História
História é o estudo e a documentação sistemática do passado humano. O período de acontecimentos anteriores à invenção dos sistemas de escrita é considerado pré-história. "História" é um termo abrangente que abarca eventos passados, bem como a memória, a descoberta, a coleção, a organização, a apresentação e a interpretação destes eventos. Os historiadores buscam o conhecimento do passado usando fontes históricas, como documentos escritos, relatos orais, arte e artefatos materiais e marcadores ecológicos.
A palavra história vem de historia ( em grego clássico: ἱστορία). Foi neste sentido que Aristóteles usou a palavra na sua obra Da História dos Animais. A palavra ancestral ἵστωρ é atestada desde o início nos hinos homéricos, Heráclito, o juramento dos efebos (jovens do sexo masculino) atenienses e em inscrições boeóticas (no sentido jurídico, "juiz" ou "testemunha", ou similar). A palavra grega foi emprestada para o latim clássico como historia, que significa "investigação, pesquisa, relato, descrição de eventos passados".
Os historiadores escrevem no contexto do seu próprio tempo e tendo em devida conta as ideias atualmente dominantes sobre como interpretar o passado e, por vezes, escrevem para fornecer lições para a sua própria sociedade. Nas palavras do historiador italiano Benedetto Croce: “Toda história é história contemporânea”. A história é facilitada pela formação de um “verdadeiro discurso do passado” através da produção de narrativas e análises de acontecimentos passados relativos à espécie humana. Todos os eventos que são lembrados e preservados de alguma forma autêntica constituem o registro histórico. A tarefa do discurso histórico é identificar as fontes que podem contribuir de forma mais útil para a produção de relatos precisos do passado. Portanto, a constituição do arquivo do historiador é o resultado da circunscrição de um arquivo mais geral, invalidando o uso de certos textos e documentos (falsificando as suas pretensões de representar o “verdadeiro passado”). Parte do papel do historiador é usar de forma hábil e objetiva as muitas fontes do passado, mais frequentemente encontradas nos arquivos. O processo de criação de uma narrativa gera inevitavelmente debate, à medida que os historiadores relembram ou enfatizam diferentes acontecimentos do passado.
A história humana é a memória da experiência passada do Homo sapiens sapiens em todo o mundo, tal como essa experiência foi preservada, em grande parte em registos escritos. Por "pré-história", os historiadores entendem a recuperação do conhecimento do passado numa área onde não existem registos escritos, ou onde a escrita de uma cultura não é compreendida. Ao estudar pinturas, desenhos, esculturas e outros artefatos, algumas informações podem ser recuperadas mesmo na ausência de registro escrito. Desde o século XX, o estudo da pré-história é considerado essencial para evitar a exclusão implícita da história de certas civilizações, como as da África Subsaariana e da América pré-colombiana. Os historiadores do Ocidente têm sido criticados por se concentrarem desproporcionalmente no mundo ocidental. Em 1961, o historiador britânico E. H. Carr escreveu: A linha de demarcação entre os tempos pré-históricos e históricos é cruzada quando as pessoas deixam de viver apenas no presente e passam a interessar-se conscientemente tanto pelo seu passado como pelo seu futuro. A história começa com a transmissão da tradição; e tradição significa levar os hábitos e lições do passado para o futuro. Registros do passado começam a ser mantidos para o benefício das gerações futuras.
A historiografia tem vários significados relacionados. Em primeiro lugar, pode referir-se à forma como a história foi produzida: a história do desenvolvimento de metodologias e práticas (por exemplo, a passagem de uma narrativa biográfica de curto prazo para uma análise temática de longo prazo). Em segundo lugar, pode referir-se ao que foi produzido: um corpo específico de escritos históricos (por exemplo, "historiografia medieval durante a década de 1960" significa "Obras de história medieval escritas durante a década de 1960"). Em terceiro lugar, pode referir-se à razão pela qual a história é produzida: a filosofia da história. Como uma análise das descrições do passado, esta terceira concepção pode relacionar-se com as duas primeiras na medida em que a análise geralmente se concentra nas narrativas, interpretações, cosmovisão, uso de evidências ou método de apresentação de outros historiadores. Há debate acadêmico sobre se a história pode ser ensinada como uma narrativa única e coerente ou como uma série de narrativas concorrentes.
