenta luta, durante a qual foi ferido. Muitos dos habitantes preferiram suicidar-se a submeter-se à escravidão que os esperava nas mãos de Cartago.
Iniciada no século III a.C. como uma invasão estratégica para cortar as linhas de abastecimento Cartaginesas que sustentavam a invasão da península Itálica durante a Segunda Guerra Púnica, depressa passou a assumir a forma de uma invasão de conquista que, em cerca de doze anos, expulsava totalmente as forças cartaginesas da Península Ibérica. No entanto, foram necessários quase dois séculos para dominar a totalidade da região, devido, sobretudo, à forte resistência dos povos do interior (celtiberos, lusitanos, cântabros).
A guerra contra Cartago
Roma enviou as suas tropas para a Hispânia ao comando de Cneu e Públio Cornélio Cipião. Cneu chegou primeiro, enquanto que o seu irmão se dirigiu a Massilia (atual Marselha) para conseguir apoios e tratar de cortar o avanço cartaginês. Emporion (ou Ampúrias) foi o ponto de partida de Roma na Península. A primeira missão foi encontrar aliados entre os iberos da zona costeira, que provavelmente não resultou como esperado já que, por exemplo, os ilergetes eram conhecidos aliados de Cartago. Assim, Cneu foi obrigado a submeter (ora pela força, ora mediante tratados) a zona costeira a norte do rio Ebro, incluindo a cidade de Tarraco, onde estabeleceu a sua residência.
Resistência dos lusitanos
A derrota dos cartagineses não garantiu a ocupação pacífica da Península Ibérica. A partir de 194 a.C., registraram-se choques com tribos de nativos, denominados genericamente como Lusitanos, conflitos que se estenderam até 138 a.C., denominados por alguns autores como guerra lusitana. A disputa foi mais acesa pelos territórios mais prósperos, especialmente na região da atual Andaluzia onde estavam localizados os Vetões um povo aliado dos Lusitanos. Nesse contexto, destaca-se um grupo de Lusitanos liderados por Viriato, eleito por aclamação. Esse grupo infligiu duras derrotas às tropas romanas na região, tornando Viriato um mito da resistência peninsular.
Os povos da Península falavam línguas diferentes uns dos outros assim como na escrita usavam alfabetos diferentes. Os Turdetanos eram conhecidos por escreverem a sua história, leis e poemas em verso que diziam ter seis mil anos, embora sem esclarecer a duração do ano a que se referia, visto que segundo Xenofonte o ano ibérico tinha 4 meses e era equivalente a uma estação do ano solar. Na sequência da presença romana na Península, Roma expandiu as suas fronteiras para noroeste, alcançando o Atlântico a oeste e o mar Cantábrico a norte, conquistando assim a totalidade da Península. Durante este processo, a influência romana só foi progressivamente assimilada, depois dos dois longos séculos que demorou, havendo ainda autores que suportem que no século III a Lusitânia ainda não se tinha completamente romanizado. Paralelamente, a influência dos povos nativos sobre os romanos também foi notória. Posidónio comentou que os romanos aprenderam muitas técnicas com diversos povos entre eles os Ibéricos. Afirmava ainda Políbio que os romanos, apesar de terem trocado suas armas pelas dos ibéricos, não conseguiam alcançar a qualidade do ferro nem a perfeição da fabricação. César escreveu no De Bello Civili que os soldados da Segunda Legião haviam-se hispanizado e consideravam-se hispânicos.
Cidades fundadas
Embora a influência romana tenha tido grande repercussão nas cidades já existentes em toda a Península principalmente numa estratégia punitiva, reduzindo por exemplo na Lusitânia a maioria das cidades a simples aldeias, e segundo Políbio havia em Gades casas altas que se supõe com mais de um andar foi nas cidades formadas pelos próprios, ou em cidades nativas para as quais levaram colónias que se centraram os maiores esforços urbanísticos, como: Outras cidades que se tornaram notáveis, embora não sendo de fundação romana, algumas das quais ascenderam ao estatuto de capital provincial, foram:
A educação primária ia dos sete até aos onze anos, nas famílias mais abastadas tinha lugar dentro da própria residência, e nas famílias mais modestas em pequenas salas de edifícios públicos. As pessoas mais pobres ou nas áreas rurais não tinham acesso à educação. O ensino consistia no aprendizado da leitura, escrita e dos números, literatura grega e romana, física, história, geografia e astronomia. O método de ensino baseava-se principalmente na memorização dos factos. O nível de ensino superior consistia em debates públicos com o supervisionamento de oradores e retóricos.
Antes da ocupação cartaginesa, já circulavam no Mediterrâneo lendas sobre as riquezas de Tartesos, e sobre expedições comerciais que regressavam da Hispânia carregadas de prata. Com a derrota na Primeira Guerra Púnica, Cartago perdeu importantes mercados e foi obrigada a pagar tributo a Roma. Como reacção, expandiu-se pela costa ibérica, que ainda permanecia fora dos domínios de Roma, em busca de riquezas que poderiam financiar uma eventual retaliação. Interessada em obter benefício rápido, explorou as minas de prata por todo o litoral andaluz e oriental, extraindo importantes quantidades deste metal, que seriam utilizadas para financiar em grande parte a Segunda Guerra Púnica e as campanhas itálicas de Aníbal. Por este motivo, entre outros, um dos objectivos estratégicos de Roma foi precisamente cortar a ligação das minas hispânicas com Cartago, e é por isso que se dirigiram de imediato contra as minas de Nova Cartago. Em parte devido à perda destes e de outro tipo de recursos, com especial impacto nas suas campanhas, Aníbal renunciou à guerra itálica em 206 a.C..