As quatro primeiras são conhecidas como crítica histórica; a quinta, crítica textual; e, em conjunto, críticas externas. A sexta e última pesquisa sobre uma fonte é chamada de crítica interna. Os europeus escreveram e publicaram extensivamente para reunir uma "história universal" no início do período moderno. Este corpus escrito e oral na Europa inclui encontros etnográficos, filosofia comparada, bem como descobertas arqueológicas. Heródoto, do século V a.C., foi aclamado como o "pai da história". No entanto, credita-se ao seu contemporâneo Tucídides ter abordado a história pela primeira vez com um método histórico bem desenvolvido na obra História da Guerra do Peloponeso. Tucídides, ao contrário de Heródoto, considerava a história como o produto das escolhas e ações dos humanos e olhava para a causalidade, em vez do resultado da "intervenção divina" (embora o próprio Heródoto não estivesse totalmente comprometido com esta ideia). Em seu método histórico, Tucídides enfatizou a cronologia, um ponto de vista nominalmente neutro, e que o mundo humano era o resultado de ações humanas. Os historiadores gregos viam a história como cíclica, com eventos recorrentes regularmente.
Teoria marxista
A teoria marxista do materialismo histórico teoriza que a sociedade é fundamentalmente determinada pelas condições materiais em um determinado momento - em outras palavras, as relações que as pessoas mantêm umas com as outras, a fim de satisfazer necessidades básicas, como alimentação, vestuário e moradia, para si e para suas famílias. No geral, Karl Marx e Friedrich Engels afirmaram ter identificado cinco fases sucessivas do desenvolvimento destas condições materiais na Europa Ocidental. A historiografia marxista já foi ortodoxia na União Soviética, mas desde o colapso do comunismo, a sua influência foi significativamente reduzida.
Potenciais deficiências na produção da história
Muitos historiadores acreditam que a produção da história está impregnada de preconceitos porque os eventos e fatos conhecidos na história podem ser interpretados de várias maneiras. O historiador alemão Constantin Fasolt sugeriu que a história está ligada à política pela própria prática do silêncio. Ele disse: "Uma segunda visão comum da ligação entre história e política repousa na observação elementar de que os historiadores são frequentemente influenciados pela política." Segundo Michel-Rolph Trouillot, o processo histórico está enraizado nos arquivos, portanto os silêncios, ou partes da história que são esquecidas, podem ser uma parte intencional de uma estratégia narrativa que dita como as áreas da história são lembradas. As omissões históricas podem ocorrer de várias maneiras e podem ter um efeito profundo nos registros históricos. As informações também podem ser excluídas propositalmente ou omitidas acidentalmente. Os historiadores cunharam vários termos que descrevem o ato de omitir informações históricas, incluindo: "silenciamento", "memória seletiva", e "apagamentos". Gerda Lerner, uma historiadora do século XX que concentrou grande parte do seu trabalho nas omissões históricas envolvendo as mulheres e as suas realizações, explicou o impacto negativo que estas omissões tiveram sobre os grupos minoritários.
A história diplomática centra-se nas relações entre as nações, principalmente no que diz respeito à diplomacia e às causas das guerras. Mais recentemente, analisa as causas da paz e dos direitos humanos. Normalmente apresenta os pontos de vista do Ministério das Relações Exteriores e os valores estratégicos de longo prazo, como a força motriz da continuidade e da mudança na história. Este tipo de história política é o estudo da condução das relações internacionais entre Estados ou através das fronteiras internacionais ao longo do tempo. A historiadora Muriel Chamberlain observa que após a Primeira Guerra Mundial, "a história diplomática substituiu a história constitucional como carro-chefe da investigação histórica, ao mesmo tempo o mais importante, mais exato e mais sofisticado dos estudos históricos". Embora a história económica esteja bem estabelecida desde o final do século XIX, nos últimos anos os estudos acadêmicos têm-se deslocado cada vez mais para os departamentos de economia e afastando-se dos departamentos de história tradicionais. A história empresarial trata da história de organizações empresariais individuais, métodos de negócios, regulamentação governamental, relações trabalhistas e impacto na sociedade. Também inclui biografias de empresas, executivos e empreendedores individuais. Está relacionada à história econômica. A história dos negócios é ensinada com mais frequência nas escolas de negócios.
Locais geográficos
Localizações geográficas específicas podem formar a base do estudo histórico, por exemplo, continentes, países e cidades. Compreender por que os eventos históricos ocorreram é importante. Para fazer isto, os historiadores recorrem frequentemente aos métodos e à teoria da disciplina da geografia. Segundo Jules Michelet no seu livro Histoire de France (1833), "sem base geográfica, os povos, os fazedores da história, parecem andar no ar". Os padrões climáticos, o abastecimento de água e a paisagem de um lugar afetam a vida das pessoas que ali vivem. Por exemplo, para explicar por que os antigos egípcios desenvolveram uma civilização bem-sucedida, é essencial estudar a geografia do Egito. A civilização egípcia foi construída às margens do rio Nilo, que inundava todos os anos, depositando solo em suas margens. O solo rico poderia ajudar os agricultores a cultivar culturas suficientes para alimentar as pessoas nas cidades. Isto significava que nem todos precisavam cultivar, então algumas pessoas poderiam realizar outros trabalhos que ajudassem a desenvolver a civilização. Há também o caso do clima, que historiadores como Ellsworth Huntington e Ellen Churchill Semple citaram como uma influência crucial no curso da história. Huntington e Semple argumentaram ainda que o clima tem impacto no temperamento racial.
Política
A história política abrange o tipo de governo, os ramos do governo, os líderes, a legislação, o ativismo político, os partidos políticos e a votação.
Militar
A história militar diz respeito à guerra, às estratégias, às batalhas, às armas e à psicologia do combate. Desde os anos 1970, a "nova história militar" tem-se preocupado mais com os soldados do que com os generais, com a psicologia mais do que com as táticas e com o impacto mais amplo da guerra na sociedade e na cultura.
Religiosa
A história da religião tem sido um tema principal para historiadores seculares e religiosos durante séculos e continua a ser ensinada em seminários e academias. Os principais periódicos incluem História da Igreja: Estudos do Cristianismo e Cultura, The Catholic Historical Review e History of Religions. Os tópicos variam amplamente, desde dimensões políticas, culturais e artísticas até teologia e liturgia. Esta disciplina estuda religiões de todas as regiões e áreas do mundo onde os humanos viveram.
Social
A história social, às vezes chamada de "nova história social", é o campo que inclui a história das pessoas comuns e suas estratégias e instituições para lidar com a vida. Em sua "era de ouro", nas décadas de 1960 e 1970, foi um campo de grande crescimento entre os acadêmicos e ainda está bem representada nos departamentos de história. Em duas décadas, de 1975 a 1995, a proporção de professores de história nas universidades estadunidenses que se identificam com a história social aumentou de 31% para 41%, enquanto a proporção de historiadores políticos caiu de 40% para 30%. Nos departamentos de história das universidades britânicas em 2007, dos 5.723 membros do corpo docente, 1.644 (29%) identificaram-se com a história social, enquanto a história política veio em seguida com 1.425 (25%). A “velha” história social antes da década de 1960 era uma miscelânea de tópicos sem um tema central e muitas vezes incluía movimentos políticos, como o populismo, que eram “sociais” no sentido de estarem fora do sistema de elite. A história social foi contrastada com a história política, a história intelectual e a história dos grandes homens. O historiador inglês G. M. Trevelyan via a história social como o ponto de ligação entre a história econômica e a história política, refletindo que, "sem história social, a história econômica é estéril e a história política ininteligível." Embora o campo tenha sido frequentemente visto negativamente como a história com a política deixada de lado, também tem sido defendido como "a história com as pessoas recolocadas".