A civilização romana ficou conhecida como grande empreendedora no que toca às infra-estruturas; foi a primeira civilização a esforçar-se seriamente nas obras civis como parte do desenvolvimento e conservação dos domínios (não só geográficos, mas militar e economicamente falando) do seu extenso império. Hispânia, sob a forma das suas várias províncias, assistiu também a grandes empreendimentos:
Pintura
Segundo Vitrúvio, a pintura romana passou por várias fases de desenvolvimento, desde a decoração de paredes com texturas que se assemelhavam às do mármore ou de colunas (com incrustações), passando pela recreação de cenas teatrais, paisagísticas, religiosas ou épicas (estilo arquitectónico), até à recriação de criaturas monstruosas ou objectos impossíveis da primeira época imperial (estilo ornamental). Já em pleno século I assiste-se a um novo estilo mais abstracto (estilo ilusionista). Em toda a Hispânia subsistem provas desses mesmos estilos pictóricos nos conjuntos arqueológicos das primeiras cidades, como Itálica, Mérida, Tarragona ou Astorga, bem como Almedinilla, Alcúdia, Alcolea del Río, Osuna, Carmona. A partir do século III, as correntes artísticas procedentes do norte de África estendem-se pelo oeste peninsular ao longo da Via da Prata. Entre as decorações mais frequentes, podem-se destacar:
Escultura
A tradição romana de esculpir procede directamente da cultura grega, embora adaptada à estrutura político-social da Roma Antiga. As classes dominantes utilizavam a escultura como manifestação da sua elevada posição social, não só no âmbito privado - como nas suas villas - como também em público, em que a escultura era usada como modo de promoção política. Como parte integrante do Império Romano, a Hispânia não ficou à margem desta corrente artística. A escultura romana baseava-se em dois materiais: o mármore e o bronze. Poucas são as esculturas romanas que sobreviveram à corrosão provocada pelo tempo ou intempérie, ou mesmo à reutilização do material para outros fins.
Mosaico
O mosaico utilizava-se com abundância para pavimentar o solo das casas romanas, especialmente quando se tratavam das famílias mais importantes de cada cidade. Graças à grande profusão do mosaico, e pelas características dos materiais usados — principalmente vidro, cerâmica e pedra, conhecidos genericamente como tesselas —, os restos arqueológicos desta variedade artística são muito abundantes, e alguns encontram-se mesmo em excelente estado de conservação.
Divisão provincial
Todo o Império Romano estava dividido em províncias. Dentro de cada província, o governo era exercido a partir de uma capital, por um pretor, pró-cônsul ou cônsul, dependendo da sua importância estratégica e dos níveis de instabilidade dentro ou fora das suas fronteiras. No caso da Hispânia, que duraria cerca de dois séculos a ser definitivamente conquistada, as estruturas administrativas foram reorganizadas sucessivamente, em função da adaptação aos costumes e estilo de vida romanos. Cada província era, por sua vez, dividida em convento (circunscrições jurídicas e de certo modo administrativas), com sede nas cidades mais significativas da zona.
Organização política local
Na Hispânia, tal como no resto dos territórios da República Romana e posterior Império Romano, as cidades compartilhavam as mesmas formas de governo herdadas de Roma, que não eram senão uma cópia das próprias instituições da capital imperial. Inicialmente, nem todas as cidades gozaram do privilégio de tais instituições, se bem que Augusto e, posteriormente, Vespasiano, incrementaram sensivelmente este número, estendendo estas instituições às principais cidades da Península. Para adoptá-las, as cidades deviam previamente receber o estatuto de municípios, o que permitira que os seus cidadãos notáveis pudessem optar pela cidadania romana bastando, para isso, exercer alguma magistratura. Para alcançar o estatuto municipal, a cidade deveria preencher uma série de requisitos relativos ao nível de urbanização, como contar com adequados serviços públicos, devidamente adaptados aos costumes e estilo de vida romano. Essa responsabilidade cabia, sobretudo, aos notáveis da cidade, através da construção de obras públicas e outras actividades de bonificação social. Uma vez alcançado o estatuto, cabia aos governadores da cidade impulsionar e desenvolver a cidade através deste tipo de obras para conseguir mais privilégios sociais.
Na sequência da pressão dos hunos, vários povos foram forçados a deslocar-se pela Europa. Em 405, Três tribos germânicas, os vândalos, os búrios e os suevos, juntamente com os alanos, de origem sármata, atravessaram o Reno em direcção à Gália e, mais tarde, para a Península, onde os visigodos já esboçavam a quebra das ligações da Hispânia romana com o restante império. Os suevos estabeleceram um reino no noroeste; os vândalos, pouco mais de 80 000, ocuparam o sul, na actual Andaluzia. Com grande parte da Península já fora do seu controlo, o Imperador Romano do Ocidente, Honório (r. 395-423), encarregou a sua irmã, Gala Placídia, e o seu marido, Ataulfo, o rei visigodo, de restaurar a ordem, concedendo-lhes o direito de se instalarem na Península desde que cooperassem na defesa e manutenção da região. Os visigodos conseguiram subjugar os suevos e expulsar os vândalos, que migraram para o Norte de África. Em 484, estabeleceram Toledo como capital.