Cultural
A história cultural substituiu a história social como forma dominante nas décadas de 1980 e 1990. Normalmente combina as abordagens da antropologia e da história para examinar a linguagem, as tradições culturais populares e as interpretações culturais da experiência histórica. Examina os registros e descrições narrativas de conhecimentos, costumes e artes anteriores de um grupo de pessoas. A forma como os povos construíram a sua memória do passado é um tema importante. A história cultural inclui o estudo da arte na sociedade, bem como o estudo das imagens e da produção visual humana (iconografia).
Historiador é um indivíduo que estuda e escreve sobre a história e é considerado uma autoridade neste campo. Historiadores se preocupam com a narrativa contínua e metódica, e também com a narrativa que pode ser descontínua e subjetiva, bem como a pesquisa dos eventos passados relacionados ao ser humano, e o estudo dos eventos ocorridos ao longo do tempo e também no espaço. Embora o termo historiador possa ser usado para descrever tanto os profissionais quanto os amadores da área, costuma ser reservado para aqueles que obtiveram uma graduação acadêmica na disciplina. Alguns historiadores, no entanto, são reconhecidos unicamente com mérito em seu treinamento e experiência no campo.
Pseudo-história é um termo aplicado a textos que pretendem ser de natureza histórica, mas que se afastam das convenções historiográficas padrão de uma forma que mina as suas conclusões. Está intimamente relacionado com o enganoso revisionismo histórico. Trabalhos que extraem conclusões controversas de evidências históricas novas, especulativas ou contestadas, particularmente nos campos de assuntos nacionais, políticos, militares e religiosos, são frequentemente rejeitados como pseudo-história.
Nacionalismo
Desde as origens dos sistemas escolares nacionais no século XIX, o ensino da história para promover o sentimento nacional tem sido uma grande prioridade. Nos Estados Unidos, após a Primeira Guerra Mundial, surgiu um forte movimento a nível universitário para ministrar cursos sobre a civilização ocidental, de modo a dar aos estudantes uma herança comum com a Europa. Nos Estados Unidos, depois de 1980, a atenção voltou-se cada vez mais para o ensino da história mundial ou para a exigência de que os alunos frequentassem cursos em culturas não ocidentais, a fim de preparar os alunos para a vida numa economia globalizada. O ensino de história nas escolas francesas foi influenciado pela Nouvelle histoire divulgada após a década de 1960 pelos Cahiers pédagogiques e Enseignement e outras revistas para professores. Também influente foi o Instituto Nacional de Pesquisa e Documentação Pedagógica (INRDP). Joseph Leif, o Inspetor-Geral da Formação de Professores, disse que os alunos devem aprender sobre as abordagens dos historiadores, bem como sobre fatos e datas. Louis François, Reitor do grupo de História/Geografia da Inspeção de Educação Nacional aconselhou que os professores fornecessem documentos históricos e promovessem "métodos activos" que proporcionassem aos alunos "a imensa felicidade da descoberta". Os defensores disseram que era uma reação contra a memorização de nomes e datas que caracterizava o ensino e deixava os alunos entediados. Os tradicionalistas protestaram ruidosamente que se tratava de uma inovação pós-moderna que ameaçava deixar a juventude ignorante do patriotismo francês e da identidade nacional.
Viés no ensino escolar
Em vários países, os manuais de história são ferramentas para promover o nacionalismo e o patriotismo e fornecem aos alunos a narrativa oficial sobre os inimigos nacionais. Em muitos países, os manuais de história são patrocinados pelo governo nacional e são escritos para colocar o património nacional sob a luz mais favorável. Por exemplo, no Japão, a menção ao Massacre de Nanquim foi removida dos livros didáticos e toda a Segunda Guerra Mundial recebe um tratamento superficial, o que foi questionado por outros países. Outro exemplo inclui a Turquia, onde não há menção ao Genocídio Arménio nos livros didáticos turcos. Era política padrão nos países comunistas apresentar apenas uma historiografia marxista rígida.


